Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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domingo, 15 de novembro de 2015

Sugestão de leitura: texto sobre a Revolta dos Boxers na China (1900)

A China sofreu com a ação imperialista de países europeus, dos Estados Unidos da América e também do Japão entre o final do século XIX e o início do século XX. De fato, nações estrangeiras buscavam explorar o território chinês de modo a expandir os seus lucros. Mas os chineses não aceitaram a presença imperialista em seu país de forma passiva. Um exemplo da resistência chinesa ao Imperialismo pode ser visto na Revolta dos Boxers, ocorrida em 1900.

A respeito deste assunto recomendamos a leitura de um pequeno texto de autoria de Stephanie Godiva e Fernando Falci, publicado no site da UFF. Para ler o texto, clique aqui.

Boa leitura!

Duas imagens para pensarmos sobre o Imperialismo...

Observe as imagens abaixo. O que há em comum entre as duas? Que diferenças você observa?

Imagem 1. Britânicos sendo carregados em liteiras.
Litogravura de William Hutton, 1820.

Imagem 2. Príncipe William, da Inglaterra, nas ilhas Salomão, em 2012.

A primeira foi feita em 1820, e representa britânicos sendo carregados em liteiras por habitantes da colônia da Costa do Ouro. 

A segunda é uma fotografia de setembro de 2012, tirada na cidade de Honiara, nas ilhas Salomão, um país localizado no oceano Pacífico. Ela retrata o príncipe William, da Inglaterra, sendo carregado, durante uma festa em comemoração aos 60 anos de coroação da rainha Elizabeth II.

Tanto a Costa do Ouro (atual Gana) quanto as ilhas Salomão foram regiões que, ao final do século XIX, foram dominadas pela Inglaterra e só conseguiram recuperar sua autonomia no século XX.

As duas imagens nos instigam a pensar sobre as diversas formas de Imperialismo ontem e hoje.

Uma charge sobre o imperialismo na China no século XIX

No século XIX, a China sofreu com a ação imperialista de vários países. O artista Henri Meyer retratou a sua visão sobre esse fato em uma charge publicada no ano de 1898 no periódico francês Le Petit Journal. Confira abaixo:

MEYER, H. The Chinese Cake. Le Petit Journal, jan. 1898. Charge

Na imagem, representantes de algumas potências imperialistas repartem fatias do que parece ser uma torta ou uma pizza, onde se lê "China". Sentados à mesa, da esquerda para a direita, vemos a rainha Vitória (representando a Inglaterra), o kaiser Guilherme II (Alemanha), o czar Nicolau II (Rússia) e o imperador Mutsuhito (Japão). Os três primeiros seguram facas, enquanto que o imperador japonês, sem portar uma faca, apenas observa a partilha com um olhar preocupado. Mutsuhito parece esperar "pelo que vai sobrar" da torta/pizza. Atrás do czar Nicolau II, a França é representada por uma mulher que usa na cabeça o "barrete frígio" - símbolo criado na época da Revolução Francesa -, e que também parece aguardar o processo de divisão da China. Ao fundo, a China é representada por um velho que ergue os braços em desespero e impotente diante da ação das potências imperialistas.

Nas palavras de Héctor Bruit,

"O imperialismo não só deixou um sabor amargo onde se instalou como também queimou com ácido e perfumou com enxofre três continentes. Chegou como um vendaval, destruindo sociedades milenares e construindo um mundo de angústias sobre as ruínas de milhões de seres humanos. [...] O efeito foi demolidor, e a fome assassinou milhões de pessoas." (BRUIT, H. O imperialismo. São Paulo: Atual, 1996, p. 58.)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ciência e Racismo

A penetração europeia na África e na Ásia ocorreu em uma época na qual muitos cientistas debatiam as teorias evolucionistas difundidas na Europa desde o início do século XIX e cujo ápice foi o livro A origem das espécies, do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882). Lançada em 1859, essa obra procurava explicar do ponto de vista da Ciência - e não da religião - como surgiram os seres vivos na Terra.

Segundo Darwin, todas as formas de vida na Terra descendem de um ancestral comum. A diversidade biológica do planeta seria fruto de um processo que em 1872 ele chamou de evolução. Em sua teoria, a evolução se manifesta de forma gradual por meio da seleção natural. Esta última faz que as espécies transmitam às gerações seguintes as características que aumentam suas possibilidades de sobrevivência, de modo a assegurar-lhes a existência. Já as características consideradas desvantajosas à sobrevivência da espécie teriam possibilidades mais reduzidas de serem transmitidas aos descendentes.

As ideias de Darwin e de outros evolucionistas da época foram aproveitadas por muitos cientistas e pensadores europeus para afirmar que a espécie humana era composta de várias raças.

Sendo assim, muitos passaram a defender a ideia de que as raças mais fortes e capazes sobreviveriam, enquanto que as raças mais fracas e incapazes seriam sucumbidas pela seleção natural e social. Segundo esses pensadores, os brancos, de modo geral, pertenceriam às raças mais capazes, ou seja, às raças "superiores", enquanto os não europeus pertenceriam às raças "inferiores". Alguns cientistas, como Ernst Haeckel (1834-1919), afirmavam que na base dessa escala encontravam-se os judeus e os negros.


Figura 1. Ilustração da obra Antropogenia ou História da evolução
do homem (1874), de Ernst Haeckel, que compara um homem negro
a alguns primatas. Imagens que se pretendiam "científicas" como essa
ajudaram na propagação do racismo.


Essas teorias foram amparadas no chamado "racismo científico". Elas serviram para justificar a colonização da África e da Ásia pelos europeus a partir do século XIX, uma vez que, aos olhos de muitos colonizadores, os habitantes desses continentes seriam seres inferiores, atrasados, preguiçosos e incivilizados. Ficava justificada, assim, a "missão civilizadora" dos europeus nesses continentes.

Durante o século XX, muitos trabalhos científicos mostraram o quanto havia de inconsistente nessas ideias. Os cientistas observaram que as diferenças das sequências genéticas entre dois indivíduos não chega a 1%.

As variações encontradas - como a cor da pele ou dos olhos, por exemplo - são resultado do processo evolutivo do ser humano diante da necessidade de se adaptar às condições ambientais em que passou a viver. Já as diferenças culturais decorrem dos processos histórico-sociais distintos de cada povo. Ou seja, a espécie humana é única.

(FONTE: AZEVEDO, Gislane; SERIACOPI, Reinaldo. História em movimento 2: o mundo moderno e a sociedade contemporânea. 2. ed. São Paulo: Ática, 2014, p. 240-241.)


A persistência do racismo na atualidade

Embora vários estudos nas últimas décadas tenham demonstrado que não existem raças diferentes de seres humanos, mas apenas uma única, o racismo teima em continuar existindo na atualidade. Episódios de manifestações racistas podem ser vivenciados em várias esferas da sociedade, mas nos últimos anos ganharam destaque alguns que ocorreram no futebol.

No dia 27 de abril de 2014, no jogo entre Barcelona e Villarreal - partida válida pelo Campeonato Espanhol -, o jogador brasileiro do Barça, Daniel Alves, foi alvo de ofensas racistas por parte da torcida adversária, que jogou bananas em sua direção. Daniel Alves, que se preparava para cobrar um escanteio, respondeu ao gesto da torcida rival de uma maneira inesperada: ele se abaixou, pegou uma das bananas e a comeu. O Barcelona venceu o Villarreal por 3 a 2.


Figura 2. Após a torcida do Villarreal atirar bananas em sua direção,
o jogador Daniel Alves, do Barcelona, abaixou-se e comeu uma delas.


Episódios como esse, infelizmente têm acontecido com frequência. No Brasil, um caso emblemático foi o do goleiro Aranha que, jogando pelo Santos, foi chamado de "macaco" por parte da torcida do Grêmio em uma partida do Campeonato Brasileiro de 2014.


Figura 3. Durante uma partida do Campeonato Brasileiro de 2014,
parte da torcida do Grêmio ofendeu de maneira racista o goleiro Aranha,
do Santos. Na imagem, torcedora do time gaúcho aparece
gritando "Macaco!" em direção ao goleiro do time adversário.


Mas afinal de contas, por que é tão grave chamar uma pessoa negra de "macaco"? Para responder a essa pergunta, recomendamos a leitura de um interessante texto de Hélton Santos Gomes, publicado no Jornal Correio de Uberlândia no dia 23 de maio de 2014:


SOMOS TODOS MACACOS?, por Hélton Santos Gomes*


Temos visto constantemente atos racistas contra jogadores negros pelos gramados europeus. A ofensa mais comum é comparar o negro com o macaco. Assim sendo, para que possamos entender o porquê do uso ofensivo da comparação de afrodescendentes com macacos teremos que recorrer à história, pois só assim entenderemos a força e o objetivo de tais insultos.

O antecessor de Charles Darwin, Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829), dizia que a evolução não se dava por meio da seleção natural, mas sim por meio de uma força vital que levava os organismos a se tornarem mais complexos, funcionando em combinação com a influência do ambiente. De acordo com esta ideia, os seres se encaminhariam para um melhoramento constante, rumo à perfeição. Portanto, os seres humanos não compartilhariam um ancestral em comum com os macacos, nós seríamos os descendentes diretos dos macacos e, por consequência disto, os africanos seriam o elo entre os macacos e os europeus. Em outras palavras, os não-europeus seriam mais macacos do que humanos.

As ideias de Lamarck contribuíram para o surgimento do racismo científico, este que acabou colaborando para que o europeu subjugasse outros povos. Basta lembrarmos que, em 1906, um pigmeu congolês chamado Ota Benga foi enjaulado junto com macacos e exibido em um zoológico na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Tal exposição se deu com o intuito de demonstrar que Benga representava a forma mais baixa de desenvolvimento humano. Vale ressaltar que a teoria de Lamarck não é mais aceita e que Darwin jamais disse que os seres humanos descendem dos macacos.

Diante de tais fatos históricos, fica fácil compreender porque tais atos racistas são inadmissíveis e causam a revolta de quem os sofre. Pois, como disse o australiano James Bradley, professor de História da Medicina/Ciência da Vida da Universidade de Melbourne, “invocar a imagem do macaco é acessar o poder que levou a desapropriação das populações não europeias e outras heranças do colonialismo”.

Portanto, acreditamos que independentemente da postagem do jogador Neymar em seu Instagram com o uso da marcação #somostodosmacacos ter sido planejada por um publicitário e dar margem para interpretações ambíguas, o fato é que tal atitude serviu para alertar a sociedade sobre a importância de se debater sobre o preconceito, não só no esporte, mas também na sociedade em geral.

______
* O título do texto de Hélton Santos Gomes faz referência a uma campanha iniciada pelo jogador brasileiro Neymar na internet, após o episódio de racismo sofrido pelo jogador Daniel Alves no dia 27 de abril de 2014. Em apoio ao amigo, Neymar postou uma mensagem em uma rede social com a marcação "#somostodosmacacos". Pouco depois, a imprensa revelou que o slogan havia sido desenvolvido por uma agência de publicidade.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Imperialismo Norte-americano

- Período posterior à Guerra Civil: crescimento demográfico; continuação da "Marcha para o Oeste" e a progressiva ocupação do solo; industrialização e desenvolvimento econômico; capitalismo e liberalismo (iniciativa individual e Estado liberal).

- Ideia do melting pot (cadinho de raças, culturas, etc.): com a imigração de estrangeiros para os EUA, a população aumentou consideravelmente (de 31 milhões de habitantes em 1860 para 92 milhões em 1910). Exaltava-se a capacidade dos EUA de receber e dar oportunidades a tantos estrangeiros, que, juntos, ajudariam na formação dos Estados Unidos. Britânicos, escandinavos e germânicos, mas, também, latinos: casos de xenofobia por parte dos norte-americanos começam a surgir. Restrições crescentes à imigração. Preconceitos.

- O crescimento interno projeta cada vez mais os EUA no cenário mundial. Relações exteriores.

- Pan-americanismo.

- Releitura da Doutrina Monroe durante o governo de Theodore Roosevelt (1901-1908). O princípio de não intervenção em assuntos europeus é deixado de lado. Os EUA atuam nas negociações entre França e Alemanha na questão do Marrocos (1906) e procuram mediar a paz entre Rússia e Japão após a guerra russo-japonesa (1904-1905).

- Imperialismo:
I - 1898: Guerra contra a Espanha para levar a independência a Cuba. Com a vitória, os EUA dominaram também Porto Rico e as Filipinas. O caso de Cuba chama a atenção, pois, em 1901, os EUA conseguem impor a Emenda Platt na constituição cubana. A referida emenda dava aos EUA o direito de intervir em Cuba a qualquer momento, bem como o controle de uma área na baía de Guantánamo.
II - Os EUA estimulam a separação do Panamá em relação à Colômbia. Os norte-americanos terminaram a construção do Canal do Panamá e o controlaram até 31/12/1999.
III - Os EUA realizam uma intervenção militar na Nicarágua para estabilizar lutas camponesas entre 1909 e 1933. Houve a resistência do guerrilheiro camponês Augusto César Sandino.

A charge acima, de autoria de Louis Dalrymple, datada de 1905,
representa um Tio Sam gigantesco, com um pé na América
do Norte e outro na América do Sul. Ele segura um porrete,
como se estivesse vigiando todo o continente americano.
Deste modo, a charge faz referência à chamada
política do Big Stick (grande porrete), praticada
por Theodore Roosevelt. Nesta política, os EUA
revisitavam a Doutrina Monroe e defendiam a ideia de
que era necessário "proteger" a qualquer custo todo 
o continente americano das potências europeias. 
Contudo, o "grande porrete" não era usado
apenas para ameaçar os países da Europa, mas também para
intervir militarmente em diversos territórios da América Latina.
Trata-se de uma representação do imperialismo norte-americano.

- Fim do século XIX e início do século XX: os EUA vão, aos poucos, tornando-se a maior potência mundial, superando até mesmo a Inglaterra.


Para pensar...

- A crítica de José Martí ao imperialismo norte-americano:

"Jamais houve na América, da independência para cá, assunto que requeira mais sensatez, que obrigue a maior vigilância, que peça exame mais claro e minucioso que o convite que os Estados Unidos, poderosos, repletos de produtos invendáveis e determinados a estender seus domínios pela América, fazem às nações americanas de menos poder, ligadas pelo comércio livre e útil com os povos europeus, para coordenar uma liga contra a Europa e fechar negócios com o resto do mundo. Da tirania da Espanha soube salvar-se a América espanhola; e agora, depois de ver com criterioso olhar os antecedentes, causas e fatores do convite, urge dizer, porque é verdade, que chegou para a América espanhola a hora de declarar sua segunda independência."
(MARTÍ, José. "Congresso Internacional de Washington". Texto originalmente publicado em dezembro de 1889.)

- Lembrar que Martí defendeu e lutou pela independência de Cuba, mas morreu sem ver seu país livre. Ele também viveu por anos nos Estados Unidos e, portanto, conheceu a sociedade norte-americana de dentro.






segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Imperialismo na China

No início do século XIX a população chinesa já era muito grande, representando um enorme e potencial mercado consumidor, o que atraiu as potências imperialistas. País de cultura milenar, economia agrícola, governado por um governo imperial marcado por várias revoltas camponesas, disputas políticas e constante crise, a China viu a entrada de estrangeiros em seu território no contexto do imperialismo, sobretudo por parte de países da Europa, dos EUA e do Japão. Foi nesta conjuntura que ocorreu a Guerra do Ópio (1841), conflito que começou por conta de interesses da Inglaterra. Até o século XVIII o ópio era usado pelos chineses como medicamento, mas os ingleses, que produziam grandes quantidades do produto em seus domínios na Índia, disseminaram o vício entre os chineses. Em 1839, as autoridades chinesas obrigaram um representante britânico a entregar 20 mil caixas de ópio, que foram jogadas ao mar. A Inglaterra passou a exigir uma indenização dos chineses, acusando-os de bloquear o livre comércio na região. Como a China não pagou tal indenização, foi iniciada a Guerra do Ópio, que terminou em 1842 com os chineses derrotados e obrigados a assinar o Tratado de Nanquim, por meio do qual cinco portos chineses eram abertos ao livre comércio, o sistema fiscalizador era abolido e Hong Kong era entregue à Inglaterra. Posteriormente, sob o pretexto de vingar o assassinato de um missionário francês, um exército franco-inglês, apoiado por norte-americanos e russos, ocupou Pequim, a capital chinesa, e obrigou a China a assinar o Tratado de Pequim (1860), que estabeleceu a abertura de outros sete portos ao comércio internacional, a instalação de embaixadas europeias e o direito de atuação de missões cristãs em território chinês. Em 1900 ocorreu a Guerra dos Boxers, quando chineses nacionalistas radicais, os “punhos fechados” ou boxers, se rebelaram contra a dominação estrangeira e mataram cerca de duzentos estrangeiros, incluindo o embaixador alemão. Ingleses, franceses, alemães, russos, japoneses e norte-americanos se uniram para invadir a China, subjugar o país e forçar os chineses a reconhecerem todas as concessões já feitas às potências imperialistas. Em 1911, o Kuomintang, o Partido Nacionalista Chinês, liderado por Sun Yat-sen, derrubou a monarquia milenar e proclamou a república, mas não conseguiu promover o desenvolvimento autônomo chinês, notadamente por conta da presença imperialista internacional no país.

Imperialismo Japonês

Historicamente, o território japonês se manteve isolado do Ocidente. Em 1542, quando os portugueses, seguidos dos espanhóis, chegaram ao lugar, o Japão reagiu duramente à presença europeia em seu território, presença essa caracterizada pelas missões jesuíticas. Em 1648 os portos japoneses foram fechados aos estrangeiros, o que isolaria o país do resto do mundo por mais de dois séculos. Durante o século XIX, a aristocracia dos daimios dominava o Japão por meio do apoio dos samurais – uma classe de guerreiros profissionais –, em uma estrutura de organização social semelhante ao feudalismo europeu. Os senhores feudais japoneses disputavam o poder, porém, era o xogunato, título criado no século VIII para os comandantes militares, que exercia o comando político do reino. Neste contexto, essa instituição estava sob o domínio da família Tokugawa durante o século XIX. O imperador – denominado micado – exercia um poder apenas formal a partir da cidade de Kyoto, enquanto o xogum estava instalado em Edo – antigo nome de Tóquio. Em 1854, uma esquadra norte-americana comandada pelo almirante Perry forçou a abertura dos portos japoneses ao comércio mundial, tendo o Japão, a partir disso, assinado acordos comerciais com os EUA e com outros países. Com a abertura dos portos houve a europeização do Japão, o que estimulou o nacionalismo dos japoneses e a oposição ao xogum por ter permitido tal abertura. Apoiado por clãs rivais do xogunato, o imperador Mutsuhito – que tinha o desejo de tornar o micado o verdadeiro poder nacional – promoveu a centralização política. A partir de 1868 iniciou uma fase de industrialização e modernização do país, conhecida como Era Meiji. Dentro desse quadro, o Japão deu início a uma política imperialista sobre a China, com o objetivo de conquistar a região da Manchúria. Como tal região também era objeto de desejo por parte da Rússia, teve início em 1904 a Guerra Russo-Japonesa, vencida pelo Japão, que, a partir de então, passou a exercer sua supremacia sobre a China. Posto isso, o Japão se tornou uma grande potência mundial, por meio de sua dinâmica desenvolvimentista, tendo promovido então uma expansão colonialista que acabaria esbarrando no expansionismo norte-americano na região do Oceano Pacífico, o que geraria atritos entre as duas potências nos anos 1930 e 1940.

Imperialismo na Índia

Os portugueses chegaram à Índia em 1498, com Vasco da Gama. Posteriormente, holandeses, franceses e ingleses chegaram ao local, sendo que a partir do século XVIII os ingleses passaram a dominar a região, quando tornaram a Índia um protetorado em 1763, ou seja, o território indiano era protegido pelos ingleses, que ocupavam e controlavam a administração local. Os ingleses construíram estradas e organizaram missões políticas e religiosas, afetando os costumes locais e destruindo a tradicional economia indiana (voltada para a subsistência e baseada em manufaturas têxteis), estabelecendo uma desleal competição entre os produtos tradicionais indianos e os produtos industrializados ingleses (tecidos e algodão). Tal situação estimulou o nacionalismo indiano contra a presença dos ingleses, como bem demonstra a Guerra dos Sipaios (1857). Os sipaios (soldados indianos) se rebelaram contra os oficiais ingleses usando como pretexto os novos cartuchos de suas armas, que eram revestidos de graxa animal (um material impuro e contrário às crenças indianas). A rebelião dos sipaios foi sufocada pelos ingleses apenas em 1859. Anos depois, em 1876, Benjamin Disraeli, primeiro-ministro britânico, tornou a Índia parte do Império Britânico, tendo a Rainha Vitória sido coroada como imperatriz da Índia. 
Além da Índia, a Inglaterra controlou outros territórios na Ásia no início do século XIX, tais como a Birmânia (atual, Myanmar, na península da Indochina), o Tibete, o Afeganistão e territórios entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico. Na Bacia do Pacífico, os ingleses dominaram a Austrália e ilhas vizinhas. Em 1931 colônias britânicas e Inglaterra estabeleceram um pacto que originou a British Commonwealth of Nations (Comunidade Britânica de Nações), entidade que reúne países que, mesmo após sua autonomia política, continuaram unidos por interesses comerciais e diplomáticos, como a Austrália, a África do Sul, o Canadá e outros.

A Partilha da África

A Conferência de Berlim (1884-1885): países europeus mais os Estados Unidos e a Rússia se reuniram para definir a divisão do continente africano e as regras da exploração da África. Mesmo com a Conferência, continuariam existindo divergências entre as potências imperialistas.
→ França: Argélia, Tunísia, Marrocos, Sudão (África Ocidental Francesa), ilha de Madagascar e Somália francesa.
→ Inglaterra: domínio do continente africano desde o mar Mediterrâneo (Sudão Anglo-Egípcio), ao norte, até o Cabo da Boa Esperança, ao sul.
→ Outros territórios africanos estavam sob o domínio de países como Bélgica (o Congo, propriedade pessoal do rei belga Leopoldo II), Itália (Líbia, Eritreia e Somália), Espanha (Marrocos espanhol e Rio de Ouro), Portugal (Angola e Moçambique) e Alemanha (Camerum, atual República dos Camarões, o Togo, o Sudoeste e o Oriente da África). No início do século XX, apenas a Libéria e a Abissínia (atual Etiópia) eram Estados africanos livres.

A Inglaterra na África. A política colonial do primeiro-ministro Benjamin Disraeli garantiu o domínio de amplos territórios africanos para os ingleses.
→ O canal de Suez,[1] ligação entre os mares Mediterrâneo e Vermelho, passou para o domínio dos ingleses.
→ A Guerra dos Bôeres (1899-1902): A Inglaterra dominava a Colônia do Cabo (África do Sul) desde as guerras napoleônicas, e, posteriormente, entrou em atrito com os bôeres (também chamados de africânderes), colonos holandeses que haviam fundado as repúblicas livres de Orange e Transvaal. A descoberta de diamantes e ouro na região de Johannesburgo, no Transvaal, estimulou a ida de muitos ingleses para o local, o que levou a conflitos entre holandeses e ingleses pelo domínio da região. A Inglaterra anexou o Orange e o Transvaal aos seus domínios, formando a União Sul-Africana em 1910 (junto com as colônias do Cabo e Natal).
→ A atuação de Cecil Rhodes: nascido em 1853 e falecido em 1902, Cecil Rhodes foi um colonizador e homem de negócios britânico, tendo vivido na África e sido um agente do imperialismo britânico. Foi um dos fundadores da Companhia De Beers, uma das gigantes do mercado internacional de diamantes. No ano de 1892, o semanário inglês Punch publicou a caricatura “O Colosso de Rhodes” (de autoria de Edward Linley Sambourne), cujo título é uma referência a uma das sete maravilhas do mundo antigo (a estátua de Hélios, o deus do Sol na mitologia grega, localizada na ilha de Rodes). A caricatura publicada no jornal inglês mostra um Cecil Rhodes gigantesco, com um pé no sul da África e o outro no Egito, regiões dominadas pela Inglaterra, lembrando o projeto de Cecil Rhodes de ligar o norte e o sul da África por meio de uma estrada de ferro, projeto jamais realizado. Na caricatura, Rhodes segura uma linha de telégrafo. A imagem é uma representação do imperialismo britânico na África.






[1] O canal de Suez foi projetado pelo engenheiro francês Ferdinand Lesseps, tendo sido construído com o apoio de Napoleão III entre os anos de 1859 e 1869. O seu controle foi originalmente exercido pela França e pelo Egito. Ao ligar os mares Mediterrâneo e Vermelho, o canal encurtava as distâncias entre os centros industriais europeus e as áreas coloniais asiáticas.

Introdução ao Imperialismo

- O processo de industrialização e o desenvolvimento capitalista nos países europeus, com destaque para a Inglaterra, e também nos Estados Unidos e no Japão.
→ Lembrar: a Revolução Industrial, as condições de vida e trabalho dos operários nas fábricas, a consolidação de grandes empresas e a busca pelo lucro no sistema capitalista. Destacar também inovações tecnológicas como o telégrafo, a fotografia, o telefone, o fonógrafo e o cinema. Novas fontes de energia: eletricidade e petróleo. Noção de “progresso”.
→ É dentro deste quadro que países como Inglaterra, Bélgica, França, Holanda, Alemanha, Itália, Estados Unidos e Japão dão início a práticas imperialistas.

O “imperialismo”, ou, o “neocolonialismo”:
- Se o colonialismo dos séculos XV e XVI tinha como objetivo a obtenção de especiarias, gêneros tropicais e metais preciosos, notadamente no continente americano, sob a justificativa de levar a fé católica a outros povos, o imperialismo (também chamado de “neocolonialismo”, onde “neo” = “novo”) do século XIX, por sua vez, buscava mercados consumidores de produtos manufaturados e fornecedores de matérias-primas (algodão, cobre, ferro, petróleo, etc.). Além disso, devido ao grande crescimento populacional verificado na Europa, as potências europeias buscavam colônias para instalar parte de seu excedente populacional. Os principais agentes do imperialismo foram mais as grandes empresas (bancos, indústrias, empresas de comércio e transportes) do que propriamente os Estados.

- Formas de dominação imperialista: a) administração direta, onde os principais cargos governamentais nas colônias eram ocupados por agentes metropolitanos; b) administração indireta, na qual eram feitas alianças com as elites locais.

- Desdobramento político do imperialismo: crescimento da rivalidade entre as grandes potências imperialistas, com o estímulo ao armamentismo.

- Principais alvos das potências imperialistas europeias: África, Ásia e Oceania.


Imperialismo e alteridade:
- A justificativa usada para as práticas imperialistas: levar o progresso e a civilização dos países mais desenvolvidos para aqueles menos desenvolvidos, estes últimos vistos como “bárbaros” e atrasados. Tal justificativa procurava esconder os interesses econômicos das grandes potências mundiais.
→ Rudyard Kipling (1865-1936): literato inglês que escreveu a obra O Fardo do Homem Branco (1899), na qual destacou o dever à filantropia da ação colonizadora, ou seja, a ideia de que os países mais desenvolvidos levavam melhores condições de vida para as suas colônias. Kipling recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1907.

- “‘Acredito nesta raça...’, dizia Joseph Chamberlain[1] em 1895. Ele entoava um hino imperialista à glória dos ingleses e celebrava um povo cujos esforços superavam os de seus rivais franceses, espanhóis e outros. Aos outros povos, ‘subalternos’, o inglês levava a superioridade de seu savoir-faire,[2] de sua ciência também; o ‘fardo do homem branco’ era civilizar o mundo, e os ingleses mostravam o caminho.
Essa convicção e essa missão significavam que, no fundo, os outros eram julgados como representantes de uma cultura inferior, e cabia aos ingleses, ‘vanguarda’ da raça branca, educá-los, formá-los – embora sempre se mantendo à distância. Se os franceses também achavam que os nativos eram umas crianças, e sem dúvida os consideravam inferiores, suas convicções republicanas levavam-nos, porém, a fazer afirmações de outro teor, pelo menos em público, ainda que estas não estivessem necessariamente em consonância com seus atos.
Todavia, o que aproximava franceses, ingleses e outros colonizadores, e dava-lhes consciência de pertencerem à Europa, era aquela convicção de que encarnavam a ciência e a técnica, e de que este saber permitia às sociedades por eles subjugadas progredir. Civilizar-se.”
(FERRO, Marc. História das Colonizações: das conquistas às independências, séculos XIII a XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 39.)

- A experiência da colonização a partir da literatura: O Coração das Trevas (1902), de Joseph Conrad.
→ Joseph Conrad (1857-1924): escritor britânico de origem polonesa.
O Coração das Trevas: o livro conta a história de Charles Marlow, um capitão de um barco a vapor que trabalha para uma companhia belga de comércio. O trabalho de Marlow é transportar marfim por um rio no Congo (que à época era uma colônia de propriedade privada do próprio rei Leopoldo II, da Bélgica), mas ele recebe como missão resgatar o Sr. Kurtz, um comerciante de marfim que passou a viver no interior da África. No livro, há um relato das dificuldades de navegação no rio africano, bem como uma crítica ao imperialismo, especialmente por meio da loucura do Sr. Kurtz e da crueldade praticada pelos colonizadores contra os povos dominados. Todavia, o livro apresenta, em algumas passagens, uma imagem negativa dos africanos. A obra remete à própria vida de Conrad, que também trabalhou como capitão de um navio de uma companhia de comércio no Congo. O livro inspirou o filme Apocalipse Now (1979), do diretor Francis Ford Coppola, obra sobre a Guerra do Vietnã.
“A conquista da Terra, o que na maior parte significa tirá-la daqueles que tem uma fisionomia diferente ou narizes ligeiramente mais achatados do que os nossos, não é uma coisa bonita quando você olha demais para ela.” (CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2004, p. 13.)
O livro explora o fascínio e o medo no contato com a realidade africana, com o outro, bem como o fato de a experiência da colonização destruir tanto o colonizado quanto o colonizador. 





[1] Joseph Chamberlain (1836-1914). Político inglês, foi prefeito de Birmingham, deputado, ministro do comércio e típico representante da política imperial britânica como secretário das colônias.
[2] “Saber-fazer”.