Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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sexta-feira, 5 de maio de 2017

[Seção dos Alunos]: Uma Fábrica de "Memes" sobre o Iluminismo

O Trabalho de História do 1° Bimestre/2017 consistiu na elaboração de "Memes" sobre o Iluminismo. Após a avaliação do professor, os melhores "Memes" foram selecionados - seja pelo modo como abordaram o conteúdo, seja pelo humor presente neles - e podem ser vistos abaixo

ATENÇÃO: Em alguns "Memes", os alunos fizeram questão de enfatizar o fato de que, para muitos iluministas, a mulher era inferior ao homem. E foi interessante perceber o olhar crítico dos jovens em relação a este fato. No início do primeiro bimestre, os alunos haviam lido o artigo A Mulher e a Revolução Francesa: participação e frustração, de autoria de Itamar de Souza e publicado na Revista da FARN em 2003. Este texto acadêmico discute, entre outras coisas, justamente o modo como os iluministas pensavam as diferenças entre mulheres e homens. A leitura de tal texto parece ter sido bem aproveitada pelos jovens.

Confira agora os melhores "Memes" sobre o Iluminismo que foram produzidos pelos alunos:



Meme produzido pelas alunas Allana, Anna Isa, Gabriela Pereira e Letícia, do 2°A.



Meme produzido pelos alunos Anna Júlia, Maria Eduarda Carvalho,
Jerônimo, Pedro Augusto, Solange e Thamyê, do 2°A.



 Meme produzido pelos alunos Ana Luiza, Bruno, Diego, Larissa,
Luciana e Maria Eduarda Afonso, do 2°A.



Meme produzido pelos alunos Ana Luiza, Bruno, Diego, Larissa,
Luciana e Maria Eduarda Afonso, do 2°A.



Meme produzido pelas alunas Ana Luiza, Bianca, Iasmin, Ingrid, Júlia Damasceno
e Samantha, do 2°B.



Meme produzido pelas alunas Ana Luiza, Bianca, Iasmin, Ingrid, Júlia Damasceno
e Samantha, do 2°B.



Meme produzido pelos alunos Caetano, Erick Fernandes, Isabela, Jéssica, 
Mariana Almeida e Mariana Souto, do 2°C.



Meme produzido pelos alunos Eric Freitas, Fernanda Leme, Gabriel Felipe
e Maria Eduarda Silva, do 2°C.



 Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.



Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.




Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.



Meme produzido pleos alunos Adriel, Anaíza, Danyane, Gustavo Gonçalves,
João Guilherme e Vitor Henrique, do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Erika, Jéssica, Mariana Laura, Paola,
Vitor Araújo e Yago, do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Gabriela do Carmo, Gustavo Lemos,
Thiago Cardoso e Maria Vitoria, do 2°E.



Meme produzido pelas alunas Adrielly, Ana Clara, Bianca, Luciana e Micaella,
do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Enzo, Gusthavo Santos, Luana 
e Thiago de Oliveira, do 2°E.



Meme produzido pelas alunas Ana Vitória, Eduarda, Julia de Freitas Silva,
Laine, Leandra e Rafaela Lobato, do 2°F.



Meme produzido pelos alunos Ana Lara, Anderson, Giovanna Fernandes,
Julia Mota, Marcus Vinícius e Pedro Souto, do 2°F.



Meme produzido pelos alunos Marcela, Lara Fabyan, Marina, Théo, Bruno Henrique
e Estevão Garcez, do 2°G.



Meme produzido pelos alunos Bruna, Júlia Martins, Monithelley,
Rayanne, Sérgio e Vitória de Castro, do 2°H.




quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Nem tão livres, nem tão iguais*

“Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”. O Artigo Primeiro da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão cairia bem em qualquer discurso da classe política atual. Mas foi escrito há mais de dois séculos pelos revolucionários franceses de 1789. E, naquela época, os conceitos de liberdade e igualdade não eram compreendidos da mesma forma que hoje.

Muito antes do Liberté, Egalité, Fraternité – um lema a serviço da retórica política do momento – os filósofos iluministas se dedicavam a complexas discussões para dar novos sentidos à humanidade em suas relações sociais. Em seu monumental tratado Do espírito das leis (1748), o Barão de Montesquieu (1689-1755) explica que, numa sociedade regida por leis, ser livre não significa fazer tudo o que poderíamos desejar. A liberdade “só pode consistir em fazer o que se deve querer” e em “nunca ser constrangido a fazer o que não se deve querer”. Ou seja, ser “livre” diz respeito não apenas à vontade, mas também ao dever. O arbítrio – isto é, a decisão sobre o que deve ser feito – jamais se manifesta fora da alçada do direito. Em sua definição lapidar: “A liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem”.

É diferente do que pensava Aristóteles (384-322 a.C.) ao tratar da liberdade na Ética a Nicômaco: uma capacidade encontrada na alma do indivíduo. Na França do Iluminismo, o que está em questão é o estatuto político e social do homem, cuja existência depende das relações estabelecidas com os outros homens. Ser livre, nesse sentido, é ser livre relativamente aos outros, de acordo com as leis da sociedade. Ideia que permanece na sabedoria popular: “Minha liberdade termina onde começa a do outro”. Eis uma noção elementar de justiça.

Em termos históricos, a referência remonta aos primórdios da Grécia. No século V a.C., havia a distinção entre homens livres e escravos, e a divisão social da pólis determinava que somente os livres poderiam decidir acerca das leis justas. No século XVIII francês, a transição do Antigo Regime para a Primeira República foi pautada por uma releitura dessa virtude cívica dos antigos.

“A liberdade reside no poder que um ser inteligente possui para fazer o que quer, em conformidade com sua própria determinação”, afirma o verbete “Liberdade” da Enciclopédia de Diderot e D’Alembert (o volume da letra “L” foi publicado em 1765). A sutileza da definição está nas palavras finais: a ação do ser livre está submetida a uma regra, mesmo que esta seja a sua própria determinação. Condição que parece nos remeter ao livre-arbítrio dos cristãos (uma autodeterminação incondicional), mas tal leitura seria uma simplificação do problema. Até porque os filósofos iluministas criticavam o conceito de livre-arbítrio justamente pelo absurdo da escolha feita sem qualquer condição prévia. Seria um efeito sem causa.

Este foi o motivo pelo qual tantos pensadores preferiram adotar a perspectiva do chamado “direito natural”, defendida por teóricos desde Cícero (106-43 a.C.) na Roma antiga até Locke (1632-1704) na modernidade. Para eles, a sociedade deve ser determinada não apenas pelas leis civis (feitas pelos homens), mas também pela “lei natural”: as noções de certo e errado que já estariam inscritas na natureza antes mesmo do surgimento das sociedades. Por causa das leis naturais, na época, uma afirmação como “o homem nasce e permanece livre” não era tão incondicional como a entendemos atualmente.

Se o conceito de liberdade não exclui o de necessidade, quais leis – civis ou naturais – determinam as escolhas dos agentes livres? Para ilustrar esta questão, Voltaire, no Dicionário filosófico (1764), apresenta um curioso diálogo no verbete “Liberdade”:

“A – Uma bateria de canhões atira junto às nossas orelhas; sois livre de a ouvir ou não ouvir?

B – Sem dúvida que não posso deixar de a ouvir.

A – Desejais que esse canhão arranque vossa cabeça e a da vossa mulher e do vosso filho, que passeiam convosco?

B – Que proposta me fazeis? Não posso, enquanto estiver em perfeito juízo, desejar tal coisa; eis o que me é impossível.

A – Bom; vós ouvis necessariamente este canhão e necessariamente desejais não morrer, vós e a vossa família, de um tiro de canhão durante o passeio; não tendes o poder de não ouvir nem o poder de querer permanecer aqui.

B – É evidente.”

A conclusão do personagem A é também evidente: “Em que consiste pois a vossa liberdade”, explica para B, “senão no poder que a vossa individualidade exerceu ao fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade?”.

Para o filósofo materialista Claude-Adrien Helvétius (1715-1771), o conceito de liberdade era baseado na crença iluminista do progresso da razão. Na obra Do espírito (1755), Helvétius expõe que, muito embora o homem seja uma máquina movida pelo interesse calcado em necessidades físicas (busca do prazer e fuga da dor), ainda assim poderemos falar em virtude se definirmos a liberdade como um interesse bem compreendido: um objeto escolhido pela razão e não apenas por impulso ou instinto. Decorre daí a sua máxima: “Livre não passa de um sinônimo de esclarecido”. Dito de outra forma, o interesse pode ser educado para buscar, para além da satisfação imediata do corpo, um prazer mais duradouro, que incluiria até mesmo o bem de todos com quem nos relacionamos, chamado “felicidade”.

No fim das contas, o que se desejava era a “autonomia”: o governo de si mesmo mediante leis estabelecidas pelo bom uso da razão. Este conceito aparecia tanto nos filósofos materialistas quanto nos “espiritualistas”. Rousseau, que se considerava cristão, não admitia o princípio teológico do livre-arbítrio e afirmava que “o impulso do puro apetite é escravidão, e a obediência à lei que se estatuiu a si mesma é liberdade”. Nesse ponto, inspirou o alemão Immanuel Kant (1724-1804), para quem a autonomia condicionava a liberdade a uma lei moral universal: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal”.

Se nem mesmo a liberdade pode ser plena, já dá para imaginar que a igualdade, para os iluministas, também era relativa. Basta saber que o artigo citado da Declaração de 1789 é uma referência clara a Montesquieu e a Rousseau. O primeiro explica que a liberdade republicana consiste num amor à condição em que todos são iguais perante a Constituição: “O amor à república, numa democracia, é o amor à democracia; o amor à democracia é o amor à igualdade”. E seu contraponto é a monarquia, regime no qual não é possível falar em igualdade, onde cada um busca a superioridade em detrimento da felicidade alheia. Na monarquia não pode haver autonomia pelo fato de a lei beneficiar mais a classe que detém o poder. Isto leva a um quadro social instável, no qual as pessoas pertencentes a condições inferiores desejam se tornar senhoras das que se encontram em condições superiores.

Nem por isso Montesquieu considera que a igualdade seja ausência de hierarquias. Uma república tem a igualdade como princípio na medida em que cada um possui as mesmas vantagens para realizar seus interesses, ou ainda, sua liberdade individual. A despeito da classe social, todos podem ter as mesmas esperanças. A busca da felicidade particular leva, do ponto de vista político, à felicidade geral. O fato de haver hierarquias não é tão grave, pois há colaboração entre os “desiguais”.

Rousseau não acreditava que o império das leis era o bastante para que se instaurasse a igualdade. Para ele, a lei dos homens pode ser um instrumento de dominação por parte de governantes corruptos: “Tal foi ou deve ter sido a origem da sociedade e das leis que deram novos entraves ao fraco e novas forças ao rico, destruíram irremediavelmente a liberdade natural, fixaram para sempre a lei da propriedade e da desigualdade, fizeram de uma usurpação sagaz um direito irrevogável e, para lucro de alguns ambiciosos, daí por diante sujeitaram todo o gênero humano ao trabalho, à servidão e à miséria”.

Como se vê, o quadro ideológico na França pré-revolucionária era bastante complexo. E talvez fosse de fato necessário que a revolta dos pobres infelizes eclodisse com violência para mudar o sentido das palavras liberdade e igualdade. E, com elas, a própria história.

__________

* Este texto foi originalmente escrito por Thomaz Kawauche e foi publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional no dia 01 de maio de 2014. Thomaz Kawauche é professor da Universidade Federal de Sergipe e autor de Religião e política em Rousseau: o conceito de religião civil (Humanitas, 2013).

Saiba mais Bibliografia

CASSIRER, Ernst. A filosofia do Iluminismo. Campinas: Ed. Unicamp, 1992.

DERATHÉ, Robert. Jean-Jacques Rousseau e a ciência política de seu tempo. São Paulo: Barcarolla, 2009.

NASCIMENTO, Milton Meira do & NASCIMENTO, Maria das Graças de Souza. Iluminismo: a revolução das Luzes. São Paulo: Ática, 2002.

SALINAS FORTES, Luiz Roberto. O Iluminismo e os reis filósofos. São Paulo: Brasiliense, 1981.

SOUZA, Maria das Graças de. Ilustração e história: o pensamento sobre a história no Iluminismo francês. São Paulo: Discurso Editorial, 2001.

TODOROV, Tzvetan. O espírito das Luzes. São Paulo: Barcarolla, 2008.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

As crenças na razão

Texto escrito por Adriana Maamari (*) e originalmente publicado na edição de Maio (2014) da Revista de História da Biblioteca Nacional.

O que há em comum nas obras de autores diversos durante um século inteiro a ponto de justificar uma única denominação para aquele longo percurso intelectual? No século XVIII, esta questão pode ser respondida com o auxílio da metáfora que o batizou: as “Luzes”.

A crença comum dos autores daquele período era a possibilidade de empreender uma passagem da obscuridade à luz, ou das trevas da ignorância à sabedoria. Para isso, era preciso definir um método que realizasse tal proeza. Um método priorizando a razão e a experiência, e não mais as verdades reveladas nas sagradas escrituras e propagadas por autoridades religiosas.

Mas a concordância terminava aí. Os pensadores da época nunca chegaram a uma doutrina comum, capaz de abarcar todas as outras em seu interior. Defendiam diferentes concepções filosófico-políticas. Em resumo, não houve uma unidade de pensamento no século das Luzes, mas sim muitas vozes dissonantes. Por isso é que o Iluminismo não pode ser qualificado como uma doutrina ou unidade teórica.

Cartas persas (1721) e Espírito das leis (1748) foram as obras de Montesquieu que deram início ao Iluminismo. A primeira é redigida a partir de dois protagonistas que vêm de longe, de um contexto não europeu e, portanto, estranho aos valores, aos costumes e às instituições do Velho Mundo. Esta é a maneira que o autor encontra para criticar o seu tempo e apresentar a sua concepção de um mundo melhor. Escrever na forma de romance era característica de muitos filósofos daquele século, inspirados no que Montesquieu havia inaugurado. É uma maneira de tornar a leitura da filosofia leve, prazerosa e acessível. Ela penetra nas consciências sem que o leitor perceba que está se deparando com filosofia e com as questões áridas que tradicionalmente ela se propõe a tratar. O filósofo autor de romances tem, portanto, a esperança de mudar opiniões, atuando pedagogicamente junto ao leitor e transformando o mundo ao seu redor. Tornar o mundo melhor é, por sinal, outra ambição comum aos pensadores iluministas.

Montesquieu é partidário de uma concepção de República muito próxima do modelo dos romanos, diferente do que entendemos hoje deste conceito. Sua concepção filosófico-política apresenta a convicção na forma institucional de se governar, com divisão de poderes (Legislativo, Judiciário e Executivo) e respeito às leis instituídas ou à Constituição do Estado. Mas a virtude política que sustenta é semelhante àquela que encontramos nos antigos, como Sócrates, e inclui a noção de sacrifício, abnegação e autocontenção. A vida política ou republicana, para este pensador, depende da capacidade daqueles que desempenham o poder político de terem a virtude necessária para tanto. Do contrário, teremos um mau governo. Montesquieu também era um filósofo deísta, ou seja, mantinha a crença em Deus.

Voltaire (1694-1778) é também um deísta, admirador da seita religiosa Quaker, que tem origem na Inglaterra e se propaga nos Estados Unidos. Ao escrever principalmente na forma de panfletos e de contos, pretende alcançar a opinião pública em geral, mudá-la, enfim, transformar o mundo. E ele de fato se tornou um filósofo bastante influente e popular, interferindo nos acontecimentos de sua época. A concepção filosófico-política de Voltaire baseia-se no despotismo esclarecido, em que há a confiança num monarca que segue a orientação da razão em suas tomadas de decisão e maneira de governar. 

O despotismo esclarecido também norteia a filosofia de Denis Diderot (1713-1784). A diferença é que este pensador era materialista e ateu. Escreveu romances, alguns deles de literatura libertina. Sua principal obra foi um grande projeto editorial, desenvolvido em parceria com D’Alembert (1717-1783), ao qual se dedicou por muitos anos e que o levou à prisão. Trata-se da Enciclopédia, uma obra inacabada, cujos verbetes foram escritos por vários autores e que se transformou no principal símbolo do pensamento do século XVIII. Na Enciclopédia, o espírito sistemático, o uso da razão e a dúvida permanentemente posta em ação constituem o método para alcançar as verdades comprovadas e demonstráveis. Ao contrário das filosofias do século XVII, que são doutrinas ou grandes sistemas acabados e perfeitos, as filosofias do século XVIII seguem o caminho da investigação constante. São filosofias capazes de sustentar verdades pontuais sobre este ou aquele assunto, mas não têm a pretensão de tratar de todos os domínios já percorridos pelo espírito humano.

No interior da própria Enciclopédia é possível verificar as diferenças, muitas vezes profundas, que marcam os autores do período. Em suas contribuições pontuais, cada qual apresenta distintos posicionamentos sobre um mesmo assunto. Um importante exemplo desta divergência entre os autores está no verbete “Genebra”, redigido por D’Alembert. Nele, o autor elogia o teatro parisiense e a trupe de comediantes franceses. Ao fazer isso, critica a república de Genebra por ter proibido a entrada de atores franceses e a exibição do teatro parisiense na cidade. Rousseau, em resposta, escreve “Carta a d’Alembert”, opondo-se a este filósofo e ao elogio que faz ao teatro parisiense. Rousseau defende a posição do governo genebrino de censurar este gênero de espetáculo, argumentando que a exibição que há nele de vícios e costumes corrompidos, presentes nas grandes cidades como Paris, a um povo virtuoso e de bons costumes como o genebrino poderia levá-lo à degeneração e à decadência moral, estando assim correta a censura que lhe havia sido imposta.

O suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos mais ilustres representantes do período – talvez o maior deles – é ainda o filósofo que mais demarca as diferenças do seu pensamento em relação aos demais. Enquanto Voltaire e Diderot confiam na razão como a faculdade humana que, posta em ação, conduz necessariamente ao progresso, ao bem-estar geral e à felicidade entre os homens, para Rousseau ocorre o contrário. A razão, segundo ele, leva os homens a se distanciarem da natureza e a se corromperem, degenerando-se, inserindo-se no vício e caminhando para a infelicidade. Quanto mais o homem se aperfeiçoa com base na razão, mais ele decai e degenera. Com isso, Rousseau é quase uma antítese do seu século, se quisermos insistir em enquadrá-lo numa definição.

Do ponto de vista filosófico-político, Rousseau também se distancia de todos os outros, pois prefere o governo republicano baseado na vontade geral dos cidadãos. Não se trata propriamente da democracia, mas é algo que se aproxima bastante desse ideário, pois desloca a soberania, que era até então atributo do governante, para o povo, ou seja, os cidadãos que manifestam juntos a vontade geral.

Considerado o último autor do período, Condorcet (1743-1794) produziu uma síntese do legado deixado pelos pensadores anteriores e de seu tempo, como Voltaire e Rousseau. Seu pensamento expressa a confiança na razão como meio de progresso, bem-estar geral e felicidade humana, mas reconhece que nem sempre a história conduz a esse quadro. Há momentos em que a humanidade mergulha em espessas trevas e a razão é impedida de ser exercida. Para Condorcet, a forma de governo mais capaz de dificultar a humanidade de cair novamente na obscuridade e na ignorância é a república, sendo o melhor regime político a democracia representativa. Ele vive a Revolução Francesa e é inclusive o responsável pela concepção do modelo de participação baseado no voto universal – defendido como o meio que permite o acesso de todos à participação política.

Esta imagem do Iluminismo feita de filosofias discordantes se reflete na definição do filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945): o século XVIII leva a filosofia para todos os lugares, sem pedir licença e sem esperar para ser aceita. A filosofia invade tudo e populariza-se. A imagem aqui é a de um rio que enche, transborda e, com a sua força, quebra todos os diques. A filosofia do XVIII rompe as barreiras do preconceito, da ignorância e avança. É a mesma impressão que Kant nos lança sob o lema ou a palavra de ordem “Sapere aude!” “Ousai saber!”.

(*) Adriana Maamari é professora da Universidade Federal de São Carlos e autora da tese O republicanismo democrático de Thomas Paine (USP, 2008).

Saiba mais – Bibliografia

CASSIRER, Ernst. Filosofia do Iluminismo. Campinas: EdUnicamp, 1997.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. “Carta a d´Alembert”. Campinas: EdUnicamp, 1993.
TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. Ensaio sobre Filosofia Ilustrada. São Paulo: Iluminuras, 2004.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O Iluminismo em imagens

As imagens podem ser um interessante recurso para compreendermos os aspectos de determinados períodos da História. No caso do Iluminismo, existem algumas imagens que nos auxiliam na compreensão do papel desempenhado pela ideia de razão na Europa durante os séculos XVII e XVIII. Vejamos abaixo alguns exemplos:

Imagem 1 - O Sono da razão produz monstros


A imagem acima é uma gravura feita pelo espanhol Francisco de Goya, em 1799. Trata-se de uma representação dos perigos que pairam sobre o homem quando a razão adormece. A gravura, portanto, faz uma referência à importância do uso da razão para o ser humano, o que nos remete à perspectiva iluminista.
Aos amantes da sétima arte, recomendamos o filme "Sombras de Goya" (2006), dirigido por Milos Forman e que conta com as presenças de Natalie Portman e Javier Bardem no elenco. O filme retrata a época em que viveu Goya, com destaque para a Inquisição espanhola.
Vale lembrar que toda a obra de Francisco de Goya está disponível na internet por meio do site do Museu do Prado, situado na Espanha. Para ter acesso a todo este material, clique aqui.


Imagem 2 - O projeto de uma cidade


A figura acima mostra a perspectiva da cidade de Chaux, conforme o projeto do arquiteto francês Claude-Nicolas Ledoux (1736-1806). Repare que as construções são distribuídas racionalmente. A planta da cidade é geométrica. Há uma grande praça central onde aparentemente estão situados os edifícios públicos. Todas as grandes vias de transporte convergem para a região central da cidade. Em torno do centro, temos grandes propriedades e alamedas. Mais além, está a zona suburbana. Na imagem, todas as partes da cidade parecem estar integradas e organizadas de maneira funcional. Podemos dizer que neste projeto o espaço urbano é organizado racionalmente. Aqui, a razão ajuda a moldar a cidade.


Imagem 3 - O gabinete de Bonnier de la Mosson


A imagem acima é uma pintura de autoria do francês Jacques de Lajoue, datada de 1734. Nela, há uma prateleira contendo estruturas mecânicas, enquanto que em outras estão objetos óticos, pedras ou rochas. Nota-se a presença de esculturas e de um homem lendo um livro. Todos os objetos existentes no Gabinete estão dispostos de maneira racional, organizados e classificados a partir de critérios claros. É um Gabinete da época do Iluminismo.


Imagem 4 - Experiência com pássaro em bomba de ar


A figura acima é uma pintura produzida por Joseph Wright, em 1768. Ela mostra um grupo de pessoas observando uma experiência científica. Na cúpula de vidro há um pássaro. No alto, há uma válvula. O animal morrerá por falta de oxigênio se o ar for bombeado para fora. O objetivo da experiência é provar o efeito da presença ou ausência do oxigênio. Na tela, a ciência desperta diferentes reações: as meninas estão apreensivas com a iminente morte do pássaro; um homem parece querer convencer as duas garotas de que sacrifícios precisam ser feitos em nome do amor à ciência; o filósofo pesquisador no centro do quadro está totalmente atento à experiência; o casal de namorados à esquerda está indiferente ao que acontece na cena; nos demais, percebe-se o fascínio pela ciência e pela razão.


Imagem 5 - O marquês de Pombal


A imagem acima é uma pintura de autoria de Louis-Michel van Loo, datada de 1766. Nela temos a figura de Marquês de Pombal, personagem importante do despotismo esclarecido em Portugal. Em 1755, Lisboa foi surpreendida por um terremoto que destruiu boa parte da cidade. A pintura acima retrata o Marquês de Pombal como o responsável pela reconstrução do lugar. Por meio do quadro, Louis-Michel van Loo procurou reforçar a ideia de que Portugal era uma monarquia ilustrada e administrada com planejamento científico. Na tela, vemos o Marquês apontando para a cidade como se estivesse apresentando orgulhosamente a Lisboa que foi reconstruída. Em primeiro plano, vê-se os projetos de reconstrução da cidade. A pintura retrata o triunfo da razão humana sobre o terremoto.


Imagem 6 - A lição de anatomia do doutor Tulp


Não se pode entender o Iluminismo sem pensar o papel que teve a Holanda na elaboração e na circulação de ideias que inspirariam o "Século das Luzes". Em meados do século XVII, havia na Holanda uma efervescência cultural muito grande: poetas, intelectuais, músicos e filósofos organizavam-se em associações para difundir suas obras e defender seus interesses. Dois dos filósofos considerados precursores do Iluminismo chegaram a residir na Holanda: John Locke e René Descartes.
No território holandês também viviam e trabalhavam alguns dos melhores pintores do norte da Europa, entre os quais destaca-se Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), autor da pintura acima.
A dissecação de cadáveres foi proibida pela Igreja Católica durante muito tempo, passando a ser timidamente praticada a partir do século XV. Foi no século XVII que as primeiras autópsias públicas começaram a ser praticadas. A autópsia retratada por Rembrandt em seu quadro aconteceu no dia 31 de janeiro de 1632, em Amsterdã, Holanda. Aulas como essa eram raras - ocorriam uma ou duas vezes ao ano - e elas aconteciam apenas no inverno, pois o frio permitia que o cadáver fosse preservado por mais tempo. Tais dissecações eram um verdadeiro acontecimento social, pois as aulas eram abertas não apenas para os cirurgiões, mas para o público em geral (estudantes, burgueses, personalidades locais), que pagava ingresso para assistir ao evento.
No quadro, não se vê o público, mas apenas os cirurgiões. O esboço do braço dissecado foi feito no próprio local em que ocorreu a autópsia. Os retratos dos cirurgiões foram feitos no ateliê de Rembrandt, em um momento posterior.
Jacob de Witt, diretor da guilda de cirurgiões de Amsterdã, e Mathys Kalkieb, um cirurgião, são retratados demonstrando grande interesse pela aula do doutor Tulp. O colarinho branco utilizado pelos personagens era comum em eventos oficiais e solenes. O doutor Tulp é o único que usa chapéu, fato que revela a sua ascendência sobre os demais. Médico e professor, Nicolas Tulp (1593-1674) era o presidente da guilda dos cirurgiões de Amsterdã e foi ele quem encomendou o quadro a Rembrandt. Provavelmente, o quadro foi encomendado para comemorar o primeiro ano das aulas de anatomia ministradas por Tulp na cidade. Para os retratados, aparecer na pintura poderia significar um melhor reconhecimento profissional. Um dos personagens segura uma lista onde aparecem os nomes das pessoas que acompanharam a autópsia. Essa relação de nomes não existia inicialmente, e foi incluída posteriormente pelo artista. O doutor Tulp reproduz o movimento dos dedos da mão autopsiada quando o músculo que está sendo pinçado é contraído. O músculo flexor superficial dos dedos origina-se no lado interno do cotovelo, mas o pintor o retratou originando-se externamente. No canto inferior direito do quadro, vê-se o livro Da organização do corpo humano, que é usado como referência para a aula do doutor Tulp. Esse livro foi escrito por Andreas Vesalius e foi publicado em 1543, sendo considerado a primeira grande obra ricamente ilustrada a respeito da anatomia humana.
Geralmente, os quadros que retratavam as autópsias não mostravam o rosto do cadáver, mas Rembrandt decidiu mostrar o rosto do morto encoberto parcialmente por uma sombra. O corpo autopsiado era do fabricante de flechas Adriaan Adriaanszoon, um homem que havia sido condenado à morte na forca por ter furtado um casaco, em Amsterdã, e espancado a vítima. As dissecações públicas só eram permitidas em corpos de criminosos.


Para pensar...

Imagens como as mostradas acima parecem enaltecer a razão e a ciência. De fato, ao longo dos tempos os homens demonstraram em várias oportunidades um certo orgulho em relação à sua capacidade de pensar, de desenvolver tecnologias e de produzir ciência. No Iluminismo, por exemplo, havia uma noção de que a humanidade estaria caminhando em direção a uma realidade melhor, no sentido de um progresso.

Ora, no campo das manifestações artísticas houve a produção de obras que não enalteceram o potencial da razão, mas preferiram seguir uma atitude bem diferente, mostrando um outro aspecto da condição humana, a saber, a transitoriedade da vida. Um ótimo exemplo disso são as pinturas do tipo Vanitas, como o quadro abaixo:

Imagem 7 - Vanitas


A pintura acima é de autoria de Edwaert Collier, e é datada de 1693. Trata-se de uma obra que procura lembrar a transitoriedade da vida humana. Não importa o tamanho das realizações do homem no campo das ciências e da arte - os vários objetos sobre a mesa - a vida humana é frágil e um dia todos nós morreremos. No quadro, o crânio transmite justamente essa ideia de finitude da vida humana. É como se Collier nos alertasse: "Vangloriem-se menos de sua razão e de suas capacidades, todos vocês vão morrer um dia".

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Diderot... Voltaire... e a trajetória de uma frase

Você provavelmente já se deparou com uma frase parecida com esta: "O homem só será livre quando o último rei for estrangulado com as entranhas do último padre". Pois bem, já vi esta frase ser atribuída a Diderot e também a Voltaire, dois pensadores iluministas. Afinal, quem é o autor da frase?

Segue abaixo um interessante texto de Giba Assis Brasil sobre a trajetória e a autoria da frase:


"O último rei e o último padre", por Giba Assis Brasil


Quem for procurar no Google, e se contentar com a primeira página de resultados, vai descobrir que a frase "O mundo (ou o homem) só será livre (ou deixará de ser miserável) quando o último rei (ou déspota) for enforcado nas tripas do último padre" é de Diderot (ou Voltaire).


Mas a primeira página do Google é apenas um retrato da internet: uma babilônia de dados confusos, repetidos, contraditórios, inúteis e muitas vezes incorretos. Se fizermos o mesmo tipo de pesquisa apressada com, por exemplo, "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor eu nada seria", vamos chegar à conclusão de que a Primeira Epístola aos Coríntios foi escrita pelo Renato Russo.



Além da primeira página do Google, aparece a verdadeira riqueza oculta da internet: informação quase ilimitada, a biblioteca de Alexandria dos tempos modernos, eternamente em construção. Os únicos requisitos para chegar lá são curiosidade, paciência e um pouco de sorte.



A frase original em francês sobre reis e padres é um pouco diferente, tão violenta quanto a que chegou aos nossos dias, mas de um ponto de vista individual e não vinculado a uma possível libertação da humanidade: "Eu gostaria, e este será o último e o mais ardente dos meus desejos, eu gostaria que o último rei fosse estrangulado com as tripas do último padre." ("Je voudrais, et ce sera le dernier et le plus ardent de mes souhaits, je voudrais que le dernier des rois fût étranglé avec les boyaux du dernier prêtre.")



Desde 1729, ano em que a frase foi publicada, duas grandes revoluções e muitos embates menores arrancaram as tripas de muita gente, até mesmo de alguns reis e padres. E a frase foi sendo modificada de acordo com as conveniências do momento: "o mundo só será livre quando..." marca a crença na "revolução final" que viria libertar a humanidade de séculos de opressão; o ato criminoso, mas individual, do estrangulamento foi substituído pela forca, provavelmente numa tentativa de dar um caráter ritual à violência dos processos históricos; o próprio rei a ser assassinado deixou de ser um rei qualquer e foi especificado como déspota, certamente num período em que se supunha possível uma monarquia democrática ou "progressista". Mas o padre continuou lá, morto e eviscerado, em quase todas as versões, mesmo depois de João XXIII e do Concílio de Puebla.



E o mais surpreendente em torno dessa frase não é tanto o fato de ela ser anterior a Diderot, Voltaire e o enciclopedismo, mas que seu autor, na verdade, tenha sido um padre.



Jean Meslier (1664-1729), cura da aldeia de Étrépigny, passou seus últimos anos de vida rezando missas, celebrando batizados e matrimônios, enquanto, à noite, preparava uma tentativa de extrema unção do Estado católico francês: seu livro de memórias, de título quilométrico, geralmente reduzido para "Memória dos pensamentos e sentimentos do abade Jean Meslier", tratando dos "erros e abusos dos governos" e principalmente da "falsidade de todos os deuses e religiões do mundo". Foi neste livro que nasceu a frase, o "desejo mais ardente", as tripas de uns no pescoço dos outros.



Publicado postumamente, o livro do "padre ateu" Meslier tornou-o um dos precursores do iluminismo. Voltaire, então com 35 anos, foi seu primeiro editor, fazendo circular por toda a França suas ideias subversivas e anticatólicas numa versão reduzida, "Extrait des sentiments de Jean Meslier".



Diderot, que na época tinha apenas 14 anos, mais tarde escreveria (em "Les Éleuthéromanes") um poema em alusão direta à frase mais violenta e mais conhecida do "pai do ateísmo": "E suas mãos arrancarão as entranhas do padre / na falta de uma corda para estrangular os reis." ("Et ses mains ourdiraient les entrailles du prêtre / Au défaut d'un cordon pour étrangler les rois.") Violento sem dúvida, eventualmente visionário, mas sem a menção aos "últimos" e menos ainda à necessidade de mortes para a redenção dos sobreviventes.



Foi Jean-François de la Harpe, que só iria nascer em 1739, 12 anos após a morte de Meslier, o responsável pela confusão em torno da autoria da frase. La Harpe, um pós-iluminista que, ao contrário de Voltaire e Diderot, viveu para presenciar a Revolução de 1789 e o terror jacobino, tornou-se no final da vida um reacionário defensor da monarquia.
Em seu "Cours de Littérature Ancienne et Moderne" (1799), La Harpe alterou os versos de Diderot, citando-os assim: "E com as tripas do último padre / estrangulemos o pescoço do último rei." ("Et des boyaux du dernier prêtre / Serrons le cou du dernier roi.") Engano histórico? Talvez. Mas não me parece tendencioso ver aí uma deliberada intenção de acusar os iluministas (e por extensão os intelectuais, as ideias) pelos rumos violentos da História.



Seja como for, a frase seguiu seu rumo, às vezes usada para justificar assassinatos, outras para exprimir ódios mortais ou simples revoltas, às vezes apenas para atribuir culpas. O livro de Meslier, que eu saiba, só foi publicado em português em 2003, pela editora Antígona, de Lisboa, com tradução de Luís Leitão. Em 2004, Paulo Jonas de Lima Piva doutorou-se em Filosofia na USP com uma tese sobre "os manuscritos de um padre anticristão e ateu: materialismo e revolta em Jean Meslier".



Uma das muitas e criativas pichações de maio de 1968 em Paris propunha uma variação interessante para o desejo de Meslier: "E depois de estrangular o último burocrata nas tripas do último sociólogo, ainda teremos problemas?" ("Lorsque nous aurons étranglé le dernier bureaucrate avec les tripes du dernier sociologue, aurons-nous encore des problèmes?").


Quanto aos iluministas, eu prefiro ficar com outra frase de Voltaire, sem tripas, sem enforcamentos, sem mísseis: "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo." É só estar preparado para ouvir (e ler) muita bobagem.

(Texto originalmente publicado no Portal Terra, em 2006).