Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rebelião das Massas: a origem dos movimentos sociais*

*ATENÇÃO: Este texto foi escrito por Voltaire Schilling, tendo sido originalmente publicado no portal Terra, no dia 11 de julho de 2013. Para ler a publicação original, clique aqui.


As massas e a história 

Descontando-se os inúmeros e praticamente incontáveis levantes de massas que ocorreram na história da humanidade, sob o ponto de vista da época contemporânea, pode-se fixar sua erupção na política a partir de dois eventos muito próximos. Um deles, a Boston Tea Party (A Festa do Chá em Boston, que ocorreu em 1773), um tanto antes da eclosão da Revolução Americana (1776-1783); o outro, a Queda da Bastilha, de 14 de julho de 1789, foi responsável pelo desabamento de uma monarquia que já existia há mais de 13 séculos na França.

Ambos os acontecimentos são marcos da espetacular ação das massas revolucionárias e da entrada delas definitivamente no universo da política, do qual por séculos estiveram ausentes. Esta, ao longo dos tempos, tinha sido monopolizada por aristocratas, fidalgos e plutocratas em geral, personagens das elites do seu tempo que definiam os destinos dos povos sem fazer-lhes consulta sequer.

Desta feita, era o homem comum, uma multidão de anônimos, quem arrombava as portas daquele Olimpo, obrigando-o a ouvir e a atender suas demandas. O filósofo Hegel, em carta a um amigo, registrou esta nova força que punha o mundo em andamento, afirmando:

Esta erupção das massas generalizou-se ainda mais por ocasião da Revolução de 1848 - a "Primavera dos povos" -, movimento extraordinário que fez tremer quase que todas as capitais e cidades mais importantes da Europa, com reflexos inclusive na América Latina.

Para Elias Canetti, autor de um livro clássico sobre o assunto, Masse und Macht (Massa e Poder, 1960), esta excitação e presença das multidões nas ruas protestando ou insurgindo-se resultou da libertação do controle que a religião exercia sobre elas até a eclosão da Revolução Francesa de 1789. Desde então foram incontáveis os "estouros" que ocorreram em várias partes do mundo e que, tudo indica, não mais cessarão.


Marx exalta as massas 

Karl Marx foi o primeiro filósofo moderno a captar as potencialidades transformadoras da multidão em marcha. Percebeu que a elas, e somente a elas, e não aos heróis das classes tradicionais, cabia "mudar o mundo", conduzindo-o para uma etapa superior da história da humanidade. Propôs, então, uma aliança entre os pensantes, os filósofos, os intelectuais, com a maioria sofredora, o proletariado moderno. Afinal, eram "as massas quem fazem a história", assegurou.

Este entusiasmo arrefeceu um tanto, não do lado de Marx e de seu companheiro Engels, mas de larga parte da opinião pública em geral quando dos dramáticos episódios provocados pela Comuna de Paris, ocorridos em março de 1871. Naquela oportunidade, milhares de trabalhadores da capital da França, homens, mulheres e crianças, levantaram-se em armas contra o governo de Versalhes que fizera concessões humilhantes aos alemães vitoriosos na Guerra Franco-Prussiana (1870).

A capital francesa ficou parcialmente destruída, com os prédios e monumentos incendiados ou postos abaixo. Para Marx, a Comuna, ainda que vencida e esmagada, representou, pela primeira vez na história, ainda que em esboço, o que certamente viria a ser um governo do proletariado.

Em Paris, a Massa tornara-se Poder mesmo que fora por apenas 72 dias. Ela "tomara o céu de assalto", segundo ele.

O sonho, ainda que inesperado para a maioria dos seguidores de Marx, paradoxalmente se fez realizado não na desenvolvida e civilizada Europa Ocidental, como ele previra, mas na bárbara Rússia dos czares autocratas e dos mujiques miseráveis. Lenin, líder bolchevique, assegurou que, a partir de 25 de outubro de 1917, as massas conduzidas por seu partido estavam definitivamente no poder.

São Petersburgo e Moscou transformaram-se em palcos de enormes manifestações, marchas se sucediam, turbilhões humanos varriam os veneráveis logradouros tanto da capital da Rússia asiática como da bela cidade de Pedro. Vendo aquele espetáculo, com milhares de pessoas gritando slogans ou simplesmente andando, o linguista Mikhail Bakhtin desenvolveu na década de 1920 o conceito de carnavalização e polifonia da obra literária. Diversas vozes nela se fazem presentes como se fora nos ruidosos tempos das feiras medievais.


A origem socioeconômica das massas 

A presença das massas, das extraordinárias multidões humanas, é um fenômeno mais ou menos recente na história. Anteriormente à Revolução Industrial, a população era majoritariamente rural. Encontrava-se espalhada pelo campo, vivendo em pequenas aldeias ou vilarejos isolados, com escasso número de habitantes. Não tinha como haver significativas concentrações como as que começaram a emergir nos conglomerados urbanos da Europa Ocidental entre 1750 e 1850. A chave para se entender a impactante presença delas, das multidões, tem como origem tecnológica a máquina a vapor, surgida em 1765.

O invento de James Watt teve como efeito direto a possibilidade de se instalar fábricas nos cinturões das cidades, liberando-as da necessidade de serem montadas à beira de rios ou riachos, muitos deles distantes do mercado consumidor. Com os engenhos veio a mão-de-obra. Milhares de operários começaram a se concentrar ao redor delas, tornando as fábricas o centro da sua vida econômica e social.

Na esteira delas, ampliou-se o setor de prestação de serviços, o comércio com suas lojas, os armazéns, as galerias, o setor financeiro com sua rede de bancos, o lazer com seus cafés, restaurantes, teatros etc.

Londres, por exemplo, capital do Reino Unido, quase duplicou a população em apenas um século: eram 527 mil habitantes que saltaram para 1.096.784 quando do primeiro censo oficial em 1801. Não sendo muito diferente, ainda em tempo diverso, do que ocorreu em Nova York, Paris, Berlim, Milão...

Agigantaram-se os centros industrializados no Ocidente igualmente pelo efeito da imigração interna. Milhares de camponeses, de lavradores e de gente do campo em geral, aproveitando-se da dissolução da Ordem Feudal, abandonaram seus sítios natais para tentar a vida nas metrópoles. A soma do crescimento natural com a chegada das levas de mão-de-obra do interior é que possibilitou a proliferação das megaconcentrações urbanas poucas vezes vistas anteriormente na história.


O desconforto com as massas 

Para os antigos citadinos causava estranheza e repulsa a repentina mudança que o crescimento econômico e populacional trouxe. Do dia para noite, em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Milão, Manchester ou Liverpool, os cidadãos tiveram que passar a conviver com estranhos que ninguém sabia de onde vieram. Desconheciam modos urbanos, em geral eram rudes e incivilizados, agrupavam-se nos arrabaldes em meio à sujeira e à doença em casebres medonhos e fétidos, sem higiene alguma, e pareciam não se incomodar em conviver com esgotos ao ar livre. Manifestavam dificuldades de adaptação a uma cidade erguida com pedras e não com troncos e palha como o local de onde vieram.

Quem por primeiro usou o termo "classes perigosas" foi H. A. Frégier, chefe de polícia francês no livro Des classes dangereuses de la population dans les grandes villes et des moyens de lês rendre meilleures (1840), para definir setores sociais propensos à criminalidade. O medo passou a ser constante para os habitantes das classes média e alta da cidade. Assaltos e roubos tornaram-se habituais. O crime vicejou como se fora um envenenamento da civilidade. A superpopulação em determinados bairros da periferia acoitava e irradiava ondas pestíferas que enchiam os demais de pavor. Surgiam as classes perigosas (ver Louis Chevalier: Les classes labouriesues et les classes dangereuxes ).


O gênio contra a massa 

Coube ao escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle, fortemente influenciado pelo romantismo alemão, com sua Teoria do Grande Homem exposta no livro Heroes, Hero-worship, and the Heroic in History (Sobre Heróis: O heroísmo e a veneração do herói na História, 1841), tratar de contrapor a figura do herói à presença ascendente das massas.

Para ele, o homem comum, a célula da massa, de nada valia a não ser como peão ou degrau para assegurar a projeção do herói e respaldar sua realização. Este é quem fazia a História. A consequência política disto foi sua condenação à democracia, "império do vulgar" na terra, e a consequente apologia da elite.

Vários outros escritores alemães que o antecederam já haviam manifestado sua ojeriza à presença da massa e do ser anônimo que proliferava naquela época, enaltecendo ao revés o Ser Excepcional. Nietzsche, após ter ficado profundamente chocado com os eventos trágicos da Comuna de Paris, foi quem melhor revelou este pavor à multidão, apostando no surgimento futuro de um übermensch, o Super-Homem (Assim falou Zaratustra, 1888). O fenômeno extraordinário que, desprezando as normas de conduta que regiam a maioria, conduziria o destino da humanidade no futuro (Além do Bem e do Mal). O pensamento contra-revolucionário e elitista dele forneceu os argumentos para uma formidável literatura anti-massa que surgiu na transição do século 19 para o 20.


O irracionalismo da massa

Coube ao sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, por meio do seu famoso ensaio La psychologie des foules (Psicologia das Multidões, de 1895), demonizar as massas. Para ele, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, os imensos ajuntamentos humanos que se decidiam a marchar e a protestar nada mais eram senão que o irracionalismo posto em ação. Mesmo quando se mobilizavam por uma causa patriótica ou altruísta nada traziam de bom, a não ser a depredação e a desordem. Quando não a subversão social.

E isto, entre outras causas, se devia a metamorfose que ocorre com o indivíduo que adere à multidão contestadora. De alguém tímido, acanhado, normalmente respeitador das regras, ele, imerso em meio aquele mar humano que seguia pela avenida a fora que o tornava um anônimo, libertava-se facilmente das convenções e das noções de civilidade que recebera. Simplesmente sucumbe ao número, à "alma da multidão".

O criminalista e penalista italiano Scipio Sighele, discípulo de Cesare Lombroso, retomou o tema e o ampliou no seu ensaio La folla delinquente (As classes criminosas, 1891). Não tinha contemplação para com as multidões, qualquer ajuntamento além do razoável tendia inevitavelmente ao comportamento criminoso. Logo nos deparamos com sua vociferação, destravado, a fúria vai tomando conta dele e não tarda para que junte pedras pelo chão para lançá-las contra as vitrines ou contra as forças policiais. O manso vira fera. A massa, aceleradamente excitada, facilmente regride ao comportamento de uma manada, todos agindo do mesmo modo instintivo sem o amparo de qualquer raciocínio, e o indivíduo, como que um possesso, retorna ao estado da natureza hobbesiana ("o lobo do homem é o outro homem").


Massa e Revolução 

A surpreendente Revolução Russa de janeiro de 1905 abriu intenso debate em meio ao movimento socialista europeu, particularmente entre os teóricos social-democratas alemães (reformistas ou revolucionários) e os socialistas russos que participaram ativamente dos eventos que varreram o Império do Czar durante aquele ano. Perdida a Guerra russo-japonesa (1904), o governo de Nicolau II, logo em seguida ao massacre do Domingo Sangrento do dia 9 de janeiro (centenas de manifestantes foram fuzilados pela Guarda Cossaca em frente ao palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo), se viu frente a uma violenta contestação.

Não houve bairro proletário da Rússia, pelo menos nos grandes centros urbanos, que não tenha saído em peso às ruas para demonstrar sua raiva. Greves espontâneas eclodiram por todos os lados. As queixas pela inépcia militar logo se transferiram para uma generalizada confrontação contra o regime czarista como um todo. Tornou-se o maior levante de massas da Europa de então, muitas vezes superior à Comuna de Paris de 1871.

Rosa Luxemburgo, a famosa social-democrata de esquerda, judia polonesa que militava na Alemanha, exultou com o "espontaneismo" das classes trabalhadoras russas. Vislumbrou naquelas ações o futuro da Revolução Socialista. Concluiu que era delas de onde partiria a iniciativa da derrubada da ordem aristocrática/burguesa e não das direções acomodadas dos partidos socialistas europeus, um tanto paralisados pelos cuidados burocráticos e pela vida rotineira.

Vladmir Lenin chegou a outra conclusão. De nada serviam aquelas explosões espontâneas se não houvesse uma organização disciplinada e hierarquizada que desse um sentido àquilo, que conduzisse aquela enorme energia despertada pela multidão em fúria e disposta a tudo para tomar o poder pela força.

Anos mais tarde, Trotsky, que aderira a Lenin, explicou no seu livro História da Revolução Russa – vol. I, detalhadamente a concepção leninista por meio da metáfora "do vapor e do êmulo". A massa em ebulição gerava uma enorme energia, mas que se não houvesse um êmulo para dirigi-la, toda a pressão gerada em pouco tempo se esvaía. O espontaneismo é fantástico, mas em nada redunda de positivo se não for orientado para um determinado fim (no caso, tomar de assalto o poder). Como os bolcheviques terminaram fazendo em outubro de 1917, na Segunda Revolução.


A massa contra-revolucionária 

Certamente que um dos mais desconcertantes fenômenos políticos contemporâneos foi a plena adesão das massas aos movimentos nazi-fascistas que surgiram a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Até então as aparições das multidões nas ruas em protesto sempre eram tidas como uma ameaça vinda da esquerda, dos que empunhavam as bandeiras vermelhas ou negras da revolução comunista ou anarquista. Eis que, acaudilhadas por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha e por epígonos deles em outras partes do mundo, as massas postaram-se em marcha a serviço da contra-revolução. Abrigaram-se sob as bandeiras da antidemocracia e do anticomunismo para a mais total perplexidade dos teóricos da esquerda que até hoje jamais conseguiram elucidar esse mistério.


BIBLIOGRAFIA:

Canetti, Elias. Massa e Poder. Brasília: Editora da Universidade de Brasília/Melhoramentos, 1981.

Chevalier, Louis. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris pendant la première moitié du XIXe siècle. Paris. Edition Perrin, 2002.

Engels, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007.

Gasset, José Ortega y. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Hook, Sidney. O herói na História. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1962.

Hugo, Victor. Os miseráveis. São Paulo: Hemus, 1979.

Le Bon, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Marx, Karl. A Guerra civil na França, in Obras Completas. Lisboa: Edições Avante; Moscou: Editorial Progresso, vol II, 1983.

Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multidão - Guerra e democracia na era do império. São Paulo: Editora Record, 2005.

Reich, Wilhelm. Psicologia das massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

Sighele, Scipio. A multidão criminosa. Ensaio de Psicologia Coletiva. Imprenta: Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954.

Sue, Eugene. Les Mystères de Paris. Paris: Editions Gallimard, 2009.

Tchakhotine, Sergei. A mistificação das massas pela propaganda política. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.

Trotski, Léon. Histoire de la Révolution Russe. Paris: Éditions du Seuil, 1950.



segunda-feira, 4 de abril de 2016

A Revolução Francesa vista de diferentes maneiras

A Revolução Francesa enquanto um complexo processo histórico suscitou as mais diferentes interpretações por parte dos historiadores ao longo do tempo. Assim, cada pesquisador analisou os acontecimentos que se desenrolaram na França no final do século XVIII fazendo distintos “recortes” na realidade.

Muitos historiadores concordam que a Revolução Francesa teve essencialmente um caráter burguês, embora também tenha recebido o apoio de camponeses, da população pobre urbana e de alguns integrantes do clero e da nobreza. Todavia, não há um consenso absoluto sobre tal caráter burguês da Revolução.

Outro ponto que já gerou grandes discussões é a relação das ideias do Iluminismo com o desenrolar da Revolução Francesa. Segundo certos pesquisadores, os ideais da Revolução eram baseados no Iluminismo. Na obra As origens intelectuais da Revolução Francesa (1933), Daniel Mornet (1878-1954) defendeu a ideia de que havia na França uma circulação das ideias iluministas que percorria hierarquicamente o seguinte caminho: elites → burguesia → pequena burguesia → povo. Ainda de acordo com Mornet, as ideias iluministas eram difundidas a partir de Paris, e eram levadas da capital em direção às regiões periféricas da França. A conclusão do autor é que o Iluminismo foi essencial para a derrubada do absolutismo em solo francês. A interpretação feita por Mornet foi reproduzida por diversos outros historiadores, assim, muitos pesquisadores argumentaram que a própria Declaração dos Direitos do Homem apresentava um conteúdo baseado nas ideias iluministas.

Mas a análise feita por Mornet não foi aceita por todos os historiadores, pois certos pesquisadores questionaram a ideia de que o Iluminismo levou por si só à Revolução Francesa. Um argumento comum em tais críticas diz respeito ao fato de que, para muitos dos iluministas, a figura de um déspota esclarecido, ou seja, o rei, é quem deveria impulsionar o governo.

Na época do bicentenário da Revolução Francesa, já no final do século XX, o historiador Roger Chartier (1945-) publicou o livro As origens culturais da Revolução Francesa, no qual ele inverteu a forma da análise feita por Mornet. Para Chartier, não foi o Iluminismo que gerou a Revolução Francesa, mas o contrário, ou seja, o processo revolucionário é que gerou o Iluminismo, pois, de acordo com o autor, os revolucionários é que selecionaram alguns pensadores tais como Voltaire, Rousseau, Mably e Raynal, para justificar e legitimar a Revolução, no intuito de demonstrar que eles – os revolucionários de 1789 – estariam apenas colocando em prática as ideias de tais filósofos “das Luzes”. Ademais, Chartier ainda questionou em sua obra a capacidade de livros terem provocado a Revolução Francesa, argumentando que os livros de pensadores iluministas eram lidos tanto por apoiadores quanto por opositores do rei da França, ou seja, tais livros não foram uma condição sine qua non para o início da Revolução Francesa, uma vez que eles eram lidos e interpretados de distintas formas pelos seus diferentes leitores.

Seguindo uma linha de raciocínio próxima à de Roger Chartier, a historiadora francesa contemporânea Joëlle Chevé também afirmou que os revolucionários de 1789 na França precisavam de um suporte teórico para fundamentar e legitimar as suas ações, e que o Iluminismo foi escolhido por eles para isso. Ademais, Chevé também salientou em distintas pesquisas que muitos dos chamados “enciclopedistas”, ou seja, os pensadores ligados à produção dos volumes da Enciclopédia (obra coletiva organizada por Denis Diderot e Jean le Rond d’Alembert) não eram favoráveis à ideia de revolução, uma vez que eles se consideravam os protótipos do novo gênero humano. Tal concepção elitista estava afastada da preocupação com a questão da igualdade universal. Com tais argumentos, a autora defendeu a ideia de que não há razão para afirmar que o Iluminismo foi preponderante no processo que levou à Revolução Francesa. De acordo com a pesquisadora, a própria falência do Estado Absolutista e o enfraquecimento das instituições já são suficientes para explicar o fim do Antigo Regime na França.

Quanto ao caráter burguês da Revolução Francesa, este é realmente um tema que gerou distintas interpretações por parte dos estudiosos. O norte-americano Robert Darnton (1939-) argumentou que a oposição entre a nobreza e a burguesia naquele contexto histórico não era tão clara. Assim, a partir de tal perspectiva, é importante lembrarmos que muitos nobres começaram a fazer negócios no campo do comércio, aburguesando-se, enquanto que houve casos de burgueses que estavam interessados em garantir privilégios e até mesmo em tornar-se nobres, comprando inclusive títulos de nobreza para isso.

Por sua vez, o historiador francês François Furet (1927-1997), autor da obra Pensando a Revolução Francesa (1978) criticou a caracterização da referida Revolução como uma revolução burguesa porque, segundo ele, houve na época várias revoluções em andamento ao mesmo tempo, e não apenas uma, já que as classes populares urbanas e os camponeses fizeram as suas próprias revoluções. Os camponeses, por exemplo, adotaram em determinados momentos uma postura até mesmo reacionária, defendendo a volta de certas garantias feudais de que gozavam no passado. Ademais, segundo Furet, a aristocracia esclarecida, que protegeu os iluministas, talvez tenha tido um papel mais importante que o da burguesia, que se mostrou bastante conservadora em diversos momentos da Revolução Francesa.

Cabe mencionar ainda a análise feita pelo historiador inglês Eric Hobsbawm (1917-2012) a respeito da Revolução Francesa que está presente em sua obra A Era das Revoluções (1962). Para ele, embora a Revolução não tenha sido o produto de um único partido, houve um consenso de ideias entre a burguesia e o liberalismo iluminista. Os burgueses tiveram, de acordo com Hobsbawm, um papel fundamental na Revolução, uma vez que tinham uma forte presença política e intelectual junto ao Terceiro Estado, tendo a burguesia sido capaz – contando para isto com o apoio dos camponeses e dos trabalhadores – de fazer o rei convocar os Estados Gerais.

Como se vê, são muitas as interpretações a respeito da Revolução Francesa. Não se trata de escolhermos a visão mais “correta” acerca de tal acontecimento histórico, mas de conhecermos os diferentes pontos de vista interpretativos sobre o assunto, de modo que possamos compreender a grande complexidade que envolveu tal processo. O importante é percebermos que o tipo da interpretação historiográfica está relacionado aos critérios que cada historiador adota para analisar determinado processo histórico. No intuito de deixarmos mais clara esta nossa última observação, façamos agora a leitura de dois trechos extraídos dos textos de diferentes historiadores que se debruçaram sobre o tema da Revolução Francesa. Vejamos:

Texto 1 - “Se não é certo que a França estivesse prestes a alcançar a Inglaterra em 1789, o balanço econômico do período revolucionário é, ainda assim, negativo, incluindo, entre outros, fenômenos de desindustrialização e desastre do comércio marítimo e colonial. A recuperação napoleônica foi insuficiente: em 1815, expandira-se a distância entre a França e uma Inglaterra definitivamente dona dos mares e dominante em todos os circuitos comerciais. A revolução jurídica contribuiu para liberar – às custas de uma miséria notoriamente maior para os mais desfavorecidos – certas forças antigamente obstruídas; porém, não se pode considerar modernizador o desenvolvimento considerável da pequena propriedade agrícola induzido pela Revolução. Ademais, o período revolucionário e imperial parece ter enraizado comportamentos pouco favoráveis ao desenvolvimento econômico, a começar pelo gosto excessivo das elites pelas carreiras na administração pública e do exército.”(BLUCHE, Frédéric [et al.]. Revolução Francesa. Porto Alegre: L&PM, 2009, p. 141.)

Texto 2 - “Levando em consideração seus resultados gerais, a Revolução Inglesa desempenhou na história da Inglaterra um papel equivalente ao da Revolução Francesa na história da França. Ela não só substituiu uma poderosa monarquia absoluta por um governo representativo, porém não democrático, terminando com o domínio exclusivo da Igreja de Estado perseguidora, como também preparou o caminho para o desenvolvimento do capitalismo. Segundo um dos seus mais recentes historiadores, ‘ela colocou um ponto final na Idade Média’. Os últimos vestígios do feudalismo foram varridos, os arrendamentos feudais abolidos, assegurando à classe dos proprietários fundiários a absoluta posse dos seus bens. O confisco e a venda dos bens da Igreja, da Coroa e dos partidários do rei romperam as tradicionais relações feudais no campo e aceleraram a acumulação de capital. As corporações perderam toda importância econômica; os monopólios comerciais, financeiros e industriais foram abolidos. Foi o fim da intervenção paternalista de um governo incompetente; o controle da vida econômica passou para o Parlamento, que favoreceu uma maior liberdade do comércio interno. ‘O Antigo Regime teve de ser derrubado’, escreveu Charles Hill, ‘para que a Inglaterra pudesse conhecer esse desenvolvimento econômico mais livre, necessário para aproveitar ao máximo a riqueza nacional e para obter uma posição de liderança no mundo; para que a política, inclusive a política estrangeira, passasse para o controle daqueles que eram realmente importantes na nação; para que a sociedade se liberasse da obrigação de submeter-se às regras antiquadas, impostas por uma Igreja de Estado perseguidora [...]’. No entanto, a Revolução Inglesa foi muito menos radical que a Francesa: utilizando a expressão de Jaures em sua Histoire socialiste, ela foi ‘estreitamente burguesa e conservadora’ em comparação com a Revolução Francesa, ‘largamente burguesa e democrática’.”(SOBOUL, Albert. Posfácio. In: LEFEBVRE, Georges. O surgimento da Revolução Francesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989, p. 322-323.)

A respeito dos textos citados acima, podemos dizer que no Texto 1 há uma grande preocupação com a questão em torno da temática do desenvolvimento econômico posterior à Revolução Francesa. Assim, de acordo com o primeiro texto, a Revolução Francesa pode até ter produzido mais liberdade, mas não foi capaz de gerar as condições necessárias para o desenvolvimento da indústria e do comércio em escala tal que tornasse a economia francesa uma concorrente importante para os ingleses (pioneiros da Revolução Industrial).

Já o autor do Texto 2 está bastante preocupado com a questão dos avanços sociais, da distribuição de propriedades e dos direitos políticos obtidos por cada revolução. É por isso que Albert Soboul afirma ao final do trecho citado acima que “a Revolução Inglesa foi muito menos radical que a Francesa: utilizando a expressão de Jaures em sua Histoire socialiste, ela foi ‘estreitamente burguesa e conservadora’ em comparação com a Revolução Francesa, ‘largamente burguesa e democrática’.” Na perspectiva de Soboul, a Revolução Francesa foi mais radical que a Revolução Inglesa, ao realizar grandes mudanças na França. Como os critérios adotados para a análise histórica são diferentes em cada um dos dois textos, o Texto 1 nos remete às limitações das conquistas da Revolução Francesa, ao passo que o Texto 2 aborda os avanços obtidos por tal Revolução.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Sugestão de livro: "O Homem Revoltado" (1951), de Albert Camus

Processos históricos como o da Revolução Francesa - com destaque para a fase do Terror - nos levam a refletir sobre uma questão muito importante: é correto que a luta por um ideal sirva de justificativa para que se cometa assassinatos? Não nos esqueçamos: no período em que os jacobinos estiveram no poder durante os anos revolucionários da França no final do século XVIII, uma quantidade enorme de pessoas foi mandada para a guilhotina em nome da "Revolução". Mas a Revolução Francesa não foi a única em que pessoas foram mortas em nome de certas ideias. No século XX, também a Revolução Russa foi um movimento no qual os "revolucionários" mataram muitas pessoas.

Como se comportar diante de tais fatos? Uma instigante reflexão sobre o assunto foi feita pelo intelectual francês Albert Camus (1913-1960) no ensaio O Homem Revoltado, publicado em 1951. Segundo Voltaire Schilling, a obra é “uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789”.[1] Neste livro, Camus faz uma dura crítica aos revolucionários que, em nome de sua(s) Revolução/Revoluções, fazem o uso da violência e atentam contra a vida de outras pessoas.



Para um melhor entendimento da postura assumida pelo francês em seu ensaio, recomendamos a leitura do texto abaixo:


Os Homens Revoltados de Albert Camus

Nascido em Mondovi, interior da Argélia, em 1913, e morto em 1960, em Villeblevin, Albert Camus, escritor e pensador, refletiu profundamente sobre o homem moderno, o homem do século 20. Esquecido por muitos, Camus ainda tem bastante a dizer sobre os movimentos revolucionários e suas implicações para a sociedade.

Em “O Homem Revoltado”, publicado em 1951, a intensidade das guerras, a morte e o assassinato deliberados fizeram Camus buscar as causas filosóficas e psicológicas do absurdo de assassinar. O autor tenta compreender as transformações da natureza humana. O livro é essencial na biblioteca de qualquer um que queira compreender a história do último século.

O homem revoltado é aquele que se encontra em meio à exaltação da vida e à negação da morte. Em princípio, a revolta quer liberdade, quer viver. Prometeu foi o primeiro revoltado. O homem no seu encalço destrona Deus, a liberdade necessária ao homem não está nas limitações morais e éticas da Igreja.

O homem moderno é essencialmente um homem crítico e tentadoramente afeito aos absurdos. O absurdo está em matar e morrer por ideias e princípios obscuros: ponto central para entendermos os homens revolucionários de outrora e os de agora. A causa nobre da revolução não pode ser maculada. De Prometeu a Nietzsche, o revoltado de outrora tinha princípios: elevar o homem e seu valor ao grau maior.

O homem revoltado, segundo Camus, não é o revolucionário. Este é sem exceção o homem revoltado sem aquele princípio: o homem é nada, apenas a revolução é “sagrada”. Camus polemizou um ponto que persiste na história do século 20: a revolução eleva-se ao nível do sagrado, do inegável. Por fim, Camus esboça um apelo para que voltemos nossas ideias aos primeiros revoltados, aqueles com princípios, aqueles que respeitavam a vida.

A Vida acima de tudo!

(NOTA: O texto “Os Homens Revoltados de Albert Camus” que foi reproduzido acima é de autoria de Fabrícia Vieira de Araújo e foi originalmente publicado na Coluna do NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia no dia 18 de janeiro de 2013.)


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Ficou com vontade de saber mais sobre o assunto? Então, além da leitura do próprio livro de Camus, recomendamos alguns textos disponíveis na internet:

LIMA, Raymundo de. Revolução ou revolta? - I - (Um retorno a Albert Camus em seis pontos). Revista Espaço Acadêmico, n. 86, jul. 2008. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/086/86lima_raymundo.htm>. Acesso em: 23 mar. 2015.

______. Revolução ou revolta? - Parte II - (Um retorno a Albert Camus em sete pontos). Revista Espaço Acadêmico, n. 87, ago. 2008. Disponível em: <http://espacoacademico.com.br/087/87lima.htm>. Acesso em: 23 mar. 2015.

O HOMEM revoltado. Razão Inadequada. Disponível em: <https://arazaoinadequada.wordpress.com/filosofos-essenciais/camus/o-homem-revoltado/>. Acesso em: 23 mar. 2015.

SILVA, Franklin Leopoldo e. Crítica de "O Homem Revoltado": Jeanson e Sartre. Arethusa. Disponível em: <http://arethusa.fflch.usp.br/node/32>. Acesso em: 23 mar. 2015.

VICENTE, José João Neves Barbosa; GONTIJO, Frances Deizer. O absurdo e a revolta em Camus. Revista Trías, n. 3, p. 1-10, set. 2011. Disponível em: <http://revistatrias.pro.br/artigos/ed-3/o-absurdo-e-a-revolta-em-camus.pdf>. Acesso em 23 mar. 2015.
  







[1] SCHILLING, Voltaire. Albert Camus contra Jean-Paul Sartre: o fim da revolução. Terra. Disponível: <http://noticias.terra.com.br/educacao/historia/albert-camus-contra-jean-paul-sartre-o-fim-da-revolucao,a00870c4d76da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em: 23 mar. 2015. 

domingo, 15 de março de 2015

"A Morte de Marat": a visão de Jacques-Louis David sobre um episódio da Revolução Francesa

Jean-Paul Marat (1743-1793) foi um dos personagens de maior destaque durante os anos da Revolução Francesa. Editor do jornal O amigo do povo, ele costumava ficar bastante tempo imerso em uma banheira com água por causa de uma doença de pele crônica. 
No dia 13 de julho de 1793, Marat recebeu a visita de Marie-Anne Charlotte Courday d'Armont (1768-1793), uma jovem que se simpatizava com a Revolução, mas que não via com bons olhos o regime do Terror que os jacobinos haviam implantado no país. Charlotte Courday considerava que Marat instigava uma verdadeira guerra civil na França. Para convencer o jornalista a recebê-la, Courday disse que entregaria a Marat uma lista com os nomes de deputados girondinos que estavam escondidos em sua cidade natal, Caén. Após ouvir Marat dizer que todos aqueles homens seriam mandados para a guilhotina, Charlotte sacou uma faca e o apunhalou no peito. Marat estava em uma banheira, e ali mesmo faleceu. Charlotte foi presa ainda no local do crime e foi executada quatro dias depois.
A morte do jornalista gerou grande comoção na França, especialmente entre as camadas mais populares da sociedade. Marat se tornou objeto de culto popular. O pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825) enfatizou esse culto na obra A morte de Marat (1793), reproduzida abaixo, na qual Marat é tratado como um mártir. Veja:


Um primeiro detalhe que merece ser observado no quadro é o fato de que, apesar de Marat ter sido violentamente assassinado, ele foi retratado com o rosto sereno. Essa opção feita pelo pintor permitia que Marat fosse lembrado pelo seu caráter virtuoso e heróico. O jornalista também é representado como alguém que não usou o poder para satisfazer interesses pessoais, pois o lençol e o caixote usado como escrivaninha passam a ideia de que o revolucionário levava uma vida marcada pela austeridade e pela pobreza. 
A pena e o bilhete perto do tinteiro, sobre o caixote, não estavam na cena real do crime e possivelmente foram acrescentados por Jacques-Louis David para representar Marat como um defensor do povo. A carta diz: "Entregue esse bilhete à mãe de cinco filhos cujo marido foi morto por defender a pátria". Na imagem, entre os dedos da mão direita, Marat ainda segura a pena com a qual escrevia, deixando em nós a sensação de que o quadro retrata os últimos instantes da vida do personagem. No chão, a faca faz oposição à pena segurada pelo jornalista. Na mão esquerda, Marat segura o bilhete enviado por Charlotte Courday como pretexto para entrar em sua casa. O pintor retratou Marat com a cabeça envolta em panos empapados com vinagre, o que nos remete à doença que acometia o revolucionário. Ademais, o braço direito de Marat está em uma posição semelhante à do braço do Cristo morto na Pietá, de Michelangelo, compare:


Pelo exposto acima, podemos dizer que o pintor Jacques-Louis David conferiu uma forte carga dramática à morte de Marat, um dos episódios marcantes da Revolução Francesa.

Fontes: 
AZEVEDO, Gislane; SERIACOPI, Reinaldo. História em movimento 2: o mundo moderno e a sociedade contemporânea. 2. ed. São Paulo: Ática, 2013, p. 133.
Jacques-Louis David: The Death of Marat. Disponível em: <http://www.bc.edu/bc_org/avp/cas/his/CoreArt/art/neocl_dav_marat.html>. Acesso em: 15 mar. 2015.

Para ver outras imagens...
Achou  o quadro A morte de Marat interessante? Saiba que esta obra de Jacques-Louis David foi apenas uma das várias obras produzidas sob o impacto da Revolução Francesa. O site L'Histoire par I'image disponibiliza uma série de imagens que retratam diversos momentos e personagens do processo revolucionário francês. Clique aqui e confira!

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Calendário Revolucionário Francês

No âmbito da Revolução Francesa, mais precisamente durante o período da chamada Convenção, adotou-se um novo calendário que se iniciava em 22 de setembro. Este calendário, chamado de Republicano, era dividido em 12 meses com 30 dias cada; sendo que os outros 5 dias restantes que faltavam para se completar os 365 dias de um ano completo eram dias de feriados públicos, também conhecidos como "dias dos sans-culottes". Neste calendário revolucionário, oficialmente introduzido em 1793, os nomes dos meses eram relacionados aos ciclos agrícolas e da natureza, veja abaixo:

Vindimário (do latim vindemia = vindima, colheita da uva), de 22/09 a 21/10

Brumário (do francês brumas = nevoeiro), de 22/10 a 20/11

Frimário (do francês frimas = geada), de 21/11 a 20/12

Nivoso (do latim nivosus = neve), de 21/12 a 19/01

Pluvioso (do latim pluviosus = chuvoso), de 20/01 a 18/02

Ventoso (do latim ventosus = vento), de 19/02 a 20/03

Germinal ( do latim germem = germinação), de 21/03 a 19/04

Floreal (do latim florens = flores), de 20/04 a 19/05

Prairial (do francês prairie = prado), de 20/05 a 18/06

Messidor (do latim messis = colheita), de 19/06 a 18/07

Termidor (do grego therme = calor), de 19/07 a 17/08

Frutidor (do latim fructus = fruto), de 18/08 a 16/09

Dias dos sans-culottes, de 17/09 a 21/09


OBSERVAÇÃO SOBRE O SIGNIFICADO DO TERMO "SANS-CULOTTES":

"O termo sans-culottes, referido às pessoas que usavam calças compridas em vez dos calções até ao joelho da gente rica, foi originariamente aplicado num sentido puramente social aos pequenos comerciantes, assalariados e vagabundos, quer da cidade, quer do campo. Durante a Revolução, o termo passou a ser mais geralmente aplicado aos indivíduos politicamente ativos dessas classes, e o seu âmbito alargou-se com a inclusão dos agitadores mais radicais daquele período, independentemente do respectivo estrato social. Ativos tanto na Comuna de Paris (a designação que foi dada ao novo governo local da cidade) como nas sessões, os sans-culottes iriam constituir a base de poder em que os políticos populares haviam de firmar as suas exigências de uma política radical."
(McCRORY, Martin; MOULDER, Robert. Revolução Francesa para principiantes. Lisboa: Dom Quixote, 1983, p. 67.) 


quarta-feira, 19 de março de 2014

Texto sobre a participação feminina na Revolução Francesa

Quando abrimos algum livro sobre a Revolução Francesa é comum nos depararmos com nomes de vários personagens masculinos: Danton, Robespierre, Luís XVI, Marat e Napoleão Bonaparte são apenas alguns dos nomes mais famosos. Mas, e as mulheres? Elas estiveram ausentes do processo revolucionário francês?

No dia 08 de dezembro de 2010, a Revista de História da Biblioteca Nacional publicou um interessante texto de Tania Machado Morin sobre o tema em seu site. Segue abaixo o texto:


Revolução francesa e feminina, por Tania Machado Morin


“Não fiz a guerra como mulher, fiz a guerra como um bravo!”, declarou Marie-Henriette Xaintrailles em carta ao imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821). Indignada por lhe recusarem pensão de ex-combatente do Exército “porque era mulher”, ela lembrou que, quando fez sete campanhas do Reno como ajudante de campo, o que importava era o cumprimento do dever, e não o sexo de quem o desempenhava.

Madame Xaintrailles não foi um caso isolado. Em 1792, quando a França declarou guerra à Áustria, voluntárias se alistaram no Exército para lutar ao lado dos homens contra as forças da coalizão austro-prussiana que ameaçavam invadir o país. Muitas se apresentaram com identidades falsas e disfarçadas de homem. Além de conseguirem se alistar, protegiam-se do risco da violência sexual. Quem eram as mulheres-soldados e por que se engajaram no conflito armado? E quais foram os motivos de sua relativa aceitação por parte de líderes revolucionários e companheiros de armas?

Não se conhece o número exato de mulheres-soldados durante o período revolucionário francês (1789-1799).  Há oitenta casos registrados nos arquivos parlamentares, militares e policiais, e informações biográficas esparsas sobre apenas quarenta e quatro. Entretanto, existem muitas referências em imagens e testemunhos da época. O deputado Grégoire (1750-1831) as elogiou oficialmente: “E vós, generosas cidadãs que participaram da sorte dos combates”. Essas constatações nos permitem supor que elas eram mais numerosas e bem integradas à vida militar do que pode parecer. Quase todas vinham de meios sociais modestos. Eram filhas de pequenos camponeses e artesãos, e tinham apelidos como Felicité Vai-de-bom-coração ou Maria Cabeça-de-pau. A maioria era muito jovem, como Ana Quatro-vinténs, que se alistou aos 13 anos, e aos 16 servia na artilharia montada.

As irmãs Fernig, com 17 e 22 anos, foram exceções: eram nobres, e combateram vestidas de homem no Exército do general Dumouriez (1739-1823), na fronteira da atual Bélgica. Fora da batalha, passeavam com roupas de mulher e carabina ao ombro. Tornaram-se heroínas nacionais. Quando sua casa foi arrasada pelos “ferozes austríacos”, o governo da Convenção Nacional (1792-1795) propôs que a reconstrução ficasse por conta da República.

Antes da Revolução, os oficiais da nobreza desprezavam os soldados. Já os líderes revolucionários valorizaram o serviço militar como a forma mais elevada de compromisso do cidadão com o Estado. O discurso da defesa dos homens livres contra os tiranos da Europa atraiu as cidadãs mais destemidas que aliavam o sentimento patriótico ao gosto pela aventura. Era também uma forma de integração oficiosa à cidadania. Reine Chapuy, de 17 anos, declarou que se alistara pelo desejo ardente de combater os tiranos e compartilhar da glória de fulminá-los. Outras foram à guerra para acompanhar os maridos, amantes e irmãos, e acabaram lutando ao lado deles, unindo o sacrifício pela pátria ao devotamento conjugal e familiar. Algumas haviam “nascido na caserna”, e a carreira militar era seu caminho natural. As circunstâncias da Revolução tiveram também um aspecto de liberação. Quando tudo estava em jogo, as mulheres puderam inventar novos papéis para si próprias.

Há registros da boa acolhida das mulheres-soldados por parte dos companheiros de armas. O capitão Dubois e sua mulher combateram juntos no 7º Batalhão de Paris. Ao ser ferido, sua esposa foi designada vice-capitã pelos outros soldados. Aos 19 anos, Liberté Barreau serviu com o marido no Regimento dos Pirineus Ocidentais. Foi intrépida na batalha: perseguiu os inimigos até sua debandada, e depois voltou para transportar o marido ferido para o hospital militar com a ajuda dos companheiros. Liberté impressionou pela coragem e pela devoção ao esposo. Rose Bouillon não foi menos heroica: continuou lutando na batalha mesmo após a morte do marido. Depois pediu dispensa do Exército para cuidar dos filhos do mesmo modo como havia se dedicado ao marido e à pátria. A Convenção Nacional lhe concedeu uma pensão de 300 libras e mais 150 para cada um de seus filhos em agosto de 1793.

Mas havia vozes discordantes: alguns cidadãos se queixavam abertamente das mulheres promovidas a oficial, alegando que os soldados tinham vergonha de receber suas ordens.  Diminuindo o mérito das combatentes, explicavam aquela coragem como exceção, atribuindo-a ao milagre da Liberdade.  Apesar de seus serviços, as soldadas foram incluídas em decreto governamental que dispensava e excluía do Exército todas as “mulheres inúteis” ao esforço de guerra, isto é, todas que não eram cantineiras nem lavadeiras. Lazare Carnot (1753-1823), membro da Convenção Nacional que organizou o recrutamento em massa de 1793, lamentava o flagelo que destruía os exércitos revolucionários: as mulheres que acompanhavam as tropas. Elas atrapalhavam a marcha dos batalhões, consumiam uma parte necessária dos alimentos, quebravam a disciplina e eram fonte da dissolução dos costumes de todos os militares. 

O decreto nunca foi cumprido: as esposas e companheiras dos soldados continuaram seguindo as tropas, e a maioria das combatentes permaneceu no Exército como se nada tivesse acontecido. O capitão da sra. Fartier, canhoneira no 10º batalhão dos Federados Nacionais de Paris, autorizou-a por escrito a continuar servindo na companhia em junho de 1793, após a promulgação da lei.   Em 26 de fevereiro de 1794, Ana Quatro-vinténs foi aplaudida no Clube dos Jacobinos, que fizeram uma coleta em seu favor. O Conselho Militar não viu razões para excluir do Exército a cidadã Felicité Vai-de-bom-coração, devido ao seu comportamento irrepreensível. Houve mulheres-soldados até nas guerras napoleônicas (1799-1815).  Um exemplo desse período foi Madame Xaintrailles, que se tornou ajudante de campo do general Menou (1750-1810) com a recomendação do próprio Lazare Carnot em 1795, dois anos depois da lei de exclusão.

O número expressivo de prêmios e aplausos às soldadas atesta a boa vontade dos chefes militares e até dos governantes em Paris. Mesmo levando-se em conta que elas transgrediam as normas de comportamento feminino, apropriando-se de atributos inerentemente masculinos como as armas e o serviço militar. As mulheres-soldados foram até certo ponto aceitas porque tinham moral elevada, dignidade e bons costumes; eram combatentes, e não libertinas. Embora a violência não seja normalmente associada à mulher, na guerra elas matavam “os escravos dos tiranos”, prestando um serviço à nação. Eram discretas, e muitas vezes seu sexo só era descoberto quando feridas na batalha. Essas qualidades eram importantes numa época em que o presidente do Comitê de Segurança Pública declarou que “sem moral não há República” (outubro de 1793).

Muitas das guerreiras protagonizaram episódios de coragem incomum, como Marie-Angélique Duchemin-Brulon (1772-1859). Sargento do 42º regimento de Infantaria na Córsega, salvou o Forte Gesco sitiado pelos inimigos conseguindo um suprimento de pólvora no meio da noite, em maio de 1794.  Em agosto de 1851, aos 79 anos de idade, foi a primeira mulher a receber a Legião de Honra e a Medalha de Santa Helena do futuro Napoleão III. Chamam atenção as descrições sempre exaltadas dos feitos marciais das soldadas. A impressão é que elas foram mitificadas para figurar no panteão dos exemplos patrióticos de que a Revolução tanto precisava no dramático ano II – no calendário revolucionário, setembro de 1793 a setembro de 1794. Nesse  período marcado pela radicalização política do terror, a nação também enfrentava a guerra externa, guerra civil, inflação, penúria e revoltas urbanas.  O exemplo das guerreiras podia inspirar os cidadãos.

De todo modo, as soldadas encarnavam as virtudes republicanas. Não era pouco. Por essa razão, Liberté Barreau e Rose Bouillon figuravam na Coletânea de Ações Heroicas e Cívicas dos Republicanos Franceses, publicada em 30 de dezembro de 1793. Enfrentando a morte, também deram a vida, dedicaram-se com amor aos maridos e filhos. Cuidaram de doentes e feridos com a doçura e o altruísmo associados à imagem feminina. Sacrificaram-se pela pátria sem esquecer as virtudes de seu sexo. Eis aí o grande mérito. Numa República marcada por apelos à moral, as mulheres-soldados contribuíram com um modelo de comportamento feminino positivo.


(Clique aqui para ver a matéria originalmente publicada no site da Revista de História da Biblioteca Nacional)

É preciso dizer que Tania Machado Morin é autora da dissertação de mestrado intitulada Práticas e Representações das Mulheres na Revolução Francesa - 1789-1795 (Universidade de São Paulo, 2009). É possível fazer o download dessa interessante dissertação por meio deste link. Leitura recomendada!