Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Espanhóis e Ingleses na América

A CONQUISTA ESPANHOLA

O início da ocupação espanhola dos territórios na América ocorreu pelas ilhas de Guanaani (San Salvador), mas como o ouro encontrado nesses locais era pouco para a ambição dos colonizadores, iniciou-se em seguida o processo de ocupação do continente. Oitenta anos após a chegada ao Novo Mundo, os espanhóis já dominavam um extenso território que ia do norte do México até a Argentina, incluindo a Venezuela e a Colômbia a leste.

Hernán Cortez chegou ao México em 1519 com 508 soldados, 16 cavalos e 14 canhões. Os primeiros contatos com os astecas foram amistosos, e Montezuma II – o líder asteca – até o recebeu com presentes e o tratou com respeito. Todavia, Cortez aliou-se aos povos inimigos dos astecas e, em 1521, após 75 dias de conflitos, os astecas renderam-se à dominação espanhola.

O fato de os espanhóis terem encontrado bastante ouro em território asteca animou o envio de expedições à América do Sul. Francisco Pizarro partiu do Panamá e chegou à cidade inca de Tumbez, em 1532. Dali, partiu com os seus homens para Cajamarca, onde aprisionou Atahualpa, o imperador inca. Os espanhóis exigiram um resgate em ouro para libertarem o soberano inca, mas, mesmo após receberem o pagamento, assassinaram Atahualpa, que era considerado um ser semidivino e intocável pelo seu povo. Na luta contra os incas, Pizarro estabeleceu alianças com alguns povos da região, como os Wanka, um povo guerreiro que habitava o sul do atual Peru e que ajudou os espanhóis na conquista da cidade inca de Cuzco, em 1533. Dois anos depois, Pizarro fundou a Ciudad de los Reyes, atual cidade de Lima, que veio a ser a capital do novo domínio espanhol.

As centenas de homens que desembarcaram na América sob o comando de Cortez e Pizarro derrotaram os milhares de povos indígenas por causa de alguns fatores: a) a superioridade bélica, particularmente em decorrência do uso da pólvora, de canhões, de arcabuzes (similares aos atuais fuzis), de espadas cortantes, de armaduras de ferro que protegiam o corpo (muito úteis contra as flechas indígenas) e de cavalos (que até então eram desconhecidos dos índios); b) os vírus e as bactérias trazidos pelos espanhóis, que disseminaram muitas doenças entre a população nativa, tais como pneumonia, febre amarela, sarampo, varíola, gripe, etc.; c) o conhecimento adquirido pelos espanhóis a respeito dos povos da América, pois os espanhóis procuravam se informar ao máximo sobre as desavenças entre aqueles povos, estimulando as guerras entre eles e subjugando, após a guerra, até mesmo os seus aliados; d) os espanhóis não tinham escrúpulos em mentir, chantagear e fazer massacres, ao contrário dos índios, que viviam sob muitas regras, entre as quais uma que proibia o líder indígena de mentir (Atahualpa, por exemplo, estranhou o fato de continuar preso após o pagamento do resgate por sua liberdade); e) os povos indígenas tiveram que enfrentar bruscas mudanças na alimentação, no ritmo de trabalho e no modo de vida a partir das imposições culturais – idioma, religião, leis, práticas políticas e econômicas – colocadas pelos colonizadores espanhóis.

A ECONOMIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

A colonização da América espanhola envolveu interesses públicos e privados de nobres sem fortuna, comerciantes, aventureiros e dos reis espanhóis, no âmbito do mercantilismo. Em decorrência do metalismo e da existência de muitos metais preciosos no continente, a principal atividade econômica da América espanhola era a mineração – notadamente a de ouro e a de prata –, que provocou efeitos multiplicadores sobre outras atividades, como a agricultura, a pecuária, a manufatura e o comércio.

Foi na ilha de Hispaniola (atuais Haiti e República Dominicana), que os espanhóis iniciaram a extração de metais preciosos na América, porém, o ouro de aluvião encontrado ali esgotou-se rapidamente. A mineração só se tornou um setor mais dinâmico da economia colonial a partir de 1545, quando foram descobertas minas de prata em Potosí (atual Bolívia) e em Zacatecas (atual México). Como o subsolo da América era considerado propriedade da Espanha, os mineradores obtinham apenas a concessão da exploração. Em decorrência dos altos custos exigidos na perfuração e no beneficiamento do minério, o número de mineradores era reduzido, o que facilitava o controle sobre a atividade.

Os espanhóis organizaram o trabalho forçado dos indígenas de duas formas: a "mita" e a “encomienda”. A mita era um hábito inca que foi adaptado pelos espanhóis. Os índios tinham a obrigação de trabalhar 4 meses por ano em troca de baixos salários, que eram em parte pagos em moeda (metal) e em parte pagos em alimentos, tecidos e bebidas. Por sua vez, a encomienda era o direito que um colono espanhol tinha de exigir do índio trabalho forçado ou tributos em gênero durante certo período. Tal privilégio passou a ser hereditário com o tempo e, em troca desse direito, o “encomendero” devia pagar tributos à metrópole e dar aos índios assistência material e religiosa, cristianizando-os. Na prática, porém, muitos índios morriam de fome e sem ter aprendido uma oração cristã sequer.

A agropecuária era outra atividade importante na América espanhola. A hacienda – fazenda – era a unidade produtora básica nos campos coloniais, voltada para a policultura (milho, feijão, abóbora, batata e cacau) e a criação de gado. A produção era destinada ao mercado local, regional, intercolonial ou à exportação para a Espanha. Os trabalhadores dessas fazendas eram obrigados a comprar no armazém da propriedade (tienda de raya) tudo o que precisavam, como roupas, calçados e alimentos, tornando-se assim prisioneiros por dívida naquele lugar. Exigindo pouco capital para o seu funcionamento, a fazenda se inseria nos circuitos mercantis que abrangiam grandes áreas da América espanhola. As minas situadas no México e em Potosí eram abastecidas pelos produtos oriundos das fazendas hispano-americanas, por exemplo. Foi com o declínio da mineração no século XVIII que a agropecuária se desenvolveu ainda mais, e as regiões dedicadas a esse setor da economia tornaram-se mais dependentes das exportações para a Europa.

Em alguns pontos da América espanhola também desenvolveu-se a plantation, ou seja, a grande propriedade rural monocultora baseada principalmente no trabalho escravo e cuja produção era voltada para o mercado externo. A plantation foi comum em áreas como Santo Domingo e Cuba (açúcar, tabaco) e Venezuela (cacau).

Como os preços dos fretes marítimos eram elevados e os transportes terrestres eram ineficientes, o artesanato e a manufatura – chamada de obraje – foram estimulados na América espanhola. As principais obrajes produziam tecidos de lã (cobertores, ponchos, xales) e eram instaladas próximas a mercados consumidores, como Quito, que vendia às minas de Nova Granada (Colômbia) e Tucumán (noroeste da atual Argentina), que vendia seus tecidos a Potosí. O artesanato era praticado por trabalhadores reunidos em corporações de ofício e por artesãos independentes. Algumas corporações, como a dos tecelões e ferreiros, que tinham maior prestígio, só admitiam brancos ou mestiços. Já ramos menos valorizados socialmente, como o dos pedreiros ou dos carpinteiros, admitiam índios e negros.

A Casa de Contratação controlava o comércio entre a América espanhola e a Espanha por meio do sistema de portos únicos. Na América, os únicos portos autorizados a fazer comércio com a Espanha eram os de Havana (Cuba), Vera Cruz (México), Cartagena (Colômbia) e Porto Belo (Panamá). Na Espanha, os navios que faziam a rota entre a metrópole e as colônias na América só podiam entrar e sair do território espanhol, inicialmente, pelo porto de Sevilha e, depois, pelo de Cádiz. O comércio colonial era comandado pelo sistema de frotas e galeões, ou seja, os navios que viajavam entre a América e a Espanha só faziam o percurso juntos, em frotas, e protegidos por navios fortemente armados, os galeões. Tal forma de organização visava controlar tudo o que saía das colônias e tudo o que entrava nelas, no intuito de garantir grandes lucros à metrópole. Foi em resposta a tal tentativa de monopólio que surgiu o contrabando.

A SOCIEDADE COLONIAL DA AMÉRICA ESPANHOLA E A ADMINISTRAÇÃO DO TERRITÓRIO

A sociedade hispano-americana era rigidamente hierarquizada e apresentava pouca mobilidade social, sendo difícil ascender socialmente de um grupo a outro. A minoria da população era composta pelas pessoas brancas, fossem elas nascidas na Espanha - os chapetones - ou na América. Os brancos ocupavam os melhores cargos na administração pública, nas forças militares, na Justiça e na Igreja, e muitos deles também eram donos de fazendas, das minas, e de manufaturas. A maioria da população era composta por índios, negros e mestiços (nascidos da união entre brancos e índios ou negros), que viviam do trabalho forçado, mal remunerado ou escravo. O racismo contra índios e negros era grande, e quanto maior fosse a semelhança entre a pessoa e o espanhol branco, melhor ela estava posicionada na hierarquia social.

Para administrar os territórios coloniais, foi criado por Carlos V, em 1524, o Conselho Real e Supremo das Índias, com sede em Sevilha, na Espanha, e que tinha por função cuidar de todas as questões coloniais de ordem legislativa, eclesiástica, militar ou jurídica. Buscando reduzir os custos com a colonização e estimular a conquista de um vasto território, a Coroa espanhola transferiu inicialmente o direito de administrar as áreas coloniais a particulares, os adelantados, que tinham amplos poderes civis e militares. Cortez e Pizarro foram dois adelantados, por exemplo.

Todavia, conforme as riquezas da América foram sendo descobertas, a Coroa espanhola anulou tais concessões feitas a particulares e ampliou o seu próprio poder de mando no Novo Mundo. Foi com este objetivo que foram criados quatro vice-reinos na América espanhola: o de Nova Espanha, o do Peru, o de Nova Granada e o do Rio da Prata. Os vice-reis eram homens que tinham muito poder, embora fossem fiscalizados por funcionários reais nomeados e com funções vitalícias. Também foram criadas as Capitanias Gerais, sendo a de Cuba, a da Guatemala, a da Venezuela e a do Chile as principais.

Por sua vez, nas cidades havia as câmaras municipais – conhecidas como cabildos ou ayuntamientos –, que eram responsáveis por cuidar da segurança interna e da administração local. Normalmente, os filhos dos espanhóis nascidos na América – que viriam a ser chamados de criollos – ocupavam os cargos de vereadores nesses órgãos.

A AMÉRICA INGLESA

Durante o século XVI, a América do Norte não despertou muito interesse dos europeus, que realizaram poucas expedições exploratórias àquela região, tais como as comandadas por Walter Raleigh entre 1584 e 1587 que, no entanto, não conseguiram estabelecer núcleos coloniais fixos, sobretudo por conta dos ataques dos povos nativos. Foi apenas no século XVII que os ingleses buscaram colonizar novas terras, como já o faziam Portugal e Espanha. Foi nesse sentido, que o rei inglês Jaime I criou duas companhias de comércio, em 1601: a Companhia de Londres, que ocuparia a região sul da América do Norte, e a Companhia de Plymouth, que ficaria com o norte da região. O primeiro povoado permanente instalado na região foi Jamestown (1607), na Virgínia, e com o tempo foram criadas outras colônias, perfazendo um total de 13, que juntas dariam origem aos Estados Unidos da América que conhecemos hoje.

A fome, o frio e a resistência indígena foram obstáculos que colocaram dificuldades aos primeiros colonos que vieram para a América Inglesa. Os colonos eram de diversas condições sociais: aventureiros, degredados, mulheres para serem leiloadas como esposas, órfãos e crianças raptadas. Muitos colonos eram na Inglaterra camponeses sem terra que haviam migrado do campo para as cidades inglesas em busca de trabalho. Encontrando dificuldades naquelas cidades, muitos deles eram seduzidos pelas Companhias de Comércio e incentivados a viver nas colônias. Ao chegar à América do Norte, muitas dessas pessoas passavam a viver sob um regime de servidão temporária, ou seja, trabalhavam por quatro ou cinco anos nas terras de quem tivesse financiado a viagem.

Outra parte dos colonos eram composta por grupos religiosos protestantes, tais como os puritanos, os batistas e os quakers, que fugiam da perseguição religiosa imposta pela monarquia absolutista inglesa, que tentava impor a religião anglicana. Em 1620, um desses grupos religiosos deixou a Inglaterra a bordo do Mayflower, fundando no litoral de Massachusetts um próspero núcleo de colonização: New Plymouth. Liderados por puritanos com alto grau de instrução, esses pais peregrinos viam a si mesmos como um grupo eleito por Deus para colonizar a América. Tal crença religiosa foi importante para que esse grupo mantivesse a identidade e a coesão, o que os ajudou a enfrentar os obstáculos de adaptação à nova terra.

É preciso dizer que, além desses grupos de ingleses, vieram também para a América do Norte outros grupos europeus, entre os quais alemães, escoceses, irlandeses e franceses, que vieram para a região em busca de uma vida melhor. Todos esses grupos de colonos que vieram para as 13 colônias da América do Norte encontraram naquelas terras diversos grupos indígenas que lá já viviam. Os índios norte-americanos se dividiam em alguns grupos: Algonquino-Wakash, Penuciano, Hoka-Sioux, Nadene, Azteco-Tano e Inuit-Aleuta. Esses povos indígenas muitas vezes disputavam terras entre si, praticavam a agricultura, caçavam e tinham hábitos migratórios. A presença do colonizador europeu fez com que algumas tribos aderissem ao cristianismo, domesticassem o cavalo e utilizassem arma de fogo. As migrações indígenas aumentavam quando o colonizador apropriava-se de suas terras.

Ao contrário do que aconteceu na América portuguesa – onde a escassez de mulheres brancas estimulou a união entre colonos e mulheres indígenas –, a miscigenação ocorreu nas 13 colônias em um grau bem menor, pois lá a união entre brancos e indígenas não era estimulada. Deste modo, não houve um projeto de integração dos índios norte-americanos no processo de colonização da América inglesa. Em verdade, muitos daqueles índios foram exterminados nos violentos conflitos que ocorriam entre aquelas populações nativas e os colonos. Não se pode deixar de mencionar também que, além dos europeus formadores das 13 colônias, contribuíram também para a formação daquela sociedade os milhares de trabalhadores trazidos da África Ocidental, como escravos. Entre 1620 e 1720, a população das 13 colônias aumentou de 2500 pessoas para cerca de 3 milhões, isso sem contar a população indígena.

A ORGANIZAÇÃO DAS 13 COLÔNIAS

Se os colonos portugueses que vieram para a América viam no trabalho uma atividade a ser exercida por etnias inferiores (índios e negros), os colonos ingleses, ao contrário, viam o trabalho como algo edificante, como os puritanos, por exemplo, que, inspirados pelas ideias de João Calvino, criticavam o ócio e acreditavam que quem enriquecesse trabalhando seria salvo por Deus. Os colonos ingleses também se interessavam pela educação, e foi a partir desse interesse que fundaram a Universidade de Harvard, em 1636, em Cambridge, Massachusetts, no intuito de formar os futuros dirigentes de suas igrejas nas colônias.

Durante o século XVII, a Inglaterra passou por diversas convulsões políticas e sociais, tais como uma guerra civil (1620-1640), a instalação de uma República (Oliver Cromwell, 1649), o fortalecimento da burguesia (Ato de Navegação, 1651), o restabelecimento da monarquia (1660) e o fim do poder absoluto dos reis ingleses (1689). Dentro desse quadro conturbado, a Inglaterra não tinha condições de criar e controlar uma estrutura de governo eficiente para as suas colônias na América. Assim, embora as 13 colônias da América do Norte estivessem submetidas às leis inglesas, pagassem impostos à metrópole e garantissem a posse do território para a Inglaterra, elas viveram uma certa autonomia durante o século XVII, tomando decisões por meio de reuniões em assembleias.

Normalmente, as 13 colônias costumam ser divididas pelos historiadores em dois grupos: as do Norte e as do Sul. As colônias do Norte ocupavam uma área de clima temperado, baseada na policultura (trigo, maçã, batata, milho), na pequena propriedade e na mão de obra familiar ou servil. Havia ali também manufaturas de lã, couro, ferro e madeira, produtos que eram exportados por meio do comércio triangular. Tal comércio era realizado da seguinte maneira: em navios próprios, os colonos do Norte compravam melaço nas Antilhas e o transformavam em rum, em seguida a bebida era trocada por escravos na costa ocidental da África e, enfim, os escravizados eram vendidos para o Sul da América do Norte e para as Antilhas, de onde os navios voltavam com mais melaço. As colônias do Norte eram donas de uma economia diversificada e de um comércio exterior lucrativo, gozando de certa autonomia em relação à metrópole.

Já as colônias do Sul ocupavam uma região de clima quente e planícies extensas, produzindo gêneros agrícolas de larga aceitação na Europa, tais como o fumo, o algodão e o anil. Os fazendeiros sulistas traziam muitos escravizados para trabalhar em suas plantações. O Sul acabou ocupado por “plantations” (grandes propriedades escravistas monocultoras, muitas delas dedicadas ao plantio do algodão, por exemplo). A sociedade sulista era aristocrática e marcada por muitas desigualdades sociais. O Sul era mais dependente economicamente da Inglaterra, o que inibiu ali o afloramento de ideias de independência política.

Do ponto de vista da organização política, cada uma das 13 colônias tinha uma assembleia encarregada de estabelecer os impostos locais, o orçamento do governo colonial e as leis, que eram submetidas ao governador – homem nomeado pela monarquia inglesa ou eleito pelos próprios colonos, tendo ou não direito de veto às leis contrárias aos interesses metropolitanos, conforme o caso. Os colonos participavam ativamente da vida política, desenvolvendo assim sentimentos de autonomia em relação à metrópole e hábitos de autogoverno, que seriam decisivos na luta pela independência.

OBS.: O blog já publicou um breve resumo sobre a colonização inglesa na América do Norte. Clique aqui para ver.

sábado, 11 de outubro de 2014

Relatos da Conquista Espanhola da América e a Resistência Indígena

A chegada dos espanhóis ao continente americano e o posterior processo de conquista do território foram eventos que deram origem a distintas narrativas. Vejamos alguns deles...

O PONTO DE VISTA DO CONQUISTADOR: O RELATO DE CORTEZ

O próprio Hernan Cortez, responsável pela conquista do México, registrou a sua versão da luta dos espanhóis contra os astecas. Entre os acontecimentos que são descritos nessa narrativa estão: a ida dos espanhóis a Tenochtitlán (a capital asteca, onde governava o líder daquele povo àquela época, Montezuma), o contato com os índios (que, segundo o relato de Cortez, às vezes era amistoso, às vezes conflituoso), o contato com o líder asteca, Montezuma.

É interessante perceber que Hernan Cortez procura em algumas passagens destacar a sua própria determinação em chegar a Tenochtitlán. Ademais, há em tal relato a tentativa de justificar o domínio espanhol sobre aquele território: ao descrever um discurso de Montezuma, Cortez afirma que o chefe dos astecas teria dito que o rei espanhol seria o “senhor natural” dos astecas (Cf. CORTEZ, 1986, p. 41).

Ainda sobre Montezuma, Cortez conta como o senhor de Tenochtitlán se deixou dominar e até ajudou os espanhóis oferecendo informações sobre o território. Ainda de acordo com o conquistador espanhol, tal processo foi interrompido por causa da chegada de outro agente espanhol, Paniilo de Narváez, que se dizia a mando da Coroa Espanhola e que iria tirar Hernan Cortez do comando da conquista do território. Segundo o relato de Hernan Cortez, foi durante o seu conflito contra Narváez que os índios de Tenochtitlán se rebelaram, dando início a uma guerra na qual morreram espanhóis e o próprio Montezuma (ele recebeu uma pedrada enquanto tentava pedir aos índios que parassem de guerrear, segundo Cortez).

Ao narrar o processo da conquista do México, Cortez fala da dificuldade enfrentada pelos espanhóis ao lutarem contra os astecas. O conquistador espanhol também lembra as alianças que foram feitas com povos nativos inimigos de Tenochtitlán, fazendo questão de registrar a sua valentia/coragem pessoal naquela guerra. De fato, em seu relato Cortez procura elaborar a imagem de si próprio como um grande herói.

No que diz respeito à relação entre a linguagem utilizada na elaboração da narrativa e a realidade descrita, Cortez afirma ter uma certa dificuldade em encontrar as palavras adequadas para descrever a cidade de Tenochtitlán e os acontecimentos. De qualquer modo, o espanhol procura reforçar a ideia de que está tentando em seu relato “ser o mais fiel possível aos acontecimentos” (CORTEZ, 1986, p. 62), ou seja, ele quer se mostrar um narrador imparcial, que comunica apenas a verdade dos fatos.

É a partir dessa pretensão que Cortez procura justificativas para dominar Tenochtitlán. Segundo ele, era preciso punir a traição dos índios que se rebelaram contra os espanhóis, ampliar a fé católica, lutar contra aquela gente “bárbara” e garantir a sobrevivência dos espanhóis que, de acordo com o seu ponto de vista, estavam ameaçados naquelas terras.

No que concerne aos conflitos propriamente ditos, Cortez afirma em várias passagens que tentou negociar a paz, mas que os índios de Tenochtitlán não se rendiam. Todavia, é preciso salientar que, em certos momentos do relato, Cortez não deixa de vibrar com as vitórias e os massacres promovidos pelos espanhóis. A vitória espanhola foi possível, segundo Cortez, graças à estratégia de cerco a Tenochtitlán, ao uso de cavalos e armas de fogo e às alianças com povos indígenas que eram inimigos dos astecas.

Outro elemento importante do relato de Cortez é a sua relação com a religião católica. Em diversos momentos do texto, o conquistador espanhol agradece a Deus pelas vitórias nas batalhas. Por mais terríveis que tenham sido alguns dos seus atos, Cortez procura sempre se justificar, tentando construir uma imagem de si mesmo como um herói, bem como a ideia de superioridade dos espanhóis em relação aos indígenas (vistos como traiçoeiros).

OS RELATOS DE ORIGEM INDÍGENA

Se o espanhol deixou registrada a sua versão da conquista do México, os próprios astecas também transmitiram o seu ponto de vista sobre aqueles acontecimentos. Ao recuperar alguns relatos astecas sobre a conquista, o pesquisador Miguel León-Portilla (1991) nos mostra como a dominação espanhola foi vista pelos indígenas. Nas narrativas de origem asteca, aparece em lugar de destaque a estratégia usada por Hernan Cortez para se comunicar com os astecas: o conquistador espanhol falava na sua própria língua com Jerónimo de Aguilar (um náufrago que se estabelecera em Yucatán e que havia aprendido o idioma maia), que falava na língua maia com a índia Malinche que, por sua vez, finalmente traduzia a mensagem para a língua asteca (Malinche falava os idiomas maia e asteca).

Segundo os testemunhos indígenas, o líder asteca Montezuma teria achado inicialmente que a chegada dos espanhóis era o retorno de Quetzalcóatl e dos demais deuses que o acompanhavam. Todavia, tão logo se revelou o objetivo daqueles homens tão diferentes que chegavam a Tenochtitlán, bem como a violência que estavam dispostos a praticar para conquistar o território, os astecas passaram a chamar os espanhóis de popolocas, termo que pode ser traduzido por “bárbaros”.

Em tais relatos astecas da conquista espanhola também aparecem os presságios que teriam surgido nos anos anteriores e que diziam respeito à chegada dos espanhóis e à destruição de Tenochtitlán. Alguns dos presságios descritos nessas narrativas são: uma espiga de fogo no céu, o incêndio em um templo, um grito de mulher no meio da noite. Todos esses presságios seriam sinais da tragédia que seria trazida pelas mãos dos conquistadores espanhóis. Nas narrativas astecas, a existência de tais presságios estão relacionadas à angustia, ao espanto e ao terror sentidos por Montezuma quando da chegada dos espanhóis (Cf. LEÓN-PORTILLA, 1991, p. 27-29).

É interessante observar como os astecas registraram a sua versão acerca da guerra entre o povo de Tenochtitlán e os espanhóis. Segundo os relatos astecas, Cortez teria saído de Tenochtitlán para combater Narváez, mas alguns espanhóis ficaram na capital asteca e, sob a liderança de Alvarado, atacaram indígenas em um templo religioso, fato esse que provocou a revolta asteca contra a presença espanhola. Tal narrativa é instigante porque no relato feito por Hernan Cortez o ataque de Alvarado aos indígenas não aparece com muito destaque. Cortez até afirma que os índios se revoltaram contra os espanhóis, mas não deixa muito claros os motivos de tal rebelião. É como se, para Cortez, os índios de Tenochtitlán fossem traiçoeiros por terem se aproveitado de sua ausência da cidade, enquanto ele combatia Narváez.

Cabe mencionar ainda que, como os astecas se viam como um povo destinado a subjugar outros povos, a derrota para os espanhóis significou um grande “trauma”. De fato, o que se apreende dos testemunhos astecas da conquista espanhola é que o povo de Tenochtitlán sentiu muito a sua derrota, a perda do modo de vida, da cultura e a “morte” dos seus deuses. A descrição do sofrimento causado pela dominação espanhola (a exploração, os trabalhos forçados, etc.) não é uma exclusividade das narrativas dos astecas, pois nos relatos de origem maia tal elemento também aparece. Aliás, nas narrativas maias sobre a conquista espanhola também são feitas menções a presságios da vinda dos espanhóis (as profecias) que teriam ocorrido tempos antes da conquista espanhola.

Por sua vez, a queda do Tahuantinsuyu – o Estado inca localizado na América do Sul – também foi registrada segundo o ponto de vista indígena. De acordo com os relatos incas, a morte do chefe inca Huayna Cápac em 1525 (aproximadamente) provocou a divisão dos territórios incas com a guerra entre Huáscar, o herdeiro legítimo, e Atahualpa, que residia em Quito e também era filho de Huayna Cápac. Com o desenrolar dos conflitos, Huáscar tornou-se prisioneiro de Atahualpa e, portanto, quando os conquistadores espanhóis Francisco Pizarro e Diego Almagro chegaram à América do Sul encontraram os incas divididos.

Pizarro foi à Espanha obter a autorização por parte de Carlos V (líder do império espanhol) para conquistar a região. Segundo as narrativas de origem inca, ao saber da chegada dos homens brancos, Atahualpa teria pensado que fosse o regresso dos deuses, a volta de Huiracocha. Entre o temor, a curiosidade e a dúvida, Atahualpa permitiu o avanço progressivo dos europeus pelo território. O líder inca confiava nos seus 40 mil homens armados.

Já sobre o contato entre Atahualpa e os espanhóis, os relatos incas registram que Pizarro e o chefe inca conversaram com a ajuda de um índio intérprete. Atahualpa teria dito que era um grande senhor e que acreditava nos seus próprios deuses e que, para os incas, eles não eram “falsos” tal como diziam os espanhóis. Atahualpa teria até arremessado para longe uma bíblia que lhe fora entregue pelo frei Vicente de Valverde. De acordo com a memória inca, foi após de tal gesto que os espanhóis atacaram e aprisionaram Atahualpa.

O chefe inca tentou comprar sua liberdade com ouro, porém, mesmo após o pagamento do resgate, os espanhóis o acusaram de idolatria, incesto, adultério, etc. e o condenaram à morte, matando-o em 1533. Os incas ofereceriam resistência à dominação espanhola por 40 anos. Os espanhóis até tentaram apaziguá-los coroando o meio irmão de Atahualpa, Manco II. Contudo, Manco II se rebelou contra os conquistadores. Houve então várias guerras e os incas impuseram dificuldades aos espanhóis.

Para piorar a situação dos espanhóis, Francisco Pizarro e Diego Almagro começaram a brigar entre si. Após os conflitos, Pizarro venceu Almagro e o condenou à morte. Anos depois, o filho de Almagro matou Pizarro. Em 1545 ocorreu a morte de Manco II, e o seu sucessor no posto de chefe inca foi seu filho Sayri Túpac, que se entregou aos espanhóis e morreu envenenado. Os incas coroaram o seu irmão, Titu Cusi Yupanqui, que aumentou os ataques contra os espanhóis. Yupanqui morreu de pneumonia em 1569, sendo sucedido pelo seu irmão Túpac Amaru, o último chefe inca. Túpac Amaru foi preso e morto em 1572, quando os espanhóis finalmente concretizaram o seu domínio sobre o território inca. Todos esses episódios aparecem nas narrativas de origem inca sobre a conquista espanhola do território, processo ao qual os indígenas procuraram resistir.

A RESISTÊNCIA INDÍGENA

A conquista espanhola da América foi marcada por muita violência, a qual os espanhóis – como Hernan Cortez, por exemplo – tentavam justificar a partir da “necessidade” de dominar os “bárbaros” povos indígenas que viviam fora dos dogmas da fé católica. No “encontro” entre europeus e índios, os homens do Velho Mundo pensavam estar diante de uma cultura inferior à europeia e que, por isso, tinha que ser destruída. De fato, a imagem do índio para o europeu foi quase sempre uma imagem negativa.

Todavia, cabe mencionar aqui um personagem dessa história que assumiu contornos mais complexos. Falamos do frei Bartolomé de Las Casas (1474-1566), religioso que, apesar de ser um defensor da cristianização, assumiu uma postura contrária à escravização e ao extermínio dos povos nativos do continente americano.

Por um lado, Las Casas procurou construir uma “imagem servil do índio”. Os povos originados da América pré-colombiana seriam medrosos, destinados à derrota, pusilânimes, fracos, dóceis, inocentes, humildes, pacíficos e obedientes a tal ponto que pareciam ser verdadeiros imbecis. Por outro lado, o frei registrou também em seus escritos as habilidades e a inteligência dos índios, as quais ele admirava. Las Casas até valorizou em certos momentos a valentia e a capacidade de resistência indígena à conquista espanhola do território, embora também tenha criticado o fato de muitos índios terem traído o seu próprio povo, como a índia Malinche, amante e intérprete de Hernan Cortez.

É importante dizer que quando se fala em resistência indígena à dominação espanhola, muitas vezes se restringe tal processo à resistência por meio da guerra, da força. Exemplos notáveis disso foram a resistência dos índios araucanos, que só aceitaram a paz no século XIX, e a revolta liderada pelo cacique Enriquillo em Santo Domingo (1519-1529). Todavia, a resistência indígena ao conquistador europeu assumiu muitas vezes um caráter “sub-reptício”, ou seja, ela se dava de maneira dissimulada, escondida, parecendo ser uma coisa, mas significando outra. Em outras palavras, por trás da aparente passividade indígena registrada por Las Casas, houve sim várias formas de resistência.

Uma primeira forma de resistência sub-reptícia foi o silêncio. Os índios evitavam falar, principalmente em castelhano. O silêncio era não só um sinal do “trauma” por causa da derrota, mas também uma forma de preservar os segredos da própria cultura. Os índios também agiam com teimosia para conseguir algo que era do seu interesse, e não deixavam os colonizadores espanhóis em paz até que alcançassem um determinado objetivo. A mentira, por sua vez, era uma estratégia usada para enganar os espanhóis: os índios diziam-se pobres para não pagar tributos aos espanhóis; também diziam que havia metais preciosos em lugares distantes apenas para fazerem os espanhóis perderem tempo indo procurar tais riquezas.

Outro comportamento indígena que tinha uma finalidade de resistência era a bebedeira. Se em muitas sociedades pré-colombianas do continente americano o consumo exagerado de bebidas alcoólicas era severamente punido, a bebedeira se tornou um hábito comum entre os índios após a chegada dos europeus, que não conseguiam controlar o comportamento dos nativos em relação à bebida. Enquanto estavam bêbados, os índios aproveitavam para reverenciar seus próprios deuses, mesmo estando vestidos como espanhóis/cristãos. Os membros da Igreja católica muitas vezes se sentiam perdidos, sem saber como, e se, deviam punir tais atitudes, já que os índios que se embriagavam não demonstravam ter muita consciência do que estavam fazendo.

Enfim, a preguiça era uma outra forma de resistir ao conquistador. Os índios não se mostravam muito interessados em trabalhar para os espanhóis. Afinal, por que eles produziriam muitas riquezas para os invasores?

Todos esses comportamentos – o silêncio, a teimosia, a mentira, a bebedeira e a preguiça – eram vistos pelos espanhóis como traços negativos dos índios. Contudo, Bartolomé de Las Casas não via tais atitudes como negativas, mas como relacionadas ao modo de vida dos índios. Os índios tinham, de fato, um outro ritmo de trabalho, não tinham um apetite ilimitado pela riqueza. Além disso, os povos nativos valorizavam os momentos de lazer.

Mais que isso, tais comportamentos indígenas faziam parte do que pode ser chamado de “a simulação dos vencidos”, uma forma de resistência que se baseia em mentiras. Os índios se mostravam como cristãos no espaço público, mas continuavam com suas práticas religiosas no espaço privado. Assim, eles conseguiram por vezes preservar seu idioma e seus hábitos. Alguns índios até aprendiam o castelhano e também a usar as leis espanholas a seu favor (sobretudo os índios que aprendiam a ler e a escrever). Por outro lado, nem todos os espanhóis se dedicavam muito a aprender as línguas indígenas, e os espanhóis ficavam extremamente irritados quando os índios falavam exclusivamente nas línguas nativas perto deles: não era possível saber se os índios estavam caçoando dos espanhóis ou preparando alguma armadilha.

As línguas nativas eram usadas pelos índios ao fazerem suas festas e rezas. Também ocorria a mistura das duas religiões, onde Jesus Cristo tornava-se apenas mais um ídolo entre os vários que os índios cultuavam. Rezando na sua própria língua e misturando os santos católicos com suas próprias divindades, os índios pediam proteção contra os espanhóis. Graças a estratégias desse tipo os índios preservaram elementos da sua cultura e a sua própria identidade coletiva. Se tal “simulação” foi uma forma de luta, a resistência cultural pode ser vista como uma vitória. De fato, se por um lado os povos indígenas da América foram vencidos (conquistados) pelos europeus, por outro lado eles foram vencedores ao conseguirem preservar partes de sua cultura.

Sem sombra de dúvidas, a “simulação dos vencidos” e a resistência cultural indígena nos mostram que o projeto de sociedade organizada, católica e obediente que os espanhóis procuraram concretizar na América não se tornou realidade. O próprio Las Casas e outros cronistas espanhóis da época registraram que não só os índios, mas também os filhos de espanhóis nascidos na América eram desobedientes às leis vindas da Espanha. A nova sociedade hispano-indígena, segundo os cronistas do período, já nascia fracassada, seja por causa da resistência indígena, seja por causa da mestiçagem que “piorava”, segundo aqueles europeus, a natureza dos homens nascidos em solo americano.


BIBLIOGRAFIA

BRUIT, Héctor H. Bartolomé de Las Casas e a simulação dos vencidos. São Paulo: Unicamp: Iluminuras, 1995.

CORTEZ, Hernan. A Conquista do México. Tradução de Jurandir Soares dos Santos. Porto Alegre: L&PM, 1986.


LEÓN-PORTILLA, Miguel. A Conquista da América Latina vista pelos índios: relatos astecas, maias e incas. 4. ed. Tradução de Augusto Ângelo Zanatta. Petrópolis: Vozes, 1991.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A (re)constituição de um olhar de “horror”(*)

Jacques Soustelle (1912-1990), no livro “A vida cotidiana – Os astecas na véspera da conquista espanhola” (Companhia das Letras, 1990), nos apresenta elementos importantes para pensarmos o “olhar” que se lança sobre culturas distintas da nossa.
Segundo o autor, os astecas se inserem numa temporalidade em que há uma verdadeira simbiose entre homem e natureza. Além de os signos terem uma importância fundamental, os calendários cumpriam a função de determinar o destino dos homens diante dos deuses e do Universo. É nesta perspectiva que noite e dia, morte e vida, polos teoricamente opostos, não se excluem. Ao mesmo tempo, é nesse universo que se insere a necessidade dos sacrifícios humanos. Nessa cultura, estes eram vistos como extremamente essenciais, já que era um modo de agradar aos deuses e manter a estabilidade do mundo.
É certo que, ao se depararem com a prática dos sacrifícios humanos, os espanhóis, dispondo de referenciais históricos e culturais distintos dos astecas, caracterizaram essa prática como “demoníaca”, legitimando, assim, todas as formas necessárias para extirpá-la. A problemática que Soustelle levanta é que esses espanhóis, herdeiros da Inquisição, estavam habituados a queimar homens e mulheres vivos na fogueira, mas, ainda assim, não deixaram de olhar com “horror” para a prática dos mexicas. Consequentemente, isso nos leva a pensar que a noção de horror é algo que também se constitui historicamente.
Esse exercício reflexivo nos permite pensar as duas culturas totalmente distintas em questão: a dos astecas e a dos espanhóis, e o resultado de seu “encontro” no século 16. Mas, ao mesmo tempo, nos permite, ainda que considerando a distância geográfica e temporal, olhar para a temporalidade em que estamos inseridos hoje.


Nós, que estamos no século 21, herdeiros de vários processos como as duas grandes guerras mundiais, com todo o seu teor de catástrofe presente no século anterior, o que denominamos horror? Infelizmente, a fome, a miséria, a corrupção política, as mais variadas formas de intolerância etc. estão tão presentes em nosso cotidiano que perderam seu teor de tragicidade e, banalizados, já se tornaram parte do nosso presente.


(*) Texto escrito por Maria Abadia Cardoso, doutora em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás (IFG - Campus de Goiânia) e integrante do Núcleo de Estudos em História Social da Arte e da Cultura (Nehac/UFU). Este texto foi originalmente publicado pela autora no Jornal Correio de Uberlândia (edição de 30 de agosto de 2013).

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Alguns relatos de cronistas das Grandes Navegações

Alguns dos europeus que se aventuravam pelos mares durante as Grandes Navegações dos séculos XV e XVI costumavam registrar os fatos que aconteciam durante as viagens em diários e cartas. Esses materiais são documentos importantes para o estudo daquelas navegações, pois nos revelam, entre outras coisas, a visão de mundo daqueles homens, bem como nos oferecem informações sobre as terras e as populações que foram encontradas na América.

O próprio Cristovão Colombo registrou em seus diários a sua versão da viagem financiada por Fernando e Isabel – os “reis católicos” da Espanha – que o trouxe ao continente americano. O relato de Colombo é rico em descrições da viagem e da própria chegada à América – embora o navegador genovês pensasse ter chegado ao oriente –, apresentando ainda detalhes da fauna e da flora locais. Colombo escreveu também sobre as populações indígenas que encontrou e como foram os primeiros contatos com aquelas pessoas. Chamaram-lhe a atenção o fato de aqueles homens e mulheres andarem nus, terem os corpos “bonitos”, serem “amigáveis” e serem dispostos a trocar objetos com os europeus. Ainda segundo a descrição feita por Colombo, os índios pareciam ser de fácil conversão à fé católica e aparentavam ser “bons serviçais”. Ademais, o genovês se admirou com o fato de não existirem nem índios de pele negra nem índios de pele branca, visto que eles eram da “cor dos canários”. Em seus diários, é visível o interesse do navegador por metais preciosos, em especial pelo ouro. Colombo registrou ainda que mandou capturar alguns índios para que fossem enviados à Espanha e aprendessem a língua dos colonizadores. O navegador também afirmou em algumas passagens que seria aparentemente fácil subjugar aqueles povos, demonstrando ter a ideia de tomar e garantir a posse daquele território (COLOMBO, 1991).

O texto escrito por Cristovão Colombo não apenas descreve os detalhes da aventura por ele vivida, mas é também um documento que nos permite vislumbrar os interesses envolvidos na empresa das navegações, a saber, a busca por riquezas e o desejo de levar a fé católica a outros lugares do mundo. Assim, ao destacar a facilidade com a qual seria possível dominar os povos encontrados, o que Colombo pretendia era encorajar mais viagens, e, consequentemente, a própria empresa colonizadora.

Por sua vez, a expedição que trouxe Pedro Álvares Cabral ao litoral do território que daria origem ao Brasil contou com a presença de Pero Vaz de Caminha (Porto?, 1450 – Calecute, 1500), o escrivão da armada que registrou os detalhes desta viagem em uma carta. Segundo Antonio Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa, a “Carta do achamento” do Brasil escrita por Caminha foi redigida “entre os dias 26 de abril e 1° de maio de 1500” e tinha como objetivo “informar ao rei de Portugal, dom Manuel I, o descobrimento e apresentar-lhe o que aí se encontrou”. Ainda de acordo com os pesquisadores, a carta tem um “estilo claro” e a “objetividade que convém a um relatório”. Por sua vez, os fatos são apresentados em “ordem cronológica”, e revelam o que aconteceu entre os dias 09/03/1500, data do começo da viagem, e 02/05/1500, quando a expedição deixou o Brasil (OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 17).

É curioso perceber que Caminha se diz, de maneira humilde no início da carta, um ignorante, e que não registrará nada mais do que aquilo que viu e que lhe pareceu (CAMINHA, 2006, p. 19), tentando assim se mostrar o mais objetivo possível em seu relato. A terra foi avistada no dia 21 de abril por meio de um “grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o monte Pascoal e à terra – a Terra de Vera Cruz” (CAMINHA, 2006, p. 20).

Já sobre os primeiros contatos com os índios, Caminha escreveu: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles pousaram” (CAMINHA, 2006, p. 20). O escrivão registrou ainda a barreira linguística que dificultava a comunicação com aquelas pessoas – não foi possível “deles haver fala” –, mas destaca também que o primeiro contato foi pacífico e que houve entendimento entre os dois grupos por meio da relação de troca de objetos (Cf. CAMINHA, 2006, p. 20-21).

Em seguida, Caminha relatou um momento de confraternização entre índios e europeus: “Diogo Dias [...] levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles [os índios] a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da sua gaita” (CAMINHA, 2006, p. 21). Todavia, em outra passagem, o escrivão afirmou que os indígenas nem sempre ficavam tão próximos dos brancos: “Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam [...] e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar” (CAMINHA, 2006, p. 22). Assim, os índios foram vistos por Caminha como seres que deviam ser tratados com um certo cuidado, afinal, era preciso garantir que eles ficassem “mansos” em relação à presença dos europeus.

A impressão que os índios causaram em Caminha foi boa: “os corpos seus são tão limpos, tão gordos e formosos, que não pode mais ser”, “Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. Já muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um pouco afastados de nós; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco. Abraçavam-nos e folgavam” (CAMINHA, 2006, p. 22).

Em outra passagem do texto, Caminha falou da tentativa de cristianização dos índios: “E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção” (CAMINHA, 2006, p. 23).

O escrivão fez questão de complementar ainda: “E, segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tomados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram ambos. Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha. Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação”. (CAMINHA, 2006, p. 24-25).

Assim, de maneira parecida ao que fizera Colombo, Pero Vaz de Caminha salientou em seu relato a possibilidade de converter os índios à fé católica, utilizando para isso descrições do comportamento aparentemente dócil daquelas pessoas. Cabe ainda dizer que em outras passagens da carta, Caminha se mostra encantado com os recursos naturais do lugar e demonstra uma constante preocupação em encontrar metais preciosos.

O frade franciscano francês André Thevet (Angoulême, 1502 – Paris, 1590) viajou com Villegaignon para o Brasil em 1555 com o intuito de estabelecer aqui uma colônia francesa batizada de França Antártica. Permaneceu em solo americano de novembro de 1555 a janeiro de 1556. Thevet assim descreveu os índios do lugar: “esta terra foi e é ainda hoje habitada por gente prodigiosamente estranha e selvagem, sem fé, sem lei, sem religião, sem civilidade nenhuma, que vive como os animais irracionais, do modo como a natureza a fez, comendo raízes, andando sempre nua (tanto homens quanto mulheres), e isso talvez até que, convivendo com os cristãos, aos poucos se despoje dessa brutalidade, passando a vestir-se de modo mais civilizado e humano. No que devemos efetivamente louvar o Criador, que nos esclareceu, não permitindo que fôssemos assim brutais, como estes pobres americanos” (THEVET, 2006, p. 60).

Como se vê, Thevet descreveu os índios julgando-os a partir dos padrões europeus de comportamento. Desse modo, as pessoas do continente americano foram vistas como inferiores em relação ao homem civilizado vindo da Europa, portador este da razão, da verdadeira fé e dos bons modos. O olhar de Thevet, portanto, é marcado por uma perspectiva etnocêntrica.

Thevet registrou ainda uma crença da população indígena: “os nossos selvagens fazem menção a um grande Senhor, que na língua deles se chama Tupã e que, morando no céu, faz chover e trovejar. Mas não têm eles maneira nem hora de orar a esse deus ou de cultuá-lo, assim como tampouco há lugar próprio para isso” (THEVET, 2006, p. 61). Mais uma vez, o etnocentrismo se manifesta, pois Thevet avalia a crença indígena a partir dos modelos europeus de religiosidade, com seus templos e rituais.

Thevet detalhou ainda as relações entre indígenas e europeus: “Assim que esta terra foi descoberta, [...] esses selvagens, espantados ao verem as feições e os modos dos cristãos (que nunca antes haviam visto), tomaram-nos por profetas e os homenagearam como se fossem deuses. E essa canalha assim fez até que, percebendo estarem eles sujeitos a doenças, morte e paixões semelhantes às suas, começou a desprezá-los e a tratá-los pior que de costume, como ocorreu com todos os que depois chegaram, espanhóis e portugueses. De modo que, se esses selvagens ficarem irritados, não custarão a matar um cristão e a comê-lo, como fazem com seus inimigos. Mas isso ocorre em alguns lugares, especialmente entre os canibais, que não vivem de outra coisa, como fazemos aqui com bois e carneiros” (THEVET, 2006, p. 61).

Temos aqui, em verdade, uma diferença importante em relação aos relatos anteriormente citados e analisados. Em verdade, Thevet aponta para a ocorrência de conflitos entre indígenas e europeus, destacando com sua perspectiva etnocêntrica a crueldade da antropofagia praticada pelos indígenas. Contudo, é preciso esclarecer que o hábito de comer carne humana, uma prática de algumas populações indígenas que habitavam o território que viria a ser o Brasil, não era simplesmente uma opção alimentar, como parece pensar Thevet, mas sim um ritual místico-religioso.

Outro francês, Jean de Léry (La Margelle, 1534 – Berna, 1611), um homem de família burguesa e calvinista que, quando jovem, começou a estudar teologia, também viajou para o Brasil em 1556 para se estabelecer na colônia francesa fundada por Villegaignon. Retornou para a Europa em 1558, fixando-se em Genebra, onde concluiu os estudos em teologia e tornou-se ministro protestante. A sua narrativa sobre o período que passou no Brasil, quando conviveu com os índios, foi escrita dezoito anos depois do período que passou nestas terras e foi publicada em 1578, fazendo sucesso junto ao público leitor europeu e sendo traduzida para o holandês, o alemão e o latim (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 67-68).

Ao descrever os índios, Léry destacou como se fazia a justiça entre aquelas populações onde, segundo o seu relato, tudo era baseado no princípio de “vida por vida, olho por olho, dente por dente”. Contudo, mesmo narrando algumas brigas e alguns conflitos que ocorriam entre os índios, o francês salientou que, na maior parte do tempo, os índios se davam bem entre si e viviam em paz uns com os outros (Cf. LÉRY, 2006, p. 69). Em seu relato, Léry aponta para o fato de os índios não se fixarem em um único local, mas viverem mudando de região. É comum no texto do francês a opinião de que certos costumes indígenas são melhores que os dos europeus, como é o caso do hábito de dormir em redes: “pergunto a quem as experimentou se de fato não é melhor nelas [nas redes] dormir, principalmente no verão, do que em nossas camas comuns” (LÉRY, 2006, p. 71). Sobre as mulheres indígenas, Léry descreveu os trabalhos domésticos feitos por elas. Já sobre a forma como índios recebem as pessoas, o francês escreveu: “nossos tupinambás recebem com grande humanidade os estrangeiros amigos que os vão visitar, ainda que os franceses e outros daqui que não entendam a língua deles se sintam no começo admirados e assombrados” (LÉRY, 2006, p. 72). Sobre a sua primeira visita a uma aldeia, Léry registrou: “senti-me aturdido com aquela gritaria e correria pela aldeia com meus equipamentos [um pouco antes, Léry contara que os índios haviam pegado seu chapéu, sua espada, seu cinto, e seu casaco], o que não só me fazia pensar que tinha perdido tudo como também me deixava sem saber onde estava” (LÉRY, 2006, p. 73). Contudo, Léry esclarece em seguida que fazia parte dos modos indígenas brincar com as coisas alheias por um tempo, mas que depois devolviam tudo ao dono (Cf. LÉRY, 2006, p. 73).

No que diz respeito à antropofagia, temos que a presença deste hábito entre os índios amedrontou Léry: “E estava eu tão cansado, querendo apenas repousar, que, depois de comer um pouco de farinha de raízes e de outros alimentos que nos haviam oferecido, estendi-me e fiquei deitado na rede na qual me havia sentado. Mas não dormi, porque, além do barulho que os selvagens fizeram a noite toda em meus ouvidos com aquelas danças e assobios, a comerem o prisioneiro, um deles, trazendo na mão um dos pés deste, cozido e tostado, aproximou-se de mim e perguntou-me (como soube depois, porque então não entendi) se queria um pedaço; comportamento este que provocou em mim tanto pavor que nem cabe perguntar se perdi toda a vontade de dormir. Pois como eu acreditasse que aqueles sinais e aquela exibição da carne humana, que ele devorava, eram uma ameaça, e que ele estivesse dizendo e dando a entender que em breve eu estaria com aquele aspecto, e como uma dúvida puxa outra, logo desconfiei que o intérprete, traindo-me deliberadamente, me havia abandonado, deixando-me nas mãos daqueles bárbaros. E se eu tivesse visto alguma abertura para sair e fugir dali, não teria hesitado. Mas vendo-me cercado de todos os lados por aquela gente cujas intenções ignorava (pois, como se saberá, eles não pensavam de modo algum em fazer-me mal), acreditava eu firmemente e previa mesmo que seria devorado, o que me fez invocar Deus em meu coração durante toda aquela noite” (LÉRY, 2006, p. 74).

Apesar do temor descrito neste episódio, Léry assume uma postura interessante, ao tentar valorizar certos aspectos da cultura indígena. Ao falar de como os índios recebiam os seus visitantes, salientando que aqueles povos ofereciam comida, bebida e lugar onde dormir a quem chegasse amigavelmente às suas aldeias, Léry é capaz de afirmar o seguinte: “tendo eu vivido com eles, confiaria mais neles e de fato estava mais seguro em meio àquele povo que chamamos selvagem do que me sinto hoje em alguns lugares de nossa França, com franceses desleais e degenerados: falo daqueles que assim são, pois quanto à gente de bem, de que graças a Deus o reino ainda não está desprovido, muito me entristeceria denegrir sua honra” (LÉRY, 2006, p. 79).

Como o nosso leitor pode observar, Léry procurou compreender o comportamento dos índios registrando certo estranhamento por um lado, mas em contrapartida também chamando a atenção para aspectos positivos daquelas populações, revelando que seus preconceitos em relação a aquelas pessoas caíam por terra quando os conhecia melhor. Assim, a postura de Léry é emblemática quando se pensa nas formas como os homens lidam com as diferenças culturais ao longo do tempo. Pode-se dizer que Léry revelou possuir um certo senso de relatividade dos costumes – o que é estranho para um grupo, pode não ser para outro – e também uma simpatia para com os indígenas, o que lhe permitiu melhor compreendê-los.   

Outro relato interessante que foi produzido no contexto das grandes navegações é o de Hans Staden, homem de quem poucos dados biográficos existem. Sabe-se que viveu no século XVI, tendo nascido em Hessen, na Alemanha. Staden viajou duas vezes ao Brasil, na primeira foi à região de Pernambuco em 1547, de onde retornou a Portugal no ano seguinte, e, na segunda, em 1550, estabeleceu-se na região de São Vicente. Entre meados de janeiro e 31 de novembro de 1553, Staden foi prisioneiro dos tupinambás, em um período no qual era frequentemente ameaçado de morte e de ser devorado em um ritual da tribo. O seu relato sobre suas aventuras foi publicado pela primeira vez em 1557, em Hessen, e foi posteriormente traduzido para o flamengo, o holandês, o latim e o francês (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 83).

Sobre o seu aprisionamento, Staden escreveu: “Quando entrei [em uma casa dos índios], correram as mulheres ao meu encontro e me deram bofetadas, arrancando a minha barba e falando em sua língua: ‘Che anama pipike aé’, o que quer dizer: ‘Vingo em ti o golpe que matou o meu amigo, o qual foi morto por aqueles entre os quais tu estiveste’. Conduziram-me, depois, para dentro de casa, onde fui obrigado a me deitar em uma rede. Voltaram as mulheres e continuaram a me bater e maltratar, ameaçando de me devorar” (STADEN, 2006, p. 85).

Vale destacar que durante o período em que passou com os índios, Hans Staden aprendeu muito sobre a vida da tribo. No que diz respeito ao casamento, por exemplo, Staden registrou em seu relato que a maioria dos índios do sexo masculino tinha apenas uma mulher, mas os mais importantes do grupo tinham mais de uma, podendo chegar a 13 ou 14 esposas, que em geral se davam bem entre si (Cf. STADEN, 2006, p. 86).

Na narrativa de Hans Staden o que chama a atenção é a descrição dos modos como os indígenas tratavam os seus inimigos. Depois de aprisionado, o inimigo era trazido para a casa de algum indígena, onde recebia bofetadas de mulheres e crianças, era enfeitado com penas pardas, tinha as sobrancelhas cortadas e era amarrado para que não fugisse. Uma mulher o guardava e tinha relações com ele. Se ela concebesse um filho, a criança seria educada até ficar grande, e, quando fosse a vontade da tribo, ela seria morta e devorada. Quanto ao prisioneiro, era tratado por algum tempo com boa comida, porém, quando chegasse o dia do sacrifício, ele era amarrado com uma corda comprida. Selvagens de outras tribos eram convidados, e havia danças ao redor do prisioneiro, que era conduzido pela “praça” da aldeia. Amarrado pelo meio da corda, o prisioneiro era impedido de fugir por dois grupos de pessoas que o seguravam, cada um, por uma das pontas da corda. Um dos integrantes da tribo matava o prisioneiro com um golpe de bastão na nuca. Então, o corpo do inimigo era levado ao fogo e cortado. Uma sopa era feita com os intestinos e consumida pelas mulheres e crianças, que também comiam a carne da cabeça, os miolos e a língua. (Cf. STADEN, 2006, p. 87-88).

Rico em detalhes, o relato de Hans Staden nos permite vislumbrar os perigos aos quais podia-se estar submetido em solo americano. Em verdade, a aventura das grandes navegações dos séculos XV e XVI era repleta de riscos aos europeus que se lançavam à conquista ultramarina. 

Para finalizar, mencionemos um relato do início do século XVI cuja autoria ainda não foi determinada com precisão. Trata-se da conhecida narrativa do “Piloto Anônimo” acerca da expedição de Pedro Álvares Cabral. Ao contrário do que dissera Pero Vaz de Caminha, o texto do Piloto Anônimo afirma que houve vista de terra no dia 24 de abril (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 30). O texto apresenta a sua versão da história descrevendo os aspectos físicos dos índios – “gente parda, bem disposta, com cabelos compridos; andavam todos nus sem vergonha alguma, e cada um deles trazia seu arco com frechas” –, a barreira linguística nos primeiros contatos – “não havia ninguém na armada que entendesse a sua linguagem”, os índios “não se entendiam por falas, nem mesmo por acenos” – e o comportamento dos indígenas durante a realização de uma missa – eles “bailavam e tangiam nos seus instrumentos”. O texto ainda apresenta informações a respeito da fauna e da flora locais, tecendo elogios às riquezas naturais do lugar – os papagaios, o inhame, as árvores, a abundância de água, etc. (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 30-31).   

Em seguida, o texto do Piloto Anônimo apresenta mais uma informação interessante: “Nos dias que aqui estivemos, determinou Pedro Álvares Cabral fazer saber ao nosso Sereníssimo Rei o descobrimento desta terra, e deixar nela dois homens condenados à morte, que trazíamos na armada para este efeito; e assim despachou um navio que vinha em nossa conserva carregado de mantimentos, além dos doze sobreditos, o qual trouxe a el-rei as cartas em que se continha tudo quanto tínhamos visto e descoberto. Despachado o navio, saiu o capitão em terra, mandou fazer uma cruz de madeira muito grande e a plantou na praia, deixando, como já disse, os dois degredados neste mesmo lugar, os quais começaram a chorar, e foram animados pelos naturais do país, que mostravam ter piedade deles” (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 32).

O relato então descreve a partida da frota de Cabral daquela região e a posterior viagem em direção ao oriente, em uma narrativa que é marcada pelas descrições dos perigos aos quais aqueles homens estavam submetidos: “o mar embraveceu-se por maneira tal que parecia levantar-nos ao céu, até que o vento se mudou de repente, e posto que a tempestade ainda era tão forte que não nos atrevíamos a largar as velas, ainda assim, navegando sem elas, perdemo-nos uns dos outros, de modo que a capitaina com duas outras naus tomaram um rumo, outra chamada ‘El-Rei’ com mais duas tomaram outro, e as que restavam ainda outro, e assim passamos esta tempestade vinte dias consecutivos sempre em árvore seca, até que aos 16 do mês de junho houvemos vista da terra da Arábia, onde surgimos, e chegados à costa pudemos fazer uma boa pescaria” (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 33).

Naquele tempo, lançar-se ao mar sem o conhecimento e as tecnologias que temos hoje era uma aventura cheia de riscos, e muitos morreram durante as grandes navegações. Posto isso, é preciso dizer que os contatos entre os navegadores europeus e os povos que viviam no continente americano se deram a partir de uma conjuntura muito específica. Encontrando os mais diferentes povos em solo americano, portadores de costumes até então desconhecidos na Europa, os europeus que aqui chegaram lançaram muitas vezes um olhar etnocêntrico sobre as populações indígenas.

Ver o outro como inferior ajudava a justificar a conquista do território, a dominação, a cristianização e, não tardou a demorar, também o extermínio dos índios. O homem europeu, ao se considerar superior, sentia-se no direito de explorar o continente americano. No contato entre as diferentes culturas, os navegadores vindos da Europa não puderam deixar de estranhar e condenar certos hábitos indígenas. Por outro lado, a postura de um homem como Jean de Léry, como se viu, nos mostra que havia quem estivesse disposto a entender melhor o modo de vida das pessoas que habitavam a América antes da chegada dos europeus a partir do final do século XV.

O que se pode concluir a partir dos relatos de alguns cronistas das grandes navegações aqui brevemente analisados é que a relação com o “outro”, com aquele que nos é diferente, é quase sempre marcada por dificuldades e pelo estranhamento. Contudo, compreender melhor o outro e sua forma de ver o mundo é um exercício importante, ainda mais quando se vive em um mundo que ainda apresenta tantos preconceitos e formas de intolerância como é o nosso mundo de hoje.

Desse ponto de vista, estudar como foram os contatos entre os europeus e os indígenas, bem como refletir acerca da maneira pela qual os homens do Velho Mundo lidavam com as diferenças no século XVI, pode nos auxiliar a pensar nas formas como nós, hoje em dia, lidamos com as diferenças culturais. Nessa perspectiva, cronistas como Colombo, Caminha, Thevet, Léry e Staden ainda têm muito a nos ensinar.


 Bibliografia

CAMINHA, Pero Vaz de. Carta do achamento do Brasil. In: OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 19-25.

COLOMBO, Cristovão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e o testamento. Porto Alegre: L&PM, 1991.

LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. In: OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 69-81.

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