Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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domingo, 7 de maio de 2017

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita? (*)

(*) Texto escrito por Camilla Costa e originalmente publicado no site da BBC Brasil, no dia 07 de maio de 2017. Para ter acesso à publicação original, clique aqui.


"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que, na verdade, o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam um terceiro caminho", afirma.


Nacionalismo

A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".


'Marxistas e capitalistas'

Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução que garantiria justiça social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.

"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida o ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturais de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."


'Precisão científica'

A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, nos dias de hoje, associa o movimento a partidos de extrema-direita que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco a comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como "direita".

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.


'Crise de referências'

Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."

Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo mais à direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."



segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma imagem e uma velha polêmica sobre Hitler e o nazismo...

Uma imagem tem circulado nas redes sociais e reacendeu um velho debate em torno da visão de mundo de Adolf Hitler e do nazismo. A imagem é esta:


Algumas páginas e alguns perfis no Facebook estão compartilhando a imagem acima e a usando como "argumento" para defender a ideia de que Adolf Hitler e o nazismo seriam "de esquerda", já que o próprio nome completo do Partido do führer alemão era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Pelo menos é o que muitos usuários do Facebook estão dizendo por aí... Mas o que podemos pensar a respeito disso?

Em primeiro lugar, o nazismo foi um fenômeno bastante complexo, e reduzir os debates a respeito dele apenas em termos de "direita" e "esquerda" é um tanto quanto empobrecedor. Ademais, é sempre útil lembrar que as expressões "direita" e "esquerda" foram introduzidas no vocabulário político ocidental a partir de um contexto bastante específico, a saber, a Revolução Francesa do final do século XVIII. Desde os acontecimentos que se desenrolaram na França revolucionária até hoje, as expressões "direita" e "esquerda" têm sido usadas nos mais variados contextos e com significados por vezes muito diversos. Assim, antes de classificar alguém ou um partido como de "direita" ou de "esquerda", é preciso antes deixar muito claro sobre o que se entende de fato por cada uma dessas expressões. E estabelecer definições, é preciso que se diga, não é uma tarefa tão simples como muitos pensam...

De qualquer forma, o que chama a atenção em certas postagens segundo as quais Hitler e o nazismo eram "de esquerda" é a tentativa de aproximar Hitler e o nazismo do socialismo - mas "socialismo" entendido como uma visão de mundo próxima das ideias Karl Marx. Há em certas postagens no Facebook até uma tentativa de colocar o nazismo alemão e o stalinismo soviético no mesmo saco: "os dois eram socialistas, os dois eram, portanto, 'de esquerda'". Afinal, não se lê "socialista" no nome completo do Partido Nazista? Pelo menos, este é o modo como muitos enxergam a questão... Todavia, muitas dessas pessoas que dizem isso não param para pensar em algo importante: afinal, qual (ou quais) o(s) possível (ou possíveis) significado(s) da palavra "socialismo"?

Vamos esclarecer alguns pontos. Primeiro, as ideias de Karl Marx foram a base para o chamado "marxismo", que nada mais é do que uma teoria que critica o Capitalismo por meio de categorias de explicação como "materialismo histórico", "luta de classes", "mais valia", "consciência de classe" e "revolução". É importante lembrar que dentro do "marxismo" existem diversas correntes e linhas de pensamento, que não são totalmente iguais entre si. Ou seja, existem muitas divergências dentro do marxismo. Por sua vez, o "socialismo" é uma ideologia política que surgiu antes mesmo do próprio "marxismo" e, embora tenha sido influenciada por ele a partir de meados do século XIX, é um equívoco reduzir o "socialismo" apenas às ideias de Marx, como muitas pessoas parecem fazer no Facebook. Como ideologia, o "socialismo" propõe uma sociedade livre da "exploração capitalista", na qual os trabalhadores possam se apropriar dos meios de produção. "Socialismo" e "marxismo" podem ter alguns pontos de contato, é verdade, mas não são totalmente a mesma coisa. O que o "marxismo" almeja é o "comunismo", que seria uma etapa posterior ao "socialismo", quando finalmente não existiriam mais os conflitos de classe. [1]

Mas qual seria o significado da expressão "socialista" presente no nome do Partido Nazista? Vamos deixar o próprio Adolf Hitler responder a esta pergunta. Em entrevista realizada em 1923, e republicada em 1932, o führer disse:

"O socialismo [...] é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só." [2]

Como se vê, Hitler tinha uma definição muito específica para o termo "socialismo". Este, segundo ele, não seria totalmente igual às ideias de Karl Marx (como muitas pessoas parecem pensar nos dias de hoje). O "socialismo" de  Hitler sequer criticava a propriedade privada. Pelo trecho citado acima, podemos perceber que uma mesma palavra - "socialismo" - pode ter vários significados dependendo do contexto e de quem fala. Por isso, antes de classificar alguém como "socialista", é preciso que se pergunte antes: de qual "socialismo" se está falando?

Voltemos agora, finalmente, para a imagem reproduzida no início deste texto. Nela, podemos ver claramente a suástica nazista acompanhada da foice e do martelo. O que podemos dizer a respeito disso? Trata-se na verdade de um broche produzido na Alemanha nazista (no ano de 1934, como pode ser visto na imagem) em razão do Dia do Trabalhador (tradução do "Tag der Arbeit" escrito na parte superior do broche). A foice e o martelo de fato são símbolos que historicamente foram usados por grupos socialistas sim, mas há uma diferença importante aqui. Nas bandeiras de partidos e países socialistas, a foice o martelo geralmente aparecem cruzados, como pode ser visto na imagem reproduzida abaixo:

 Bandeira da URSS.

A foice e o martelo cruzados representam a união de trabalhadores urbanos (das indústrias) e rurais (os camponeses) dentro da perspectiva da chamada "luta de classes". Já no broche nazista de 1934, a foice e o martelo estão separados, ou seja, eles não aparecem ali com o mesmo significado do que nas bandeiras de partidos e países socialistas! Os objetos são os mesmos, mas a diferença na forma de representá-los remete a um outro significado! Dentro do visão de mundo nazista, a "luta de classes" não era um aspecto central como é para o "marxismo" ou o "socialismo" influenciado pelo marxismo. Hitler valorizava muito mais a união de todos os membros da sociedade alemã do que a "luta" entre as diferentes "classes" daquele país. Hitler valorizava na verdade a "raça" do povo alemão (a "raça ariana"). Sendo da mesma "raça", os alemães deveriam estar todos unidos dentro de um sentimento nacionalista, e não em "luta" uns com os outros, afinal, o que deveria existir era uma "solidariedade racial". Em geral, partidos socialistas focam muito mais na questão da "classe" e não na questão da "raça", o que nos ajuda a entender o porquê de Hitler dizer que o seu partido não era "internacionalista", mas sim "nacional". Mais uma vez, Hitler tinha uma definição muito específica para a palavra "socialismo". Ademais, segundo ele, o nome em si do seu partido nem seria tão importante assim, pois como Hitler disse no trecho anteriormente citado, o seu partido até poderia se chamar "Partido Liberal". O nome em si não é, portanto, prova de nada, pois é preciso sempre estar atento para o significado que se atribui a certo nome ou a certa expressão. Os significados das palavras dependem do contexto histórico em que as mesmas são ditas e/ou escritas.

Apenas para reforçar o que estamos demonstrando aqui, é preciso dizer que, no broche nazista de 1934, nós podemos ver também a famosa suástica nazista. Ora, assim como a foice e o martelo, a suástica como símbolo não foi uma invenção de Hitler, pois o que o nazismo fez foi se apropriar de um símbolo muito mais antigo e que já havia sido usado antes nas mais variadas culturas. [3] Para os povos hindus, a suástica certamente tinha outro significado, diferente daquele dado pelos nazistas ao símbolo. O símbolo (o desenho, a imagem) por si só não significa nada, pois tudo dependerá do contexto em que o mesmo aparece e é usado. Símbolos podem ser ressignificados ao longo do tempo. Pois se o mesmo símbolo tivesse sempre o mesmo significado, então a águia que também aparece no broche nazista poderia ser associada, por exemplo,  aos Estados Unidos da América (já que a águia é um símbolo muito usado para representar os EUA)... Como se vê, simplificar o uso de um determinado símbolo pode dar origem a afirmações absurdas...

Símbolos e palavras possuem significados que vão mudando ao longo do tempo. E por isso, antes de compartilhar certas imagens no Facebook, é sempre útil buscar mais informações a respeito de determinado assunto, para não se cometer certos equívocos. Limitar a discussão sobre o nazismo ao binômio "direta"/"esquerda" é simplificar demais o assunto. Apenas afirmar que Hitler era "socialista" também não diz muita coisa em si, é preciso antes definir claramente tal termo. É muito mais produtivo buscar entender detalhadamente as ideias que faziam parte da visão de mundo nazista, dentro das suas particularidades. Só assim compreenderemos um pouco melhor o que foi o nazismo. Se alguma aproximação pode ser feita entre o nazismo alemão e o stalinismo soviético, é o fato de esses dois regimes terem sido "totalitários", e não a questão em torno do "socialismo".


___________________________
[1] Resta ainda recordar um outro significado para a expressão "socialismo". No século XX, a União Soviética e outros países alinhados a ela no contexto da Guerra Fria formaram um bloco que ficou conhecido como o "bloco socialista". Mas o "socialismo" aqui não era o mesmo daquela ideologia política surgida na passagem do século XVIII para o XIX. O "socialismo" da URSS e dos países que se alinharam a ela depois da Segunda Guerra Mundial tem um outro significado, que remete a um regime político onde o Estado controla a economia, centraliza o poder, institui uma partido único e restringe fortemente as liberdades individuais. A palavra - "socialismo" - é a mesma, mas o significado dela não.

[2] Trecho de entrevista concedida por Hitler a George Sylvester Viereck, publicada no jornal Liberty, de 9 de julho de 1932. A entrevista está disponível em português em: ALTMAN, Fábio (Org.) A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias. São Paulo: Scritta, 1995, p. 114-115.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rebelião das Massas: a origem dos movimentos sociais*

*ATENÇÃO: Este texto foi escrito por Voltaire Schilling, tendo sido originalmente publicado no portal Terra, no dia 11 de julho de 2013. Para ler a publicação original, clique aqui.


As massas e a história 

Descontando-se os inúmeros e praticamente incontáveis levantes de massas que ocorreram na história da humanidade, sob o ponto de vista da época contemporânea, pode-se fixar sua erupção na política a partir de dois eventos muito próximos. Um deles, a Boston Tea Party (A Festa do Chá em Boston, que ocorreu em 1773), um tanto antes da eclosão da Revolução Americana (1776-1783); o outro, a Queda da Bastilha, de 14 de julho de 1789, foi responsável pelo desabamento de uma monarquia que já existia há mais de 13 séculos na França.

Ambos os acontecimentos são marcos da espetacular ação das massas revolucionárias e da entrada delas definitivamente no universo da política, do qual por séculos estiveram ausentes. Esta, ao longo dos tempos, tinha sido monopolizada por aristocratas, fidalgos e plutocratas em geral, personagens das elites do seu tempo que definiam os destinos dos povos sem fazer-lhes consulta sequer.

Desta feita, era o homem comum, uma multidão de anônimos, quem arrombava as portas daquele Olimpo, obrigando-o a ouvir e a atender suas demandas. O filósofo Hegel, em carta a um amigo, registrou esta nova força que punha o mundo em andamento, afirmando:

Esta erupção das massas generalizou-se ainda mais por ocasião da Revolução de 1848 - a "Primavera dos povos" -, movimento extraordinário que fez tremer quase que todas as capitais e cidades mais importantes da Europa, com reflexos inclusive na América Latina.

Para Elias Canetti, autor de um livro clássico sobre o assunto, Masse und Macht (Massa e Poder, 1960), esta excitação e presença das multidões nas ruas protestando ou insurgindo-se resultou da libertação do controle que a religião exercia sobre elas até a eclosão da Revolução Francesa de 1789. Desde então foram incontáveis os "estouros" que ocorreram em várias partes do mundo e que, tudo indica, não mais cessarão.


Marx exalta as massas 

Karl Marx foi o primeiro filósofo moderno a captar as potencialidades transformadoras da multidão em marcha. Percebeu que a elas, e somente a elas, e não aos heróis das classes tradicionais, cabia "mudar o mundo", conduzindo-o para uma etapa superior da história da humanidade. Propôs, então, uma aliança entre os pensantes, os filósofos, os intelectuais, com a maioria sofredora, o proletariado moderno. Afinal, eram "as massas quem fazem a história", assegurou.

Este entusiasmo arrefeceu um tanto, não do lado de Marx e de seu companheiro Engels, mas de larga parte da opinião pública em geral quando dos dramáticos episódios provocados pela Comuna de Paris, ocorridos em março de 1871. Naquela oportunidade, milhares de trabalhadores da capital da França, homens, mulheres e crianças, levantaram-se em armas contra o governo de Versalhes que fizera concessões humilhantes aos alemães vitoriosos na Guerra Franco-Prussiana (1870).

A capital francesa ficou parcialmente destruída, com os prédios e monumentos incendiados ou postos abaixo. Para Marx, a Comuna, ainda que vencida e esmagada, representou, pela primeira vez na história, ainda que em esboço, o que certamente viria a ser um governo do proletariado.

Em Paris, a Massa tornara-se Poder mesmo que fora por apenas 72 dias. Ela "tomara o céu de assalto", segundo ele.

O sonho, ainda que inesperado para a maioria dos seguidores de Marx, paradoxalmente se fez realizado não na desenvolvida e civilizada Europa Ocidental, como ele previra, mas na bárbara Rússia dos czares autocratas e dos mujiques miseráveis. Lenin, líder bolchevique, assegurou que, a partir de 25 de outubro de 1917, as massas conduzidas por seu partido estavam definitivamente no poder.

São Petersburgo e Moscou transformaram-se em palcos de enormes manifestações, marchas se sucediam, turbilhões humanos varriam os veneráveis logradouros tanto da capital da Rússia asiática como da bela cidade de Pedro. Vendo aquele espetáculo, com milhares de pessoas gritando slogans ou simplesmente andando, o linguista Mikhail Bakhtin desenvolveu na década de 1920 o conceito de carnavalização e polifonia da obra literária. Diversas vozes nela se fazem presentes como se fora nos ruidosos tempos das feiras medievais.


A origem socioeconômica das massas 

A presença das massas, das extraordinárias multidões humanas, é um fenômeno mais ou menos recente na história. Anteriormente à Revolução Industrial, a população era majoritariamente rural. Encontrava-se espalhada pelo campo, vivendo em pequenas aldeias ou vilarejos isolados, com escasso número de habitantes. Não tinha como haver significativas concentrações como as que começaram a emergir nos conglomerados urbanos da Europa Ocidental entre 1750 e 1850. A chave para se entender a impactante presença delas, das multidões, tem como origem tecnológica a máquina a vapor, surgida em 1765.

O invento de James Watt teve como efeito direto a possibilidade de se instalar fábricas nos cinturões das cidades, liberando-as da necessidade de serem montadas à beira de rios ou riachos, muitos deles distantes do mercado consumidor. Com os engenhos veio a mão-de-obra. Milhares de operários começaram a se concentrar ao redor delas, tornando as fábricas o centro da sua vida econômica e social.

Na esteira delas, ampliou-se o setor de prestação de serviços, o comércio com suas lojas, os armazéns, as galerias, o setor financeiro com sua rede de bancos, o lazer com seus cafés, restaurantes, teatros etc.

Londres, por exemplo, capital do Reino Unido, quase duplicou a população em apenas um século: eram 527 mil habitantes que saltaram para 1.096.784 quando do primeiro censo oficial em 1801. Não sendo muito diferente, ainda em tempo diverso, do que ocorreu em Nova York, Paris, Berlim, Milão...

Agigantaram-se os centros industrializados no Ocidente igualmente pelo efeito da imigração interna. Milhares de camponeses, de lavradores e de gente do campo em geral, aproveitando-se da dissolução da Ordem Feudal, abandonaram seus sítios natais para tentar a vida nas metrópoles. A soma do crescimento natural com a chegada das levas de mão-de-obra do interior é que possibilitou a proliferação das megaconcentrações urbanas poucas vezes vistas anteriormente na história.


O desconforto com as massas 

Para os antigos citadinos causava estranheza e repulsa a repentina mudança que o crescimento econômico e populacional trouxe. Do dia para noite, em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Milão, Manchester ou Liverpool, os cidadãos tiveram que passar a conviver com estranhos que ninguém sabia de onde vieram. Desconheciam modos urbanos, em geral eram rudes e incivilizados, agrupavam-se nos arrabaldes em meio à sujeira e à doença em casebres medonhos e fétidos, sem higiene alguma, e pareciam não se incomodar em conviver com esgotos ao ar livre. Manifestavam dificuldades de adaptação a uma cidade erguida com pedras e não com troncos e palha como o local de onde vieram.

Quem por primeiro usou o termo "classes perigosas" foi H. A. Frégier, chefe de polícia francês no livro Des classes dangereuses de la population dans les grandes villes et des moyens de lês rendre meilleures (1840), para definir setores sociais propensos à criminalidade. O medo passou a ser constante para os habitantes das classes média e alta da cidade. Assaltos e roubos tornaram-se habituais. O crime vicejou como se fora um envenenamento da civilidade. A superpopulação em determinados bairros da periferia acoitava e irradiava ondas pestíferas que enchiam os demais de pavor. Surgiam as classes perigosas (ver Louis Chevalier: Les classes labouriesues et les classes dangereuxes ).


O gênio contra a massa 

Coube ao escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle, fortemente influenciado pelo romantismo alemão, com sua Teoria do Grande Homem exposta no livro Heroes, Hero-worship, and the Heroic in History (Sobre Heróis: O heroísmo e a veneração do herói na História, 1841), tratar de contrapor a figura do herói à presença ascendente das massas.

Para ele, o homem comum, a célula da massa, de nada valia a não ser como peão ou degrau para assegurar a projeção do herói e respaldar sua realização. Este é quem fazia a História. A consequência política disto foi sua condenação à democracia, "império do vulgar" na terra, e a consequente apologia da elite.

Vários outros escritores alemães que o antecederam já haviam manifestado sua ojeriza à presença da massa e do ser anônimo que proliferava naquela época, enaltecendo ao revés o Ser Excepcional. Nietzsche, após ter ficado profundamente chocado com os eventos trágicos da Comuna de Paris, foi quem melhor revelou este pavor à multidão, apostando no surgimento futuro de um übermensch, o Super-Homem (Assim falou Zaratustra, 1888). O fenômeno extraordinário que, desprezando as normas de conduta que regiam a maioria, conduziria o destino da humanidade no futuro (Além do Bem e do Mal). O pensamento contra-revolucionário e elitista dele forneceu os argumentos para uma formidável literatura anti-massa que surgiu na transição do século 19 para o 20.


O irracionalismo da massa

Coube ao sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, por meio do seu famoso ensaio La psychologie des foules (Psicologia das Multidões, de 1895), demonizar as massas. Para ele, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, os imensos ajuntamentos humanos que se decidiam a marchar e a protestar nada mais eram senão que o irracionalismo posto em ação. Mesmo quando se mobilizavam por uma causa patriótica ou altruísta nada traziam de bom, a não ser a depredação e a desordem. Quando não a subversão social.

E isto, entre outras causas, se devia a metamorfose que ocorre com o indivíduo que adere à multidão contestadora. De alguém tímido, acanhado, normalmente respeitador das regras, ele, imerso em meio aquele mar humano que seguia pela avenida a fora que o tornava um anônimo, libertava-se facilmente das convenções e das noções de civilidade que recebera. Simplesmente sucumbe ao número, à "alma da multidão".

O criminalista e penalista italiano Scipio Sighele, discípulo de Cesare Lombroso, retomou o tema e o ampliou no seu ensaio La folla delinquente (As classes criminosas, 1891). Não tinha contemplação para com as multidões, qualquer ajuntamento além do razoável tendia inevitavelmente ao comportamento criminoso. Logo nos deparamos com sua vociferação, destravado, a fúria vai tomando conta dele e não tarda para que junte pedras pelo chão para lançá-las contra as vitrines ou contra as forças policiais. O manso vira fera. A massa, aceleradamente excitada, facilmente regride ao comportamento de uma manada, todos agindo do mesmo modo instintivo sem o amparo de qualquer raciocínio, e o indivíduo, como que um possesso, retorna ao estado da natureza hobbesiana ("o lobo do homem é o outro homem").


Massa e Revolução 

A surpreendente Revolução Russa de janeiro de 1905 abriu intenso debate em meio ao movimento socialista europeu, particularmente entre os teóricos social-democratas alemães (reformistas ou revolucionários) e os socialistas russos que participaram ativamente dos eventos que varreram o Império do Czar durante aquele ano. Perdida a Guerra russo-japonesa (1904), o governo de Nicolau II, logo em seguida ao massacre do Domingo Sangrento do dia 9 de janeiro (centenas de manifestantes foram fuzilados pela Guarda Cossaca em frente ao palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo), se viu frente a uma violenta contestação.

Não houve bairro proletário da Rússia, pelo menos nos grandes centros urbanos, que não tenha saído em peso às ruas para demonstrar sua raiva. Greves espontâneas eclodiram por todos os lados. As queixas pela inépcia militar logo se transferiram para uma generalizada confrontação contra o regime czarista como um todo. Tornou-se o maior levante de massas da Europa de então, muitas vezes superior à Comuna de Paris de 1871.

Rosa Luxemburgo, a famosa social-democrata de esquerda, judia polonesa que militava na Alemanha, exultou com o "espontaneismo" das classes trabalhadoras russas. Vislumbrou naquelas ações o futuro da Revolução Socialista. Concluiu que era delas de onde partiria a iniciativa da derrubada da ordem aristocrática/burguesa e não das direções acomodadas dos partidos socialistas europeus, um tanto paralisados pelos cuidados burocráticos e pela vida rotineira.

Vladmir Lenin chegou a outra conclusão. De nada serviam aquelas explosões espontâneas se não houvesse uma organização disciplinada e hierarquizada que desse um sentido àquilo, que conduzisse aquela enorme energia despertada pela multidão em fúria e disposta a tudo para tomar o poder pela força.

Anos mais tarde, Trotsky, que aderira a Lenin, explicou no seu livro História da Revolução Russa – vol. I, detalhadamente a concepção leninista por meio da metáfora "do vapor e do êmulo". A massa em ebulição gerava uma enorme energia, mas que se não houvesse um êmulo para dirigi-la, toda a pressão gerada em pouco tempo se esvaía. O espontaneismo é fantástico, mas em nada redunda de positivo se não for orientado para um determinado fim (no caso, tomar de assalto o poder). Como os bolcheviques terminaram fazendo em outubro de 1917, na Segunda Revolução.


A massa contra-revolucionária 

Certamente que um dos mais desconcertantes fenômenos políticos contemporâneos foi a plena adesão das massas aos movimentos nazi-fascistas que surgiram a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Até então as aparições das multidões nas ruas em protesto sempre eram tidas como uma ameaça vinda da esquerda, dos que empunhavam as bandeiras vermelhas ou negras da revolução comunista ou anarquista. Eis que, acaudilhadas por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha e por epígonos deles em outras partes do mundo, as massas postaram-se em marcha a serviço da contra-revolução. Abrigaram-se sob as bandeiras da antidemocracia e do anticomunismo para a mais total perplexidade dos teóricos da esquerda que até hoje jamais conseguiram elucidar esse mistério.


BIBLIOGRAFIA:

Canetti, Elias. Massa e Poder. Brasília: Editora da Universidade de Brasília/Melhoramentos, 1981.

Chevalier, Louis. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris pendant la première moitié du XIXe siècle. Paris. Edition Perrin, 2002.

Engels, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007.

Gasset, José Ortega y. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Hook, Sidney. O herói na História. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1962.

Hugo, Victor. Os miseráveis. São Paulo: Hemus, 1979.

Le Bon, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Marx, Karl. A Guerra civil na França, in Obras Completas. Lisboa: Edições Avante; Moscou: Editorial Progresso, vol II, 1983.

Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multidão - Guerra e democracia na era do império. São Paulo: Editora Record, 2005.

Reich, Wilhelm. Psicologia das massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

Sighele, Scipio. A multidão criminosa. Ensaio de Psicologia Coletiva. Imprenta: Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954.

Sue, Eugene. Les Mystères de Paris. Paris: Editions Gallimard, 2009.

Tchakhotine, Sergei. A mistificação das massas pela propaganda política. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.

Trotski, Léon. Histoire de la Révolution Russe. Paris: Éditions du Seuil, 1950.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sugestão de livro: "O homem que amava os cachorros" (2009), de Leonardo Padura

Muitas vezes certos personagens e acontecimentos históricos são usados por escritores quando estes elaboram uma obra de ficção. E existem obras literárias que abordam a História de maneira tão intensa que elas nos ajudam efetivamente a compreender o processo histórico.

Assim, uma excelente sugestão de leitura para os interessados em livros que misturam História e Ficção é o romance O homem que amava os cachorros, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura. O livro foi originalmente publicado em 2009 e conta a história do líder revolucionário Leon Trotski e do seu assassino, o militante espanhol Ramón Mercader.


Leonardo Padura é pós-graduado em Literatura Hispano-Americana, romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema. O homem que amava os cachorros foi traduzido para diversos idiomas (em países como Espanha, Portugal, França, Estados Unidos e Alemanha) e recebeu vários prêmios internacionais. Para elaborar o romance, Padura dedicou cinco anos de sua vida a uma rigorosa pesquisa histórica.

Assim, Padura mistura em seu livro elementos obtidos por meio de toda a pesquisa feita com elementos que ele tirou de sua própria imaginação. O resultado é uma instigante mistura de História e Ficção que nos remete a temas como a Revolução Russa, o Stalinismo soviético, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e os desdobramentos da Revolução Cubana.

Pode-se dizer que o livro gira principalmente em torno dos impasses vivenciados pelo comunismo ao longo do século XX. Dessa maneira, Padura explora os (des)caminhos do comunismo, indo do sucesso da Revolução Russa - momento de esperança para o proletariado internacional  - aos aspectos mais sombrios do regime de Josef Stalin e a conjuntura cubana entre o final do século XX e o início do século XXI, passando também pela Guerra Civil Espanhola e pela Segunda Guerra Mundial.

Os capítulos da obra vão compondo aos poucos as trajetórias de Leon Trotski e de Ramón Mercader. A complexidade de cada um dos personagens vai sendo desvelada aos poucos por meio de uma narrativa que procura entender como morrem as utopias. Mais do que isso, Padura procura mostrar ao leitor, às vezes de maneira bastante dura, como as pessoas que possuem ideais revolucionários muitas vezes acabam sendo derrotadas por um conjunto de forças que se revela extremamente poderoso e cruel.

O isolamento político de Trotski provocado pela ação de Stalin é descrito em páginas que levam o leitor a paisagens da União Soviética, da Turquia, da França, da Noruega e do México. Já a trajetória de Ramón Mercader, um militante espanhol que acaba se tornando o assassino de Trotski, é abordada de modo que o leitor vai aos poucos sabendo como o personagem foi envolvido em uma grande rede de mentiras, espionagens e violência. Ao final do livro, tanto Trotski quanto Mercader acabam se tornando objeto de compaixão por parte do leitor. 

Em O homem que amava os cachorros, é nítida a crítica feita por Padura ao modo como os homens desvirtuam as ideologias em nome do exercício do poder político. Nas páginas do livro, o leitor encontra comentários a respeito dos crimes cometidos pelo regime de Josef Stalin, das sofríveis condições de vida da população cubana e do modo como os governos procuram manipular a memória coletiva.

Maravilhosamente bem escrito, o romance de Padura merece ser lido não apenas porque ele nos remete a episódios marcantes do século XX, mas também porque ele nos instiga a pensar nos múltiplos pontos de vista que podem ser adotados ao se contar uma história.

Vale a pena conferir!

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NOTA: Em 2015, o escritor cubano Leonardo Padura foi entrevistado no programa de TV Roda Viva. A entrevista está disponível no site YouTube:



sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A Ditadura no Brasil (1964-1985)

O Golpe de Estado que derrubou João Goulart em 1964 marcou o início de um período de intensa violência e repressão no Brasil. Tanques de guerra e caminhões com soldados tomaram as ruas das principais cidades brasileiras. Muitas pessoas começaram a ser perseguidas, presas, torturadas e mortas. Outras tantas partiram para o exílio. Com o apoio de membros da sociedade civil, os militares chegaram ao poder e, por meio de dispositivos autoritários, cercearam as liberdades individuais, censuraram os meios de comunicação e concentraram o poder nas mãos do próprio governo militar.

O Ato Institucional número 1, o AI-1, de 9 de abril de 1964, instituiu a eleição presidencial indireta, concedeu ao presidente o direito de decretar estado de sítio sem autorização prévia do Congresso Nacional, suspendeu temporariamente a estabilidade dos funcionários públicos, autorizou o governo a cassar mandatos de parlamentares e a suspender os direitos políticos por dez anos, sem apelação judicial. Entre os primeiros políticos cassados pelo regime estavam os ex-presidentes Jânio Quadros e João Goulart, o líder comunista Luís Carlos Prestes, Miguel Arraes (governador de Pernambuco) e o deputado Francisco Julião (líder das Ligas Camponesas). Mais de 1.400 funcionários públicos foram afastados dos cargos, incluindo militares e juízes. Professores universitários foram aposentados compulsoriamente. Houve intervenção do Estado em diversos sindicatos. O governo declarou a União Nacional dos Estudantes ilegal, e a UNE teve a sua sede invadida e incendiada. Foi criado o Serviço Nacional de Informação (SNI) para investigar e monitorar a vida de possíveis inimigos do governo. O general Humberto de Alencar Castelo Branco foi promovido a marechal e eleito indiretamente pelo Congresso como o novo Presidente da República.


O governo Castelo Branco (1964-1967)

Castelo Branco era ligado à ala moderada das Forças Armadas e defendia a ideia de que os militares não deveriam ficar no poder durante muito tempo, ou seja, para o novo presidente o governo devia ser devolvido aos civis o mais rápido possível. A mesma opinião era comum entre militares mais moderados, ligados à Escola Superior de Guerra (ESG). De fato, o governo de Castelo Branco deveria durar até 1965, quando novas eleições deveriam ser realizadas, contudo, uma emenda constitucional protelou a saída de Castelo Branco para março de 1967. No intuito de controlar a inflação – que se aproximava dos 100% –, o marechal-presidente cortou gastos públicos e aumentou os impostos e as tarifas dos serviços públicos para equilibrar as contas do governo. Era o Programa de Ação Econômica do Governo (Paeg). Outra medida foi o arrocho salarial, que afetou principalmente as camadas mais baixas da sociedade brasileira, acentuando a concentração de renda nas mãos de uma minoria da população. Como uma forma de fortalecer a indústria e a agricultura, estimulou-se a entrada de capital estrangeiro no país, o que fez a dívida externa aumentar.

A inflação caiu e o caminho para a retomada do crescimento econômico foi reaberto, mas a impopularidade do regime aumentou. Quando realizaram-se eleições em 1965, nas quais foram escolhidos governadores de onze estados, a oposição saiu vitoriosa em cinco deles, incluindo a Guanabara e Minas Gerais, que tinham grande peso político. A derrota do governo fez a linha dura – uma ala mais conservadora das Forças Armadas – pressionar Castelo Branco no sentido da adoção de medidas mais repressivas. Assim, o marechal-presidente decretou o AI-2, que extinguiu os partidos políticos e implantou o bipartidarismo no Brasil. Nesse novo sistema, a Aliança Renovadora Nacional (Arena) foi o partido criado para dar sustentação política ao regime, enquanto que o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) foi o partido criado para fazer oposição à Ditadura. O MDB reunia políticos de diversas tendências e representava, na verdade, uma oposição consentida pelo regime. O AI-2 também instituiu as eleições indiretas para presidente.

Em 1966, houve a decretação do AI-3, que estabeleceu eleições indiretas para governadores e prefeitos das capitais dos estados. No que diz respeito ao comando do executivo nacional, houve a eleição indireta do general Artur da Costa e Silva – ministro de Guerra do governo Castelo Branco – para o cargo de presidente da República. O AI-3 e a eleição de Costa e Silva eram duas importantes vitórias da linha dura.

Parte da sociedade civil que havia apoiado o Golpe de 1964 sentia-se traída pelo regime porque considerava que a intervenção militar seria passageira. Políticos como Carlos Lacerda e Ademar de Barros, que apoiaram o Golpe, começaram a fazer críticas à Ditadura. Lacerda até propôs a Juscelino Kubitschek e João Goulart que formassem uma Frente Ampla contra a Ditadura, mas a iniciativa não teve sucesso por causa da repressão dos militares.

No final de seu governo, Castelo Branco promulgou a Lei de Imprensa, no início de 1967, que cerceava a informação e restringia a liberdade de expressão dos veículos de comunicação de massa, como os jornais impressos, o rádio e a televisão. Por sua vez, a Lei de Segurança Nacional restringiu as liberdades civis, cassou parlamentares e fechou o Congresso, legitimando a repressão contra os opositores do governo considerados uma ameaça à segurança da nação. O AI-4 reabriu o Congresso para que uma nova Constituição fosse aprovada pelos parlamentares. Promulgada em 15 de março de 1967, a nova Carta ampliou ainda mais os poderes do Executivo, principalmente no campo da política econômica e da segurança nacional.


O governo Costa e Silva (1967-1969)

A posse do general Costa e Silva ocorreu no dia 15 de março de 1967. O novo presidente representava a chegada da linha dura ao poder. A tensão política só fez aumentar quando a Ditadura começou a ser alvo de protestos de estudantes, trabalhadores, artistas e até mesmo de setores da Igreja Católica, que haviam apoiado o Golpe de 1964. Em resposta à multiplicação de manifestações contrárias ao regime, houve o aumento da repressão política por parte do governo.

O ano de 1968 foi marcado por manifestações contra o imperialismo e a sociedade capitalista em todo o mundo. No Brasil, descontentes com a Ditadura, os estudantes encabeçaram vários protestos. Mesmo na clandestinidade, a UNE tinha uma estrutura de alcance nacional. Os estudantes que protestavam nas ruas tinham o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e de parte da imprensa e do MDB. Em março de 1968, estudantes protestaram pela melhoria da qualidade da comida servida no restaurante Calabouço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Houve choques com a política e um estudante – o jovem Édson Luís de Lima Souto – foi baleado e morto. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o enterro do rapaz, o que desencadeou mais protestos.

No dia 21 de junho de 1968, um confronto entre estudantes e policiais deixou 23 pessoas baleadas e 4 mortos. No dia 26, cerca de 100 mil pessoas saíram às ruas do Rio de Janeiro pedindo o fim da ditadura no Brasil. Políticos de oposição, intelectuais, religiosos, estudantes, trabalhadores, donas de casa e artistas como Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gilberto Gil estiveram naquela que ficou conhecida como a Passeata dos Cem Mil. Em outubro de 1968, foi organizado clandestinamente o 30° Congresso da UNE, em Ibiúna, na Grande São Paulo, mas a polícia descobriu o encontro e invadiu o local, prendendo centenas de estudantes. Também em 1968, ocorreram grandes greves de trabalhadores: 15 mil operários em Contagem, Minas Gerais, e 10 mil metalúrgicos em Osasco, São Paulo, cruzaram os braços. Houve a prisão de centenas de pessoas e a intervenção do Estado nos sindicatos.

No Congresso, a oposição manifestou-se contra as ações repressivas do governo e a Lei de Segurança Nacional. O deputado Márcio Moreira Alves chegou a discursar defendendo um boicote às comemorações da Semana da Pátria e aos militares, em setembro de 1968. O governo exigiu do Congresso o direito de processar o deputado, mas a maioria dos parlamentares, depois de um longo processo de debates, votou contra o pedido. Em resposta, no dia 13 de dezembro de 1968, o governo decretou o AI-5, o Ato Institucional mais repressivo de todos. Por meio do AI-5, o presidente podia fechar o Congresso e legislar a respeito de qualquer assunto sempre que quisesse suspender os direitos civis da população, além de intervir nos estados, aposentar funcionários públicos e suspender o habeas corpus para os casos de “crimes políticos”. Entre outras medidas, acabou-se com o direito de reunião e intensificou-se a censura à imprensa, aos meios de comunicação e aos artistas em geral. Antes de chegarem ao público, notícias, livros, filmes, músicas e peças de teatro tinham que ser analisados pelos censores. A justificativa normalmente usada pela ditadura para censurar tais produções era que havia a necessidade de se preservar a “segurança nacional” e a “moral da família brasileira”. Em resposta ao cerceamento da liberdade de expressão, o jornal O Estado de S. Paulo passou a substituir as matérias censuradas por receitas culinárias e trechos de Os Lusíadas, de Camões, no intuito de explicitar ao leitor a ação da censura. No Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil deixava enormes espaços em branco no lugar das matérias censuradas. Na imprensa, houve quem desafiasse ainda mais a censura, como os periódicos alternativos O Pasquim e Opinião, que publicavam artigos incômodos ao regime. Os exemplares de tais periódicos eram retirados das bancas pela polícia e, muitas vezes, os jornalistas de tais jornais acabavam presos.

A censura também proibiu músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e tantos outros compositores, além de livros como Zero, de Ignácio de Loyola Brandão, e Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, e peças como Abajur lilás, de Plínio Marcos. No cinema, muitos filmes só podiam ser exibidos após o corte de determinadas cenas. Em 1968, o Teatro Ruth Escobar foi invadido por membros do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) – um grupo de extrema direita – e os atores do grupo Teatro de Arena, que encenavam ali a peça Roda Viva, escrita por Chico Buarque e dirigida por José Celso Martinez Correa, foram violentamente agredidos. O CCC também foi responsável pela morte do estudante secundarista José Guimarães, assassinado em 1968 durante a Batalha da Maria Antônia, confronto armado entre estudantes da Universidade Mackenzie apoiados pelo CCC e alunos da Faculdade de Filosofia da USP.

O endurecimento da ditadura ocorrido após o AI-5 levou à prisão de milhares de pessoas, muitas das quais eram torturadas. O exílio no exterior acabou se tornando uma realidade para muitos. Por outro lado, alguns grupos de esquerda, entre os quais estavam dissidentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), decidiram abandonar os protestos pacíficos contra a ditadura e resolveram adotar a luta armada como uma forma de resistência ao regime, inspirados em experiências latino-americanas como a Revolução Cubana. Surgiram grupos guerrilheiros formados por homens e mulheres que queriam derrubar o governo por meio das armas. Guerrilheiros praticavam assaltos a bancos para angariar fundos para suas ações. O agente da CIA Charles R. Chandler, que colaborava com os militares brasileiros na repressão à sociedade civil, foi metralhado pelo grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), liderado por Carlos Marighella. Os órgãos de repressão passaram a prender e torturar supostos membros de grupos de esquerda para identificar e capturar os envolvidos. Em resposta, também houve sequestros de diplomatas estrangeiros, por meio dos quais os guerrilheiros tentavam trocar os representantes de outras nações pela libertação de presos políticos. O embaixador dos EUA no Brasil, Charles Burke Elbrick, por exemplo, foi trocado por 15 presos políticos, enquanto Ehrenried von Hollenben, embaixador da Alemanha Ocidental, foi trocado por 40, em 1970.

A repressão praticada pelo governo foi intensificada após os sequestros. Carlos Marighella, líder da (ALN), foi morto em uma emboscada na cidade de São Paulo comandada por Sérgio Paranhos Fleury, um policial civil que era um dos principais agentes da repressão e líder do Esquadrão da Morte,[1] em 1969. No ano seguinte, o capitão do Exército Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) aderiu à luta armada ao abandonar o seu quartel em Quitaúna, São Paulo, levando consigo três submetralhadoras e 63 fuzis. Lamarca foi perseguido pela repressão, sendo executado na Bahia, em 1971, durante uma ação comandada pelo major Nilton Cerqueira de Albuquerque. Por sua vez, na região do Araguaia, na Bacia Amazônica, entre os anos de 1968 e 1974, desenvolveu-se um grupo guerrilheiro organizado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que manteve-se na clandestinidade por quase quatro anos. Todavia, em 1972, após obter informações acerca das ações do grupo na área, o governo ordenou o deslocamento de tropas do Exército que, em dois anos, desarticularam o movimento guerrilheiro, torturando, matando ou prendendo cerca de oitenta guerrilheiros e guerrilheiras que estavam ali. Já no final do governo Médici, a guerrilha estava desarticulada.


O governo Médici (1969-1974)

Costa e Silva afastou-se da Presidência por motivos de saúde oito meses após ter decretado o AI-5. O vice-presidente, o político mineiro Pedro Aleixo, foi impedido de assumir o cargo. Até o final de outubro de 1969, uma Junta Militar formada pelos ministros da Guerra, Marinha e Aeronáutica governou o Brasil. Em outubro, tomou posse como o novo Presidente da República o general Emílio Garrastazu Médici, que foi eleito para o cargo pelo Congresso Nacional. O governo de Médici é tido como o período mais violento da Ditadura. Médici era um representante da linha dura, e reprimiu ferozmente a oposição, perseguindo, prendendo, torturando e matando muitos dos seus adversários.

Tanto os grupos de esquerda quanto a própria sociedade se viam acuados por uma rede de órgãos repressivos. Um desses órgãos era o Serviço Nacional de Informação (SNI), instrumento de vigilância e controle criado em 1964. O governo também contava com os Departamentos de Ordem Política e Social (Dops), que agiam nos estados e estavam oficialmente subordinados aos governadores. Por sua vez, a Operação Bandeirante (Oban), de São Paulo, foi criada em 1969, com membros das polícias estadual e federal e das Forças Armadas. A Oban foi financiada por empresários após a declaração de Delfim Neto – ministro da Fazenda à época – de que as Forças Armadas não tinham recursos suficientes para combater os grupos subversivos. Assim, parte do empresariado paulista contribuiu com recursos financeiros com a Oban. Além dessa ajuda em dinheiro, empresas como a Ford e a Volkswagen forneceram carros, a Ultragás emprestou caminhões e a Supergel abasteceu com refeições congeladas a carceragem da rua Tutoia, o que revela uma rede de apoio à Oban. Em 1970, a Operação Bandeirante foi colocada sob a jurisdição de um novo órgão de repressão, o Departamento de Operações Internas (ou Destacamento de Operações de Informações) e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). O DOI-Codi investigava, prendia, torturava e matava presos políticos, adotando diversas técnicas de tortura, tais como choques elétricos, “paus de arara”, afogamentos, estupros, queimaduras e pressão psicológica. O objetivo era arrancar informações dos presos, e o número de mortos e desaparecidos por causa das ações do DOI-Codi foi muito grande.

As pessoas que eram presas pelos aparelhos repressivos da Ditadura sofriam torturas físicas, morais e psicológicas. Segundo alguns relatos, pessoas eram interrogadas em cubículos ao lado de jacarés ou cobras. Há estimativas que dizem que pelo menos 200 militantes – entre homens e mulheres – foram mortos pela Ditadura, enquanto que ao menos 146 continuam desaparecidos até hoje. Só nos meses iniciais do regime, cerca de 50 mil pessoas foram presas. Durante as mais de duas décadas de Ditadura no Brasil, 10 mil homens, mulheres, jovens e crianças refugiaram-se no exterior. Cerca de 130 pessoas foram banidas do país. O governo sempre procurou negar a existência de mortos políticos no país, alegando que muitas pessoas morriam durante tiroteios ou tentando fugir da polícia. Segundo a versão oficial, muitos opositores do regime morriam em atropelamentos nas ruas ou haviam cometido suicídio. Todavia, o fato é que muita gente foi morta na cadeia, seja por causa da tortura seja por causa de execuções sumárias.

Paralelamente ao terror de Estado, a economia do país parecia se recuperar. De fato, durante um período da Ditadura houve um intenso crescimento econômico do Brasil. O intervalo de tempo entre os anos de 1967 e 1974 foi simultaneamente chamado de “anos de chumbo” e de época do “milagre econômico” brasileiro. O Produto Interno Bruto chegou a crescer em média 11% ao ano. Houve a expansão do mercado interno e das exportações. O governo investia pesado em obras de infraestrutura. Durante o governo Médici surgiram 70 empresas estatais, por meio das quais o governo investia em setores básicos da economia, como as áreas de telecomunicações, geração de energia, siderurgia, petroquímica e construção naval. Foram construídas a usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, e a Ponte Rio-Niterói. O governo assinou um acordo com a Alemanha para completar o seu programa nuclear, baseado nas usinas nucleares de Angra dos Reis. Mas nem todas as obras iniciadas foram concluídas, a exemplo da rodovia Transamazônica, que se revelou um fracasso. A expansão industrial do país foi obtida graças a empréstimos em bancos estrangeiros, que triplicaram a dívida externa brasileira entre 1967 e 1972. A entrada de capitais estrangeiros no Brasil foi estimulada, e muitas multinacionais se instalaram aqui, produzindo com mão de obra barata diversas mercadorias modernas e sofisticadas, cujos preços eram cada vez mais acessíveis. As classes médias passaram a ter acesso a automóveis e eletrodomésticos, sobretudo graças à política de facilitação de crédito ao consumidor. Por outro lado, nem todos desfrutavam do “milagre”, uma vez que a população mais pobre continuava sofrendo com o arrocho salarial.

Os bons resultados da economia foram explorados pelo governo, que deu início a campanhas publicitárias que procuravam fixar uma imagem do Brasil como uma “grande potência”. Tais campanhas usavam e abusavam de slogans como “Ninguém segura este país”, “Pra frente, Brasil”, “Brasil: ame-o ou deixe-o”. O regime também explorou a vitória da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1970, usando a conquista para enaltecer o país governado pela Ditadura.


O governo Geisel (1974-1979)

No início de 1974, com o fim do mandato de Médici, houve a eleição indireta do general Ernesto Geisel para o cargo de Presidente da República. O novo chefe do Executivo nacional foi eleito por um Colégio Eleitoral formado por membros do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas estaduais. Na época da posse de Geisel, o “milagre econômico” brasileiro já dava sinais de esgotamento. O país sofria as consequências do aumento do preço do barril de petróleo que foi determinado em 1973 pelos governos dos países-membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Naquele tempo, as importações brasileiras de óleo cru correspondiam a aproximadamente 80% de todo o petróleo consumido no Brasil. O governo pensou que os países árabes baixariam o preço do óleo e, por isso, manteve as importações do combustível no mesmo patamar. Todavia, o preço do petróleo não caiu e a decisão da Opep provocou uma crise mundial que afetou a economia brasileira. Houve diminuição no volume de capitais externos disponíveis e aumento da taxa de juros dos empréstimos internacionais tomados pelo Brasil. A dívida externa, a inflação e o desemprego aumentaram. Era o início de um período de recessão. A renda da classe média começou a cair e a insatisfação com o regime começou a crescer ainda mais. A década seguinte (anos 1980) ainda seria marcada pelos fortes reflexos dessa situação econômica.

A insatisfação ficou visível nas eleições parlamentares de 1974. A oposição saiu vitoriosa, aumentando o seu número de senadores de 3 para 16, conquistando 44% das vagas da Câmara Federal e elegendo a maioria dos deputados estaduais em seis estados. Os militares perdiam prestígio e, em 1976, o MDB obteve a maioria nas eleições municipais. Propondo a transformação da sociedade, a volta da democracia e reformas econômicas, o discurso da oposição passou a agradar cada vez mais boa parte do eleitorado.  O governo sentiu a necessidade de silenciar a oposição e, como um contra-ataque, aprovou a Lei Falcão, em julho de 1976, que impunha novas regras para a propaganda política. Por meio dessa lei, os candidatos ficavam proibidos de discursar livremente, podendo apenas divulgar seu nome, legenda (partido), currículo resumido e seu número de registro na Justiça Eleitoral. O retrato de cada candidato era exibido na televisão.

Do ponto de vista político, Geisel estava alinhado ao grupo mais moderado das Forças Armadas. O novo presidente era favorável a uma abertura política que culminaria na volta dos civis ao poder. Mas essa abertura não seria realizada rapidamente, pois os membros da linha dura ainda controlavam os principais órgãos de segurança, tendo uma grande influência no aparelho do Estado. Para não bater de frente com a linha dura, Geisel propôs uma abertura política “lenta, gradual e segura”. Todavia, os militares da linha dura desafiavam tal proposta. Em 1975, o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog foi torturado e assassinado nas dependências do Segundo Exército, em São Paulo, fato que provocou protestos e manifestações públicas, como um ato ecumênico realizado na Catedral da Sé que reuniu 8 mil pessoas que pediam o fim da Ditadura. A versão oficial dizia que Herzog cometera o suicídio. Em circunstâncias parecidas às da morte de Herzog, o metalúrgico Manuel Fiel Filho também foi morto por militares durante um interrogatório, em 1976. Mais uma vez, foi dito pela versão oficial que houve um suicídio. Com medo de perder o controle da situação, Geisel demitiu o general Ednardo D’Ávila Melo, o comandante do Segundo Exército, e colocou um militar de sua confiança no lugar.

Em 1977, foi decretado o Pacote de Abril, que procurava garantir a maioria no Congresso à Arena, bem como o controle dos governos estaduais. O Congresso foi fechado e mudou-se a lei eleitoral. A eleição indireta para governador foi renovada e o mandato presidencial passou a ser de seis anos. O governo federal passou a indicar um terço dos senadores. Eram os chamados senadores biônicos. No mesmo ano, Geisel impediu que o general Sylvio Frota – um militar da linha dura – lançasse sua candidatura à Presidência da República. O presidente indicou para a sua sucessão o nome do general João Baptista Figueiredo, que foi eleito indiretamente em outubro de 1978. Antes do novo presidente tomar posse do cargo, o Congresso Nacional revogou o AI-5, restabeleceu o direito de habeas corpus e suspendeu parcialmente a censura à imprensa. Tais medidas significavam que as pressões populares em favor da abertura política estavam surtindo efeito.


O governo de Figueiredo (1979-1985) e a abertura política

Ao longo dos anos 1970 foram aumentando cada vez mais as manifestações pelo fim da Ditadura. Estudantes, intelectuais, artistas, integrantes do MDB, membros da Igreja e de outras instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), além de diversos outros setores da sociedade brasileira, pediam a volta do Estado democrático de direito. Em 1977, o jurista Goffredo da Silva Telles Jr. leu um documento reivindicando a volta da democracia, durante uma manifestação em frente à Faculdade de Direito, em São Paulo. Em 1978, surgiu o Movimento do Custo de Vida nas periferias das grandes cidades, exigindo o aumento dos salários e o congelamento dos preços dos itens de primeira necessidade.

No mesmo ano, houve um protesto em São Paulo contra a violência do Estado e contra a discriminação racial. No dia 7 de julho de 1978, o Movimento Unificado contra a Discriminação Racial (MUCDR) ocupou as escadarias do Teatro Municipal, em São Paulo, em protesto à morte do jovem negro Robson Silveira da Luz, de 21 anos. Robson foi acusado de ter roubado frutas na feira, sendo torturado e morto nas dependências de uma delegacia na periferia paulistana. Durante o protesto no Teatro Municipal, os membros do MUCDR leram uma carta aberta à nação contra o racismo.[2]

Ainda no ano de 1978, o movimento operário começou a mostrar a sua força. Milhares de trabalhadores desafiaram a Lei de Greve e cruzaram os braços em São Paulo. A primeira paralisação de grandes proporções ocorrida no Brasil desde 1968 foi liderada por Luiz Inácio da Silva – o Lula –, no dia 12 de maio de 1978, quando 2 mil metalúrgicos da Saab-Scania, em São Bernardo do Campo (SP), entraram em greve exigindo 20% de aumento salarial. Em seguida, operários da Ford, Mercedes-Benz e Volkswagen também entraram em greve. Dois dias depois da posse do presidente Figueiredo, em março de 1979, milhares de trabalhadores da indústria automobilística entraram em greve, mais uma vez sob a liderança de Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Ao longo de 1979, a onda grevista se alastrou por outras cidades paulistas, como Osasco e Guarulhos, locais de grande concentração industrial, e, depois, chegou a várias partes do país. Além dos metalúrgicos, também entraram em greve professores, funcionários públicos, bancários, jornalistas, trabalhadores da construção civil, médicos, lixeiros e profissionais de várias outras categorias. Até 1980, cerca de 2 milhões de pessoas já haviam participado de greves. A mais longa greve do período ocorreu em São Bernardo, em 1980, quando 300 mil metalúrgicos ficaram 41 dias sem trabalhar. A população ajudou os grevistas doando dinheiro e alimentos, enquanto o governo reprimia os manifestantes, matando grevistas em confrontos, intervindo nos sindicatos e prendendo os dirigentes sindicais.

A campanha pela anistia dos presos políticos, cassados e perseguidos pela Ditadura também ganhou força em 1979. Como uma resposta aos anseios populares, a Lei de Anistia foi aprovada pelo Congresso em agosto de 1979, permitindo o retorno dos exilados ao país, mas também perdoando os crimes praticados pelos agentes da Ditadura envolvidos em torturas e mortes de presos políticos. Personagens como Luís Carlos Prestes, Leonel Brizola, Miguel Arraes, o educador Paulo Freire, o sociólogo Herbert de Souza, entre outros, retornaram ao país enquanto os presos políticos eram colocados em liberdade.

Também em 1979, um projeto de lei do governo foi aprovado pelo Congresso e determinou o fim do bipartidarismo. A medida abriu o caminho para a volta do pluripartidarismo no Brasil. A Arena deu origem ao Partido Democrático Social (PDS) e o MDB originou o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Outros partidos foram criados no período. O setor mais moderado do antigo MDB deu origem ao Partido Popular (PP). Sob a liderança de Leonel Brizola foi fundado o Partido Democrático Trabalhista (PDT). A sobrinha-neta de Getúlio Vargas, Ivete Vargas, criou o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Outro partido fundado naquele contexto foi o Partido dos Trabalhadores (PT), que reunia sindicalistas, intelectuais, militantes de esquerda, setores da Igreja e políticos da ala mais radical do antigo MDB.

Os militares ligados à linha dura não apoiavam as mudanças em curso no país. Juntamente com grupos paramilitares de direita, como o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), a Aliança Anticomunista Brasileira (AACB) e a Falange Pátria Nova (FPN), os militares da linha dura organizaram atentados terroristas para tentar interromper a redemocratização em andamento. Os alvos eram normalmente bancas de jornal e outros espaços públicos. Também a antiga sede do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, no Rio de Janeiro, foi alvo de um atentado. Muitas vezes, tais grupos cometiam esses atos e acusavam as esquerdas. Todavia, a verdade foi revelada quando um atentado à bomba no centro de convenções Riocentro, no Rio de Janeiro, fracassou em 1981, durante o show de comemoração ao Dia do Trabalhador (1° de maio). As bombas explodiram antes do previsto, ferindo um dos militares terroristas – o capitão Wilson Chaves Machado – e matando o outro. A Polícia Militar até instaurou um inquérito, mas o governo abafou o caso e nunca houve punição aos culpados.

O clima de terror era acompanhado pelo agravamento da crise econômica no país. A inflação chegou a 110% no ano de 1980. O PIB chegou a apresentar índice negativo. Era um verdadeiro quadro de estagflação, ou seja, estagnação econômica somada a uma inflação elevada. A insatisfação com o governo da Ditadura só aumentava. Em 1980, foram aprovadas as eleições diretas para governador e extinta a figura do senador biônico. O regime acreditava que a multiplicação dos partidos políticos pulverizaria a oposição e facilitaria a vitória do PDS, garantindo o controle da situação ao governo. Eleições para os governos estaduais foram marcadas para 1982 e, no intuito de conter a oposição, o governo proibiu as coligações partidárias. Também houve a criação do voto vinculado, por meio do qual o eleitor tinha que votar em um mesmo partido em todos os níveis representativos, executivo e legislativo, municipal e estadual. Em meio a este cenário, o PP, que tinha em seus quadros o político Tancredo Neves, fundiu-se ao PMDB, depois que ambos viram as suas possibilidades eleitorais diminuírem com as mudanças impostas pelo governo. O PDS conseguiu a maioria no Congresso Nacional, enquanto o PMDB obteve vitórias expressivas nas eleições para governador em estados importantes, tais como São Paulo (Franco Montoro), Minas Gerais (Tancredo Neves) e Paraná (José Richa). Leonel Brizola, antigo adversário da Ditadura, foi eleito no Rio de Janeiro pelo PDT. Todavia, a maioria dos estados ficou com o PDS, inclusive em locais onde a oposição era forte, como Pernambuco e Rio Grande do Sul.

Após as eleições de 1982, a oposição entendeu que a Ditadura só acabaria quando fossem realizadas eleições diretas para presidente. Em março de 1983, o deputado federal Dante de Oliveira, do PMDB, apresentou à Câmara uma emenda constitucional que restabelecia as eleições diretas para a Presidência da República já na sucessão de Figueiredo. O senador Teotônio Vilela (PMDB) propôs uma campanha nacional pelo voto direto para presidente. A campanha foi vista como uma prioridade pelo PT e, com o apoio do PMDB, realizou-se um comício em Goiânia. Ainda em 1983, um comício pelas eleições diretas foi realizado em São Paulo, reunindo uma frente suprapartidária (PT, PMDB, PDT) e organizações como a Central Única dos Trabalhadores (CUT). 10 mil pessoas compareceram ao evento. Em pouco tempo, a campanha das Diretas Já espalhou-se por todo o território nacional, mobilizando amplos setores da sociedade brasileira, sobretudo após o engajamento total do PMDB. Grandes comícios a favor das eleições diretas foram realizados em várias cidades, reunindo milhares de pessoas, além de artistas, intelectuais e políticos de todas as alas de centro e de esquerda. Todavia, apesar da pressão popular, a emenda de Dante de Oliveira foi rejeitada no Congresso Nacional, em abril de 1984.

O país teria mais uma eleição indireta para a Presidência da República. O PDS tinha três opções de candidatos: Aureliano Chaves (vice-presidente à época e um civil ligado aos moderados), o coronel Mário Andreazza (ministro do Interior à época e indicado pelos militares) e Paulo Maluf (ex-governador de São Paulo e uma figura política nascida na Ditadura, com um projeto próprio de poder). O governo acabou indicando o nome de Paulo Maluf (PDS) para disputar a sucessão do general Figueiredo. A decisão irritou os militares e descontentou os moderados, provocando uma cisão no seio do PDS. Alguns parlamentares ligados ao PDS – partido que garantiu a rejeição da emenda – abandonaram o partido e formaram a Frente Liberal, que mais tarde originaria o Partido da Frente Liberal (PFL). Aproveitando-se do enfraquecimento do PDS e do projeto militar, o PMDB aliou-se à Frente Liberal, em meados de 1984, formando um bloco chamado Aliança Democrática, que lançou a candidatura do moderado Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, à Presidência. O vice da chapa de Tancredo era o ex-presidente do PDS e então governador do Maranhão, José Sarney.

O programa de Tancredo Neves contemplava a convocação de uma Assembleia Constituinte, os problemas sociais, as eleições diretas, a dívida externa, o emprego, a Previdência Social, a liberdade sindical e o Estado de Direito. Ulysses Guimarães coordenou a campanha de Tancredo, intitulada “Muda Brasil: Tancredo Já!”, que recebeu o apoio popular mesmo as eleições sendo indiretas. A candidatura de Tancredo representava para muitos a consolidação da redemocratização. As eleições ocorreram em janeiro de 1985, e deram a vitória a Tancredo Neves, que obteve 480 votos do Colégio Eleitoral contra os 180 de Maluf. Apesar de não fazer parte da Aliança Democrática, o PDT votou em Tancredo. Por sua vez, o PT se recusou a participar do pleito indireto.

Tancredo cunhou o termo “Nova República” para designar o seu período de governo. A posse do primeiro civil eleito para o cargo de Presidente da República em mais de 20 anos foi marcada para o dia 15 de março de 1985. Tancredo receberia um país com inflação de 228% ao ano e uma dívida externa de 100 bilhões de dólares. Contudo, Tancredo adoeceu gravemente no dia anterior à posse, sendo internado em um hospital de Brasília e, depois, transferido para um hospital de São Paulo, onde passou por uma série de cirurgias. A população brasileira acompanhava o estado de saúde de Tancredo por meio dos boletins médicos que alimentavam um falso otimismo. Tancredo faleceu no dia 21 de abril de 1985. O seu cortejo saiu de São Paulo e passou por Brasília e Belo Horizonte até chegar a São João del-Rei, onde o corpo foi enterrado, em um trajeto que foi acompanhado por multidões. 

José Sarney, vice-presidente eleito junto com Tancredo e ex-parlamentar da Arena que integrava a Frente Liberal, acabou ocupando a Presidência da República. A Ditadura Civil-Militar Brasileira chegava ao seu fim com um político historicamente associado ao partido da Ditadura ocupando o cargo máximo do poder Executivo.


TÓPICO EXTRA: CULTURA DE MASSAS E RESISTÊNCIA À DITADURA

Nos anos 1960, houve o crescimento dos investimentos nacionais e estrangeiros na indústria cultural do Brasil. Isso provocou uma expansão dos meios de comunicação de massa, como televisão, editoras e gravadoras de música, que gerou um impacto na cultura brasileira. O próprio governo federal investiu na tecnologia e infraestrutura na área de telecomunicação. Para o governo da Ditadura, o rádio e a televisão integrariam o país, sendo vitais para a segurança nacional. A propaganda ideológica da Ditadura Civil-Militar seria veiculada em meios de comunicação como esses.

Televisão

A televisão foi introduzida no Brasil em 1950, mas foi na década seguinte que ela se firmou no cenário cultural brasileiro ao lado do cinema, do rádio e da indústria editorial e fonográfica. A Embratel foi criada pelo governo em 1965. O decênio de 1960 foi marcado pela consolidação das principais redes de televisão do país, sediadas no eixo Rio-São Paulo. A partir disso, os costumes de várias regiões do país passaram a ser influenciados pelos padrões linguísticos e de comportamento dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Na década de 1970, a televisão se estabeleceu como o meio de comunicação mais poderoso do Brasil, país que ainda tinha na época um grande número de analfabetos. Um modelo de programação televisiva voltado para buscar a fidelidade da audiência foi estabelecido. Programas infantis, esportivos, jornalísticos, programas de auditório, novelas e jogos de futebol passaram a ser levados ao ar em horários predeterminados. Por meio de um sistema de transmissão por satélite, milhões de brasileiros assistiram à Copa do Mundo de futebol realizada no México, em 1970. A TV exibiu a vitória da seleção brasileira como se fosse uma vitória do governo. Enquanto isso, nos porões da Ditadura, pessoas eram torturadas e mortas pelo regime.

Censura e propaganda ideológica

Durante a Ditadura houve a censura a jornais, revistas, programas de rádio e televisão, espetáculos de teatro ou de música, livros e filmes, entre outras formas de expressão. O governo retirava das páginas de jornais e revistas – e cortava de programas radiofônicos ou televisivos – notícias indesejadas ou conteúdos tidos como subversivos. Jornais protestavam colocando poesias e receitas de bolo no lugar da matéria censurada. Para burlar a censura no campo musical, compositores usavam e abusavam de expressões de duplo sentido, bem como usavam pseudônimos para assinar suas letras.

Por outro lado, certos veículos de comunicação que apoiavam a Ditadura praticavam a autocensura. Em troca, eram beneficiados com verbas publicitárias, uma vez que o maior anunciante era o governo. A Ditadura investiu bastante em propaganda ideológica, produzindo cartazes, anúncios na TV, no rádio e no cinema. O governo também incentivava músicas ufanistas, procurando mostrar um Brasil sem problemas e prestes a se tornar uma grande potência a nível mundial.

A internacionalização cultural

Os meios de comunicação de massa contribuíram para a difusão no Brasil de costumes estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos da América. As campanhas publicitárias introduziam ou consolidavam hábitos de consumo, seja de produtos convencionais seja de produtos culturais, como a moda e a música. A música pop inglesa e estadunidense conquistou os jovens de todo o mundo e do Brasil. Bandas como os Beatles e os Rolling Stones eram ouvidas em discos e programas de rádio, e vistas na TV e no cinema. Tais bandas eram imitadas no Brasil pelo iê-iê-iê e pela Jovem Guarda. O rock ditou comportamentos para a juventude e influenciou compositores e intérpretes brasileiros.

Arte nacional popular e de vanguarda

Tendo em vista esse cenário no campo cultural brasileiro, é preciso dizer que houve disputas àquela época. A esquerda mais radical era crítica à influência dos grandes países capitalistas na arte e na cultura dos brasileiros. Lutando contra o que chamavam de “imperialismo cultural”, o Centro Popular de Cultura (CPC) – órgão mantido pela UNE – pregava uma arte nacionalista e popular, dotada de uma função política bem definida. Essa arte engajada deveria conscientizar e mobilizar politicamente a população. Por outro lado, havia grupos que defendiam o livre uso de referências culturais, sem preconceitos. Tais grupos criticavam o patrulhamento ideológico praticado pelas esquerdas. Foi nesse quadro que surgiu o tropicalismo, em 1967. Os artistas tropicalistas Tom Zé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, entre outros, introduziram inovações estéticas e mesclaram releituras de elementos nacionais com propostas de vanguardas internacionais.

Os festivais de música

Emissoras de TV começaram a promover os festivais de Música Popular Brasileira (MPB) a partir de 1965, revelando grandes compositores e intérpretes. Em meio à repressão política, canções de protesto produzidas pelos participantes de tais festivais ganhavam a preferência dos jovens. Nos festivais, parte do descontentamento com o regime era exteriorizado. No Festival Internacional da Canção de 1968, a canção Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, ficou em segundo lugar e acabou proibida pela Ditadura, tornando-se um hino para os opositores do regime. Por outro lado, eram comuns as vaias a músicas consideradas apolíticas ou classificadas como influenciadas pelo imperialismo cultural. Caetano Veloso foi vaiado no Festival de 1968, enquanto o tropicalismo era criticado por usar recursos rotulados como próprios da cultura estadunidense, como a guitarra elétrica.

Cultura de oposição

A resistência cultural se fazia presente em várias formas de arte, com a criatividade sendo usada para driblar a censura. O Cinema Novo propunha pensar a realidade nacional e suas contradições sociais e regionais, por meio de produções baratas e criativas reconhecidas internacionalmente por sua qualidade estética e profundidade temática. No teatro e nas artes plásticas, dramaturgos, atores, diretores, e artistas plásticos sofreram com a censura e a repressão, mas deixaram uma produção bastante significativa. Muitos se exilaram no exterior, enquanto outros aqui ficaram, embora impedidos de se expressar plena e livremente. A cultura de oposição também se fez presente em jornais alternativos surgidos no final da década de 1960 e que usavam o humor e a irreverência para criticar o regime. Um notável exemplo foi o jornal O Pasquim, que reunia intelectuais e jornalistas críticos à Ditadura.



[1] O Esquadrão da Morte era um grupo formado por policiais que exterminavam tanto criminosos quanto opositores do regime.
[2] Posteriormente, o MUCDR transformou-se no Movimento Negro Unificado, que até hoje combate o racismo presente na sociedade brasileira.