Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rebelião das Massas: a origem dos movimentos sociais*

*ATENÇÃO: Este texto foi escrito por Voltaire Schilling, tendo sido originalmente publicado no portal Terra, no dia 11 de julho de 2013. Para ler a publicação original, clique aqui.


As massas e a história 

Descontando-se os inúmeros e praticamente incontáveis levantes de massas que ocorreram na história da humanidade, sob o ponto de vista da época contemporânea, pode-se fixar sua erupção na política a partir de dois eventos muito próximos. Um deles, a Boston Tea Party (A Festa do Chá em Boston, que ocorreu em 1773), um tanto antes da eclosão da Revolução Americana (1776-1783); o outro, a Queda da Bastilha, de 14 de julho de 1789, foi responsável pelo desabamento de uma monarquia que já existia há mais de 13 séculos na França.

Ambos os acontecimentos são marcos da espetacular ação das massas revolucionárias e da entrada delas definitivamente no universo da política, do qual por séculos estiveram ausentes. Esta, ao longo dos tempos, tinha sido monopolizada por aristocratas, fidalgos e plutocratas em geral, personagens das elites do seu tempo que definiam os destinos dos povos sem fazer-lhes consulta sequer.

Desta feita, era o homem comum, uma multidão de anônimos, quem arrombava as portas daquele Olimpo, obrigando-o a ouvir e a atender suas demandas. O filósofo Hegel, em carta a um amigo, registrou esta nova força que punha o mundo em andamento, afirmando:

Esta erupção das massas generalizou-se ainda mais por ocasião da Revolução de 1848 - a "Primavera dos povos" -, movimento extraordinário que fez tremer quase que todas as capitais e cidades mais importantes da Europa, com reflexos inclusive na América Latina.

Para Elias Canetti, autor de um livro clássico sobre o assunto, Masse und Macht (Massa e Poder, 1960), esta excitação e presença das multidões nas ruas protestando ou insurgindo-se resultou da libertação do controle que a religião exercia sobre elas até a eclosão da Revolução Francesa de 1789. Desde então foram incontáveis os "estouros" que ocorreram em várias partes do mundo e que, tudo indica, não mais cessarão.


Marx exalta as massas 

Karl Marx foi o primeiro filósofo moderno a captar as potencialidades transformadoras da multidão em marcha. Percebeu que a elas, e somente a elas, e não aos heróis das classes tradicionais, cabia "mudar o mundo", conduzindo-o para uma etapa superior da história da humanidade. Propôs, então, uma aliança entre os pensantes, os filósofos, os intelectuais, com a maioria sofredora, o proletariado moderno. Afinal, eram "as massas quem fazem a história", assegurou.

Este entusiasmo arrefeceu um tanto, não do lado de Marx e de seu companheiro Engels, mas de larga parte da opinião pública em geral quando dos dramáticos episódios provocados pela Comuna de Paris, ocorridos em março de 1871. Naquela oportunidade, milhares de trabalhadores da capital da França, homens, mulheres e crianças, levantaram-se em armas contra o governo de Versalhes que fizera concessões humilhantes aos alemães vitoriosos na Guerra Franco-Prussiana (1870).

A capital francesa ficou parcialmente destruída, com os prédios e monumentos incendiados ou postos abaixo. Para Marx, a Comuna, ainda que vencida e esmagada, representou, pela primeira vez na história, ainda que em esboço, o que certamente viria a ser um governo do proletariado.

Em Paris, a Massa tornara-se Poder mesmo que fora por apenas 72 dias. Ela "tomara o céu de assalto", segundo ele.

O sonho, ainda que inesperado para a maioria dos seguidores de Marx, paradoxalmente se fez realizado não na desenvolvida e civilizada Europa Ocidental, como ele previra, mas na bárbara Rússia dos czares autocratas e dos mujiques miseráveis. Lenin, líder bolchevique, assegurou que, a partir de 25 de outubro de 1917, as massas conduzidas por seu partido estavam definitivamente no poder.

São Petersburgo e Moscou transformaram-se em palcos de enormes manifestações, marchas se sucediam, turbilhões humanos varriam os veneráveis logradouros tanto da capital da Rússia asiática como da bela cidade de Pedro. Vendo aquele espetáculo, com milhares de pessoas gritando slogans ou simplesmente andando, o linguista Mikhail Bakhtin desenvolveu na década de 1920 o conceito de carnavalização e polifonia da obra literária. Diversas vozes nela se fazem presentes como se fora nos ruidosos tempos das feiras medievais.


A origem socioeconômica das massas 

A presença das massas, das extraordinárias multidões humanas, é um fenômeno mais ou menos recente na história. Anteriormente à Revolução Industrial, a população era majoritariamente rural. Encontrava-se espalhada pelo campo, vivendo em pequenas aldeias ou vilarejos isolados, com escasso número de habitantes. Não tinha como haver significativas concentrações como as que começaram a emergir nos conglomerados urbanos da Europa Ocidental entre 1750 e 1850. A chave para se entender a impactante presença delas, das multidões, tem como origem tecnológica a máquina a vapor, surgida em 1765.

O invento de James Watt teve como efeito direto a possibilidade de se instalar fábricas nos cinturões das cidades, liberando-as da necessidade de serem montadas à beira de rios ou riachos, muitos deles distantes do mercado consumidor. Com os engenhos veio a mão-de-obra. Milhares de operários começaram a se concentrar ao redor delas, tornando as fábricas o centro da sua vida econômica e social.

Na esteira delas, ampliou-se o setor de prestação de serviços, o comércio com suas lojas, os armazéns, as galerias, o setor financeiro com sua rede de bancos, o lazer com seus cafés, restaurantes, teatros etc.

Londres, por exemplo, capital do Reino Unido, quase duplicou a população em apenas um século: eram 527 mil habitantes que saltaram para 1.096.784 quando do primeiro censo oficial em 1801. Não sendo muito diferente, ainda em tempo diverso, do que ocorreu em Nova York, Paris, Berlim, Milão...

Agigantaram-se os centros industrializados no Ocidente igualmente pelo efeito da imigração interna. Milhares de camponeses, de lavradores e de gente do campo em geral, aproveitando-se da dissolução da Ordem Feudal, abandonaram seus sítios natais para tentar a vida nas metrópoles. A soma do crescimento natural com a chegada das levas de mão-de-obra do interior é que possibilitou a proliferação das megaconcentrações urbanas poucas vezes vistas anteriormente na história.


O desconforto com as massas 

Para os antigos citadinos causava estranheza e repulsa a repentina mudança que o crescimento econômico e populacional trouxe. Do dia para noite, em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Milão, Manchester ou Liverpool, os cidadãos tiveram que passar a conviver com estranhos que ninguém sabia de onde vieram. Desconheciam modos urbanos, em geral eram rudes e incivilizados, agrupavam-se nos arrabaldes em meio à sujeira e à doença em casebres medonhos e fétidos, sem higiene alguma, e pareciam não se incomodar em conviver com esgotos ao ar livre. Manifestavam dificuldades de adaptação a uma cidade erguida com pedras e não com troncos e palha como o local de onde vieram.

Quem por primeiro usou o termo "classes perigosas" foi H. A. Frégier, chefe de polícia francês no livro Des classes dangereuses de la population dans les grandes villes et des moyens de lês rendre meilleures (1840), para definir setores sociais propensos à criminalidade. O medo passou a ser constante para os habitantes das classes média e alta da cidade. Assaltos e roubos tornaram-se habituais. O crime vicejou como se fora um envenenamento da civilidade. A superpopulação em determinados bairros da periferia acoitava e irradiava ondas pestíferas que enchiam os demais de pavor. Surgiam as classes perigosas (ver Louis Chevalier: Les classes labouriesues et les classes dangereuxes ).


O gênio contra a massa 

Coube ao escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle, fortemente influenciado pelo romantismo alemão, com sua Teoria do Grande Homem exposta no livro Heroes, Hero-worship, and the Heroic in History (Sobre Heróis: O heroísmo e a veneração do herói na História, 1841), tratar de contrapor a figura do herói à presença ascendente das massas.

Para ele, o homem comum, a célula da massa, de nada valia a não ser como peão ou degrau para assegurar a projeção do herói e respaldar sua realização. Este é quem fazia a História. A consequência política disto foi sua condenação à democracia, "império do vulgar" na terra, e a consequente apologia da elite.

Vários outros escritores alemães que o antecederam já haviam manifestado sua ojeriza à presença da massa e do ser anônimo que proliferava naquela época, enaltecendo ao revés o Ser Excepcional. Nietzsche, após ter ficado profundamente chocado com os eventos trágicos da Comuna de Paris, foi quem melhor revelou este pavor à multidão, apostando no surgimento futuro de um übermensch, o Super-Homem (Assim falou Zaratustra, 1888). O fenômeno extraordinário que, desprezando as normas de conduta que regiam a maioria, conduziria o destino da humanidade no futuro (Além do Bem e do Mal). O pensamento contra-revolucionário e elitista dele forneceu os argumentos para uma formidável literatura anti-massa que surgiu na transição do século 19 para o 20.


O irracionalismo da massa

Coube ao sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, por meio do seu famoso ensaio La psychologie des foules (Psicologia das Multidões, de 1895), demonizar as massas. Para ele, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, os imensos ajuntamentos humanos que se decidiam a marchar e a protestar nada mais eram senão que o irracionalismo posto em ação. Mesmo quando se mobilizavam por uma causa patriótica ou altruísta nada traziam de bom, a não ser a depredação e a desordem. Quando não a subversão social.

E isto, entre outras causas, se devia a metamorfose que ocorre com o indivíduo que adere à multidão contestadora. De alguém tímido, acanhado, normalmente respeitador das regras, ele, imerso em meio aquele mar humano que seguia pela avenida a fora que o tornava um anônimo, libertava-se facilmente das convenções e das noções de civilidade que recebera. Simplesmente sucumbe ao número, à "alma da multidão".

O criminalista e penalista italiano Scipio Sighele, discípulo de Cesare Lombroso, retomou o tema e o ampliou no seu ensaio La folla delinquente (As classes criminosas, 1891). Não tinha contemplação para com as multidões, qualquer ajuntamento além do razoável tendia inevitavelmente ao comportamento criminoso. Logo nos deparamos com sua vociferação, destravado, a fúria vai tomando conta dele e não tarda para que junte pedras pelo chão para lançá-las contra as vitrines ou contra as forças policiais. O manso vira fera. A massa, aceleradamente excitada, facilmente regride ao comportamento de uma manada, todos agindo do mesmo modo instintivo sem o amparo de qualquer raciocínio, e o indivíduo, como que um possesso, retorna ao estado da natureza hobbesiana ("o lobo do homem é o outro homem").


Massa e Revolução 

A surpreendente Revolução Russa de janeiro de 1905 abriu intenso debate em meio ao movimento socialista europeu, particularmente entre os teóricos social-democratas alemães (reformistas ou revolucionários) e os socialistas russos que participaram ativamente dos eventos que varreram o Império do Czar durante aquele ano. Perdida a Guerra russo-japonesa (1904), o governo de Nicolau II, logo em seguida ao massacre do Domingo Sangrento do dia 9 de janeiro (centenas de manifestantes foram fuzilados pela Guarda Cossaca em frente ao palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo), se viu frente a uma violenta contestação.

Não houve bairro proletário da Rússia, pelo menos nos grandes centros urbanos, que não tenha saído em peso às ruas para demonstrar sua raiva. Greves espontâneas eclodiram por todos os lados. As queixas pela inépcia militar logo se transferiram para uma generalizada confrontação contra o regime czarista como um todo. Tornou-se o maior levante de massas da Europa de então, muitas vezes superior à Comuna de Paris de 1871.

Rosa Luxemburgo, a famosa social-democrata de esquerda, judia polonesa que militava na Alemanha, exultou com o "espontaneismo" das classes trabalhadoras russas. Vislumbrou naquelas ações o futuro da Revolução Socialista. Concluiu que era delas de onde partiria a iniciativa da derrubada da ordem aristocrática/burguesa e não das direções acomodadas dos partidos socialistas europeus, um tanto paralisados pelos cuidados burocráticos e pela vida rotineira.

Vladmir Lenin chegou a outra conclusão. De nada serviam aquelas explosões espontâneas se não houvesse uma organização disciplinada e hierarquizada que desse um sentido àquilo, que conduzisse aquela enorme energia despertada pela multidão em fúria e disposta a tudo para tomar o poder pela força.

Anos mais tarde, Trotsky, que aderira a Lenin, explicou no seu livro História da Revolução Russa – vol. I, detalhadamente a concepção leninista por meio da metáfora "do vapor e do êmulo". A massa em ebulição gerava uma enorme energia, mas que se não houvesse um êmulo para dirigi-la, toda a pressão gerada em pouco tempo se esvaía. O espontaneismo é fantástico, mas em nada redunda de positivo se não for orientado para um determinado fim (no caso, tomar de assalto o poder). Como os bolcheviques terminaram fazendo em outubro de 1917, na Segunda Revolução.


A massa contra-revolucionária 

Certamente que um dos mais desconcertantes fenômenos políticos contemporâneos foi a plena adesão das massas aos movimentos nazi-fascistas que surgiram a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Até então as aparições das multidões nas ruas em protesto sempre eram tidas como uma ameaça vinda da esquerda, dos que empunhavam as bandeiras vermelhas ou negras da revolução comunista ou anarquista. Eis que, acaudilhadas por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha e por epígonos deles em outras partes do mundo, as massas postaram-se em marcha a serviço da contra-revolução. Abrigaram-se sob as bandeiras da antidemocracia e do anticomunismo para a mais total perplexidade dos teóricos da esquerda que até hoje jamais conseguiram elucidar esse mistério.


BIBLIOGRAFIA:

Canetti, Elias. Massa e Poder. Brasília: Editora da Universidade de Brasília/Melhoramentos, 1981.

Chevalier, Louis. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris pendant la première moitié du XIXe siècle. Paris. Edition Perrin, 2002.

Engels, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007.

Gasset, José Ortega y. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Hook, Sidney. O herói na História. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1962.

Hugo, Victor. Os miseráveis. São Paulo: Hemus, 1979.

Le Bon, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Marx, Karl. A Guerra civil na França, in Obras Completas. Lisboa: Edições Avante; Moscou: Editorial Progresso, vol II, 1983.

Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multidão - Guerra e democracia na era do império. São Paulo: Editora Record, 2005.

Reich, Wilhelm. Psicologia das massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

Sighele, Scipio. A multidão criminosa. Ensaio de Psicologia Coletiva. Imprenta: Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954.

Sue, Eugene. Les Mystères de Paris. Paris: Editions Gallimard, 2009.

Tchakhotine, Sergei. A mistificação das massas pela propaganda política. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.

Trotski, Léon. Histoire de la Révolution Russe. Paris: Éditions du Seuil, 1950.



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Sugestão de livro: "O homem que amava os cachorros" (2009), de Leonardo Padura

Muitas vezes certos personagens e acontecimentos históricos são usados por escritores quando estes elaboram uma obra de ficção. E existem obras literárias que abordam a História de maneira tão intensa que elas nos ajudam efetivamente a compreender o processo histórico.

Assim, uma excelente sugestão de leitura para os interessados em livros que misturam História e Ficção é o romance O homem que amava os cachorros, de autoria do escritor cubano Leonardo Padura. O livro foi originalmente publicado em 2009 e conta a história do líder revolucionário Leon Trotski e do seu assassino, o militante espanhol Ramón Mercader.


Leonardo Padura é pós-graduado em Literatura Hispano-Americana, romancista, ensaísta, jornalista e autor de roteiros para cinema. O homem que amava os cachorros foi traduzido para diversos idiomas (em países como Espanha, Portugal, França, Estados Unidos e Alemanha) e recebeu vários prêmios internacionais. Para elaborar o romance, Padura dedicou cinco anos de sua vida a uma rigorosa pesquisa histórica.

Assim, Padura mistura em seu livro elementos obtidos por meio de toda a pesquisa feita com elementos que ele tirou de sua própria imaginação. O resultado é uma instigante mistura de História e Ficção que nos remete a temas como a Revolução Russa, o Stalinismo soviético, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial e os desdobramentos da Revolução Cubana.

Pode-se dizer que o livro gira principalmente em torno dos impasses vivenciados pelo comunismo ao longo do século XX. Dessa maneira, Padura explora os (des)caminhos do comunismo, indo do sucesso da Revolução Russa - momento de esperança para o proletariado internacional  - aos aspectos mais sombrios do regime de Josef Stalin e a conjuntura cubana entre o final do século XX e o início do século XXI, passando também pela Guerra Civil Espanhola e pela Segunda Guerra Mundial.

Os capítulos da obra vão compondo aos poucos as trajetórias de Leon Trotski e de Ramón Mercader. A complexidade de cada um dos personagens vai sendo desvelada aos poucos por meio de uma narrativa que procura entender como morrem as utopias. Mais do que isso, Padura procura mostrar ao leitor, às vezes de maneira bastante dura, como as pessoas que possuem ideais revolucionários muitas vezes acabam sendo derrotadas por um conjunto de forças que se revela extremamente poderoso e cruel.

O isolamento político de Trotski provocado pela ação de Stalin é descrito em páginas que levam o leitor a paisagens da União Soviética, da Turquia, da França, da Noruega e do México. Já a trajetória de Ramón Mercader, um militante espanhol que acaba se tornando o assassino de Trotski, é abordada de modo que o leitor vai aos poucos sabendo como o personagem foi envolvido em uma grande rede de mentiras, espionagens e violência. Ao final do livro, tanto Trotski quanto Mercader acabam se tornando objeto de compaixão por parte do leitor. 

Em O homem que amava os cachorros, é nítida a crítica feita por Padura ao modo como os homens desvirtuam as ideologias em nome do exercício do poder político. Nas páginas do livro, o leitor encontra comentários a respeito dos crimes cometidos pelo regime de Josef Stalin, das sofríveis condições de vida da população cubana e do modo como os governos procuram manipular a memória coletiva.

Maravilhosamente bem escrito, o romance de Padura merece ser lido não apenas porque ele nos remete a episódios marcantes do século XX, mas também porque ele nos instiga a pensar nos múltiplos pontos de vista que podem ser adotados ao se contar uma história.

Vale a pena conferir!

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NOTA: Em 2015, o escritor cubano Leonardo Padura foi entrevistado no programa de TV Roda Viva. A entrevista está disponível no site YouTube:



segunda-feira, 23 de março de 2015

Sugestão de livro: "O Homem Revoltado" (1951), de Albert Camus

Processos históricos como o da Revolução Francesa - com destaque para a fase do Terror - nos levam a refletir sobre uma questão muito importante: é correto que a luta por um ideal sirva de justificativa para que se cometa assassinatos? Não nos esqueçamos: no período em que os jacobinos estiveram no poder durante os anos revolucionários da França no final do século XVIII, uma quantidade enorme de pessoas foi mandada para a guilhotina em nome da "Revolução". Mas a Revolução Francesa não foi a única em que pessoas foram mortas em nome de certas ideias. No século XX, também a Revolução Russa foi um movimento no qual os "revolucionários" mataram muitas pessoas.

Como se comportar diante de tais fatos? Uma instigante reflexão sobre o assunto foi feita pelo intelectual francês Albert Camus (1913-1960) no ensaio O Homem Revoltado, publicado em 1951. Segundo Voltaire Schilling, a obra é “uma brilhante e literariamente bem articulada exposição sobre as mazelas da revolução através dos tempos contemporâneos, inclusive com reparos aos acontecimentos decorrentes de 1789”.[1] Neste livro, Camus faz uma dura crítica aos revolucionários que, em nome de sua(s) Revolução/Revoluções, fazem o uso da violência e atentam contra a vida de outras pessoas.



Para um melhor entendimento da postura assumida pelo francês em seu ensaio, recomendamos a leitura do texto abaixo:


Os Homens Revoltados de Albert Camus

Nascido em Mondovi, interior da Argélia, em 1913, e morto em 1960, em Villeblevin, Albert Camus, escritor e pensador, refletiu profundamente sobre o homem moderno, o homem do século 20. Esquecido por muitos, Camus ainda tem bastante a dizer sobre os movimentos revolucionários e suas implicações para a sociedade.

Em “O Homem Revoltado”, publicado em 1951, a intensidade das guerras, a morte e o assassinato deliberados fizeram Camus buscar as causas filosóficas e psicológicas do absurdo de assassinar. O autor tenta compreender as transformações da natureza humana. O livro é essencial na biblioteca de qualquer um que queira compreender a história do último século.

O homem revoltado é aquele que se encontra em meio à exaltação da vida e à negação da morte. Em princípio, a revolta quer liberdade, quer viver. Prometeu foi o primeiro revoltado. O homem no seu encalço destrona Deus, a liberdade necessária ao homem não está nas limitações morais e éticas da Igreja.

O homem moderno é essencialmente um homem crítico e tentadoramente afeito aos absurdos. O absurdo está em matar e morrer por ideias e princípios obscuros: ponto central para entendermos os homens revolucionários de outrora e os de agora. A causa nobre da revolução não pode ser maculada. De Prometeu a Nietzsche, o revoltado de outrora tinha princípios: elevar o homem e seu valor ao grau maior.

O homem revoltado, segundo Camus, não é o revolucionário. Este é sem exceção o homem revoltado sem aquele princípio: o homem é nada, apenas a revolução é “sagrada”. Camus polemizou um ponto que persiste na história do século 20: a revolução eleva-se ao nível do sagrado, do inegável. Por fim, Camus esboça um apelo para que voltemos nossas ideias aos primeiros revoltados, aqueles com princípios, aqueles que respeitavam a vida.

A Vida acima de tudo!

(NOTA: O texto “Os Homens Revoltados de Albert Camus” que foi reproduzido acima é de autoria de Fabrícia Vieira de Araújo e foi originalmente publicado na Coluna do NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia no dia 18 de janeiro de 2013.)


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Ficou com vontade de saber mais sobre o assunto? Então, além da leitura do próprio livro de Camus, recomendamos alguns textos disponíveis na internet:

LIMA, Raymundo de. Revolução ou revolta? - I - (Um retorno a Albert Camus em seis pontos). Revista Espaço Acadêmico, n. 86, jul. 2008. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/086/86lima_raymundo.htm>. Acesso em: 23 mar. 2015.

______. Revolução ou revolta? - Parte II - (Um retorno a Albert Camus em sete pontos). Revista Espaço Acadêmico, n. 87, ago. 2008. Disponível em: <http://espacoacademico.com.br/087/87lima.htm>. Acesso em: 23 mar. 2015.

O HOMEM revoltado. Razão Inadequada. Disponível em: <https://arazaoinadequada.wordpress.com/filosofos-essenciais/camus/o-homem-revoltado/>. Acesso em: 23 mar. 2015.

SILVA, Franklin Leopoldo e. Crítica de "O Homem Revoltado": Jeanson e Sartre. Arethusa. Disponível em: <http://arethusa.fflch.usp.br/node/32>. Acesso em: 23 mar. 2015.

VICENTE, José João Neves Barbosa; GONTIJO, Frances Deizer. O absurdo e a revolta em Camus. Revista Trías, n. 3, p. 1-10, set. 2011. Disponível em: <http://revistatrias.pro.br/artigos/ed-3/o-absurdo-e-a-revolta-em-camus.pdf>. Acesso em 23 mar. 2015.
  







[1] SCHILLING, Voltaire. Albert Camus contra Jean-Paul Sartre: o fim da revolução. Terra. Disponível: <http://noticias.terra.com.br/educacao/historia/albert-camus-contra-jean-paul-sartre-o-fim-da-revolucao,a00870c4d76da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>. Acesso em: 23 mar. 2015. 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Vladimir Maiakóvski e a força da poesia

NOTA: Este texto foi originalmente escrito por Rodrigo de Freitas Costa, professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), e publicado na Coluna do NEHAC do Jornal Correio de Uberlândia (27 abr. 2012).

Qual o lugar da poesia entre nós? Essa é uma pergunta difícil de ser respondida, porém não podemos esquecer que as artes fazem parte do nosso cotidiano. O que seria dos Homens sem a poesia que embala canções, promove diálogos, constrói narrativas e permite momentos singulares? A sensibilidade aflora em momentos como esses e nos possibilita olhar para o nosso meio de forma diferenciada. Sendo assim, a Coluna NEHAC desta semana faz questão de lembrar o nome de um dos poetas mais contundentes do século XX: Vladimir Maiakóvski.
Nascido em 1893 na Rússia czarista, era desenhista, ator, dramaturgo, poeta e tornou-se revolucionário com os acontecimentos de 1917. Fez de seu trabalho um apelo ao presente e à possibilidade de transformação social, sem se esquecer que a multiplicidade humana não pode ser banalizada, principalmente nos momentos revolucionários. Maiakóvski foi um artista de seu tempo, viveu intensamente cada um dos momentos do início do século e expressou uma sensibilidade contagiante em seus textos.
Em um poema, o escritor nos apresenta algo que é essencial, apesar de muito esquecido: a paixão e a sensibilidade. “Nos demais,/ Todo mundo sabe, / o coração tem moradia certa, / fica bem aqui no meio do peito, / mas comigo a anatomia ficou louca, /sou todo coração”. Para um artista que acreditava na transformação política por meio da ação humana, falar que é “todo coração” significava mais que uma simples discussão do ponto de vista pessoal. No fundo, ele chamava a atenção de seus leitores para o fato de que o Homem deve se lembrar de sua própria transitoriedade.
Não há um elemento fixo que caracteriza todos nós. Nesse caso, a poesia de Maiakóvski ganhava uma força diferenciada, pois, em meio ao clima revolucionário da época, o poeta se lembrava da sensibilidade humana. Essa sensibilidade é um tema que precisa ser constantemente retomado, inclusive entre nós hoje, homens da técnica e dos tempos fluídos.
O poeta se matou em 1930, desiludido com o andamento das questões políticas e sociais da Rússia. Acreditava ter cumprido a sua função, e deixou vários textos aos pósteros. Cabe a cada um de nós redescobrir nas palavras de Maiakóvski a força da poesia, pois ela não reside nos textos, mas sim nos sujeitos múltiplos que a recuperam. Nesse caso, é bom finalizar com as palavras do poeta: “Ressuscite-me, / ainda que apenas, / porque fui um poeta.”

A Revolução Russa

A Rússia no início do século XX: 

a) Antigo Regime (Absolutismo); 
b) grandes proprietários de terras, clero e oficiais do exército ocupam o topo da pirâmide social; 
c) sociedade baseada na posse de terras e em títulos honoríficos; 
d) czarismo.
→ Semelhanças com o mundo feudal. A Rússia estava bem diferente de outros países onde o capitalismo se desenvolvia rapidamente.
Boiardos: nobres proprietários que exploravam a população camponesa.
Mujiques: servos.

Os últimos czares:

Alexandre II (1818-1881): aboliu a servidão e eliminou as dívidas dos mujiques.
Alexandre III (1845-1894): estimulou investimentos estrangeiros (alemães, belgas, franceses e ingleses), o que impulsionou a industrialização russa e evidenciou o contraste entre a estrutura agrária oligárquica czarista e a modernização. Repressão a anarquistas e comunistas por meio da Okrana (polícia política).
Nicolau II (1868-1918): continuou a industrialização baseada em capitais estrangeiros.

Apesar de tais tentativas de modernização, os monarcas da dinastia Romanov, no poder desde 1613, não abriam mão de governar de maneira absolutista, onde o czar se confundia com o Estado. Tal fato fez crescer a oposição ao absolutismo, notadamente por parte da crescente burguesia. CORROSÃO DO CZARISMO.
→ Fracasso do czar Nicolau II na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), quando a Rússia disputou com o Japão a região da Coreia e da Manchúria.
→ 22 de janeiro de 1905: manifestação popular em frente ao palácio de inverno dos monarcas em São Petersburgo (que seria chamada de Petrogrado e, depois, de Leningrado) é violentamente reprimida em um episódio conhecido como Domingo Sangrento. Os manifestantes desejavam a convocação de uma assembleia constituinte e a implantação de melhores condições e regras trabalhistas. Mesmo se mostrando pacíficos e desarmados, foram dizimados às centenas por soldados e pela polícia.
→ Após o Domingo Sangrento, uma onda de protestos se espalha pelo Império Russo. Há uma greve geral e levantes militares, como no encouraçado Potemkin, um navio da esquadra do Mar Negro. O czar se vê obrigado a assinar o tratado de Portsmouth, em 05 de setembro de 1905, encerrando o conflito com o Japão. A Rússia perdeu parte da ilha de Sacalina, foi obrigada a entregar a península de Liaotung e teve que reconhecer os direitos dos japoneses sobre a Coreia.
→ Diante das crescentes manifestações, o czar lança o Manifesto de Outubro, ainda em 1905, por meio do qual promete instaurar uma monarquia constitucional e parlamentarista. Trabalhadores das indústrias e camponeses começam a intensificar sua participação política popular por meio dos sovietes – conselhos de trabalhadores.
→ Em 1906, Nicolau II cumpre sua promessa e instaura a Duma – parlamento – com o intuito de redigir uma nova constituição. Contudo, o czar enviou decretos que o colocavam acima do poder legislativo, mesmo sendo esse controlado por membros das elites nacionais. Vieram as críticas parlamentares, e o czar dissolveu a Duma no ano seguinte, substituindo-a por uma de caráter censitário, ou seja, baseada no poder econômico.
→ Opositores do czarismo: a) narodnikis (populistas); b) anarquistas (inspirados pelas ideias de Bakunin), e c) social-democratas (marxistas).

Os Marxistas se dividiam em duas facções:
Mencheviques (do russo menshe = menos, pois tinham presença minoritária no Congresso da Social-democracia dos Trabalhadores Russos): eram marxistas ortodoxos, defendiam o desenvolvimento e o amadurecimento do capitalismo, para só então buscar o socialismo. Eram liderados por Gheorghi Plekhanov e Iulii Martov.
Bolcheviques (do russo bolshe = mais, pois tinham maioria no Congresso da Social-democracia dos Trabalhadores Russos): defendiam a revolução socialista, a instalação da ditadura do proletariado e a aliança entre operários e camponeses. Liderados por Vladimir Ilitch Lênin.

Participação da Rússia na I Guerra Mundial: almejando conquistas territoriais (principalmente a região dos estreitos de Bósforo e Dardanelos, que daria aos russos o acesso ao mar Mediterrâneo por meio do Mar Negro), a Rússia esteve do lado da Inglaterra e da França (na Tríplice Entente) contra a Alemanha e a Áustria-Hungria. Sucessivas derrotas russas para o exército alemão → deserção em massa de soldados russos da frente de batalha → a Alemanha conquista boa parte do território russo → a Rússia se vê aniquilada militarmente e desorganizada economicamente (desabastecimento e escassez de gêneros básicos). AUMENTA A OPOSIÇÃO AO CZARISMO. Em 1917, trabalhadores russos fazem greves e manifestações, recebendo o apoio de soldados e marinheiros. Nicolau II é deposto.

Revolução Menchevique:

Em março de 1917 é instalada a República da Duma, chefiada pelo príncipe Lvov, politicamente moderado e influenciado pelo líder menchevique Alexandre Kerensky, membro do Soviete de Petrogrado, que era composto por operários, marinheiros e soldados. Kerensky assume efetivamente o poder da Duma em julho de 1917, após a renúncia de Lvov. O novo governante procura manter a Rússia na I Guerra e desenvolver o capitalismo no país para só então buscar o socialismo. Kerensky buscou atender aos compromissos e ligações com a burguesia que o apoiava.
Tal postura de Kerensky desagradou os bolcheviques, que queriam a imediata revolução proletária. Sob a liderança de Vladimir Lênin e Leon Trótski, os bolcheviques lançaram as Teses de abril que, por meio da plataforma “paz, terra e pão”, defendiam a saída da Rússia da I Guerra, a divisão das grandes propriedades entre os camponeses e a regularização do abastecimento interno. O lema “Todo poder aos sovietes!”. Trótski recrutou entre trabalhadores bolcheviques dos sovietes uma milícia revolucionária em Petrogrado, a Guarda Vermelha.

Revolução Bolchevique:

Em 07 de novembro, os bolcheviques tomaram de assalto os departamentos públicos e o palácio de inverno em Petrogrado, destituindo o governo menchevique e criando o Conselho de Comissários do Povo. Lênin transferiu o poder aos sovietes por meio do documento “Apelo aos trabalhadores, soldados e camponeses”. No comando do Conselho estavam Lênin, como presidente, Trótski, como encarregado dos negócios estrangeiros, e Josef Stálin, chefiando os negócios internos.

Governo de Vladimir Lênin (1917-1924):
  • Nacionalização das indústrias e bancos estrangeiros;
  • Redistribuição das terras no campo;
  • Assinatura de um armistício com a Alemanha, em Bret-Litovski, onde foi definida a saída da Rússia da I Guerra Mundial, com os russos abrindo mão de alguns territórios (Estônia, Letônia, Lituânia, Finlândia, Ucrânia e Polônia);
  • Enfrentou a oposição de mencheviques e czaristas – chamados de “russos brancos” –, que foram apoiados pelas potências aliadas, que temiam a propagação da revolução popular pelo mundo. A violenta guerra civil entre mencheviques e bolcheviques só foi encerrada em 1921, com vitória dos bolcheviques – os chamados “russos vermelhos”, por conta da Guarda Vermelha fundada por Trótski.
  • Durante essa guerra civil, foi adotada por Lênin a política econômica do comunismo de guerra: centralização da produção, eliminação da economia de mercado típica do capitalismo, busca por recursos para enfrentar o cerco internacional e a guerra contra os russos brancos, confisco da produção agrícola (fazendo desaparecerem os procedimentos de compra e venda de produtos, o que tornou desnecessário até o uso de moedas). Em 1921, mesmo com os bolcheviques vencendo os russos brancos e aliados, houve crises de abastecimento e revoltas camponesas por conta do confisco da produção agrícola.
  • Para evitar o colapso da economia após a guerra civil, Lênin instituiu a NEP – Nova Política Econômica –, uma combinação de princípios socialistas com elementos capitalistas. Estímulo à pequena manufatura privada, ao pequeno comércio e à venda livre de produtos por parte dos camponeses no mercado. O intuito era motivar a produção e garantir o abastecimento. Segundo Lênin, os elementos capitalistas eram necessários para fortalecer a economia e, a partir disso, possibilitar a implantação do regime socialista. A NEP durou até 1928, tendo recuperado parcialmente a economia soviética, inclusive com o crescimento da produção industrial, agrícola e do comércio.
  •  A relativa liberalização econômica foi acompanhada, por contraste, de um centralismo governamental, sob o poder do Partido Comunista Russo, único partido permitido no país e que teve esse nome adotado pelos bolcheviques a partir de 1918. Neste mesmo ano foi redigida uma constituição que criava a República Soviética Socialista Russa. Em 1923 foi elaborada uma outra que criava a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), união de diferentes regiões do antigo Império Russo, que foram transformadas em repúblicas federativas e socialistas. O Partido Comunista Russo foi transformado, em 1925, em Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
  • Lênin morreu em 1924 (a causa de sua morte é motivo de discussão, uns dizem que foi sífilis, outros que foi assassinato e ainda há o fato de ele ter tido uma série de acidentes vasculares cerebrais). Leon Trótski – chefe do exército – e Josef Stálin – secretário-geral do Partido Comunista – disputaram o poder. Trótski queria difundir o socialismo pelo mundo, enquanto que Stálin desejava consolidar internamente a revolução, estruturar um Estado revolucionário forte e implantar o socialismo em um só país, para só então tentar levar a revolução para outras partes da Europa. Stálin saiu vitorioso e a partir de então começou a marginalizar Trótski e seus seguidores, até conseguir eliminá-los.

Governo de Josef Stálin (1924-1953):
  •    A partir de 1928, a NEP foi abolida, e a economia soviética viveu uma socialização total. Foram instaurados os planos quinquenais, elaborados pela Gosplan – o órgão encarregado da planificação econômica. Tais planos tinham como objetivo modernizar e industrializar a União Soviética. O primeiro plano quinquenal (1928-1933) procurou aumentar a produção como um todo por meio de um estímulo à industrialização (especialmente na área de indústria pesada, como a siderurgia e a maquinaria).
  •     No meio rural foi instalada a coletivização agrícola, por meio das fazendas estatais (os sovkhozes) e das cooperativas (os kolkhozes).
  •     Crescimento das indústrias de base e de consumo.
  •     Stálin procurou consolidar seu poder controlando o Partido Comunista e tornando-o o poder máximo que supervisionaria todos os sovietes.
  •    Atuação da GPU – Administração Política do Estado –, que era a polícia política revolucionária chefiada por Stálin.
  •   Stálin exilou Trótski em 1929, e, especialmente entre 1936 e 1938, promoveu julgamentos, condenações, expulsões do partido e punições a potenciais opositores, naquilo que ficou conhecido como o processo dos “expurgos de Moscou”. Muitas pessoas foram aprisionadas, executadas ou mandadas para prisões na Sibéria. Um agente da polícia política assassinou Trótski no México, em 1940.
  •   Em 1934, a URSS passou a participar da Liga das Nações, junto com países capitalistas que haviam apoiado o exército russo branco anos antes. Em 1935, no Congresso da Internacional Comunista (Komintern) em Moscou, 65 partidos comunistas internacionais apoiaram a política stalinista. Contudo, a partir da década de 1930, com a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha, a URSS teria desafios pela frente, por conta do pacto anti-Komintern assinado entre Alemanhã, Itália e Japão em 1936, pacto que colocou um desafio à existência de um país comunista e do movimento operário internacional.


Apêndice – Problematizando a Revolução Russa

É preciso pensar:
·        1) nas ideias de Marx e Engels: até que ponto o processo iniciado com a Revolução Russa colocou tais ideias efetivamente em prática? PENSAR: a complexa relação entre teoria e prática, a distância entre o que se espera alcançar e o que é possível realizar.
·           2) nos crimes do stalinismo: violência e repressão.
→ É possível problematizarmos alguns aspectos da Revolução Russa a partir da literatura:
a)   Boris Pasternak (1890-1960): poeta e romancista russo. Na sua obra Doutor Jivago, publicada nos anos 1950, fez críticas ao governo soviético. O personagem principal do livro é um médico/poeta que é perseguido e criticado pelas autoridades soviéticas por conta de sua literatura ser sentimental, individual e não coletiva e voltada para a realidade dos trabalhadores, como pregava a política cultural do regime baseada no “realismo socialista”.[1] O Dr. Jivago é uma espécie de alter-ego do próprio Pasternak, que sofreu críticas parecidas por parte do regime ao longo de sua vida. O livro acabou sendo proibido na URSS por vários anos. Pasternak chegou a ganhar o Nobel de Literatura em 1958, mas o governo soviético o impediu de aceitar o prêmio. Há uma boa adaptação cinematográfica do livro, com Omar Shariff no papel principal.
b) Vladimir Maiakóvski (1893-1930): poeta russo. Participou ativamente da Revolução Russa de 1917, tendo apoiado o regime bolchevique. Usou sua arte na defesa dos seus ideais. Desiludido com as questões políticas e sociais da Rússia, cometeu suicídio em 1930. Defendeu o valor do sentimento em um momento em que o regime começava a valorizar mais uma literatura coletiva, realista, não tão voltada para o individual. No poema “Adultos”, ele disse: “Nos demais, / Todo mundo sabe, / o coração tem moradia certa, / fica bem aqui no meio do peito, / mas comigo a anatomia ficou louca, / sou todo coração”.





[1] O chamado “realismo socialista” surgiu na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas durante a década de 1920. Contudo, foi a partir do I Congresso de Escritores Soviéticos em 1934, com destaque para os papéis desempenhados por Andrei Jdanov e Máximo Gorki, que o realismo socialista encontrou o seu lugar como doutrina e estética oficial do Estado soviético no âmbito do stalinismo. O realismo socialista caracteriza-se por uma exaltação das classes trabalhadoras, por meio de uma representação “fiel” da vida e das dificuldades enfrentadas pelo proletariado no contexto da exploração capitalista. Neste tipo de “realismo”, a defesa da ideologia comunista é feita a partir de uma perspectiva de recusa do subjetivismo. Sobre o “realismo socialista”, consultar: STRADA, Vittorio. Da “revolução cultural” ao “realismo socialista”. In: HOBSBAWM, Eric J. (Org.). História do Marxismo – o marxismo na época da terceira internacional: problemas da cultura e da ideologia. Tradução de Carlos Nelson Coutinho, Luiz Sergio N. Henriques e Amélia Rosa Coutinho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 109-150. v. 9; HOBSBAWM, Eric J. Do “realismo socialista” ao zdhanovismo. In: Ibid. p. 151-219.