Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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domingo, 1 de fevereiro de 2015

[Seção dos Alunos]: Revoltas no início do período republicano no Brasil

O texto abaixo foi produzido pela aluna Dayana Alves, do 2° Ano B (2014). Nele, a autora apresenta informações acerca de algumas revoltas que ocorreram no Brasil durante o início do período republicano, entre o fim do século XIX e o início do século XX. A aluna autorizou a publicação do texto neste espaço.

GUERRA DE CANUDOS

A Guerra de Canudos ocorreu no interior da Bahia e durou de 1896 a 1897, período entre a queda da Monarquia e a instalação do regime republicano no Brasil. O então Presidente da República era Prudente de Morais.

A população do nordeste brasileiro vivia em uma situação precária, a região era caracterizada por latifúndios improdutivos que pertenciam aos coronéis. O clima seco castigava a região, danificando o plantio de alimentos, secando os diques (açudes) e matando os animais que não resistiam à falta de água. Os sertanejos também tentavam sobreviver, mas a cada ano muitos morriam de fome e sede, a maneira tão desumana de viver estimulava o surgimento de agitações sociais.

Dessa forma, os sertanejos tinham alternativas, como a emigração, o banditismo que transformava os camponeses em “malfeitores”, fortemente armados, apavorando as populações locais e invadindo as propriedades dos coronéis, e o misticismo religioso, com a promessa da salvação eterna.
Com essa situação, muitos sertanejos se uniram em torno de Antônio Conselheiro, o qual  se auto-intitulava um emissário de Deus vindo para abolir as desigualdades sociais e as perversidades da República. Ele fazia pregações e dava assistência à população pobre do nordeste. As pessoas acreditavam que ele era um mestre divino, que praticava até milagres.

Assim, Antônio Conselheiro fundou o vilarejo de Canudos e os sertanejos e suas famílias passaram a migrar para lá. Entre outros tantos devotos, ele propagava a salvação da alma e o povo tinha fé que seu Messias os ajudaria a sair daquela situação precária, desse modo a Igreja começou a perder seus fiéis para Antônio Conselheiro. No ano de 1896, o arraial contava com mais ou menos 20 mil sertanejos que repartiam tudo entre si, negociando o excesso com as cidades vizinhas, adquirindo assim os bens e produtos que não eram gerados no vilarejo.

A pintura representa a Comunidade de Canudos, antes dos conflitos.

Os habitantes de Canudos precisavam se prevenir e decidiram então organizar milícias armadas, pois era esperada uma reação contrária da parte dos coronéis e da Igreja Católica. Enquanto a Igreja perdia seus fiéis, os coronéis sentiam-se prejudicados com o constante deslocamento de mão-de-obra para Canudos. A população abandonou a sociedade republicana convencional e partiu na direção da nova sociedade que surgia, mesmo sem nenhuma garantia. Os padres e coronéis pressionaram o governador da Bahia a tomar providências urgentes, eles queriam que o governo desse um fim a Canudos. Os jornalistas e intelectuais também eram contra os moradores do arraial, pois entendiam que os mesmos eram monarquistas e pretendiam derrubar o governo republicano, instalado em 1889, o que era totalmente fora de propósito.

Foram instituídas três expedições militares e, para a surpresa das tropas republicanas, foram todas vencidas pelos seguidores de Antônio Conselheiro. Por causa da tamanha dificuldade, o Governo Federal assumiu o comando. A quarta expedição foi organizada pelo então ministro da Guerra, Carlos Bittencourt, o qual recrutou cerca de 10 mil homens que, comandados pelo general Artur Costa, apoderaram-se de Canudos, incendiaram o arraial e mataram grande parte da população, um verdadeiro massacre no qual muita gente inocente morreu, principalmente idosos e crianças, que só buscavam uma melhor qualidade de vida.

A imagem mostra a população de Canudos presa durante os últimos dias de guerra.

A Comunidade de Canudos foi arrasada no dia 05 de outubro de 1897, entrando para a história como o cenário de um dos mais intensos massacres já presenciados na história do Brasil. Antônio Conselheiro, com a saúde fragilizada, morreu dias antes do último combate.

Foto tirada por Flávio de Barros em 1897 mostra  Antônio Conselheiro morto.

Mesmo com a vitória sobre Canudos, os fracassos sucessivos fizeram com que a posição política do exército ficasse abalada.

REVOLTA DA VACINA

No início do século XX, o Brasil tinha como capital a cidade do Rio de Janeiro, que crescia desordenadamente. Como não havia planejamento, era muito comum a existência de cortiços, casebres e favelas, onde rede de esgoto, coleta de lixo, saneamento básico eram extremamente precários, quando não eram inexistentes. Devido a esses fatores, muitas doenças atingiam a população, entre elas a febre amarela, peste bubônica, tifo, tuberculose, a varíola, entre outras, que provocavam uma imagem negativa da cidade no exterior. Os navios estrangeiros anunciavam que não parariam no porto carioca e os imigrantes recém-chegados da Europa morriam às dezenas de doenças infecciosas.

Vendo a situação piorar cada dia mais, Rodrigues Alves disse pouco antes de tomar posse do cargo de Presidente da República: "Meu programa de governo vai ser muito simples. Vou limitar-me quase exclusivamente ao saneamento e melhoramento do porto do Rio de Janeiro". Assim, instituiu como meta governamental o saneamento e a reurbanização da capital da República. Para assumir a frente das reformas nomeou Francisco Pereira Passos para o governo municipal. Este, por sua vez, chamou os engenheiros Francisco Bicalho para a reforma do porto e Paulo de Frontin para as reformas no Centro. Rodrigues Alves nomeou ainda o médico Oswaldo Cruz como diretor geral do Departamento Federal de Saúde Pública (DGSP) do governo federal, cargo equivalente ao de ministro da Saúde atualmente. Este ficou responsável pelo saneamento da cidade.

A reforma incluía a derrubada das favelas, casarões e cortiços, trazendo como consequência o despejo dos moradores que acabaram indo para a periferia da capital, formando e desenvolvendo as favelas nos morros cariocas e o crescimento demográfico nas regiões periféricas. O movimento ficou popularmente conhecido como o "bota-abaixo". O governo pretendia ter espaço para grandes e modernas avenidas com prédios de vários andares, além do alargamento de ruas.

Ao mesmo tempo que ocorria o processo de modernização da cidade, iniciava-se o programa de saneamento do biólogo e sanitarista Oswaldo Cruz. Ele encaminhou ao Congresso Nacional, no dia 31 de outubro de 1904, uma proposta de lei sobre a obrigatoriedade da vacinação, a chamada Lei da Vacina Obrigatória que permitia que brigadas sanitárias, acompanhadas por policiais, entrassem nas casas para aplicar a vacina à força.

Para combater a peste, ele criou brigadas sanitárias que cruzavam a cidade espalhando raticidas, mandando remover o lixo e até comprando ratos de quem se dispusesse a caçá-los. Em seguida, o alvo foram os mosquitos transmissores da febre amarela, o sanitarista recrutou mais de 1500 pessoas. Com a criação das Brigadas Mata-Mosquitos, que eram formadas por grupos de funcionários do serviço sanitário que, com a ajuda de policiais, invadiam casas e vacinavam as pessoas à força, além de exterminarem os mosquitos. Essas medidas causaram revolta na população e, para combater a varíola, foi instituída a vacinação obrigatória.  A população, humilhada pelo poder público autoritário e violento, não acreditava na eficácia da vacina e a falta de informação tornou a situação um caos. As pessoas naquela época eram mais recatadas e, com a falta de explicação sobre o assunto, elas rejeitavam a exposição das partes do corpo a agentes sanitários do governo, para a aplicação da vacina, considerando isto uma falta de respeito.

A charge capa da revista "O Malho", de 1904, ilustra a revolta da população contra Oswaldo Cruz, o personagem de bigode ao centro, montado em uma seringa.

A vacinação obrigatória foi o a gota d'água para que o povo, que já estava profundamente insatisfeito com o “bota-abaixo”, se revoltasse. A recém reconstruída cidade do Rio de Janeiro virou uma praça de guerra, onde carroças, bondes, trens e postes de iluminação foram destruídos, lojas saqueadas, policiais atacados, etc.

Bonde virado na Praça da República. Acervo Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz.

"Tiros, gritaria, engarrafamento de trânsito, comércio fechado, transporte público assaltado e queimado, lampiões quebrados às pedradas, destruição de fachadas dos edifícios públicos e privados, árvores derrubadas: o povo do Rio de Janeiro se revolta contra o projeto de vacinação obrigatório proposto pelo sanitarista Oswaldo Cruz" (Gazeta de Notícias, 14 de novembro de 1904).

Mais tarde, os cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha também se voltaram contra a lei da vacina. A revolta popular fez com que o governo suspendesse a lei, não sendo mais obrigatória. Durante quase uma semana, de 10 a 16 de novembro de 1904,  a população enfrentou as forças da polícia e do exército até ser reprimida com violência. O movimento deixou dezenas de mortos e feridos. Centenas de participantes do motim foram deportados para o Acre. Após reassumir o controle da situação, o processo de vacinação foi reiniciado.

Mesmo sofrendo resistência da população, o modelo empregado obteve resultados importantes no controle das doenças epidêmicas,  melhorando a situação sanitária e de higiene na cidade do Rio de Janeiro e conseguindo, inclusive, erradicar a febre amarela e a varíola.


REVOLTA DA CHIBATA

A Revolta da Chibata foi um importante movimento social que começou no dia 22 de novembro de 1910, na cidade do Rio de Janeiro.

No início do século XX, a Marinha Brasileira era composta por muitos mulatos e negros, escravos libertos ou filhos de ex-escravos, e  as regras eram muito rígidas. Os marinheiros eram submetidos a uma árdua rotina de trabalho com uma remuneração baixíssima e as condições de alojamento e alimentação eram péssimas. Além disso, os membros de baixa patente recebiam severos castigos físicos toda vez que não cumpriam uma ordem estabelecida. O rebaixamento de salário, o cativeiro em prisão solitária por um período de três a seis dias, a pão e água, para faltas leves ou reincidentes, e as 25 chibatadas para faltas graves eram penas recebidas pelos marinheiros. Apesar de a prática ser proibida desde o fim do Império.

Esse contexto revoltava centenas de marujos que durante os anos de 1908 e 1909 passaram a se organizar, buscando, sem sucesso, negociar melhorias trabalhistas com o governo. No dia 21 de novembro, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes, acusado de embarcar com uma garrafa de cachaça  e, em seguida, ter ferido com uma navalha o cabo que o delatou, foi violentamente punido não com 25, mas com 250 chibatadas, na presença de todos os tripulantes.

O castigo exagerado do marujo levou ao início da revolta, no dia 22 de novembro, com a participação de cerca de 2.300 marinheiros, sob o comando do marujo negro e analfabeto João Cândido Felisberto. Os marinheiros dos couraçados Minas Gerais e São Paulo organizaram um protesto. Eles tomaram o controle das embarcações e do cruzador-ligeiro Bahia e do antigo encouraçado Deodoro.

Marinheiros revoltosos a bordo do couraçado São Paulo.

Couraçado Minas Gerais.

Marinheiros no comando do encouraçado Bahia.

Enviaram uma carta ao presidente exigindo que os castigos fossem abolidos, com destaque para a extinção das chibatadas, que os salários fossem incrementados e uma folga semanal concedida a todos os marinheiros. Se não tivessem seu pedido imediatamente atendido, ameaçavam bombardear a capital.

Mediante a gravidade da situação, o governo cedeu às pressões dos marujos. Em poucos instantes, em 27 de novembro de 1910, o Congresso votou uma lei em que o castigo físico era abolido e todos os envolvidos na revolta não sofreriam qualquer tipo de punição. Porém, o presidente da República Marechal Hermes da Fonseca descumpriu suas próprias determinações, quando assinou o decreto n. 8.400 que permitia a exclusão da Marinha de qualquer marujo cuja presença fosse julgada inconveniente por seus superiores. Cerca de 1.200 homens foram expulsos da Marinha, centenas foram presos e outros 30 foram assassinados. As prisões do Batalhão Naval, localizado na Ilha das Cobras, na baía de Guanabara, estavam lotadas e, em 9 de dezembro, uma nova rebelião foi iniciada. O governo reprimiu severamente a insurreição e usou a situação para suspender a anistia oficialmente anunciada semanas antes. João Cândido então foi preso, acusado de liderar a recente rebelião.

João Cândido preso na Ilha das Cobras.

Na noite de 24 de dezembro, 31 marinheiros foram trancados em duas pequenas celas repletas de cal. No dia 26, quando os funcionários do cárcere voltaram ao trabalho, apenas dois marujos sobreviviam: João Cândido e João Avelino Lira. Bastante traumatizado e tendo alucinações, João Cândido foi levado ao Hospital Nacional dos Alienados, onde permaneceu internado por três meses. Depois de recuperado, foi levado de volta à prisão na Ilha das Cobras, cumprindo pena até 30 de dezembro de 1912. Ele foi julgado e considerado inocente.

Impedido de retornar à Marinha, João Cândido trabalhou em embarcações particulares, sendo constantemente demitido por pressão da Marinha sobre seus patrões. Passou a ganhar a vida como pescador e comerciante de peixes. Morreu em 1969, aos 89 anos, vítima de um câncer de pulmão. Historicamente, ficou conhecido como o Almirante Negro, aquele que aboliu o uso da chibata na Marinha brasileira.

Em 1977, Aldir Blanc e João Bosco homenagearam o líder da Revolta da Chibata compondo o samba "Mestre-sala dos Mares", interpretado por Elis Regina. Em 2008, o presidente Luís Inácio Lula da Silva sancionou a lei federal de número 11.756, concedendo a anistia póstuma a João Cândido e a outros marinheiros que participaram da revolta. No entanto, a indenização aos descendentes dos marujos foi vetada pelo presidente da República.
(Crédito das Imagens: Revista "A Illustração Brazileira")


GUERRA DO CONTESTADO

A Guerra do Contestado ocorreu entre 1912 e 1916, em uma região povoada por sertanejos, entre as fronteiras do Paraná e Santa Catarina. Esta região recebeu o nome de Contestado devido ao fato de que os agricultores contestaram a doação de terras que o governo brasileiro fez a empresas multinacionais.

Ao longo do tempo, a região do Contestado foi alvo de muitos episódios de disputas política e econômica, em razão da  presença de uma rica floresta com pinheiros e imbuias e uma grande região dedicada à plantação de erva-mate. As pessoas que viviam nessa região eram muito pobres, oprimidas, que não possuíam terras e também sofriam com a escassez de alimentos. Eles subsistiam sob a opressão dos grandes fazendeiros. A construção de uma estrada de ferro interligando os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul agravou o problema social. A estrada estava sendo construída pela empresa norte-americana Brazil Railway Company, com o apoio dos coronéis. Para que a obra fosse realizada a empresa comprou uma extensa área para construção desta estrada, onde diversas famílias já estavam instaladas. Assim, milhares de famílias de camponeses perderam suas terras. E a companhia atraiu a mão-de-obra de mais de 8 mil operários que participaram da gigantesca obra.

Depois de realizar a construção, a Brazil Railway adquiriu uma outra área com mais de 180 mil hectares onde realizaria exploração madeireira, que também resultou na expulsão forçada de outros tantos pequenos agricultores que também estavam fixados naquela região. Muitos trabalhadores que atuaram na  construção tinham sido trazidos de diversas partes do Brasil e ficaram desempregados com o fim da obra. Eles permaneceram na região sem qualquer apoio por parte da empresa norte-americana ou do governo.

Desse modo, os sertanejos encontravam nas lideranças religiosas o apoio que precisavam. Diante da crise e insatisfação popular, ganhou força a figura do beato José Maria. Este, uniu-se aos sertanejos revoltados e pregava a criação de um mundo novo, regido pelas leis de Deus, onde todos viveriam em paz, com prosperidade, justiça e terras para trabalhar. José Maria conseguiu reunir milhares de seguidores, principalmente camponeses sem terras e houve a fundação da comunidade de Quadrado Santo, onde eles viviam da agricultura subsistente e do furto de gado. José Maria era visto pelos seus seguidores como uma alma boa que surgira para restabelecer a saúde dos adoentados e desprovidos. O costume do monge de anotar as qualidades curativas das plantas que achava nas redondezas o ajudou a construir no lote de um dos administradores uma botica, para melhorar a assistência de quem o procurasse.

Os governos estadual e federal não viram o trabalho de José Maria como algo positivo, e ele passou a representar um risco para a ordem e segurança da região. Assim, passaram a enviar expedições militares contra a população de Quadrado Santo. Ao saberem da ação do governo, os sertanejos fugiram para a cidade de Faxinal do Irani, no Paraná.

Após essa fuga, ainda no ano de 1912, uma nova expedição militar foi mandada para entrar em confronto com os seguidores do beato. Durante os conflitos, as tropas federais foram derrotadas, entretanto, José Maria acabou morrendo. Os sertanejos, inconformados com a morte de seu líder começaram a reorganizar a comunidade de Quadrado Santo. No final do ano seguinte, uma nova luta foi travada com os militares e, mais uma vez, a comunidade do Contestado venceu as autoridades republicanas.

População da comunidade de Quadrado Santo durante uma missa.

Em 1914, o governo mais uma vez foi neutralizado com a fuga em massa dos moradores do Contestado. No ano seguinte, outros confrontos seriam marcados com sucessivas derrotas do Exército. O já prolongado conflito só veio a ter um fim quando as tropas do governo foram mantidas por mais de um ano em confrontos regulares contra a comunidade revoltosa. Para tanto, utilizaram soldados equipados com fuzis, metralhadoras, canhões e aviões.

Na Guerra do Contestado houve a inauguração do uso do avião em combates no Brasil. FOTO: CELSO JÚNIOR/REPRODUÇÃO.

No fim da luta, em 1916, milhares de sertanejos foram brutalmente executados e houve a capitulação dos revoltosos, que resistiram bravamente antes de se dar por vencidos.

Exército controlando os revoltosos capturados no final da guerra.


MOVIMENTO OPERÁRIO (Greve Geral de 1917, anarquismo e comunismo no Brasil do início do século XX)

Em 1900, no Brasil havia em torno de 55 mil operários. As primeiras indústrias surgiram no final do século XIX e a classe operária era composta em sua maioria por imigrantes europeus fortemente influenciados pelos princípios anarquistas e comunistas. Assim, eles convocavam os trabalhadores das fábricas a se unirem em associações que, futuramente, seriam determinantes no surgimento dos primeiros sindicatos. Em 1901 teve início um longo período de ascensão da classe operária, traduzida em um grande crescimento das greves que vai durar até 1908.

O movimento operário brasileiro se fortaleceu entre 1917 e 1920, quando as principais cidades brasileiras sofreram as consequências das greves. Uma das mais importantes foi a Greve Geral de 1917 em São Paulo, que representou toda a insatisfação acumulada dos trabalhadores nas primeiras décadas da república brasileira, guiados inicialmente pela ideologia anarquista, mostraram-se capazes de se organizarem em prol das suas vontades.

Greve Geral de 1917.

Em decorrência da Primeira Guerra Mundial,  o país exportou grande parte dos alimentos produzidos. A partir de 1915, a ocorrência dessas exportações afetou o abastecimento interno de alimentos, causando preços elevados da pequena quantidade de produtos que havia no mercado. Embora o salário subisse, o custo de vida aumentava desproporcionalmente, deixando os trabalhadores em más condições para sustentar suas famílias e fazendo com que as crianças precisassem trabalhar para complementar as rendas de casa. Assim, a greve se espalhou em todo o país enquanto o governo aplicava medidas que envolviam prisões, torturas e expulsão dos estrangeiros do Brasil.

Em meio a uma manifestação no dia 9 de julho, as medidas aplicadas pela polícia acabaram causando a morte de José Martinez, um anarquista espanhol. A indignação provocada por sua morte fez com que o velório do jovem fosse acompanhado por uma multidão e ampliasse o movimento dos trabalhadores.

Funeral de José Martinez no cemitério do Araçá.

Cerca de  70 mil trabalhadores entraram em greve, exigindo, de um modo geral, melhores condições de trabalho e aumentos salariais. A greve durou uma semana e foi duramente reprimida pelo governo paulista. Finalmente chegou-se a um acordo que garantiu 20% de aumento para os trabalhadores.

Foi organizado o Comitê de Defesa Proletária para defender a greve, tendo Edgard Leuenroth como um de seus principais líderes. O Comitê, juntamente com ligas e corporações operárias, apresentou no dia 11 de julho suas reivindicações: liberdade aos presos em decorrência da greve; direito de associações para os trabalhadores; que os trabalhadores não fossem demitidos por envolvimento com a greve; abolição do trabalho para menores de 14 anos; fim do trabalho noturno para os menores de 18 anos; abolição do trabalho noturno feminino; aumento entre 25% e 35% nos salários; pagamento dos salários a cada 15 dias; garantia de trabalho permanente; jornada de oito horas e semana inglesa, aumento de 50% em todo trabalho extraordinário.

(A expressão semana inglesa se refere à jornada de trabalho de oito horas diárias de segunda a sexta-feira mais quatro horas pela manhã do dia de sábado, havendo, portanto, descanso no período da tarde de sábado e de todo o dia de domingo, totalizando 44 horas semanais de trabalho.)

Desesperados, os patrões concederam o aumento imediato aos seus funcionários e se comprometeram a pensar nas demais exigências. Os patrões passaram a ter que levar em consideração a decisão dos empregados, o que consagrou a grande vitória do movimento grevista. Mesmo assim, alguns movimentos permaneceram espalhados pelo Brasil até 1919.

Até a Greve de 1917, a ideologia anarquista dominava o pensamento dos trabalhadores no Brasil. O movimento foi importante também porque a partir dele ganhou força a ideologia socialista, havendo também o amadurecimento do movimento sindical. Logo após a greve, em 1921, foi criado o Centro Comunista do Rio de Janeiro que deu as bases para a fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 1922.

Ao contrário dos anarquistas, que viam o Estado como um mal em si, os comunistas o viam como um espaço a ser ocupado e transformado. Essas concepções os levaram a buscar aliados e a participar da vida parlamentar do país. Uma liderança que os comunistas tentaram atrair em 1927 foi Luís Carlos Prestes, que naquele ano se exilou na Bolívia. Através do Bloco Operário Camponês (BOC), sua face legal, o PCB elegeu dois vereadores para a Câmara Municipal carioca em 1928: o operário Minervino de Oliveira e o intelectual Otávio Brandão.


TENENTISMO

O tenentismo foi um movimento social que se fortaleceu entre  militares de média e baixa patente do Exército Brasileiro, durante os últimos anos da República Velha nas décadas de 1920 e 1930, período conhecido como República das Oligarquias. Este movimento contestava a ação política e social dos governos representantes das oligarquias cafeeiras (coronelismo). Embora fossem conservadores e autoritários, os tenentes defendiam reformas políticas e sociais, mostravam-se favoráveis às tendências políticas republicanas liberais. Queriam a moralidade política no país e combatiam a corrupção.

O movimento tenentista defendia o fim do voto de cabresto, um sistema de votação baseado em violência e fraudes que só beneficiava os coronéis; a reforma no sistema educacional público do país e a mudança no sistema de voto aberto para secreto. 
Os tenentistas chegaram a promover revoltas como,  a revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Nesta revolta, ocorrida em 5 de julho de 1922, aproveitando a separação de algumas oligarquias estaduais, os tenentes apoiaram a candidatura de Nilo Peçanha em oposição ao mineiro Arthur Bernardes, politicamente comprometido com os grandes cafeicultores. Nesse momento, a falta de unidade política dos militares acabou enfraquecendo essa primeira manifestação conhecida como “Reação Republicana”.

Durante essas eleições, a tensão entre os militares e o governo aumentou quando diversas críticas contras os militares, falsamente atribuídas a Arthur Bernardes, foram parar nos jornais da época. Com a vitória eleitoral das oligarquias, a primeira manifestação tenentista veio à tona com uma série de levantes militares. 
Nos dois anos seguintes, duas novas revoltas militares, uma no Rio Grande do Sul (1923) e outra em São Paulo (1924), mostraram que a presença dos tenentistas no cenário político continuava.

Revolta paulista em 1924.

Após terem suas pretensões reprimidas pelas forças fiéis ao governo, esses dois grupos se juntaram para a formação de uma guerrilha conhecida como Coluna Prestes. Entre 1925 e 1927, esse grupo composto por civis e militares armados entrecortou mais de 24 mil quilômetros sob a liderança de Luís Carlos Prestes.

O movimento tenentista perdeu força após a Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Ele conseguiu dividir o movimento, sendo que importantes nomes do tenentismo passaram a atuar como interventores federais. Outros continuaram no movimento, fazendo parte, principalmente, da Coluna Prestes.

A falta de apelo entre os setores mais populares e as intensas perseguições e cercos promovidos pelo governo acabaram enfraquecendo esse movimento. Luís Carlos Prestes, percebendo a ausência de um conteúdo ideológico mais consistente à causa militar, resolveu aproximar-se das concepções políticas do Partido Comunista do Brasil. Em 1931, o líder da Coluna mudou-se para a União Soviética, voltando para o país somente quatro anos mais tarde.

[Seção dos Alunos]: Um telejornal sobre o Tenentismo

A Seção dos Alunos é um espaço deste blog destinado a exibir alguns dos trabalhos feitos pelos estudantes da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia - MG) na disciplina de História, ministrada pelo professor Rodrigo Francisco Dias.

Nesta postagem, exibimos um vídeo em formato de telejornal que foi produzido pelos alunos do 2° Ano B (2014), que o apresentaram como um trabalho escolar sobre o Tenentismo. Além do vídeo, há também um pequeno texto de autoria dos alunos que complementa o telejornal. Os estudantes Rafaela Santos, Alisson Paulineli, Laís Furlan, Jordana Gomide, Luan Silva, Lauanny Peixoto e Kamilla Carvalho autorizaram a exibição do vídeo e do texto abaixo:



Consequências do Tenentismo: 
O movimento tenentista não conseguiu produzir resultados imediatos na estrutura política do país, já que nenhuma de suas tentativas teve sucesso, mas conseguiu manter viva a revolta contra o poder das oligarquias, representada na Política do Café com Leite. No entanto, o Tenentismo preparou o caminho para a Revolução de 1930, que alterou definitivamente as estruturas de poder no país. O Tenentismo passou a participar da Aliança Liberal em 1930 com exceção de Luís Carlos Prestes. A Aliança Liberal era formada pelos presidentes de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. A Aliança pregava a justiça trabalhista, o voto secreto e o voto feminino. Em 1945, o Tenentismo Anti-Getulista consegue depor o ditador Getúlio Vargas e lança a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes.

[Seção dos Alunos]: Revolta da Vacina inspira paródia!

A música pode ser usada como um interessante recurso didático no Ensino de História. Para além do uso de músicas em sala de aula como documentos históricos a serem interpretados pelos alunos, é muito rico o exercício de estimular os estudantes a criarem canções que tenham como tema uma parte do conteúdo visto durante o ano letivo. Ao elaborarem a letra da música e ao cantarem a mesma, os alunos acabam aprendendo a matéria de uma maneira divertida e mais interessante, uma vez que é preciso pesquisa para escrever a letra. 

Vejam abaixo uma paródia que foi feita por alguns alunos do 2° Ano B (2014). Os estudantes parodiaram a música Show das Poderosas, da cantora Anitta, para falar da Revolta da Vacina:


Letra:

Prepara, que agora é hora 
Da vacinação
Querendo ou não 
Faz parte da missão 
De urbanização
Combate às doenças
Varíola aqui não, injeção!

Prepara 
A vacina foi imposta por Oswaldo Cruz
Escolhido por Rodrigues Alves presidente
O exército era pesado e colocou pressão
Ameaçam coisas do tipo você, vai...
Ter que vacinar agora mesmo
Não importa sexo ou idade
Nada a ver a liberdade 
É progresso da cidade
Rio de Janeiro está crescendo 
Obras se tornaram necessárias
Reconstrói o porto agora
E os cortiços vão embora

Vão embora...
Vão embora...


Nota: Os alunos João Pedro Costa, Débora Morais, Jéssica Fernandes, Júlia Duarte, Mariane Melo e Talyta Paula autorizaram a exibição do vídeo neste espaço do Blog.

domingo, 2 de novembro de 2014

O Brasil Republicano (1889-1930)

A Proclamação da República foi fruto da aliança entre cafeicultores paulistas e exército contra o Império. Ficou decidido que os militares deveriam assumir o governo durante a fase inicial da República, pois havia o medo de um contragolpe monárquico. Assim, entre 1889 e 1894 o Brasil ficou sob o domínio da República da Espada, época dos governos dos marechais Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894).

É preciso dizer que à época da Proclamação da República havia três projetos distintos de governo republicano. O projeto republicano liberal era defendido pelos cafeicultores paulistas e suas propostas eram a descentralização política, a autonomia dos estados, a defesa das liberdades individuais (direitos de locomoção, de propriedade, de livre-expressão), a livre competição econômica, a separação entre os três poderes, a instauração de eleições e a separação entre Igreja e Estado. Tal projeto inspirava-se no sistema norte-americano.

O projeto republicano jacobino, sob a inspiração da I República francesa de Danton e Robespierre, era a bandeira da baixa classe média (pequenos comerciantes e funcionários) e de setores intelectualizados da sociedade brasileira (profissionais liberais como jornalistas, médicos, advogados e professores). Neste projeto estavam em pauta a liberdade pública de reunião e discussão e uma maior participação popular na administração pública. Os defensores mais radicais deste projeto eram altamente xenófobos, principalmente antilusitanos.

Por fim, o projeto republicano positivista inspirado em Auguste Comte era defendido pelo exército. As ideias de “ordem” e “progresso” marcavam presença nesse projeto. Ademais, havia aqui a noção de que a administração da sociedade deveria ser feita de maneira científica e racional. Os militares positivistas defendiam ainda um Estado forte, centralizado e capaz de exercer quase que uma tutela da população.

O GOVERNO PROVISÓRIO DE DEODORO DA FONSECA (1889-1891)

Em seu governo provisório, Deodoro da Fonseca agiu com autoritarismo, apreciador que era da disciplina militar. A marinha, que era basicamente monarquista, não apoiou o seu governo. Houve a extinção da Constituição de 1824, a convocação de eleições para uma assembleia constituinte, o banimento da família imperial, a separação entre Igreja e Estado, além do oferecimento da cidadania brasileira aos estrangeiros residentes no Brasil.

Rui Barbosa foi nomeado ministro da Fazenda e tentou implementar um projeto de desenvolvimento industrial. O aumento na emissão de papel-moeda facilitou o estabelecimento de sociedades anônimas (empresas). Barbosa dificultou a entrada de produtos importados por meio de taxas alfandegárias que visavam proteger a supostamente nascente indústria nacional. Todavia, o aumento na emissão de papel-moeda provocou a inflação (o Encilhamento) e a febre especulativa.

Em 1891 foi aprovada a nova Constituição do país. A carta definia o Brasil como uma república federativa formada por um governo central e por 20 estados com autonomia jurídica, administrativa e fiscal. O texto também regulamentava a divisão dos três poderes: executivo (presidente, governadores e prefeitos), legislativo (bicameral, com Senado e Câmara dos Deputados, além de assembleias estaduais e câmaras de vereadores) e judiciário, todos independentes entre si. O voto era universal, masculino e não-secreto. Mulheres, analfabetos, mendigos, menores de 21 anos, padres e soldados não votavam. Ficou ainda definido que o primeiro presidente após a promulgação da Constituição de 1891 deveria ser eleito pela assembleia constituinte. Deodoro da Fonseca foi eleito o primeiro presidente constitucional da República Brasileira.

O GOVERNO CONSTITUCIONAL DE DEODORO DA FONSECA (1891)

O fracasso da política econômica praticada durante o Governo Provisório de Deodoro da Fonseca fez com que o seu Governo Constitucional começasse já desgastado. Como Presidente e Vice foram eleitos separadamente, Deodoro assumiu o governo junto com Floriano Peixoto, que havia sido o candidato a Vice pela outra chapa (apoiada por cafeicultores, com Prudente de Morais como candidato a presidente).

O constante autoritarismo de Deodoro da Fonseca se chocou com um Congresso formado predominantemente por cafeicultores, fato que levou a uma grave crise política. O presidente chegou a decretar estado de sítio, fechando o Congresso no dia 03 de novembro de 1891. Houve reação da oposição e também por parte do exército com a articulação de Floriano Peixoto. Trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil entraram em greve contra o golpe de Deodoro.

Custódio de Melo, almirante da marinha, apontou os canhões dos navios que estavam na Baía de Guanabara para a cidade do Rio de Janeiro, ameaçando bombardear a cidade e exigindo a renúncia de Deodoro da Fonseca, que acabou cedendo às pressões.

O GOVERNO DE FLORIANO PEIXOTO (1891-1894)

Com a renúncia de Deodoro, Floriano Peixoto foi muito hábil ao conseguir o apoio de republicanos radicais, positivistas e cafeicultores. Floriano era considerado um defensor da ordem e do regime republicano, e seu autoritarismo era tido como moderado. A volta à normalidade veio com a suspensão do estado de sítio. Algumas medidas do novo governo foram: a construção de casas populares e a suspensão do imposto sobre o comércio de carne na cidade do Rio de Janeiro.

A administração de Floriano Peixoto foi marcada pelo paternalismo. As classes populares recebiam concessões como se fossem “presentes”, havendo uma sujeição agradecida dos mais pobres aos mais ricos. Por sua vez, a lealdade política era baseada nas compensações e na troca de favores.

Houve o estímulo à indústria por meio de linhas de crédito do Banco do Brasil e de leis alfandegárias (protecionismo). Contudo, aquela época foi marcada pelos problemas da inflação e da falta de recursos. Tudo isso em um ambiente de forte nacionalismo.

Em abril de 1892 foi publicado o Manifesto dos 13 Generais, no qual oficiais do exército pediram o afastamento de Floriano Peixoto, pois o seu governo seria inconstitucional (como Deodoro da Fonseca havia renunciado ao cargo de presidente aos nove meses de governo, em tal caso a lei definia que deveriam ocorrer eleições e não a subida do vice ao posto de presidente). No Manifesto, os generais exigiram a realização de novas eleições para o posto mais alto do poder executivo no país. Os autores do Manifesto foram afastados e presos.

Neste período também ocorreu um conflito político no Rio Grande do Sul. Naquele estado havia a hegemonia do Partido Republicano Rio-grandense – PRR –, do governador Júlio de Castilhos (apoiador de Floriano Peixoto). Por sua vez, a oposição ao PRR era feita pelo Partido Federalista, liderado por Silveira Martins, que criticava a centralização do poder pelo PRR. O conflito entre os dois grupos foi intensificado quando Floriano Peixoto interferiu na disputa ao apoiar Júlio de Castilhos. A chamada Revolução Federalista ganhou uma dimensão nacional.

Também naquela época ocorreu a Revolta da Armada de 1893. Oficiais da Marinha apontaram os canhões de seus navios para a cidade do Rio de Janeiro e exigiram a renúncia de Floriano Peixoto. É preciso lembrar as tendências monarquistas da marinha e as ambições políticas do almirante Custódio de Melo que contribuíram para tal episódio. Contudo, Floriano resistiu e combateu os revoltosos em um intenso confronto armado.

A Revolução Federalista e a Revolta da Armada se uniram. O líder federalista gaúcho Gumercindo Saraiva partiu para a cidade de Desterro, capital de Santa Catarina, para se encontrar com os destacamentos navais de Custódio de Melo em 1893. No ano seguinte, os rebeldes tomaram a cidade de Curitiba, no Paraná. As tropas florianistas responderam aos ataques e empurraram os federalistas para o sul, conquistando a cidade de Desterro, que a partir de então passou a se chamar Florianópolis. No Rio de Janeiro, os navios de guerra de Floriano Peixoto, comprados principalmente dos EUA, venceram os navios ainda sublevados e forçaram a rendição dos rebeldes no dia 10 de março de 1894.

O GOVERNO DE PRUDENTE DE MORAIS (1894-1898)

Nas eleições presidenciais seguintes venceu o cafeicultor paulista e republicano Prudente de Morais. Com os cafeicultores no poder, o projeto republicano liberal venceu os projetos radical (jacobino) e positivista, que não tinham base social significativa (o país ainda era predominantemente rural, e não havia proletariado urbano, pequena burguesia, classe média e burguesia nacional bem articuladas). A república liberal instalada pelos cafeicultores seria marcada por desigualdades sociais e caracterizada por ser pouco democrática (havia exclusão política e fraude nas eleições).

Prudente de Morais deveria fazer o país voltar à normalidade e, para isso, acabou de vez com a Revolução Federalista em 1895, que já estava bem enfraquecida. Reatou relações com Portugal (que tinham sido rompidas por Floriano Peixoto) e ainda tomou posse da ilha de Trindade. Durante o seu governo houve forte agitação florianista: com a morte de Floriano Peixoto em 1895, por conta de uma crise hepática, cresceram manifestações contra Prudente de Morais, que se afastou da presidência por motivos de saúde entre novembro de 1896 e março de 1897, quando retornou ao exercício do cargo para terminar o seu governo.

Fato marcante do período foi a Guerra de Canudos, entre 1896 e 1897. A população pobre do nordeste vivia em forte tensão social, sobretudo em épocas de seca. Em tal cenário, os sertanejos tinham algumas alternativas, como a emigração (difícil, por conta da precariedade dos meios de transporte e de comunicação), o banditismo social (cangaço) e o misticismo religioso (por meio de um líder messiânico), este último com a promessa da salvação eterna. Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, fazia pregações e dava assistência à população pobre do nordeste. Ele se estabeleceu com seus seguidores na fazenda de Canudos, onde fundaram a aldeia de Belo Monte. Essa comunidade livre foi vista como um “mau exemplo” pelos poderosos da Bahia. Conselheiro criticava a República (vista como um demônio) e apelava pela vinda do salvador, D. Sebastião (rei português falecido no norte da África no século XV). A partir disso, os governo baiano e federal enviaram expedições militares para destruir Canudos, mas muitas fracassaram. Só em outubro de 1897 o arraial foi derrotado.

Com os fracassos sucessivos do exército em Canudos, mesmo com a vitória sobre o arraial de Antônio Conselheiro em 1897, a posição política do exército ficou abalada. Haveria a partir daí um predomínio da oligarquia rural na política brasileira, especialmente dos cafeicultores.

O APOGEU DA ORDEM OLIGÁRQUICA (1898-1914)

Entre 1898 e 1914, o Brasil passou pelos governos de Campos Sales (1898-1902), Rodrigues Alves (1902-1906), Afonso Pena (1906-1909), Nilo Peçanha (1909-1910) e Hermes da Fonseca (1910-1914).

Um primeiro aspecto a ser destacado a respeito do período é a crise do café. O aumento da produção brasileira e mundial do produto provocou a redução do preço do café, produto responsável por boa parte das exportações brasileiras à época. Com isso, houve um forte abalo na economia do país, com crescente dívida externa junto a bancos estrangeiros e inflação (lembrar a emissão excessiva de papel-moeda no início da República).

Em 1898, Campos Sales assinou o funding loan, um acordo com os bancos credores. Por meio dessa medida, ficou acertado um empréstimo para o pagamento dos juros da dívida externa nos 3 anos seguintes. Além disso, foi estabelecido um prazo de 13 anos para que se iniciasse o pagamento da dívida, a penhora da receita da alfândega do Rio de Janeiro e o compromisso por parte do governo brasileiro em combater a inflação e fortalecer a economia do país. O funding loan era uma moratória, ou seja, em troca da suspensão temporária do pagamento da dívida externa, concordava-se com o aumento do seu valor e do tempo (prazo) para pagá-la. O governo cortou gastos (parou obras públicas, por exemplo) e aumentou impostos sobre os produtos. Houve ainda a incineração de papel-moeda para reduzir a inflação, contudo, tal medida gerou recessão econômica (desemprego). Por sua vez, a valorização cambial do mil-réis barateou produtos importados, o que prejudicou a indústria nacional.

Em 1906, ocorreu o Convênio de Taubaté, realizado na cidade situada no Vale do Paraíba. Os cafeicultores decidiram por uma política estatal de valorização do café, na qual os governos de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro comprariam toda a produção cafeeira para regular os estoques do produto e, consequentemente, o preço do café no mercado mundial (é preciso lembrar a lei da oferta e da procura, além do fato de o Brasil ser o maior produtor de café no período). Os primeiros resultados de tal política foram animadores, mas ela estava fadada ao fracasso porque os cafeicultores continuariam produzindo muito café (já tinham um comprador garantido, o governo, que pagava uma alto preço pelo produto) e, se não houvesse demanda suficiente no mercado, o café deveria ser destruído, o que provocava prejuízo (o governo comprava, mas não vendia). Com o aumento no preço do café, outras partes do mundo aumentaram a sua produção, provocando intensa concorrência.

O início do século XX viu também o surto econômico da borracha, no contexto da segunda Revolução Industrial marcado pelas indústrias de automóveis e pneus. A borracha era extraída da seringueira na região amazônica a partir da atuação de trabalhadores que viviam em condições miseráveis (nativos e nordestinos emigrados), enquanto os proprietários de terras é que ganhavam muito dinheiro com o comércio da borracha. Foi neste cenário que ocorreu a Questão do Acre, marcada por intensas disputas que foram seguidas pela compra do Acre pelo Brasil, que adquiriu a região da Bolívia por 2 milhões de libras esterlinas.

Na cidade do Rio de Janeiro ocorreu a Revolta da Vacina (1904), durante o governo de Rodrigues Alves (1902-1906). Em um momento de relativa tranquilidade econômica, proporcionada pelo recente funding loan e pelo surto da borracha, iniciou-se uma reforma do centro do Rio de Janeiro (urbanização) com inspiração em Paris. Populares foram expulsos do centro da cidade (cortiços foram derrubados) em nome do “Progresso”, fato que gerou uma crescente tensão social. O saneamento da cidade foi executado pelo médico Oswaldo Cruz, que estabeleceu a vacinação obrigatória contra a varíola. Tal medida somada à tensão social já existente levou a uma revolta popular que durou uma semana e acabou reprimida pela polícia e pelo exército.

Em 1910 ocorreu a Revolta da Chibata. Nos couraçados Minas Gerais e São Paulo, iniciou-se uma rebelião de marujos contra os castigos físicos violentos e as péssimas condições de alojamento e alimentação. Importante líder do movimento foi o marujo negro João Cândido. Após momentos de tensão, os líderes da revolta foram presos e condenados a trabalhos forçados na Amazônia. Já na região sul ocorreu a Revolta do Contestado (1914), um movimento que se deu na região entre Paraná e Santa Catarina sob o comando de um líder messiânico, José Maria, sendo, portanto, similar ao movimento de Canudos.

Durante o apogeu da ordem oligárquica, foi marcante a atuação dos Partidos Republicanos Paulista e Mineiro – PRP e PRM –, que por vezes estabeleceram uma aliança entre o poder econômico de São Paulo (grande produtor de café) e o poder político de Minas Gerais (maior colégio eleitoral na época). Tal política seria chamada de “café com leite”.

Também foi marcante no período a política dos governadores idealizada por Campos Sales. Tratava-se de uma articulação entre o poder central e as oligarquias regionais. Os governadores apoiavam o presidente em troca de autonomia para os seus estados. Assim, os governadores procuravam eleger uma grande quantidade de deputados e senadores alinhados a esse pacto político. A Comissão Verificadora de Poderes não permitia a diplomação e a posse de deputados de oposição.

As eleições da época eram fraudulentas e violentas, o voto não era secreto, havendo ainda o coronelismo e o clientelismo, que eram sustentados pelo voto de cabresto. A proteção política era dada em troca de obediência. O coronel se articulava com o governador para eleger determinado presidente.

São Paulo e Minas Gerais romperam sua aliança por conta do apoio dos mineiros ao marechal Hermes da Fonseca, que desagradava aos paulistas por ser militar. Com a máquina coronelística, Hermes venceu as eleições e se tornou presidente, governando entre 1910 e 1914. A sua administração foi conservadora e manteve a política de valorização do café. É dessa época a Política das Salvações, intervenções feitas nos estados para trocar determinados grupos oligárquicos por outros.


Os mecanismos políticos das oligarquias ajudavam a manter nos estados, por muito tempo, os mesmos grupos políticos no poder, fato que gerava insatisfação de outros grupos oligárquicos. O próprio predomínio de São Paulo e Minas Gerais na esfera federal provocava a insatisfação de outros estados, como o Rio Grande do Sul. Aos poucos, começava uma crise política que abalaria a chamada “República Velha”.

A CRISE DA PRIMEIRA REPÚBLICA (1914-1930)

Durante os anos finais do século XIX e a partir dos primeiros anos do século XX, o fato de os mesmos grupos oligárquicos ficarem no poder nos estados foi provocando um crescente desgaste no regime republicano então em vigor no Brasil. Assim, surgiram as oligarquias dissidentes, setores economicamente poderosos da sociedade brasileira que queriam mais espaço na política.

Entre 1914 e 1930, o Brasil foi governado por Venceslau Brás (1914-1918), Delfim Moreira (1918-1919), Epitácio Pessoa (1919-1922), Artur Bernardes (1922-1926) e Washington Luís (1926-1930). Aquele foi um período marcado por transformações sociais e econômicas na realidade brasileira. A expansão demográfica foi impulsionada pela imigração europeia, verificou-se ainda um processo de urbanização e de diversificação da economia. O desenvolvimento da infraestrutura se deu com o advento de ferrovias, bancos, telégrafo, jornal, rádio e da expansão da atividade comercial. No âmbito da industrialização, houve a importância do estado de São Paulo, graças aos recursos oriundos do café. Com a I Guerra Mundial as importações foram reduzidas e a produção nacional de têxteis e alimentos industrializados foi estimulada. Tudo isso levou ao desenvolvimento de uma burguesia industrial, do operariado e da classe média, setores urbanos que passariam a se chocar cada vez mais com a ordem oligárquica rural.

A burguesia industrial era formada por cafeicultores, comerciantes e imigrantes europeus enriquecidos. Já no operariado era grande a presença de imigrantes europeus. Os operários viviam sob difíceis condições de vida e de trabalho, enfrentadas por meio da criação de associações e sindicatos (não havia legislação trabalhista), que se manifestavam politicamente por meio da imprensa operária. Os trabalhadores defendiam ideias próximas do anarquismo, e organizaram a Greve Geral de 1917. Como um desdobramento da Revolução Russa de 1917, houve a fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922, além da formação do Bloco Operário e Camponês (que passou a lançar candidatos na política). Por fim, a classe média se via na situação de vítima da inflação e com pouca participação política (lembrar as fraudes nas eleições e a importância ainda grande do voto rural). Foram os jovens oficiais do exército oriundos da classe média que deram início ao movimento do Tenentismo, no qual teve um papel importante a Escola Militar do Realengo (responsável por um ensino técnico e preocupado com o advento de novas armas com a I Guerra Mundial). O exército era uma instituição abandonada pelas oligarquias rurais, havendo uma série de restrições políticas à ascensão na carreira militar. Neste cenário, os tenentistas defendiam a moralização do país, o voto secreto, a centralização política e o ensino obrigatório. Tratava-se de um movimento elitista, pois segundo a concepção dos tenentistas o presidente da república deveria ser alguém saído do referido movimento.

O GOVERNO DE ARTUR BERNARDES (1922-1926)

Nas eleições de 1922, Artur Bernardes (candidato apoiado por São Paulo e Minas Gerais) e Nilo Peçanha (candidato apoiado por Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro) disputaram a presidência da república. Após um processo eleitoral extremamente fraudulento, o mineiro Artur Bernardes saiu vitorioso. Os tenentes tentaram impedir a posse do candidato eleito (o jornal carioca Correio da Manhã tinha divulgado cartas falsas de Bernardes criticando a corrupção e a imoralidade do exército, fato que provocou um mal-estar entre o político mineiro e os jovens militares do exército) por meio da Revolta do Forte de Copacabana, em 1922.

Tal acontecimento foi um primeiro sinal de que o governo de Bernardes seria bastante agitado. Ele reeditou as Salvações de Hermes da Fonseca (intervenções principalmente em Pernambuco e na Bahia), política que gerou conflitos no país. Um exemplo foi a Revolução Gaúcha de 1923, um levante liderado por Assis Brasil (apoiado por Artur Bernardes) contra a reeleição pela quinta vez seguida de Borges de Medeiros (do Partido Republicano Rio-grandense) para o cargo de governador do Estado do Rio Grande do Sul. O conflito só foi solucionado com o Pacto de Pedras Altas, por meio do qual ficou definido que após o fim do mandato de Borges de Medeiros, ficariam proibidas as reeleições para governador naquele estado.

Já a Revolução Paulista de 1924 foi um movimento liderado pelo general Isidoro Dias Lopes. Tratou-se de um movimento de caráter elitista, que rejeitou a participação popular. Reprimidos pelo governo federal, os militares revoltosos se retiraram do estado de São Paulo. No sul, o tenente Luís Carlos Prestes organizou uma coluna e partiu ao encontro dos paulistas rebeldes.  Tenentistas paulistas e gaúchos se encontraram perto de Foz do Iguaçu em 1925, e dali a chamada Coluna Prestes iniciou uma marcha de aproximadamente 25 mil Km por onze estados do Brasil que durou dois anos, só acabando em 1927, quando Prestes partiu com seus companheiros para a Bolívia. Foi nessa época, que Prestes ficou conhecido como o “cavaleiro da esperança”.

Em meio a tais agitações, Artur Bernardes apelou para o autoritarismo, decretando o estado de sítio, restringindo a liberdade de imprensa e reformando a Constituição em 1926, fortalecendo o poder presidencial.

Do ponto de vista cultural, importante acontecimento da época foi a Semana de Arte Moderna de 1922. O evento realizado no Teatro Municipal de São Paulo foi marcado pela presença dos ideais estéticos e políticos do modernismo, com novas formas de expressão como o futurismo, por exemplo. Importantes personagens dessa época foram artistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Tarsila do Amaral, Emiliano Di Cavalcanti e Heitor Villa-Lobos. O chamado “movimento antropofágico” e o “verde-amarelismo” marcaram presença.

O GOVERNO DE WASHINGTON LUÍS (1926-1930)

Washington Luís foi um carioca que desenvolveu sua carreira política em São Paulo, tendo passado pelos governos da capital paulista e do Estado de São Paulo. Era um defensor da racionalização administrativa, do gerenciamento técnico-científico e do estímulo à historiografia, à museologia, às ciências sociais, à realização de estatísticas e de censos, ao esporte e à cultura. De fato, foi ele quem liberou o Teatro Municipal para a realização da Semana de Arte Moderna.

Como presidente da república, Washington Luís decretou o fim do estado de sítio, fechou prisões destinadas a presos políticos, restabeleceu e depois voltou a acabar com a liberdade de imprensa (a Lei Celerada de 1929 visava o combate a comunistas). Fomentou a construção de rodovias e quis reformar o sistema financeiro do país, mas a Crise de 1929 atrapalhou seus planos, com a queda nos preços do café. Com a grave crise, Washington Luís se recusou a ajudar os cafeicultores, o que desgastou sua imagem junto àquele grupo.

Washington Luís indicou o nome de Júlio Prestes, político paulista, como candidato a presidente da república nas eleições de 1930, o que desagradou as oligarquias mineiras. Formou-se então a Aliança Liberal, que fez oposição à candidatura de Júlio Prestes. Os mineiros pediram apoio aos gaúchos, oferecendo-lhes a vaga de candidato a presidente, que acabou sendo destinada a Getúlio Vargas. Os mineiros ofereceram ainda a vaga de candidato a vice para a Paraíba, que ficou com o político João Pessoa.

A Aliança Liberal atraiu o eleitorado urbano, setores da burguesia, do proletariado, das camadas médias e dos tenentes. O Partido Democrático, fundado em 1926, legenda que defendia o voto secreto, também apoiou a Aliança. A Aliança Liberal também buscou o apoio do líder tenentista Luís Carlos Prestes à candidatura de Getúlio Vargas, contudo, Prestes já estava aderindo ao comunismo por meio do contato com comunistas argentinos e uruguaios, e acabou repudiando a candidatura de Vargas em um manifesto datado de maio de 1930, no qual explicou a sua adesão ao marxismo.

As eleições foram vencidas por Júlio Prestes e, inicialmente, as oligarquias mineira, gaúcha e paraibana aceitaram o resultado. Todavia, jovens políticos mineiros e gaúchos, além dos tenentistas (agora sem Luís Carlos Prestes) começaram a falar em revolução. No dia 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado na Paraíba, o que gerou grande comoção popular. O político mineiro Antônio Carlos teria dito: “Façamos a revolução antes que o povo a faça”. Desenrolou-se então aquilo que ficaria conhecido como Revolução de 1930, quando a velha-guarda e a jovem-guarda das oligarquias dissidentes uniram-se aos tenentes. Com intensos combates ocorrendo no país, Washington Luís foi deposto antes da posse de Júlio Prestes. Getúlio Vargas foi empossado como presidente da república.

O novo governo não era formado, como os anteriores, por uma única categoria socioeconômica (como os escravocratas do Império ou os cafeicultores dos primeiros anos da República), mas por grupos diferentes: as oligarquias dissidentes, os setores urbanos e os tenentistas. Assim, Getúlio Vargas deveria encontrar uma forma de manter tal aliança em seu governo.