Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Alguns relatos de cronistas das Grandes Navegações

Alguns dos europeus que se aventuravam pelos mares durante as Grandes Navegações dos séculos XV e XVI costumavam registrar os fatos que aconteciam durante as viagens em diários e cartas. Esses materiais são documentos importantes para o estudo daquelas navegações, pois nos revelam, entre outras coisas, a visão de mundo daqueles homens, bem como nos oferecem informações sobre as terras e as populações que foram encontradas na América.

O próprio Cristovão Colombo registrou em seus diários a sua versão da viagem financiada por Fernando e Isabel – os “reis católicos” da Espanha – que o trouxe ao continente americano. O relato de Colombo é rico em descrições da viagem e da própria chegada à América – embora o navegador genovês pensasse ter chegado ao oriente –, apresentando ainda detalhes da fauna e da flora locais. Colombo escreveu também sobre as populações indígenas que encontrou e como foram os primeiros contatos com aquelas pessoas. Chamaram-lhe a atenção o fato de aqueles homens e mulheres andarem nus, terem os corpos “bonitos”, serem “amigáveis” e serem dispostos a trocar objetos com os europeus. Ainda segundo a descrição feita por Colombo, os índios pareciam ser de fácil conversão à fé católica e aparentavam ser “bons serviçais”. Ademais, o genovês se admirou com o fato de não existirem nem índios de pele negra nem índios de pele branca, visto que eles eram da “cor dos canários”. Em seus diários, é visível o interesse do navegador por metais preciosos, em especial pelo ouro. Colombo registrou ainda que mandou capturar alguns índios para que fossem enviados à Espanha e aprendessem a língua dos colonizadores. O navegador também afirmou em algumas passagens que seria aparentemente fácil subjugar aqueles povos, demonstrando ter a ideia de tomar e garantir a posse daquele território (COLOMBO, 1991).

O texto escrito por Cristovão Colombo não apenas descreve os detalhes da aventura por ele vivida, mas é também um documento que nos permite vislumbrar os interesses envolvidos na empresa das navegações, a saber, a busca por riquezas e o desejo de levar a fé católica a outros lugares do mundo. Assim, ao destacar a facilidade com a qual seria possível dominar os povos encontrados, o que Colombo pretendia era encorajar mais viagens, e, consequentemente, a própria empresa colonizadora.

Por sua vez, a expedição que trouxe Pedro Álvares Cabral ao litoral do território que daria origem ao Brasil contou com a presença de Pero Vaz de Caminha (Porto?, 1450 – Calecute, 1500), o escrivão da armada que registrou os detalhes desta viagem em uma carta. Segundo Antonio Carlos Olivieri e Marco Antonio Villa, a “Carta do achamento” do Brasil escrita por Caminha foi redigida “entre os dias 26 de abril e 1° de maio de 1500” e tinha como objetivo “informar ao rei de Portugal, dom Manuel I, o descobrimento e apresentar-lhe o que aí se encontrou”. Ainda de acordo com os pesquisadores, a carta tem um “estilo claro” e a “objetividade que convém a um relatório”. Por sua vez, os fatos são apresentados em “ordem cronológica”, e revelam o que aconteceu entre os dias 09/03/1500, data do começo da viagem, e 02/05/1500, quando a expedição deixou o Brasil (OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 17).

É curioso perceber que Caminha se diz, de maneira humilde no início da carta, um ignorante, e que não registrará nada mais do que aquilo que viu e que lhe pareceu (CAMINHA, 2006, p. 19), tentando assim se mostrar o mais objetivo possível em seu relato. A terra foi avistada no dia 21 de abril por meio de um “grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o monte Pascoal e à terra – a Terra de Vera Cruz” (CAMINHA, 2006, p. 20).

Já sobre os primeiros contatos com os índios, Caminha escreveu: “Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas. Vinham todos rijamente sobre o batel; e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles pousaram” (CAMINHA, 2006, p. 20). O escrivão registrou ainda a barreira linguística que dificultava a comunicação com aquelas pessoas – não foi possível “deles haver fala” –, mas destaca também que o primeiro contato foi pacífico e que houve entendimento entre os dois grupos por meio da relação de troca de objetos (Cf. CAMINHA, 2006, p. 20-21).

Em seguida, Caminha relatou um momento de confraternização entre índios e europeus: “Diogo Dias [...] levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles [os índios] a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da sua gaita” (CAMINHA, 2006, p. 21). Todavia, em outra passagem, o escrivão afirmou que os indígenas nem sempre ficavam tão próximos dos brancos: “Bastará dizer-vos que até aqui, como quer que eles um pouco se amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam [...] e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar” (CAMINHA, 2006, p. 22). Assim, os índios foram vistos por Caminha como seres que deviam ser tratados com um certo cuidado, afinal, era preciso garantir que eles ficassem “mansos” em relação à presença dos europeus.

A impressão que os índios causaram em Caminha foi boa: “os corpos seus são tão limpos, tão gordos e formosos, que não pode mais ser”, “Ali vieram então muitos, mas não tantos como as outras vezes. Já muito poucos traziam arcos. Estiveram assim um pouco afastados de nós; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco. Abraçavam-nos e folgavam” (CAMINHA, 2006, p. 22).

Em outra passagem do texto, Caminha falou da tentativa de cristianização dos índios: “E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção” (CAMINHA, 2006, p. 23).

O escrivão fez questão de complementar ainda: “E, segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tomados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram ambos. Entre todos estes que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho a redor de si. Porém, ao assentar, não fazia grande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal, que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha. Ora veja Vossa Alteza se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação”. (CAMINHA, 2006, p. 24-25).

Assim, de maneira parecida ao que fizera Colombo, Pero Vaz de Caminha salientou em seu relato a possibilidade de converter os índios à fé católica, utilizando para isso descrições do comportamento aparentemente dócil daquelas pessoas. Cabe ainda dizer que em outras passagens da carta, Caminha se mostra encantado com os recursos naturais do lugar e demonstra uma constante preocupação em encontrar metais preciosos.

O frade franciscano francês André Thevet (Angoulême, 1502 – Paris, 1590) viajou com Villegaignon para o Brasil em 1555 com o intuito de estabelecer aqui uma colônia francesa batizada de França Antártica. Permaneceu em solo americano de novembro de 1555 a janeiro de 1556. Thevet assim descreveu os índios do lugar: “esta terra foi e é ainda hoje habitada por gente prodigiosamente estranha e selvagem, sem fé, sem lei, sem religião, sem civilidade nenhuma, que vive como os animais irracionais, do modo como a natureza a fez, comendo raízes, andando sempre nua (tanto homens quanto mulheres), e isso talvez até que, convivendo com os cristãos, aos poucos se despoje dessa brutalidade, passando a vestir-se de modo mais civilizado e humano. No que devemos efetivamente louvar o Criador, que nos esclareceu, não permitindo que fôssemos assim brutais, como estes pobres americanos” (THEVET, 2006, p. 60).

Como se vê, Thevet descreveu os índios julgando-os a partir dos padrões europeus de comportamento. Desse modo, as pessoas do continente americano foram vistas como inferiores em relação ao homem civilizado vindo da Europa, portador este da razão, da verdadeira fé e dos bons modos. O olhar de Thevet, portanto, é marcado por uma perspectiva etnocêntrica.

Thevet registrou ainda uma crença da população indígena: “os nossos selvagens fazem menção a um grande Senhor, que na língua deles se chama Tupã e que, morando no céu, faz chover e trovejar. Mas não têm eles maneira nem hora de orar a esse deus ou de cultuá-lo, assim como tampouco há lugar próprio para isso” (THEVET, 2006, p. 61). Mais uma vez, o etnocentrismo se manifesta, pois Thevet avalia a crença indígena a partir dos modelos europeus de religiosidade, com seus templos e rituais.

Thevet detalhou ainda as relações entre indígenas e europeus: “Assim que esta terra foi descoberta, [...] esses selvagens, espantados ao verem as feições e os modos dos cristãos (que nunca antes haviam visto), tomaram-nos por profetas e os homenagearam como se fossem deuses. E essa canalha assim fez até que, percebendo estarem eles sujeitos a doenças, morte e paixões semelhantes às suas, começou a desprezá-los e a tratá-los pior que de costume, como ocorreu com todos os que depois chegaram, espanhóis e portugueses. De modo que, se esses selvagens ficarem irritados, não custarão a matar um cristão e a comê-lo, como fazem com seus inimigos. Mas isso ocorre em alguns lugares, especialmente entre os canibais, que não vivem de outra coisa, como fazemos aqui com bois e carneiros” (THEVET, 2006, p. 61).

Temos aqui, em verdade, uma diferença importante em relação aos relatos anteriormente citados e analisados. Em verdade, Thevet aponta para a ocorrência de conflitos entre indígenas e europeus, destacando com sua perspectiva etnocêntrica a crueldade da antropofagia praticada pelos indígenas. Contudo, é preciso esclarecer que o hábito de comer carne humana, uma prática de algumas populações indígenas que habitavam o território que viria a ser o Brasil, não era simplesmente uma opção alimentar, como parece pensar Thevet, mas sim um ritual místico-religioso.

Outro francês, Jean de Léry (La Margelle, 1534 – Berna, 1611), um homem de família burguesa e calvinista que, quando jovem, começou a estudar teologia, também viajou para o Brasil em 1556 para se estabelecer na colônia francesa fundada por Villegaignon. Retornou para a Europa em 1558, fixando-se em Genebra, onde concluiu os estudos em teologia e tornou-se ministro protestante. A sua narrativa sobre o período que passou no Brasil, quando conviveu com os índios, foi escrita dezoito anos depois do período que passou nestas terras e foi publicada em 1578, fazendo sucesso junto ao público leitor europeu e sendo traduzida para o holandês, o alemão e o latim (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 67-68).

Ao descrever os índios, Léry destacou como se fazia a justiça entre aquelas populações onde, segundo o seu relato, tudo era baseado no princípio de “vida por vida, olho por olho, dente por dente”. Contudo, mesmo narrando algumas brigas e alguns conflitos que ocorriam entre os índios, o francês salientou que, na maior parte do tempo, os índios se davam bem entre si e viviam em paz uns com os outros (Cf. LÉRY, 2006, p. 69). Em seu relato, Léry aponta para o fato de os índios não se fixarem em um único local, mas viverem mudando de região. É comum no texto do francês a opinião de que certos costumes indígenas são melhores que os dos europeus, como é o caso do hábito de dormir em redes: “pergunto a quem as experimentou se de fato não é melhor nelas [nas redes] dormir, principalmente no verão, do que em nossas camas comuns” (LÉRY, 2006, p. 71). Sobre as mulheres indígenas, Léry descreveu os trabalhos domésticos feitos por elas. Já sobre a forma como índios recebem as pessoas, o francês escreveu: “nossos tupinambás recebem com grande humanidade os estrangeiros amigos que os vão visitar, ainda que os franceses e outros daqui que não entendam a língua deles se sintam no começo admirados e assombrados” (LÉRY, 2006, p. 72). Sobre a sua primeira visita a uma aldeia, Léry registrou: “senti-me aturdido com aquela gritaria e correria pela aldeia com meus equipamentos [um pouco antes, Léry contara que os índios haviam pegado seu chapéu, sua espada, seu cinto, e seu casaco], o que não só me fazia pensar que tinha perdido tudo como também me deixava sem saber onde estava” (LÉRY, 2006, p. 73). Contudo, Léry esclarece em seguida que fazia parte dos modos indígenas brincar com as coisas alheias por um tempo, mas que depois devolviam tudo ao dono (Cf. LÉRY, 2006, p. 73).

No que diz respeito à antropofagia, temos que a presença deste hábito entre os índios amedrontou Léry: “E estava eu tão cansado, querendo apenas repousar, que, depois de comer um pouco de farinha de raízes e de outros alimentos que nos haviam oferecido, estendi-me e fiquei deitado na rede na qual me havia sentado. Mas não dormi, porque, além do barulho que os selvagens fizeram a noite toda em meus ouvidos com aquelas danças e assobios, a comerem o prisioneiro, um deles, trazendo na mão um dos pés deste, cozido e tostado, aproximou-se de mim e perguntou-me (como soube depois, porque então não entendi) se queria um pedaço; comportamento este que provocou em mim tanto pavor que nem cabe perguntar se perdi toda a vontade de dormir. Pois como eu acreditasse que aqueles sinais e aquela exibição da carne humana, que ele devorava, eram uma ameaça, e que ele estivesse dizendo e dando a entender que em breve eu estaria com aquele aspecto, e como uma dúvida puxa outra, logo desconfiei que o intérprete, traindo-me deliberadamente, me havia abandonado, deixando-me nas mãos daqueles bárbaros. E se eu tivesse visto alguma abertura para sair e fugir dali, não teria hesitado. Mas vendo-me cercado de todos os lados por aquela gente cujas intenções ignorava (pois, como se saberá, eles não pensavam de modo algum em fazer-me mal), acreditava eu firmemente e previa mesmo que seria devorado, o que me fez invocar Deus em meu coração durante toda aquela noite” (LÉRY, 2006, p. 74).

Apesar do temor descrito neste episódio, Léry assume uma postura interessante, ao tentar valorizar certos aspectos da cultura indígena. Ao falar de como os índios recebiam os seus visitantes, salientando que aqueles povos ofereciam comida, bebida e lugar onde dormir a quem chegasse amigavelmente às suas aldeias, Léry é capaz de afirmar o seguinte: “tendo eu vivido com eles, confiaria mais neles e de fato estava mais seguro em meio àquele povo que chamamos selvagem do que me sinto hoje em alguns lugares de nossa França, com franceses desleais e degenerados: falo daqueles que assim são, pois quanto à gente de bem, de que graças a Deus o reino ainda não está desprovido, muito me entristeceria denegrir sua honra” (LÉRY, 2006, p. 79).

Como o nosso leitor pode observar, Léry procurou compreender o comportamento dos índios registrando certo estranhamento por um lado, mas em contrapartida também chamando a atenção para aspectos positivos daquelas populações, revelando que seus preconceitos em relação a aquelas pessoas caíam por terra quando os conhecia melhor. Assim, a postura de Léry é emblemática quando se pensa nas formas como os homens lidam com as diferenças culturais ao longo do tempo. Pode-se dizer que Léry revelou possuir um certo senso de relatividade dos costumes – o que é estranho para um grupo, pode não ser para outro – e também uma simpatia para com os indígenas, o que lhe permitiu melhor compreendê-los.   

Outro relato interessante que foi produzido no contexto das grandes navegações é o de Hans Staden, homem de quem poucos dados biográficos existem. Sabe-se que viveu no século XVI, tendo nascido em Hessen, na Alemanha. Staden viajou duas vezes ao Brasil, na primeira foi à região de Pernambuco em 1547, de onde retornou a Portugal no ano seguinte, e, na segunda, em 1550, estabeleceu-se na região de São Vicente. Entre meados de janeiro e 31 de novembro de 1553, Staden foi prisioneiro dos tupinambás, em um período no qual era frequentemente ameaçado de morte e de ser devorado em um ritual da tribo. O seu relato sobre suas aventuras foi publicado pela primeira vez em 1557, em Hessen, e foi posteriormente traduzido para o flamengo, o holandês, o latim e o francês (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 83).

Sobre o seu aprisionamento, Staden escreveu: “Quando entrei [em uma casa dos índios], correram as mulheres ao meu encontro e me deram bofetadas, arrancando a minha barba e falando em sua língua: ‘Che anama pipike aé’, o que quer dizer: ‘Vingo em ti o golpe que matou o meu amigo, o qual foi morto por aqueles entre os quais tu estiveste’. Conduziram-me, depois, para dentro de casa, onde fui obrigado a me deitar em uma rede. Voltaram as mulheres e continuaram a me bater e maltratar, ameaçando de me devorar” (STADEN, 2006, p. 85).

Vale destacar que durante o período em que passou com os índios, Hans Staden aprendeu muito sobre a vida da tribo. No que diz respeito ao casamento, por exemplo, Staden registrou em seu relato que a maioria dos índios do sexo masculino tinha apenas uma mulher, mas os mais importantes do grupo tinham mais de uma, podendo chegar a 13 ou 14 esposas, que em geral se davam bem entre si (Cf. STADEN, 2006, p. 86).

Na narrativa de Hans Staden o que chama a atenção é a descrição dos modos como os indígenas tratavam os seus inimigos. Depois de aprisionado, o inimigo era trazido para a casa de algum indígena, onde recebia bofetadas de mulheres e crianças, era enfeitado com penas pardas, tinha as sobrancelhas cortadas e era amarrado para que não fugisse. Uma mulher o guardava e tinha relações com ele. Se ela concebesse um filho, a criança seria educada até ficar grande, e, quando fosse a vontade da tribo, ela seria morta e devorada. Quanto ao prisioneiro, era tratado por algum tempo com boa comida, porém, quando chegasse o dia do sacrifício, ele era amarrado com uma corda comprida. Selvagens de outras tribos eram convidados, e havia danças ao redor do prisioneiro, que era conduzido pela “praça” da aldeia. Amarrado pelo meio da corda, o prisioneiro era impedido de fugir por dois grupos de pessoas que o seguravam, cada um, por uma das pontas da corda. Um dos integrantes da tribo matava o prisioneiro com um golpe de bastão na nuca. Então, o corpo do inimigo era levado ao fogo e cortado. Uma sopa era feita com os intestinos e consumida pelas mulheres e crianças, que também comiam a carne da cabeça, os miolos e a língua. (Cf. STADEN, 2006, p. 87-88).

Rico em detalhes, o relato de Hans Staden nos permite vislumbrar os perigos aos quais podia-se estar submetido em solo americano. Em verdade, a aventura das grandes navegações dos séculos XV e XVI era repleta de riscos aos europeus que se lançavam à conquista ultramarina. 

Para finalizar, mencionemos um relato do início do século XVI cuja autoria ainda não foi determinada com precisão. Trata-se da conhecida narrativa do “Piloto Anônimo” acerca da expedição de Pedro Álvares Cabral. Ao contrário do que dissera Pero Vaz de Caminha, o texto do Piloto Anônimo afirma que houve vista de terra no dia 24 de abril (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 30). O texto apresenta a sua versão da história descrevendo os aspectos físicos dos índios – “gente parda, bem disposta, com cabelos compridos; andavam todos nus sem vergonha alguma, e cada um deles trazia seu arco com frechas” –, a barreira linguística nos primeiros contatos – “não havia ninguém na armada que entendesse a sua linguagem”, os índios “não se entendiam por falas, nem mesmo por acenos” – e o comportamento dos indígenas durante a realização de uma missa – eles “bailavam e tangiam nos seus instrumentos”. O texto ainda apresenta informações a respeito da fauna e da flora locais, tecendo elogios às riquezas naturais do lugar – os papagaios, o inhame, as árvores, a abundância de água, etc. (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 30-31).   

Em seguida, o texto do Piloto Anônimo apresenta mais uma informação interessante: “Nos dias que aqui estivemos, determinou Pedro Álvares Cabral fazer saber ao nosso Sereníssimo Rei o descobrimento desta terra, e deixar nela dois homens condenados à morte, que trazíamos na armada para este efeito; e assim despachou um navio que vinha em nossa conserva carregado de mantimentos, além dos doze sobreditos, o qual trouxe a el-rei as cartas em que se continha tudo quanto tínhamos visto e descoberto. Despachado o navio, saiu o capitão em terra, mandou fazer uma cruz de madeira muito grande e a plantou na praia, deixando, como já disse, os dois degredados neste mesmo lugar, os quais começaram a chorar, e foram animados pelos naturais do país, que mostravam ter piedade deles” (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 32).

O relato então descreve a partida da frota de Cabral daquela região e a posterior viagem em direção ao oriente, em uma narrativa que é marcada pelas descrições dos perigos aos quais aqueles homens estavam submetidos: “o mar embraveceu-se por maneira tal que parecia levantar-nos ao céu, até que o vento se mudou de repente, e posto que a tempestade ainda era tão forte que não nos atrevíamos a largar as velas, ainda assim, navegando sem elas, perdemo-nos uns dos outros, de modo que a capitaina com duas outras naus tomaram um rumo, outra chamada ‘El-Rei’ com mais duas tomaram outro, e as que restavam ainda outro, e assim passamos esta tempestade vinte dias consecutivos sempre em árvore seca, até que aos 16 do mês de junho houvemos vista da terra da Arábia, onde surgimos, e chegados à costa pudemos fazer uma boa pescaria” (Cf. OLIVIERI; VILLA, 2006, p. 33).

Naquele tempo, lançar-se ao mar sem o conhecimento e as tecnologias que temos hoje era uma aventura cheia de riscos, e muitos morreram durante as grandes navegações. Posto isso, é preciso dizer que os contatos entre os navegadores europeus e os povos que viviam no continente americano se deram a partir de uma conjuntura muito específica. Encontrando os mais diferentes povos em solo americano, portadores de costumes até então desconhecidos na Europa, os europeus que aqui chegaram lançaram muitas vezes um olhar etnocêntrico sobre as populações indígenas.

Ver o outro como inferior ajudava a justificar a conquista do território, a dominação, a cristianização e, não tardou a demorar, também o extermínio dos índios. O homem europeu, ao se considerar superior, sentia-se no direito de explorar o continente americano. No contato entre as diferentes culturas, os navegadores vindos da Europa não puderam deixar de estranhar e condenar certos hábitos indígenas. Por outro lado, a postura de um homem como Jean de Léry, como se viu, nos mostra que havia quem estivesse disposto a entender melhor o modo de vida das pessoas que habitavam a América antes da chegada dos europeus a partir do final do século XV.

O que se pode concluir a partir dos relatos de alguns cronistas das grandes navegações aqui brevemente analisados é que a relação com o “outro”, com aquele que nos é diferente, é quase sempre marcada por dificuldades e pelo estranhamento. Contudo, compreender melhor o outro e sua forma de ver o mundo é um exercício importante, ainda mais quando se vive em um mundo que ainda apresenta tantos preconceitos e formas de intolerância como é o nosso mundo de hoje.

Desse ponto de vista, estudar como foram os contatos entre os europeus e os indígenas, bem como refletir acerca da maneira pela qual os homens do Velho Mundo lidavam com as diferenças no século XVI, pode nos auxiliar a pensar nas formas como nós, hoje em dia, lidamos com as diferenças culturais. Nessa perspectiva, cronistas como Colombo, Caminha, Thevet, Léry e Staden ainda têm muito a nos ensinar.


 Bibliografia

CAMINHA, Pero Vaz de. Carta do achamento do Brasil. In: OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 19-25.

COLOMBO, Cristovão. Diários da descoberta da América: as quatro viagens e o testamento. Porto Alegre: L&PM, 1991.

LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. In: OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 69-81.

OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006.

STADEN, Hans. Viagem ao Brasil. In: OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 85-89.


THEVET, André. As singularidades da França Antártica. In: OLIVIERI, Antonio Carlos; VILLA, Marco Antonio (Orgs.). Cronistas do Descobrimento. 3. ed. São Paulo: Ática, 2006, p. 59-65.

domingo, 24 de agosto de 2014

De Camões a Drummond: a era moderna sob o signo do expansionismo

Texto escrito por Francisco Mateus Conceição [*]

“O mundo está quase todo parcelado, e o que dele resta está sendo dividido, conquistado, colonizado. Pense nas estrelas que vemos à noite, esses vastos mundos que jamais poderemos atingir. Eu anexaria os planetas, se pudesse. Penso sempre nisso. Entristece-me vê-los tão claramente, e ao mesmo tempo tão distantes.”
(Cecil Rhodes, empresário britânico, In: HUBERMAN, 1981: 270)

A questão ambiental perpassa toda a literatura brasileira, sob diferentes enfoques. De um lado, as transformações constantes provocadas no planeta a partir da Era Moderna fazem com que a literatura busque na natureza respostas para a sensação de perda que essas transformações provocam. De outro, a necessidade de se afirmar como país e as dificuldades para tanto fazem da natureza ora mãe, ora madrasta. Sob a perspectiva dos séculos XX e XXI, podemos afirmar que a literatura tem espelhado o problema da instrumentalização, em níveis cada vez mais acentuados, dos recursos que o planeta oferece. Tal percepção pode ser lida em “O homem: as viagens”, de Carlos Drummond de Andrade, poesia que, ao tratar da angústia do homem contemporâneo frente ao seu espaço/tempo, o faz sob a perspectiva da Era Moderna como um todo, expondo a repetitiva frustração de um modelo regido por princípios como expansão, apropriação e controle. Para tanto, o poema, ao mesmo tempo em que projeta, ironicamente, o futuro da trajetória humana, retrocede ao passado pela via intertextual, retomando Camões e, por extensão, as navegações portuguesas, o “achamento” do Brasil e as origens da modernidade. Através desse procedimento, Drummond faz dos fundamentos da modernidade o alvo central de sua crítica. Para operacionalizar a análise, faremos a citação integral do poema:

O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua

Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.

Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?

Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.

O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.  (ANDRADE, 1978: 448-450)

Publicado em 1973, no livro "As impurezas do branco", esse poema remete a dois componentes históricos imediatos, os quais são estratégicos para a interpretação do mesmo: a viagem à Lua, em 1969, e o desencadear do movimento ecológico. Este último, conforme Marcos Reigotta (1999: 34-35), tem como marco inicial ano de 1968, através de protestos em diversos países. Neste mesmo ano, o Clube de Roma coloca o problema ecológico como pauta central. E a seguir, em 1972, é realizada a Conferência Mundial do Meio Ambiente Humano, conhecida como Conferência de Estocolmo. Na poesia em análise, esses dois fatos parecem atuar como desencadeadores do texto, sendo que o primeiro – a viagem à Lua – comparece de maneira explícita, enquanto o segundo atua como possibilidade interpretativa.
Por tematizar a “viagem”, o referido poema começa com uma alusão direta a Camões. Trata-se do primeiro verso “O homem, bicho da Terra tão pequeno”, que repete as últimas palavras do primeiro canto de "Os Lusíadas". Citemos a estrofe final deste:

No mar tanta tormenta e tanto dano
Tantas vezes a morte apercebida
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade aborrecida
Onde pode acolher-se um fraco humano
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno? (CAMÕES, 1972: 35)

Observe-se a relação explícita entre “Contra um bicho da terra tão pequeno?” (Camões) e “O homem, bicho da Terra tão pequeno” (Drummond). Para além dessa relação literal, podemos observar que o 4º verso da estrofe camoniana (“Tanta necessidade aborrecida”) atua como mote para a descrição do desencanto do homem drummondiano frente a todas as suas conquistas. Este homem “chateia-se na terra” (1ª estrofe, 2º verso), “chateia-se na Lua” (2ª estrofe, 2º verso), julga Marte um “lugar quadrado” (4ª estrofe, 1º verso), “idem” com relação a Vênus (5ª estrofe, versos finais), irá “repetir a fossa” em Júpiter (6ª estrofe, 3º verso) e, ao chegar, finalmente, ao Sol, exclamará “mas que chato é o Sol” (7ª estrofe, 8º verso). Ainda, para sustentar o vínculo entre os dois autores, salientemos que, no final da terceira estrofe do texto brasileiro, a expressão “com engenho e arte” remete ao final da 2ª estrofe de Camões, “Cantando espalharei por toda a parte / se a tanto me ajudar o engenho e arte”. Neste caso, até a parceria rítmica (parte/arte) é mantida, tendo em vista o 2º verso da 4ª estrofe de Drummond, “Vamos a outra parte?”.[†]
Qual é, porém, a mediação que há entre um texto e outro? Consideremos, inicialmente, o ponto do texto em análise: “O homem, bicho da Terra, tão pequeno”. Em primeiro lugar, cabe observar o detalhe da maiúscula em “Terra” (Drummond) a diferenciar-se da designação minúscula feita por Camões. Note-se que, em outros momentos do texto, quando se refere a planeta, o autor português faz uso da maiúscula. Ocorre que, ao adjetivar o homem como um bicho da terra, Camões não o faz no sentido planetário do termo. A expressão guarda, ainda, uma conotação bíblica, remetendo ao barro original, sendo também um designativo da infinita pequeneza e limitação humanas. Além disso, o espaço restrito da natureza humana opõe-se ao céu e ao universo, mas também se opõe ao mar, para onde se lança através das longas navegações. A Terra (planeta) ainda não fora conquistada, não sendo o espaço familiar do ser humano, como no tempo de Drummond. O tema camoniano inscreve-se nesse processo de conquista e a pequenez humana remete ao quanto de errante, equivocado e injusto esse processo representou.
Para o homem camoniano, a geografia desconhecida assusta. E a grandeza do universo assume dimensão divina, tendo, a conquista desse universo, o caráter de posse humana sobre o espaço mitológico. De outro lado, o que se anuncia como humanização do espaço atua, em realidade, como a europeização do mesmo. A empresa portuguesa, encimada pela cruz cristã, viabiliza-se, do ponto de vista do conhecimento, através da ciência da escola de Sagres, a qual, por sua vez, está articulada com o desenvolvimento científico-tecnológico que povoa a Europa nesse momento. Inaugura-se a Era Moderna, durante a qual o planeta rapidamente se tornará terra-a-terra, caravelas e homens cruzarão continentes, povos serão dizimados e outros transmigrados. Impérios sucederão a impérios, e a natureza será cada vez mais estudada, conhecida, dominada e transformada para dar sustentação a esse modelo de sociedade. Cabe considerar, neste sentido, que o que move essa empresa não é somente sede de conhecimento ou aventura, o lado belo das navegações, mas, principalmente, a voracidade por expansão das economias capitalistas nascentes. Retomemos Leo Huberman:

"As descobertas iniciaram um período de expansão sem par, em toda a vida econômica da Europa ocidental. A expansão dos mercados constituiu sempre um dos incentivos mais fortes à atividade econômica. A expansão dos mercados, nessa época, foi maior do que nunca. Novas regiões com que comerciar, novos mercados para os produtos de todos os países, novas mercadorias a trazer de volta – tudo apresentava um caráter de contaminação e estímulo e anunciou um período de intensa atividade comercial, de descobertas posteriores, exploração e expansão." (HUBERMAN, 1981: 99)

Povos, territórios, ciência, tudo é vertido pela ótica empresarial. E este modelo, em que pese as suas múltiplas metamorfoses, mantém-se fundamentalmente o mesmo até hoje, possibilitando dizermos que a degradação do planeta está diretamente ligada ao desenvolvimento desse paradigma moderno, que faz da Terra “um lugar de muita miséria e pouca diversão”. A perpetuação do modelo está expressa na poesia de Drummond, que recupera, da épica camoniana, o ritual da conquista de territórios e o transpõe para a narrativa de antecipação em que se constitui sua poesia. Assim, os passos do homem contemporâneo são ainda os mesmos do homem do século XVI. Apesar, é claro, “de termos feito tudo, tudo o que fizemos...”, expressão que furtamos a Belchior.  Tal identidade aparece evocada no próprio título, pela referência às viagens, com a diferença que, em Drummond, o encanto ilusório das mesmas é exposto ao olhar corrosivo e impiedoso do eu-poético. Da voz deste, podemos interpretar que o homem viaja em busca de sua completude, mas que, enganosamente, foge de si próprio. O poema inicia com a definição do homem como um “bicho da Terra”, o que implica dizer que esta é constituidora de sua identidade. Ao mesmo tempo, essa expressão, por estar colocada no 1º verso, parece ser desencadeadora da viagem que se relatará no restante do poema. Lendo assim, podemos afirmar que há uma relação de causalidade entre o primeiro verso e o segundo. Porque é um bicho da terra, o homem chateia-se nela. Acossado por sua condição de bicho, ele empreende a viagem espacial, buscando desesperadamente fugir de sua face natural. Ao negá-la, porém, tenta o impossível, que é afastar-se de si próprio. A face negada o persegue e, por isso, o que se vê é que todos os lugares tocados pelo homem adquirem, ironicamente, a fisionomia dele, tornando-se, na palavra do poema, “humanizados”, fazendo com que a novidade perca o encanto. O novo revela-se tediosamente igual ao velho, impulsionando o ser humano para novos, repetitivos e insaciáveis deslocamentos. A descrição dessa anti-epopéía é feita de maneira sintética e rebaixada. As novas conquistas, que não transcendem à ilusão de superfície, já não possuem nenhum poder transformador e também não expressam um esforço de superação humana. Por isso a viagem espacial e inter-galáctica cabe no espaço curto do poema. E, desta forma, a velocidade e a objetividade do mesmo é o equivalente formal destes adjetivos da modernidade, que, assim, está representada, também, no ritmo da poesia.
Por outro lado, o final da viagem exterior e o anúncio da necessidade de o homem viajar para dentro de si acarretam uma mudança de ritmo na poesia, que adquire um ritmo lento na estrofe final. Se antes predominava o uso do tempo verbal no presente do indicativo (experimenta; coloniza; civiliza; humaniza), o que configura rima grave ou feminina (de som mais leve), na parte final predominam os versos no futuro do presente (estará) e no infinitivo (pôr; experimentar; colonizar; civilizar; humanizar), implicando rimas agudas ou masculinas (de som mais intenso), além da expansão final através da vibrante “r”. A isto, associam-se: a partição de palavras (col-onizar; con-viver); a adjetivação (“a dificílima dangerosíssima viagem”; “em suas próprias inexploradas entranhas”; “a perene, insuspeitada alegria”); a introdução de certa opacidade semântica pelo uso aportuguesado do inglês (“dangerosíssima”); e a pausa do parêntese interrogativo em “(estará equipado?)”.
A quebra de ritmo advém da quebra de direção. A viagem exterior é linear porque pré-determinada. Para ela, os itinerários já estão definidos, bastando constituir-se a infra-estrutura para percorrê-lo. Há uma lógica e um conhecimento acumulado que apontam para a sua realização. Não há o espanto do conhecimento inusitado, apenas o espetáculo banalizado da informação, como se evidencia na penúltima estrofe, quando se faz referência à televisão em “ou dá uma volta / só para tever?” (3º e 4º versos) e ao espetáculo, quando adjetiva o Sol como “falso touro / espanhol domado” (8º e 9º versos). Já a viagem interior implica outra lógica e conhecimento. É por isso que o conceito de “descoberta”, tão familiar às viagens dos séculos XV e XVI, só é evocado ao final do poema (“descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas”). Da mesma maneira, a idéia de perigo e dificuldade também é evocada nesse momento do texto (“a dificílima dangerosíssima viagem”), fazendo eco ao canto camoniano (“Em perigos e guerras esforçados / mais do que prometia a força humana”, Canto I, 1ª estrofe, versos 5 e 6). De outra parte, a repetição, em relação à viagem interior, do ritual precedente, instaura, no texto poético, uma desterritorialização da linguagem, subvertendo e potencializando seu sentido. A “colonização” e a “civilização” do homem perdem, neste momento, o sentido de posse de uma população sobre outra, significando, antes, o domínio sobre o impulso destrutivo da humanidade. Eros suplanta Tânatos, aplacando a inquietude humana e instaurando, por isso mesmo, uma satisfação substancial, perene.
A última palavra do poema, o verbo “con-viver”, remete à conquista da harmonia nas relações entre os seres humanos e, parece-nos, com o ambiente natural. A alegria humana é possibilitada por sociedades mais fraternas, solidárias e sócio-ambientalmente justas. Ao nomear diversos corpos celestes e, ao mesmo tempo, a interferência negativa do ser humano em relação aos mesmos, Drummond tematiza o problema ambiental. Nessa nova proposta de civilização, o paradigma sujeito-objeto terá que ser substituído por um paradigma sujeito-sujeito. Tanto o homem quanto o ambiente como um todo não poderão ser aleijados de seus significados, que passam a ser imprescindíveis para a sobrevivência e o equilíbrio do mundo. Sob esse novo prisma, o homem pode reconciliar-se com a expressão “bicho da Terra”, que evoca sensibilidade e (é preciso dizer?) realismo científico. “Pequeno”, por sua vez, já não significa “reles” ou “inferior”, remetendo a um novo conceito de civilização, que pressupõe as limitações humanas e a necessidade de enfrentá-las pela via da complexidade, da multiplicidade e da relatividade dos saberes.
Acerca da dificuldade dessa viagem, parecem-nos bastante ilustrativas as reflexões de MORIN e KERN sobre o que chamam de “possível impossível”:

"É possível hoje, técnica e materialmente, reduzir as desigualdades, alimentar os famintos, distribuir os recursos, atenuar o crescimento demográfico, diminuir as degradações ecológicas, mudar o trabalho, criar diversas altas instâncias planetárias de regulação e de proteção, desenvolver a ONU como verdadeira Sociedade das nações, civilizar a Terra. É racionalmente possível construir a casa comum, arrumar o jardim comum. (...) A união planetária é a exigência racional mínima para um mundo estreitado e interdependente, dissemos. Mas essa união possível parece impossível por necessitar muitas transformações nas estruturas mentais, sociais, econômicas, nacionais... (...) Assim, o possível é impossível e vivemos num mundo impossível em que é impossível atingir a solução possível". (MORIN e KERN, 200: 137)

No entanto, a impossibilidade do possível tem, segundo os autores, a sua contraposição. Como a realidade não é completamente diagnosticada, há, para além do mundo visível e imediato, um espaço de possibilidades não imaginadas. Há o que denominam de “princípio da incerteza da realidade” (Idem: 140), de acordo com o qual o que hoje se mostra impossível pode ser ou se tornar possível.

"A incerteza do espírito e a incerteza do real oferecem ao mesmo tempo risco e oportunidade. A insuficiência do realismo imediato abre a porta ao mais além do imediato. O problema é ser, não realista no sentido trivial (adaptar-se ao imediato) ou irrealista no sentido trivial (subtrair-se às coerções da realidade), mas realista no sentido complexo (compreender a incerteza do real, saber que há possível ainda invisível no real), o que parece com freqüência irrealista".  (Idem: 139)

O poema exorta o ser humano à autotransformação ao mesmo tempo em que, por analogia, sinaliza para as dificuldades da mesma e pergunta-se sobre as possibilidades reais de realizar-se. A perspectiva utópica da última estrofe torna-se cada vez mais urgente, conforme nos indicam as recentes informações sobre a saúde do Planeta. E certamente falta muito para nos equiparmos.

Bibliografia
ANDRADE, Carlos Drummond. Nova reunião: 19 livros de poesia. 3ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
CAMÕES, Luís de. Os lusíadas. Lisboa: Gris, 1972.
HOLANDA, Sergio Buarque. Visão do paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil.  São Paulo: Brasiliense; Publifolha, 2000.
HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. Trad. Waltensir Dutra. 17ª ed. São Paulo: Zahar Editores, 1981.
MORIN, Edgar/ KERN, Anne Brigitte. Terra-Pátria. Trad. Paulo Azevedo Neves da Silva. Porto Alegre: Sulina, 2000.
REIGOTA, Marcos. A floresta e a escola: por uma educação ambiental pós-moderna. 2ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 1999.

Notas:
[*] Professor na UNIJUÍ (Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul), Mestre em Literatura Brasileira (UFRGS).


[†] Referente a essa relação intertextual, veja-se a leitura de Gilberto Mendonça Teles: “Noutro poema, ‘O homem; as viagens’, publicado no Correio da Manhã e depois na ‘Seleta em prosa e verso’, Drummond fala em ‘bicho da terra’ e em ‘engenho e arte’. A segunda expressão, que aparece três vezes em Os Lusíadas (I, 2; VIII, 89; X, 19) e não sei quantas vezes nas Rimas, é por demais conhecida, e popularizada. A primeira, também mais ou menos conhecida, encontra-se na estrofe 106 do canto I (‘Contra um bicho da terra tão pequeno’) mas Camões a repete na Canção 5”, em que se lê: ‘Contra um corpo terreno,/Bicho da terra vil e tão pequeno’. Drummond teria recorrido à lírica ou à épica? (...) Como o poema trata de uma expedição a Marte, (...) é fácil perceber que tenha recorrido à expressão que se encontra na épica, aliás ali justificada pelo ‘engenho e arte’, muito mais conhecido através de Os Lusíadas do que nas suas variações líricas.” (TELES, Gilberto Mendonça. Camões e a poesia brasileira. Rio de Janeiro: MEC/UFF-FCRB: 1973, p. 213)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

As Grandes Navegações

Durante a Idade Média, os árabes intermediavam muitas vezes o comércio entre a Europa e a Ásia levando as mercadorias adquiridas no Oriente até entrepostos comerciais no Mar Negro ou na parte mais oriental do Mediterrâneo. Comerciantes europeus – especialmente genoveses e venezianos – iam até tais entrepostos para comprar as mercadorias orientais e, então, as levavam para as feiras e cidades europeias onde as revendiam.

Entre a saída da Ásia e a chegada à Europa, os preços de tais produtos sofriam grandes aumentos por conta da intermediação árabe. Os comerciantes europeus passaram a defender a ideia de que era preciso dispensar os intermediários árabes e adquirir as mercadorias orientais diretamente dos produtores asiáticos para obter lucros maiores com a atividade comercial.

Até o século XIV, o conhecimento que se tinha no continente europeu a respeito de outras partes do mundo era restrito. Havia todo um conjunto de lendas sobre outros povos e lugares. Os mares também eram objeto das mais variadas crenças, como a que defendia a existência de monstros ao sul, em um lugar onde o oceano estaria em chamas. Acreditava-se que quem tentasse cruzar o Oceano Atlântico – o mar “Tenebroso” – encontraria o fim do mundo, pois onde o oceano acabava havia um enorme abismo.

Esse medo de se aventurar por águas desconhecidas começou a diminuir a partir de 1453, quando os turco otomanos tomaram Constantinopla e dominaram o Mediterrâneo oriental, passando a cobrar altas taxas das caravanas que atravessavam a região.

Os mercadores europeus passaram a buscar rotas alternativas em direção às “Índias” (como eram conhecidas na época as terras do leste da Ásia) para escapar de tais cobranças. E nesse processo, Portugal saiu na frente.


O Pioneirismo Português

A posição geográfica de Portugal favorecia as navegações portuguesas, pois o país era banhado pelas águas do Atlântico e era o reino mais ocidental da Europa. Além disso, havia ali um poder centralizado e um Estado bem unificado, sem dissensões internas. Ademais, os pescadores e marinheiros lusitanos tinham uma longa experiência na costa do Atlântico.

Desde o século XIII, comerciantes e marinheiros portugueses levavam para outras regiões europeias, como a França e a Inglaterra, por exemplo, diversos produtos como azeite, vinho, couro e frutas secas. Quando retornavam de tais viagens, traziam para Portugal móveis de madeira, armas de ferro, tecidos e outros artigos.

Esse comércio marítimo promoveu a ascensão social da burguesia em uma época na qual o dinheiro começava a substituir a posse da terra como símbolo de prestígio e poder. Em Portugal, os mercadores e a Coroa estabeleceram acordos de interesse mútuo. A monarquia portuguesa concedeu privilégios aos comerciantes por meio de leis e decretos.

Em 1358, um decreto autorizou o corte de árvores nas matas do reino para a construção de navios. Em 1380, o governo português criou a Companhia das Naus, uma espécie de seguro marítimo que resguardava os donos dos navios em casos de perdas por naufrágio ou atos de pirataria. Uma política protecionista passou a ser colocada em prática pelo governo de Lisboa: os interesses dos comerciantes nacionais eram protegidos por meio de restrições à atuação de mercadores estrangeiros em Portugal.

A Revolução de Avis (1383-1385), que expulsou de Portugal as forças de Castela e colocou no trono dom João I, consolidou a aproximação entre a Coroa e a burguesia mercantil, pois o novo rei foi apoiado principalmente pelos burgueses.

Em 1415, o infante dom Henrique, filho de dom João I, coordenou a conquista de Ceuta, um importante entreposto comercial e militar localizado no norte da África. O objetivo dessa empreitada era tirar dos muçulmanos o controle do comércio naquela região, que passava agora para mãos portuguesas. A considerável expansão ultramarina de Portugal começou exatamente com a conquista de Ceuta.

Dom Henrique recebeu o título de grão-mestre da Ordem de Cristo, instituição religiosa que tinha como objetivo “combater os infiéis” em qualquer lugar do mundo. Em Ceuta, dom Henrique obteve informações acerca da existência de ouro no reino do Mali, ao sul do Saara, e a partir disso passou a planejar a conquista da costa oeste da África em direção ao sul.

Pouco depois da conquista de Ceuta, dom Henrique transferiu-se para o Algarve, fixando-se perto da vila de Sagres. Ali ele reuniu cartógrafos, astrônomos, matemáticos e navegadores para estudar o legado náutico deixado por fenícios, egípcios, gregos, árabes e outros povos. Tais estudos ficaram conhecidos como Escola de Sagres e resultaram na elaboração de cartas marítimas e no desenvolvimento de diversos instrumentos de navegação, como a bússola, o quadrante e o astrolábio. Foi inventado também um novo tipo de embarcação, a caravela, um navio veloz e relativamente pequeno, com cerca de 20 a 30 metros de comprimento, tripulado por 40 a 50 homens e que era ideal para navegação costeira, capaz de entrar em rios e estuários e de realizar manobras em regiões de águas rasas.

Em 1418 começaram as expedições marítimas portuguesas rumo ao sul. As ilhas da Madeira e dos Açores foram conquistadas entre 1420 e 1427, e ali os portugueses introduziram o plantio de trigo, uvas e cana-de-açúcar.

Anos depois, uma expedição capitaneada por Gil Eanes finalmente conseguiu ultrapassar o cabo Bojador, região na qual muitas embarcações portuguesas haviam sofrido grandes avarias ou mesmo naufragado. Por muito tempo acreditou-se que os desastres foram provocados por monstros ou pela fúria divina, mas com o feito da expedição de Gil Eanes os portugueses finalmente dominaram o medo.

As expedições em direção ao sul da costa africana continuaram, e em 1444 uma delas retornou a Portugal com cerca de duzentos africanos, vendidos posteriormente como escravos. Quando dom Henrique morreu, em 1460, os portugueses já haviam chegado até a região da atual Serra Leoa.

Uma bula do papa Eugênio IV garantiu o monopólio comercial da África aos portugueses, bem como o direito de “capturar e subjugar os sarracenos [muçulmanos] e pagãos [africanos] e qualquer outro incrédulo ou inimigo de Cristo, como também seus reinos, ducados, principados e outras propriedades, assim como reduzir essas pessoas à escravidão perpétua”.

Em 1487, Bartolomeu Dias dobrou a extremidade sul do continente africano, chamando a região de Cabo das Tormentas. Posteriormente, o rei dom João II (1481-1495) mudou esse nome para Cabo da Boa Esperança. O projeto português de encontrar um caminho marítimo para as Índias estava definido.


Os espanhóis chegam à América

A partir dos feitos portugueses, navegantes de outras regiões europeias se sentiram estimulados a buscar um caminho alternativo para as Índias. O genovês Cristóvão Colombo acreditava na esfericidade da Terra e que o Oceano Atlântico oferecia a forma mais rápida de se chegar às Índias a partir da Europa pois, segundo a sua tese, para se chegar ao Oriente era preciso navegar para o Ocidente.

Como o rei de Portugal dom João II se recusou a financiar o projeto de Colombo, o genovês procurou os reis espanhóis Fernando e Isabel, que lhe deram apoio. Em agosto de 1492, acompanhado por cerca de noventa homens, Colombo deixou o porto de Palos, na Andaluzia, comandando as caravelas “Santa María”, “Pinta” e “Niña”.

Navegando sempre em direção ao oeste, Colombo avistou terra firme no dia 12 de outubro de 1492. Acreditou ter chegado às Índias, mas suas embarcações haviam aportado em um continente desconhecido dos europeus e que posteriormente ficaria conhecido como América.

Entre 1493 e 1502, Colombo viajou mais três vezes ao novo continente sob o patrocínio da Espanha, mas não encontrou as riquezas tão desejadas. Em 1506, Colombo morreu em Valladolid, na Espanha, abandonado, sem prestígio e certo de que encontrara o caminho para as Índias.


O Tratado de Tordesilhas

O feito de Colombo levou Portugal e Espanha a disputarem as “novas” terras. O papa Alexandre VI serviu de juiz na disputa e, no dia 7 de junho de 1494, com o testemunho do papa, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Tordesilhas. A partir de uma linha imaginária situada a 370 léguas a oeste das Ilhas de Cabo Verde o mundo seria dividido em duas partes. As terras existentes a oeste deste marco seriam da Espanha, enquanto que as terras localizadas a leste pertenceriam a Portugal.

Após a assinatura do Tratado de Tordesilhas, os espanhóis continuaram suas expedições ao continente americano. Já o governo de Portugal manteve seus planos de chegar às Índias contornando a África.

Em julho de 1497, Vasco da Gama partiu de Lisboa com quatro navios e 170 homens sob o seu comando. Em novembro, a frota dobrou o Cabo da Boa Esperança. Em março do ano seguinte, chegou a Melinde, na costa do Quênia atual, onde Vasco da Gama conseguiu a ajuda de um marinheiro árabe que os guiou pelo oceano Índico até as Índias. Em maio de 1498, a frota portuguesa chegou a Calicute, na atual Índia. Estava finalmente provado que era possível chegar ao Oriente sem passar pelo Mediterrâneo.

O sucesso de Vasco da Gama estimulou novas viagens. Em 1500, o navegador Pedro Álvares Cabral afastou-se da costa africana e alcançou terras a oeste do Atlântico Sul que mais tarde seriam chamadas de Brasil. No ano seguinte, o florentino Américo Vespúcio, a serviço do rei de Portugal, mapeou essas terras e concluiu que elas não faziam parte das Índias, mas constituíam um novo continente que passaria a ser chamado de América.

Em 1519, o português Fernão de Magalhães, a serviço da Coroa Espanhola, iniciou uma viagem ao redor da Terra, mas acabou morto em uma ilha do Pacífico. Sua viagem de circum-navegação seria completada por Sebastião Elcano, que retornou à Espanha em 1522. A aventura de Magalhães e Elcano comprovou a esfericidade da Terra.