Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
Mostrando postagens com marcador Sugestões de filmes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sugestões de filmes. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de junho de 2015

Sugestão de filme: "Parágrafo 175" (2000)

A perseguição sofrida pelos judeus na Alemanha nazista é um tema bastante conhecido. De fato, muito já se escreveu sobre o Holocausto. E muitos foram os filmes que trataram do extermínio dos judeus na Alemanha sob o governo de Adolf Hitler. Mas os nazistas não perseguiam apenas judeus. Como pode ser visto na imagem abaixo, dissidentes políticos, criminosos, testemunhas de Jeová e outros grupos também sofriam com a violência imposta pelos adeptos do nazismo. Os judeus não foram os únicos a serem enviados aos campos de concentração.

Na imagem acima, além da suástica, vê-se os triângulos de identificação, 
que eram usados para identificar o grupo ao qual pertencia o
prisioneiro do campo de concentração.

Entre os grupos perseguidos pelos nazistas, chama a atenção aquele identificado pelo triângulo rosa invertido, o dos homens homossexuais. Este é um assunto que ainda não é abordado com muitos detalhes em livros didáticos e, sendo assim, gostaríamos de sugerir aqui um filme que pode ser útil no estudo deste tema: o documentário LGBT Parágrafo 175, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que foi lançado no ano 2000. O título do filme faz uma referência ao parágrafo/artigo de número 175 do Código Penal Alemão de 1871, que estabelecia o seguinte: "Um ato sexual antinatural entre pessoas de sexo masculino ou por humanos com animais é punível com a prisão e a perda dos direitos civis pode lhe ser imposta". Em outras palavras, a homossexualidade era vista como um crime na Alemanha desde o século XIX.

Qual terá sido então o modo como o nazismo lidou com os homossexuais? É a essa pergunta que Parágrafo 175 procura responder. Logo no início, o documentário nos informa que mais de 100.000 homens foram presos na Alemanha durante os anos do nazismo, acusados de serem homossexuais. Destes, entre 10 e 15 mil chegaram a ser enviados para campos de concentração, onde muitos morreram. Quando o filme foi produzido, apenas 10 dos sobreviventes ainda estavam vivos, e são os depoimentos de alguns destes homens que o documentário explora para investigar a perseguição sofrida pelos homossexuais durante o regime de Adolf Hitler.

Nos depoimentos presentes no filme é visível o desconforto sentido pelos entrevistados - todos idosos - ao lembrar de acontecimentos tão terríveis. O passado incomoda e lembrar dele dói - um dos entrevistados chega a chorar durante a sua fala -, todavia, é impossível esquecer o que aconteceu e seguir em frente como se nada tivesse ocorrido. Daí decorre a necessidade de narrar o trauma, por mais dolorosa que possa ser esta tarefa.

Para além da questão em torno da memória e do esquecimento na História, o filme Parágrafo 175 oferece uma série de elementos para se pensar como viviam os homossexuais na Alemanha da primeira metade do século XX. A Berlim dos anos 1920 é descrita como o "paraíso dos homossexuais", onde havia vários bares e bailes frequentados por gays e lésbicas, quando o artigo 175 do Código Penal Alemão era ignorado na prática por muitas pessoas. Assim, os entrevistados recordam aqueles anos anteriores ao nazismo, destacando suas primeiras experiências sexuais e seus primeiros relacionamentos amorosos em um ambiente de relativa liberdade. Todavia, com o advento do regime de Hitler na Alemanha, a situação dos homossexuais mudou. Começaram as perseguições, as prisões, os espancamentos e os assassinatos. Os nazistas fecharam bares e boates gays. A Juventude Hitlerista perseguia violentamente os homossexuais. Os homens judeus que também eram gays sofriam com uma dupla perseguição.

O documentário nos informa que a Gestapo chegou a criar um departamento para combater o "crime da homossexualidade". Vale salientar também as diferenças no tratamento da homossexualidade masculina e da homossexualidade feminina. Enquanto os homens gays eram vistos como portadores de uma doença contagiosa que precisava ser erradicada a todo custo, o lesbianismo era visto, por sua vez, como uma condição temporária e curável. Poucas lésbicas foram enviadas para os campos de concentração, em comparação ao número de homens homossexuais. Muitas mulheres lésbicas foram para o exílio, casaram-se com homens gays e até sumiram da vista pública. Nos campos de concentração, os homens gays eram agredidos, violentados, mortos e até usados em experiências científicas (alguns foram castrados).

O fim da Segunda Guerra Mundial e a derrocada do nazismo na Alemanha não melhoraram de imediato a situação dos homossexuais naquele país. Afinal, o artigo 175 continuou em vigor depois da guerra por mais alguns anos. No final do século XX, época da produção do filme Parágrafo 175, nenhum dos homossexuais perseguidos pelo nazismo que sobreviveram havia recebido ainda algum tipo de reconhecimento ou indenização.

O filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman nos permite pensar sobre um tema que nem sempre é tratado com a devida atenção pelos historiadores e, sobretudo, pelos professores de História da Educação Básica. Falar da perseguição sofrida pelos homossexuais durante o nazismo é importante porque nos instiga a pensar sobre até que ponto pode chegar a intolerância. Assim, Parágrafo 175 não é apenas um filme instigante, mas extremamente necessário para a nossa atualidade, uma vez que várias formas de preconceito ainda persistem. Recomendado.

****************************************
O site YouTube disponibiliza na íntegra o filme Parágrafo 175 (acesso no dia 14 de junho de 2015). Vale a pena assistir!


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sugestão de filme: "Nós que aqui estamos por Vós esperamos" (1999)

O filme Nós que aqui estamos por Vós esperamos (1999), de Marcelo Masagão, é excelente para se pensar sobre o Século XX. A obra é resultado de uma edição/montagem de várias sequências de imagens de arquivo – a maioria delas em preto e branco – acompanhadas por letreiros que contam as histórias de diversos personagens. Junto com as imagens e os letreiros, temos apenas as músicas que constituem a trilha sonora. Não há a voz de um narrador no filme.

Logo no início, letreiros anunciam que o filme apresentará uma “Memória do breve século XX” por meio de “Pequenas histórias/Grandes personagens” e “Pequenos personagens/Grandes histórias”. Com esta proposta, o filme apresenta imagens que remetem às rápidas transformações que ocorreram em várias áreas ao longo do século passado: a industrialização, o desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação e as novidades nos campos da pintura (Picasso), da psicanálise (Freud), da política (Revolução Russa) e da física (Einstein). No balanço feito por Masagão, todas essas transformações aconteceram de maneira muito rápida, o que nos remete ao tema da aceleração da História durante o Século XX. Como diz um dos próprios letreiros do filme, de um dia para o outro a cidade deixou de cheirar a cavalo. Mais do que qualquer outra época anterior, o século passado foi marcado por uma certa concepção de "progresso": o homem parecia cada vez mais apto a superar todos os seus limites.

Todavia, Nós que aqui estamos por Vós esperamos não faz uma apologia dessa ideia de progresso. Muito pelo contrário, o filme explora as contradições da contemporaneidade, denunciando os limites do ser humano. O alfaiate que tenta voar ao saltar da torre Eiffel, em Paris, acaba se arrebentando no chão. O ônibus espacial Challenger explode no céu, em 1986. Em tais imagens, Marcelo Masagão nos recorda que, apesar de todo o desenvolvimento tecnológico, o homem continua sendo um ser limitado.

Outros momentos do documentário nos remetem ao mundo do trabalho no contexto do sistema capitalista. Na indústria automobilística, temos a inovação da linha de montagem. O Ford T é fabricado em série e em um ritmo cada vez mais ágil. É a produção que se acelera. O trabalhador é explorado com uma pesada jornada de trabalho e baixo salário. Mesmo tendo ajudado a fabricar vários carros ao longo da vida, o trabalhador nunca foi dono de um. O mundo do trabalho é o mundo da exploração: centenas de homens se aglomeram no formigueiro humano de Serra Pelada, no Brasil, em busca de ouro, trabalhando em condições degradantes. O mundo do trabalho não está dissociado do universo da política: o soviético que foi eleito operário padrão por cinco anos consecutivos, apaixonou-se por uma turista italiana, discordou do partido e acabou morrendo na Sibéria.

No campo cultural, o filme aborda o tema da internacionalização da cultura. A operária japonesa que fabrica aparelhos de TV é fã de Elvis Presley. O boliviano pobre que nunca assistiu a um programa televisivo gosta de Coca-Cola. Temos no documentário também uma reflexão sobre as mudanças no padrão de consumo durante o Século XX: o consumismo se revela na compra desenfreada de objetos como o rádio, a TV, o carro e os eletrodomésticos. Os novos hábitos levam ao vício em aspirina. Como se não bastasse, também temos referências ao universo do cinema (Fred Astaire), ao mundo do futebol (Mané Garrincha) e ao cenário da música (o festival de Woodstock). Também o campo das religiões é objeto de interesse de Marcelo Masagão. O filme apresenta cenas de manifestações religiosas, com fiéis de diversos credos, e parece desconfiar de tais religiões: mesmo a crença em Deus é questionada ao fim do documentário, quando Deus parece estar distante e alheio às tragédias do Século XX.

E o século passado é visto no filme como uma sucessão de várias tragédias. A crise econômica iniciada com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, provoca fome e desemprego. Um engenheiro passa a vender maçãs. Durante a Guerra Fria, a construção do Muro de Berlim é um acontecimento emblemático, que demonstra a separação entre os homens. Na China Comunista, a Revolução Cultural significa a morte de várias pessoas. E temos as guerras. Quatro gerações de homens de uma mesma família participaram, cada uma delas, de algum conflito ocorrido no Século XX: as duas Guerras Mundiais, a Guerra do Vietnã e a Guerra do Golfo. Um casal alemão é obrigado a se separar quando eclode a Primeira Guerra Mundial: ele (Hans) vai para a frente de batalha atirar bombas, enquanto ela (Anna) vai trabalhar em uma fábrica de bombas. Um homem sofre com o “Choque de guerra” e treme descontroladamente. A bomba atômica mata uma família japonesa inteira. O kamikaze sabe que a guerra é algo sem sentido, mas afirma que voltar para casa seria uma humilhação. O monge budista com o corpo em chamas protesta contra a guerra do Vietnã (1969). Na China, um homem se coloca na frente de uma fila de tanques de guerra, na Praça da Paz Celestial (1989), em uma das mais emblemáticas imagens do Século XX.

A violência praticada nas guerras e nos mais variados conflitos do último século aparece em cenas de explosões, homens atirando e aviões bombardeando áreas inteiras. Tudo isso nos remete à dificuldade do homem em conviver com o que é diferente, em conviver em paz com o outro. Nós que aqui estamos por Vós esperamos nos mostra os rostos de homens como Hitler, Stalin, Mao Tsé-Tung, Mussolini, Pol Pot, Franco, Salazar, Idi Amin, Ceausescu, Ferdinand Marcos, Pinochet, Reza Pahlavi, Videla, Médici e Mobutu. Assim, Marcelo Masagão faz o espectador do filme lembrar de vários governantes autoritários que centralizaram o poder em suas mãos e procuraram destruir os seus opositores. Em outras palavras, temos a lembrança das experiências totalitárias e ditatoriais que tanto marcaram o século passado. A imagem de tais regimes políticos está articulada à questão da intolerância. Nesta perspectiva, merece atenção a sequência do filme que mostra a queima de livros escritos por “autores degenerados” durante a Alemanha nazista (1939), em um verdadeiro Fahrenheit 451 da vida real, como o documentário nos sugere por meio de um letreiro. Como um comentário a esta sequência da queima de livros, temos na tela trechos de autoria de Oscar Wilde, Franz Kafka, Sigmund Freud e Karl Kraus, além de um breve relato da vida de um nazista que veio morar no Brasil e aqui morreu obsessivo e brigado com os vizinhos. Masagão deixa registrada a sua crítica ao totalitarismo.

Além dos líderes políticos autoritários, o filme também apresenta imagens de outras figuras históricas importantes do século XX: “Che” Guevara, Gandhi, Martin Luther King e John Lennon que, em um breve relato fictício, estão na lua discutindo assuntos humanos. Nós que aqui estamos por Vós esperamos também faz questão de abordar o papel assumido pela mulher ao longo do século passado: elas ganharam espaço no mercado de trabalho, mudaram seus hábitos (maiô, cigarro, minissaia) e lutaram pelo direito ao voto. Mas o filme nos lembra das limitações das conquistas femininas: em um sequência, uma mulher que trabalhara na indústria bélica, após o fim da guerra, volta a ficar reclusa ao ambiente doméstico, cuidando dos filhos, do marido e sofrendo de depressão.

O retrato do Século XX feito por Marcelo Masagão, portanto, é bastante complexo e está articulado às contradições desse período da história da humanidade. Ao mesmo tempo em que o homem realizou uma série de conquistas e avanços nos campos das ciências, das artes e da tecnologia, ele também foi capaz de produzir violência, desigualdade, opressão e morte. Nós que aqui estamos por Vós esperamos problematiza, portanto, a noção de “progresso” na História. Um bom exemplo disso está na questão em torno da eletricidade, tecnologia usada tanto na iluminação/decoração durante a Exposição Universal de Paris, em 1900, quanto na execução de um homem na cadeira elétrica (um sujeito que sequer tinha luz elétrica em sua própria casa). As novas tecnologias podem ter usos variados, para o bem e para o mal.

A narrativa do filme de Marcelo Masagão não é rigidamente linear. As “pequenas histórias” dos “grandes personagens” e as “grandes histórias” dos “pequenos personagens” são contadas em uma sequência cheia de avanços e recuos no tempo cronológico do Século XX, levando o espectador a refletir sobre alguns aspectos da História contemporânea. Merece destaque o fato de o filme trabalhar com a ideia da morte. Todos os personagens que aparecem em Nós que aqui estamos por Vós esperamos já estão mortos, pertencem ao campo do passado. Não por acaso, em diversos momentos do filme temos imagens de um cemitério e dos túmulos ali existentes. São as histórias de pessoas já mortas que o filme exibe. E o documentário se dedica a narrar tais histórias porque o passado não pode simplesmente ser esquecido. O passado deve ser narrado para que os homens do presente possam dar um lugar a ele e, desta maneira, fiquem liberados para viver. Marcelo Masagão nos lembra de um importante papel exercido pela escrita da História, a respeito do qual tão bem nos falou o historiador Michel de Certeau:

“A escrita não fala do passado senão para enterrá-lo. Ela é um túmulo no duplo sentido de que, através do mesmo texto, ela honra e elimina. Aqui a linguagem tem como função introduzir no dizer aquilo que não se faz mais. [...] a recondução do “morto” ou do passado, num lugar simbólico, articula-se, aqui, com o trabalho que visa a criar, no presente, um lugar (passado ou futuro) a preencher, um “dever-fazer”. A escrita acumula o produto desse trabalho. Através dele, libera o presente sem ter que nomeá-lo. Assim, pode-se dizer que ela faz mortos para que os vivos existam.” (CERTEAU, 2011: 110)

Mas falar dos mortos também é um exercício válido porque ele nos lembra de nossa própria condição humana. A vida humana é frágil e um dia, cedo ou tarde, todos nós morreremos. É esse o recado transmitido pela mensagem existente na entrada do cemitério filmado por Masagão, mensagem essa que dá nome ao filme: Nós que aqui estamos por Vós esperamos. Os mortos estão à nossa espera porque nós morreremos algum dia e nos juntaremos a eles. Aqui temos a ideia da “sequência de gerações (contemporâneos, predecessores e sucessores)” que, Segundo Paul Ricoeur (2010), é um instrumento que permite aos homens apreender o tempo histórico.

Nesta perspectiva, pouco importa se um determinado personagem do filme é “grande” (como um chefe político) ou “pequeno” (como um operário). “Grandes” e “pequenos”, agora estão todos mortos. Independentemente do papel que tenham exercido em vida, todos são iguais na morte. Aqui, Nós que aqui estamos por Vós esperamos nos lembra o epílogo de Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick: “Foi no reinado de George III que estes personagens viveram e brigaram; bons ou maus, belos ou feios, ricos ou pobres, agora eles são todos iguais”.


Referências:

CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. 3. ed. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. Revisão técnica de Arno Vogel. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011.

RICOEUR, Paul. Entre o tempo vivido e o tempo universal: o tempo histórico. In: ______. Tempo e Narrativa: o tempo narrado. Tradução de Claudia Berliner. Revisão da tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010, p. 176-213. v. 3.

**********

O YouTube disponibiliza o filme Nós que aqui estamos por Vós esperamos na íntegra (data de acesso: 17 fev. 2015). Não deixe de assistir!