Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***
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domingo, 7 de maio de 2017

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita? (*)

(*) Texto escrito por Camilla Costa e originalmente publicado no site da BBC Brasil, no dia 07 de maio de 2017. Para ter acesso à publicação original, clique aqui.


"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que, na verdade, o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam um terceiro caminho", afirma.


Nacionalismo

A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".


'Marxistas e capitalistas'

Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução que garantiria justiça social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.

"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida o ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturais de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."


'Precisão científica'

A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, nos dias de hoje, associa o movimento a partidos de extrema-direita que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco a comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como "direita".

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.


'Crise de referências'

Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."

Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo mais à direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."



segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma imagem e uma velha polêmica sobre Hitler e o nazismo...

Uma imagem tem circulado nas redes sociais e reacendeu um velho debate em torno da visão de mundo de Adolf Hitler e do nazismo. A imagem é esta:


Algumas páginas e alguns perfis no Facebook estão compartilhando a imagem acima e a usando como "argumento" para defender a ideia de que Adolf Hitler e o nazismo seriam "de esquerda", já que o próprio nome completo do Partido do führer alemão era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Pelo menos é o que muitos usuários do Facebook estão dizendo por aí... Mas o que podemos pensar a respeito disso?

Em primeiro lugar, o nazismo foi um fenômeno bastante complexo, e reduzir os debates a respeito dele apenas em termos de "direita" e "esquerda" é um tanto quanto empobrecedor. Ademais, é sempre útil lembrar que as expressões "direita" e "esquerda" foram introduzidas no vocabulário político ocidental a partir de um contexto bastante específico, a saber, a Revolução Francesa do final do século XVIII. Desde os acontecimentos que se desenrolaram na França revolucionária até hoje, as expressões "direita" e "esquerda" têm sido usadas nos mais variados contextos e com significados por vezes muito diversos. Assim, antes de classificar alguém ou um partido como de "direita" ou de "esquerda", é preciso antes deixar muito claro sobre o que se entende de fato por cada uma dessas expressões. E estabelecer definições, é preciso que se diga, não é uma tarefa tão simples como muitos pensam...

De qualquer forma, o que chama a atenção em certas postagens segundo as quais Hitler e o nazismo eram "de esquerda" é a tentativa de aproximar Hitler e o nazismo do socialismo - mas "socialismo" entendido como uma visão de mundo próxima das ideias Karl Marx. Há em certas postagens no Facebook até uma tentativa de colocar o nazismo alemão e o stalinismo soviético no mesmo saco: "os dois eram socialistas, os dois eram, portanto, 'de esquerda'". Afinal, não se lê "socialista" no nome completo do Partido Nazista? Pelo menos, este é o modo como muitos enxergam a questão... Todavia, muitas dessas pessoas que dizem isso não param para pensar em algo importante: afinal, qual (ou quais) o(s) possível (ou possíveis) significado(s) da palavra "socialismo"?

Vamos esclarecer alguns pontos. Primeiro, as ideias de Karl Marx foram a base para o chamado "marxismo", que nada mais é do que uma teoria que critica o Capitalismo por meio de categorias de explicação como "materialismo histórico", "luta de classes", "mais valia", "consciência de classe" e "revolução". É importante lembrar que dentro do "marxismo" existem diversas correntes e linhas de pensamento, que não são totalmente iguais entre si. Ou seja, existem muitas divergências dentro do marxismo. Por sua vez, o "socialismo" é uma ideologia política que surgiu antes mesmo do próprio "marxismo" e, embora tenha sido influenciada por ele a partir de meados do século XIX, é um equívoco reduzir o "socialismo" apenas às ideias de Marx, como muitas pessoas parecem fazer no Facebook. Como ideologia, o "socialismo" propõe uma sociedade livre da "exploração capitalista", na qual os trabalhadores possam se apropriar dos meios de produção. "Socialismo" e "marxismo" podem ter alguns pontos de contato, é verdade, mas não são totalmente a mesma coisa. O que o "marxismo" almeja é o "comunismo", que seria uma etapa posterior ao "socialismo", quando finalmente não existiriam mais os conflitos de classe. [1]

Mas qual seria o significado da expressão "socialista" presente no nome do Partido Nazista? Vamos deixar o próprio Adolf Hitler responder a esta pergunta. Em entrevista realizada em 1923, e republicada em 1932, o führer disse:

"O socialismo [...] é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só." [2]

Como se vê, Hitler tinha uma definição muito específica para o termo "socialismo". Este, segundo ele, não seria totalmente igual às ideias de Karl Marx (como muitas pessoas parecem pensar nos dias de hoje). O "socialismo" de  Hitler sequer criticava a propriedade privada. Pelo trecho citado acima, podemos perceber que uma mesma palavra - "socialismo" - pode ter vários significados dependendo do contexto e de quem fala. Por isso, antes de classificar alguém como "socialista", é preciso que se pergunte antes: de qual "socialismo" se está falando?

Voltemos agora, finalmente, para a imagem reproduzida no início deste texto. Nela, podemos ver claramente a suástica nazista acompanhada da foice e do martelo. O que podemos dizer a respeito disso? Trata-se na verdade de um broche produzido na Alemanha nazista (no ano de 1934, como pode ser visto na imagem) em razão do Dia do Trabalhador (tradução do "Tag der Arbeit" escrito na parte superior do broche). A foice e o martelo de fato são símbolos que historicamente foram usados por grupos socialistas sim, mas há uma diferença importante aqui. Nas bandeiras de partidos e países socialistas, a foice o martelo geralmente aparecem cruzados, como pode ser visto na imagem reproduzida abaixo:

 Bandeira da URSS.

A foice e o martelo cruzados representam a união de trabalhadores urbanos (das indústrias) e rurais (os camponeses) dentro da perspectiva da chamada "luta de classes". Já no broche nazista de 1934, a foice e o martelo estão separados, ou seja, eles não aparecem ali com o mesmo significado do que nas bandeiras de partidos e países socialistas! Os objetos são os mesmos, mas a diferença na forma de representá-los remete a um outro significado! Dentro do visão de mundo nazista, a "luta de classes" não era um aspecto central como é para o "marxismo" ou o "socialismo" influenciado pelo marxismo. Hitler valorizava muito mais a união de todos os membros da sociedade alemã do que a "luta" entre as diferentes "classes" daquele país. Hitler valorizava na verdade a "raça" do povo alemão (a "raça ariana"). Sendo da mesma "raça", os alemães deveriam estar todos unidos dentro de um sentimento nacionalista, e não em "luta" uns com os outros, afinal, o que deveria existir era uma "solidariedade racial". Em geral, partidos socialistas focam muito mais na questão da "classe" e não na questão da "raça", o que nos ajuda a entender o porquê de Hitler dizer que o seu partido não era "internacionalista", mas sim "nacional". Mais uma vez, Hitler tinha uma definição muito específica para a palavra "socialismo". Ademais, segundo ele, o nome em si do seu partido nem seria tão importante assim, pois como Hitler disse no trecho anteriormente citado, o seu partido até poderia se chamar "Partido Liberal". O nome em si não é, portanto, prova de nada, pois é preciso sempre estar atento para o significado que se atribui a certo nome ou a certa expressão. Os significados das palavras dependem do contexto histórico em que as mesmas são ditas e/ou escritas.

Apenas para reforçar o que estamos demonstrando aqui, é preciso dizer que, no broche nazista de 1934, nós podemos ver também a famosa suástica nazista. Ora, assim como a foice e o martelo, a suástica como símbolo não foi uma invenção de Hitler, pois o que o nazismo fez foi se apropriar de um símbolo muito mais antigo e que já havia sido usado antes nas mais variadas culturas. [3] Para os povos hindus, a suástica certamente tinha outro significado, diferente daquele dado pelos nazistas ao símbolo. O símbolo (o desenho, a imagem) por si só não significa nada, pois tudo dependerá do contexto em que o mesmo aparece e é usado. Símbolos podem ser ressignificados ao longo do tempo. Pois se o mesmo símbolo tivesse sempre o mesmo significado, então a águia que também aparece no broche nazista poderia ser associada, por exemplo,  aos Estados Unidos da América (já que a águia é um símbolo muito usado para representar os EUA)... Como se vê, simplificar o uso de um determinado símbolo pode dar origem a afirmações absurdas...

Símbolos e palavras possuem significados que vão mudando ao longo do tempo. E por isso, antes de compartilhar certas imagens no Facebook, é sempre útil buscar mais informações a respeito de determinado assunto, para não se cometer certos equívocos. Limitar a discussão sobre o nazismo ao binômio "direta"/"esquerda" é simplificar demais o assunto. Apenas afirmar que Hitler era "socialista" também não diz muita coisa em si, é preciso antes definir claramente tal termo. É muito mais produtivo buscar entender detalhadamente as ideias que faziam parte da visão de mundo nazista, dentro das suas particularidades. Só assim compreenderemos um pouco melhor o que foi o nazismo. Se alguma aproximação pode ser feita entre o nazismo alemão e o stalinismo soviético, é o fato de esses dois regimes terem sido "totalitários", e não a questão em torno do "socialismo".


___________________________
[1] Resta ainda recordar um outro significado para a expressão "socialismo". No século XX, a União Soviética e outros países alinhados a ela no contexto da Guerra Fria formaram um bloco que ficou conhecido como o "bloco socialista". Mas o "socialismo" aqui não era o mesmo daquela ideologia política surgida na passagem do século XVIII para o XIX. O "socialismo" da URSS e dos países que se alinharam a ela depois da Segunda Guerra Mundial tem um outro significado, que remete a um regime político onde o Estado controla a economia, centraliza o poder, institui uma partido único e restringe fortemente as liberdades individuais. A palavra - "socialismo" - é a mesma, mas o significado dela não.

[2] Trecho de entrevista concedida por Hitler a George Sylvester Viereck, publicada no jornal Liberty, de 9 de julho de 1932. A entrevista está disponível em português em: ALTMAN, Fábio (Org.) A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias. São Paulo: Scritta, 1995, p. 114-115.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rebelião das Massas: a origem dos movimentos sociais*

*ATENÇÃO: Este texto foi escrito por Voltaire Schilling, tendo sido originalmente publicado no portal Terra, no dia 11 de julho de 2013. Para ler a publicação original, clique aqui.


As massas e a história 

Descontando-se os inúmeros e praticamente incontáveis levantes de massas que ocorreram na história da humanidade, sob o ponto de vista da época contemporânea, pode-se fixar sua erupção na política a partir de dois eventos muito próximos. Um deles, a Boston Tea Party (A Festa do Chá em Boston, que ocorreu em 1773), um tanto antes da eclosão da Revolução Americana (1776-1783); o outro, a Queda da Bastilha, de 14 de julho de 1789, foi responsável pelo desabamento de uma monarquia que já existia há mais de 13 séculos na França.

Ambos os acontecimentos são marcos da espetacular ação das massas revolucionárias e da entrada delas definitivamente no universo da política, do qual por séculos estiveram ausentes. Esta, ao longo dos tempos, tinha sido monopolizada por aristocratas, fidalgos e plutocratas em geral, personagens das elites do seu tempo que definiam os destinos dos povos sem fazer-lhes consulta sequer.

Desta feita, era o homem comum, uma multidão de anônimos, quem arrombava as portas daquele Olimpo, obrigando-o a ouvir e a atender suas demandas. O filósofo Hegel, em carta a um amigo, registrou esta nova força que punha o mundo em andamento, afirmando:

Esta erupção das massas generalizou-se ainda mais por ocasião da Revolução de 1848 - a "Primavera dos povos" -, movimento extraordinário que fez tremer quase que todas as capitais e cidades mais importantes da Europa, com reflexos inclusive na América Latina.

Para Elias Canetti, autor de um livro clássico sobre o assunto, Masse und Macht (Massa e Poder, 1960), esta excitação e presença das multidões nas ruas protestando ou insurgindo-se resultou da libertação do controle que a religião exercia sobre elas até a eclosão da Revolução Francesa de 1789. Desde então foram incontáveis os "estouros" que ocorreram em várias partes do mundo e que, tudo indica, não mais cessarão.


Marx exalta as massas 

Karl Marx foi o primeiro filósofo moderno a captar as potencialidades transformadoras da multidão em marcha. Percebeu que a elas, e somente a elas, e não aos heróis das classes tradicionais, cabia "mudar o mundo", conduzindo-o para uma etapa superior da história da humanidade. Propôs, então, uma aliança entre os pensantes, os filósofos, os intelectuais, com a maioria sofredora, o proletariado moderno. Afinal, eram "as massas quem fazem a história", assegurou.

Este entusiasmo arrefeceu um tanto, não do lado de Marx e de seu companheiro Engels, mas de larga parte da opinião pública em geral quando dos dramáticos episódios provocados pela Comuna de Paris, ocorridos em março de 1871. Naquela oportunidade, milhares de trabalhadores da capital da França, homens, mulheres e crianças, levantaram-se em armas contra o governo de Versalhes que fizera concessões humilhantes aos alemães vitoriosos na Guerra Franco-Prussiana (1870).

A capital francesa ficou parcialmente destruída, com os prédios e monumentos incendiados ou postos abaixo. Para Marx, a Comuna, ainda que vencida e esmagada, representou, pela primeira vez na história, ainda que em esboço, o que certamente viria a ser um governo do proletariado.

Em Paris, a Massa tornara-se Poder mesmo que fora por apenas 72 dias. Ela "tomara o céu de assalto", segundo ele.

O sonho, ainda que inesperado para a maioria dos seguidores de Marx, paradoxalmente se fez realizado não na desenvolvida e civilizada Europa Ocidental, como ele previra, mas na bárbara Rússia dos czares autocratas e dos mujiques miseráveis. Lenin, líder bolchevique, assegurou que, a partir de 25 de outubro de 1917, as massas conduzidas por seu partido estavam definitivamente no poder.

São Petersburgo e Moscou transformaram-se em palcos de enormes manifestações, marchas se sucediam, turbilhões humanos varriam os veneráveis logradouros tanto da capital da Rússia asiática como da bela cidade de Pedro. Vendo aquele espetáculo, com milhares de pessoas gritando slogans ou simplesmente andando, o linguista Mikhail Bakhtin desenvolveu na década de 1920 o conceito de carnavalização e polifonia da obra literária. Diversas vozes nela se fazem presentes como se fora nos ruidosos tempos das feiras medievais.


A origem socioeconômica das massas 

A presença das massas, das extraordinárias multidões humanas, é um fenômeno mais ou menos recente na história. Anteriormente à Revolução Industrial, a população era majoritariamente rural. Encontrava-se espalhada pelo campo, vivendo em pequenas aldeias ou vilarejos isolados, com escasso número de habitantes. Não tinha como haver significativas concentrações como as que começaram a emergir nos conglomerados urbanos da Europa Ocidental entre 1750 e 1850. A chave para se entender a impactante presença delas, das multidões, tem como origem tecnológica a máquina a vapor, surgida em 1765.

O invento de James Watt teve como efeito direto a possibilidade de se instalar fábricas nos cinturões das cidades, liberando-as da necessidade de serem montadas à beira de rios ou riachos, muitos deles distantes do mercado consumidor. Com os engenhos veio a mão-de-obra. Milhares de operários começaram a se concentrar ao redor delas, tornando as fábricas o centro da sua vida econômica e social.

Na esteira delas, ampliou-se o setor de prestação de serviços, o comércio com suas lojas, os armazéns, as galerias, o setor financeiro com sua rede de bancos, o lazer com seus cafés, restaurantes, teatros etc.

Londres, por exemplo, capital do Reino Unido, quase duplicou a população em apenas um século: eram 527 mil habitantes que saltaram para 1.096.784 quando do primeiro censo oficial em 1801. Não sendo muito diferente, ainda em tempo diverso, do que ocorreu em Nova York, Paris, Berlim, Milão...

Agigantaram-se os centros industrializados no Ocidente igualmente pelo efeito da imigração interna. Milhares de camponeses, de lavradores e de gente do campo em geral, aproveitando-se da dissolução da Ordem Feudal, abandonaram seus sítios natais para tentar a vida nas metrópoles. A soma do crescimento natural com a chegada das levas de mão-de-obra do interior é que possibilitou a proliferação das megaconcentrações urbanas poucas vezes vistas anteriormente na história.


O desconforto com as massas 

Para os antigos citadinos causava estranheza e repulsa a repentina mudança que o crescimento econômico e populacional trouxe. Do dia para noite, em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Milão, Manchester ou Liverpool, os cidadãos tiveram que passar a conviver com estranhos que ninguém sabia de onde vieram. Desconheciam modos urbanos, em geral eram rudes e incivilizados, agrupavam-se nos arrabaldes em meio à sujeira e à doença em casebres medonhos e fétidos, sem higiene alguma, e pareciam não se incomodar em conviver com esgotos ao ar livre. Manifestavam dificuldades de adaptação a uma cidade erguida com pedras e não com troncos e palha como o local de onde vieram.

Quem por primeiro usou o termo "classes perigosas" foi H. A. Frégier, chefe de polícia francês no livro Des classes dangereuses de la population dans les grandes villes et des moyens de lês rendre meilleures (1840), para definir setores sociais propensos à criminalidade. O medo passou a ser constante para os habitantes das classes média e alta da cidade. Assaltos e roubos tornaram-se habituais. O crime vicejou como se fora um envenenamento da civilidade. A superpopulação em determinados bairros da periferia acoitava e irradiava ondas pestíferas que enchiam os demais de pavor. Surgiam as classes perigosas (ver Louis Chevalier: Les classes labouriesues et les classes dangereuxes ).


O gênio contra a massa 

Coube ao escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle, fortemente influenciado pelo romantismo alemão, com sua Teoria do Grande Homem exposta no livro Heroes, Hero-worship, and the Heroic in History (Sobre Heróis: O heroísmo e a veneração do herói na História, 1841), tratar de contrapor a figura do herói à presença ascendente das massas.

Para ele, o homem comum, a célula da massa, de nada valia a não ser como peão ou degrau para assegurar a projeção do herói e respaldar sua realização. Este é quem fazia a História. A consequência política disto foi sua condenação à democracia, "império do vulgar" na terra, e a consequente apologia da elite.

Vários outros escritores alemães que o antecederam já haviam manifestado sua ojeriza à presença da massa e do ser anônimo que proliferava naquela época, enaltecendo ao revés o Ser Excepcional. Nietzsche, após ter ficado profundamente chocado com os eventos trágicos da Comuna de Paris, foi quem melhor revelou este pavor à multidão, apostando no surgimento futuro de um übermensch, o Super-Homem (Assim falou Zaratustra, 1888). O fenômeno extraordinário que, desprezando as normas de conduta que regiam a maioria, conduziria o destino da humanidade no futuro (Além do Bem e do Mal). O pensamento contra-revolucionário e elitista dele forneceu os argumentos para uma formidável literatura anti-massa que surgiu na transição do século 19 para o 20.


O irracionalismo da massa

Coube ao sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, por meio do seu famoso ensaio La psychologie des foules (Psicologia das Multidões, de 1895), demonizar as massas. Para ele, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, os imensos ajuntamentos humanos que se decidiam a marchar e a protestar nada mais eram senão que o irracionalismo posto em ação. Mesmo quando se mobilizavam por uma causa patriótica ou altruísta nada traziam de bom, a não ser a depredação e a desordem. Quando não a subversão social.

E isto, entre outras causas, se devia a metamorfose que ocorre com o indivíduo que adere à multidão contestadora. De alguém tímido, acanhado, normalmente respeitador das regras, ele, imerso em meio aquele mar humano que seguia pela avenida a fora que o tornava um anônimo, libertava-se facilmente das convenções e das noções de civilidade que recebera. Simplesmente sucumbe ao número, à "alma da multidão".

O criminalista e penalista italiano Scipio Sighele, discípulo de Cesare Lombroso, retomou o tema e o ampliou no seu ensaio La folla delinquente (As classes criminosas, 1891). Não tinha contemplação para com as multidões, qualquer ajuntamento além do razoável tendia inevitavelmente ao comportamento criminoso. Logo nos deparamos com sua vociferação, destravado, a fúria vai tomando conta dele e não tarda para que junte pedras pelo chão para lançá-las contra as vitrines ou contra as forças policiais. O manso vira fera. A massa, aceleradamente excitada, facilmente regride ao comportamento de uma manada, todos agindo do mesmo modo instintivo sem o amparo de qualquer raciocínio, e o indivíduo, como que um possesso, retorna ao estado da natureza hobbesiana ("o lobo do homem é o outro homem").


Massa e Revolução 

A surpreendente Revolução Russa de janeiro de 1905 abriu intenso debate em meio ao movimento socialista europeu, particularmente entre os teóricos social-democratas alemães (reformistas ou revolucionários) e os socialistas russos que participaram ativamente dos eventos que varreram o Império do Czar durante aquele ano. Perdida a Guerra russo-japonesa (1904), o governo de Nicolau II, logo em seguida ao massacre do Domingo Sangrento do dia 9 de janeiro (centenas de manifestantes foram fuzilados pela Guarda Cossaca em frente ao palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo), se viu frente a uma violenta contestação.

Não houve bairro proletário da Rússia, pelo menos nos grandes centros urbanos, que não tenha saído em peso às ruas para demonstrar sua raiva. Greves espontâneas eclodiram por todos os lados. As queixas pela inépcia militar logo se transferiram para uma generalizada confrontação contra o regime czarista como um todo. Tornou-se o maior levante de massas da Europa de então, muitas vezes superior à Comuna de Paris de 1871.

Rosa Luxemburgo, a famosa social-democrata de esquerda, judia polonesa que militava na Alemanha, exultou com o "espontaneismo" das classes trabalhadoras russas. Vislumbrou naquelas ações o futuro da Revolução Socialista. Concluiu que era delas de onde partiria a iniciativa da derrubada da ordem aristocrática/burguesa e não das direções acomodadas dos partidos socialistas europeus, um tanto paralisados pelos cuidados burocráticos e pela vida rotineira.

Vladmir Lenin chegou a outra conclusão. De nada serviam aquelas explosões espontâneas se não houvesse uma organização disciplinada e hierarquizada que desse um sentido àquilo, que conduzisse aquela enorme energia despertada pela multidão em fúria e disposta a tudo para tomar o poder pela força.

Anos mais tarde, Trotsky, que aderira a Lenin, explicou no seu livro História da Revolução Russa – vol. I, detalhadamente a concepção leninista por meio da metáfora "do vapor e do êmulo". A massa em ebulição gerava uma enorme energia, mas que se não houvesse um êmulo para dirigi-la, toda a pressão gerada em pouco tempo se esvaía. O espontaneismo é fantástico, mas em nada redunda de positivo se não for orientado para um determinado fim (no caso, tomar de assalto o poder). Como os bolcheviques terminaram fazendo em outubro de 1917, na Segunda Revolução.


A massa contra-revolucionária 

Certamente que um dos mais desconcertantes fenômenos políticos contemporâneos foi a plena adesão das massas aos movimentos nazi-fascistas que surgiram a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Até então as aparições das multidões nas ruas em protesto sempre eram tidas como uma ameaça vinda da esquerda, dos que empunhavam as bandeiras vermelhas ou negras da revolução comunista ou anarquista. Eis que, acaudilhadas por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha e por epígonos deles em outras partes do mundo, as massas postaram-se em marcha a serviço da contra-revolução. Abrigaram-se sob as bandeiras da antidemocracia e do anticomunismo para a mais total perplexidade dos teóricos da esquerda que até hoje jamais conseguiram elucidar esse mistério.


BIBLIOGRAFIA:

Canetti, Elias. Massa e Poder. Brasília: Editora da Universidade de Brasília/Melhoramentos, 1981.

Chevalier, Louis. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris pendant la première moitié du XIXe siècle. Paris. Edition Perrin, 2002.

Engels, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007.

Gasset, José Ortega y. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Hook, Sidney. O herói na História. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1962.

Hugo, Victor. Os miseráveis. São Paulo: Hemus, 1979.

Le Bon, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Marx, Karl. A Guerra civil na França, in Obras Completas. Lisboa: Edições Avante; Moscou: Editorial Progresso, vol II, 1983.

Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multidão - Guerra e democracia na era do império. São Paulo: Editora Record, 2005.

Reich, Wilhelm. Psicologia das massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

Sighele, Scipio. A multidão criminosa. Ensaio de Psicologia Coletiva. Imprenta: Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954.

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Tchakhotine, Sergei. A mistificação das massas pela propaganda política. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.

Trotski, Léon. Histoire de la Révolution Russe. Paris: Éditions du Seuil, 1950.



domingo, 14 de junho de 2015

Sugestão de filme: "Parágrafo 175" (2000)

A perseguição sofrida pelos judeus na Alemanha nazista é um tema bastante conhecido. De fato, muito já se escreveu sobre o Holocausto. E muitos foram os filmes que trataram do extermínio dos judeus na Alemanha sob o governo de Adolf Hitler. Mas os nazistas não perseguiam apenas judeus. Como pode ser visto na imagem abaixo, dissidentes políticos, criminosos, testemunhas de Jeová e outros grupos também sofriam com a violência imposta pelos adeptos do nazismo. Os judeus não foram os únicos a serem enviados aos campos de concentração.

Na imagem acima, além da suástica, vê-se os triângulos de identificação, 
que eram usados para identificar o grupo ao qual pertencia o
prisioneiro do campo de concentração.

Entre os grupos perseguidos pelos nazistas, chama a atenção aquele identificado pelo triângulo rosa invertido, o dos homens homossexuais. Este é um assunto que ainda não é abordado com muitos detalhes em livros didáticos e, sendo assim, gostaríamos de sugerir aqui um filme que pode ser útil no estudo deste tema: o documentário LGBT Parágrafo 175, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, que foi lançado no ano 2000. O título do filme faz uma referência ao parágrafo/artigo de número 175 do Código Penal Alemão de 1871, que estabelecia o seguinte: "Um ato sexual antinatural entre pessoas de sexo masculino ou por humanos com animais é punível com a prisão e a perda dos direitos civis pode lhe ser imposta". Em outras palavras, a homossexualidade era vista como um crime na Alemanha desde o século XIX.

Qual terá sido então o modo como o nazismo lidou com os homossexuais? É a essa pergunta que Parágrafo 175 procura responder. Logo no início, o documentário nos informa que mais de 100.000 homens foram presos na Alemanha durante os anos do nazismo, acusados de serem homossexuais. Destes, entre 10 e 15 mil chegaram a ser enviados para campos de concentração, onde muitos morreram. Quando o filme foi produzido, apenas 10 dos sobreviventes ainda estavam vivos, e são os depoimentos de alguns destes homens que o documentário explora para investigar a perseguição sofrida pelos homossexuais durante o regime de Adolf Hitler.

Nos depoimentos presentes no filme é visível o desconforto sentido pelos entrevistados - todos idosos - ao lembrar de acontecimentos tão terríveis. O passado incomoda e lembrar dele dói - um dos entrevistados chega a chorar durante a sua fala -, todavia, é impossível esquecer o que aconteceu e seguir em frente como se nada tivesse ocorrido. Daí decorre a necessidade de narrar o trauma, por mais dolorosa que possa ser esta tarefa.

Para além da questão em torno da memória e do esquecimento na História, o filme Parágrafo 175 oferece uma série de elementos para se pensar como viviam os homossexuais na Alemanha da primeira metade do século XX. A Berlim dos anos 1920 é descrita como o "paraíso dos homossexuais", onde havia vários bares e bailes frequentados por gays e lésbicas, quando o artigo 175 do Código Penal Alemão era ignorado na prática por muitas pessoas. Assim, os entrevistados recordam aqueles anos anteriores ao nazismo, destacando suas primeiras experiências sexuais e seus primeiros relacionamentos amorosos em um ambiente de relativa liberdade. Todavia, com o advento do regime de Hitler na Alemanha, a situação dos homossexuais mudou. Começaram as perseguições, as prisões, os espancamentos e os assassinatos. Os nazistas fecharam bares e boates gays. A Juventude Hitlerista perseguia violentamente os homossexuais. Os homens judeus que também eram gays sofriam com uma dupla perseguição.

O documentário nos informa que a Gestapo chegou a criar um departamento para combater o "crime da homossexualidade". Vale salientar também as diferenças no tratamento da homossexualidade masculina e da homossexualidade feminina. Enquanto os homens gays eram vistos como portadores de uma doença contagiosa que precisava ser erradicada a todo custo, o lesbianismo era visto, por sua vez, como uma condição temporária e curável. Poucas lésbicas foram enviadas para os campos de concentração, em comparação ao número de homens homossexuais. Muitas mulheres lésbicas foram para o exílio, casaram-se com homens gays e até sumiram da vista pública. Nos campos de concentração, os homens gays eram agredidos, violentados, mortos e até usados em experiências científicas (alguns foram castrados).

O fim da Segunda Guerra Mundial e a derrocada do nazismo na Alemanha não melhoraram de imediato a situação dos homossexuais naquele país. Afinal, o artigo 175 continuou em vigor depois da guerra por mais alguns anos. No final do século XX, época da produção do filme Parágrafo 175, nenhum dos homossexuais perseguidos pelo nazismo que sobreviveram havia recebido ainda algum tipo de reconhecimento ou indenização.

O filme de Rob Epstein e Jeffrey Friedman nos permite pensar sobre um tema que nem sempre é tratado com a devida atenção pelos historiadores e, sobretudo, pelos professores de História da Educação Básica. Falar da perseguição sofrida pelos homossexuais durante o nazismo é importante porque nos instiga a pensar sobre até que ponto pode chegar a intolerância. Assim, Parágrafo 175 não é apenas um filme instigante, mas extremamente necessário para a nossa atualidade, uma vez que várias formas de preconceito ainda persistem. Recomendado.

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O site YouTube disponibiliza na íntegra o filme Parágrafo 175 (acesso no dia 14 de junho de 2015). Vale a pena assistir!


terça-feira, 26 de maio de 2015

Totalitarismos no século XX: Fascismo italiano, Nazismo alemão, Stalinismo soviético e o surgimento de ditaduras na Península Ibérica

Após o término da Primeira Guerra Mundial, em 1918, muitas pessoas estavam desiludidas com o presente e sem muitas esperanças em relação ao futuro. Na África, continente que estava subjugado por nações europeias, surgiram diversos movimentos que passaram a defender o fim do colonialismo. Nos países da América Latina, os problemas sociais se avolumavam e ocorriam revoltas ou até guerras civis. Por sua vez, os europeus se viam na difícil tarefa de reconstruir seus países após a perda de muitas vidas humanas na Grande Guerra. Foi nesse cenário que muitos passaram a desconfiar do liberalismo, pois esse sistema político não conseguiu impedir a guerra e nem resolver todos os problemas criados pelo conflito. Assim, no lugar do regime liberal, certos grupos passaram a defender um Estado nacional mais forte. No leste, a Rússia (União Soviética a partir de 1922) com o seu Estado forte parecia apontar um caminho de igualdade e justiça social, chamando a atenção de trabalhadores de todo o mundo.

Apesar das diferenças, os movimentos autoritários que surgiram na Europa e o governo soviético centralizado em Stalin a partir de 1924 convergiam para um ponto em comum, a saber, o totalitarismo. Essa nova forma de poder opunha-se ao liberalismo e era bem diferente dos outros regimes políticos anteriores, até mesmo do absolutismo monárquico. O totalitarismo funda-se essencialmente no terror permanente contra o indivíduo. Por meio da repressão, da propaganda ideológica e da supressão dos direitos individuais e coletivos, o Estado totalitário procura controlar a vida pública e a vida privada dos cidadãos. Nessa forma de organização do Estado, o poder está concentrado nas mãos de poucas pessoas, em geral organizadas em torno de um partido único. Normalmente, esse partido tem uma base de massas, mas são apenas os seus dirigentes que tomam as decisões, sendo que a máquina do partido confunde-se com o próprio aparelho do Estado. O Estado totalitário usa os meios de comunicação para difundir sua ideologia e exaltar o governo e a figura do líder, visto como uma pessoa excepcional e dotada de qualidades superiores e quase sobrenaturais. A ideia de “pátria” é importante no totalitarismo, a nação está acima de tudo e de todos. O patriotismo extremo é acompanhado pelo ódio aos estrangeiros e pela militarização de toda a sociedade.

No totalitarismo, a ênfase na unidade da nação resulta na defesa da ditadura. O liberalismo é visto como uma ideologia prejudicial, pois leva ao individualismo e à desunião, decorrente dos embates entre as distintas opiniões que se manifestam em qualquer regime democrático. Em alguns dos Estados totalitários surgidos no século XX, o marxismo era tido como um inimigo, pois pensava-se que o domínio de uma classe – o proletariado – sobre as outras levaria à divisão da sociedade e não à união.

Utilizando-se da censura, da delação e da violência – normalmente praticada contra as minorias, como judeus, imigrantes, ciganos, homossexuais –, os regimes totalitários se estabeleceram em alguns países da Europa depois da Primeira Guerra Mundial. Era comum em tais regimes a noção de que existiria uma “raça” superior a todas as outras, raça essa que era representada pelo próprio Estado totalitário. Era com essa ideia que os totalitarismos perseguiam as minorias, consideradas “inferiores”.

Três famosos exemplos de totalitarismo foram o fascismo italiano, o nazismo alemão e o stalinismo soviético. Houve ainda a instauração de regimes autoritários inspirados principalmente no fascismo e no nazismo, em especial na Espanha e em Portugal.


O fascismo italiano

Ao final da Primeira Guerra Mundial, a Itália estava do lado dos países vencedores, mas ficou insatisfeita com os resultados do conflito. Com 670 mil mortos e um milhão de feridos, os italianos não obtiveram as conquistas territoriais desejadas, uma vez que não conseguiram anexar nenhuma das antigas colônias alemãs na África e nem regiões mais próximas nos Balcãs. Surgiu então um profundo ressentimento contra as potências democrático-liberais, ressentimento esse que foi acompanhado por uma crescente insatisfação social contra a inflação, a carestia de vida e o desemprego provocados pela guerra. Três milhões de trabalhadores urbanos participaram de greves entre 1919 e 1920. A classe média ficava cada vez mais com a sensação de que o governo perdia o controle.

Foi nesse contexto que um ex-combatente chamado Benito Mussolini (1883-1945) fundou um grupo nacionalista de extrema direita conhecido como Fascio di Combattimento (Feixe de Combate), em 1919. O símbolo do grupo era um feixe de varas (fascio) atado à lâmina de um machado, um dos emblemas do Império Romano e que representava a união corporativa da sociedade em torno do Estado. Mussolini propunha reconquistar o antigo poderio de Roma. Divulgando suas ideias de teor ultranacionalista, anticomunista e antiliberal, os Fasci di Combattimento (“Feixes” de Combate, no plural) espalharam-se por toda a Itália. Desejavam instaurar um governo forte, autoritário e capaz de combater os grupos de esquerda (comunistas e socialistas), dando um fim às greves e às manifestações operárias, vistas como desordem. Aqui, o Estado liberal era visto como fraco, daí a necessidade de sua substituição por um Estado totalitário.

O fascismo prometia o advento de uma nova civilização, exaltando a vontade, o sangue e o sentimento. A ação instintiva e agressiva era valorizada, em detrimento da discussão intelectual e da análise crítica. O líder e o partido saberiam o que era melhor para a nação e aliviariam o indivíduo da necessidade de tomar decisões. O fascismo atraiu, sobretudo, aqueles que temiam tanto o grande capitalismo quanto o socialismo, como pequenos comerciantes, artesãos, funcionários, empregados de escritórios e camponeses de alguns recursos. Muitos alimentavam a esperança de que o fascismo pudesse proteger a todos da competição das grandes empresas e impedir o advento de um Estado marxista (visto como uma ameaça para a propriedade privada).

No início da década de 1920, os Fasci di Combattimento contavam com cerca de 320 mil adeptos, além de milícias organizadas e uniformizadas que espalhavam o terror pelo país. Os camisas negras, como ficaram conhecidos, perseguiam e matavam militantes de esquerda, dissolviam manifestações operárias e intimidavam políticos de orientação democrática. Diante desse comportamento, o governo italiano nada fazia.

Os Fasci di Combattimento foram unificados em torno de Mussolini no ano de 1921, fato que permitiu a constituição do Partido Nacional Fascista. Desempregados, ex-combatentes, pessoas da classe média, industriais e proprietários de terras que temiam o advento de uma revolução comunista na Itália formavam a base de apoio a esse partido. Quando ocorreram as eleições parlamentares de 1921, foram eleitos como deputados 35 fascistas, entre os quais estava o próprio Mussolini. Em uma demonstração de força, 30 mil camisas negras chefiados por Mussolini invadiram a capital italiana em 1922. A Marcha sobre Roma ocupou prédios públicos e estações ferroviárias. O rei Vitor Emanuel III acabou convidando Mussolini para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Tal fato representou a chegada do fascismo ao poder.

Inicialmente, Mussolini governou em conjunto com outras forças políticas, entre os anos de 1922 e 1925. Todavia, ele foi aos poucos ampliando os seus poderes e se transformando em um ditador, valendo-se do uso de fraudes eleitorais, perseguições e assassinatos. O Parlamento italiano perdeu a sua autoridade. Os partidos políticos foram extintos, com exceção do Partido Nacional Fascista. Prefeitos e chefes locais perderam os seus cargos e foram substituídos por seguidores de Mussolini. Uma polícia política secreta foi criada para perseguir opositores do regime. Cerca de 300 mil pessoas preferiram refugiar-se no exterior. Uma forte censura foi implantada aos meios de comunicação. Qualquer organização que não fosse fascista passava a ser considerada ilegal. Il duce (O Líder, O Chefe), como Mussolini era conhecido, centralizou todo o poder já no início da década de 1930.

De acordo com os fascistas, era fundamental doutrinar as crianças e os jovens. Nessa perspectiva, nas escolas e universidades os professores se viam obrigados a exaltar o regime, suas realizações e os aspectos da vida do duce. Os alunos, por sua vez, eram incentivados a denunciar os docentes que demonstrassem uma atitude mais crítica em relação ao regime. Os manuais escolares diziam que Mussolini era o “salvador da pátria”. Organizações foram criadas para promover festas, competições, acampamentos e atividades ao ar livre que procuravam transmitir a ideologia fascista aos mais jovens. Mussolini usou os meios de comunicação de massa para conquistar o apoio da população: jornais, rádios e documentários divulgavam os feitos do governo e cultuavam a figura do líder. O duce era normalmente representado como um homem viril, atlético e trabalhador. Mussolini era fotografado de peito nu ou usando uniforme com um capacete de aço. As suas imagens que eram divulgadas normalmente mostravam o duce cavalgando, dirigindo carros velozes, pilotando aviões e brincando com filhotes de leões. O discurso nacionalista afirmava a necessidade de reerguer o país, retomando o passado grandioso da Itália, em especial a fase do Império Romano. O cinema e o rádio divulgavam a ideia de que ele teria erradicado o crime, a pobreza e as tensões sociais.

Houve uma aproximação entre o governo e a Igreja Católica quando Mussolini firmou o Tratado de Latrão com o Papa Pio XI, em 1929. Por meio do Tratado, o ensino religioso tornou-se obrigatório em todas as escolas secundárias e os Estados Pontifícios foram reduzidos ao Vaticano, o que deu fim a uma longa disputa com a Igreja. A política fascista conseguiu se afirmar entre a população italiana por meio da intervenção do Estado na economia, o que ocorreu principalmente no período posterior ao crash da Bolsa de Nova York. O Estado italiano conseguiu reduzir o desemprego por meio de um programa de obras públicas e do incentivo à produção de armas. Ademais, a instituição da Carta del Lavoro (Carta do Trabalho), em 1927, combinou algumas concessões aos trabalhadores com medidas de controle policial sobre eles. Ao mesmo tempo em que os trabalhadores passavam a contar com seguro contra acidentes de trabalho e jornada de oito horas, as greves foram proibidas e os sindicatos extintos. O documento estabeleceu uma concepção corporativista da legislação trabalhista.

Mussolini ordenou a invasão da Etiópia em 1935. Tratava-se de um país africano que ainda não estava dominado pelos europeus. Em 1936, o duce interveio na Guerra Civil Espanhola, apoiando as forças do general Francisco Franco. Conforme o governo de Mussolini se consolidava, ditaduras de direita foram surgindo em outros países europeus, tais como Portugal, Hungria e Polônia. Em 1933, o nazismo chegou ao poder na Alemanha.


O nazismo alemão

A Alemanha passou a enfrentar uma grave crise após o fim da Primeira Guerra Mundial. O kaiser Guilherme II renunciou e saiu do país em direção à Holanda, em 1918. Sob o impacto da Revolução Russa, trabalhadores alemães saíam às ruas e os soldados se amotinavam. Operários, soldados e marinheiros tentaram tomar o poder por meio de uma insurreição armada, em 1919. Os socialistas da Liga Espartaquista estiveram à frente da rebelião, liderados por Rosa Luxemburgo (1871-1919) e Karl Liebknecht (1871-1919). A revolta acabou fracassando, e seus dois líderes foram presos e executados.

No mesmo ano de 1919, foram realizadas eleições para uma assembleia constituinte, reunida na cidade de Weimar. A nascente República de Weimar (1919-1933) era a primeira experiência democrática da história da Alemanha e se caracterizava como uma república federativa parlamentarista. O presidente da República era o chefe de Estado e tinha o poder de escolher o chanceler (primeiro-ministro), que desempenhava o papel de chefe de governo. Tal escolha dependia do partido que tivesse a maioria no Reichstag, o Parlamento. Os primeiros anos da nova República foram difíceis, pois o país estava sem dinheiro para pagar as indenizações de guerra e acabou aumentando a emissão de dinheiro, o que fez a população sofrer com uma das maiores inflações já vistas. Os preços das mercadorias chegavam a subir diversas vezes ao longo de um único dia. Se em abril de 1922 um dólar valia mil marcos, em setembro de 1923 um dólar já era equivalente a 350 milhões de marcos. A injeção de capitais norte-americanos ajudou a economia alemã a se estabilizar a partir de 1924, todavia, a população alemã continuava insatisfeita com os termos dos tratados de paz que puseram um fim à Primeira Guerra Mundial.

O sentimento de orgulho nacional ferido estimulou a formação de grupos ultranacionalistas interessados em instaurar um Estado forte, capaz de unificar os alemães e lutar pela recuperação da grandeza do país. Um desses grupos era o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (que, em alemão, originaria a expressão nazista), criado em 1919, liderado por Adolf Hitler (1889-1945), um soldado austríaco que havia lutado no Exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial, e que contava com o apoio de comerciantes arruinados pela crise, desempregados, ex-militares, etc. Assim como os fascistas italianos, os nazistas alemães formaram grupos paramilitares. As milícias nazistas conhecidas como SA (sigla para “Seção de Assalto”, em alemão) reprimiam violentamente os comunistas e os socialistas, garantindo também a segurança dos comícios nazistas. Inspirando-se na Marcha sobre Roma de Mussolini, o líder nazista Adolf Hitler tentou dar um golpe de Estado na cidade de Munique, 1923, contando com a presença de 3 mil militantes. Essa intentona – ou putsch de Munique, como ficou conhecida – fracassou e Hitler foi preso.

Ele ficou na cadeia por um tempo e ali escreveu o livro Mein Kampf (Minha Luta), onde sistematizou a ideologia nazista. Hitler defendia a superioridade dos arianos – um povo puro e do qual descenderiam os alemães – em relação a judeus, eslavos, ciganos, negros e outros povos. Segundo Hitler, judeus e comunistas eram os responsáveis por praticamente todos os males do mundo. Os alemães teriam ainda, segundo a sua perspectiva, o direito a um espaço vital, um território na Europa onde viviam os povos germânicos. Isso significava que a Áustria e a região tchecoslovaca dos Sudetos, por exemplo, deveriam ser anexadas à Alemanha.

O apoio a Hitler foi pequeno no início. Contudo, a partir de 1930, com a Grande Depressão provocada pelo crash da Bolsa de Nova York, crise que arruinou a classe média e fez milhões de trabalhadores alemães ficarem desempregados, a situação começou a mudar. De fato, a crise econômica aumentou o sentimento de humilhação que atingia os alemães desde 1918. As pessoas ansiavam pelo aparecimento de um líder carismático que pudesse resgatar a “honra nacional” e colocar a Alemanha novamente entre as grandes potências, afastando assim o “perigo comunista”. Exaltando a “raça ariana”, Hitler parecia ser este líder predestinado e, desta maneira, o Partido Nazista cresceu vertiginosamente, conquistando o apoio da classe média, da burguesia industrial e do empresariado. Entre 1930 e 1932, o número de deputados nazistas no Parlamento alemão cresceu de 170 para 230. Os nazistas formavam a maior bancada, mas a maioria ainda estava com os deputados comunistas e socialistas. Todavia, a esquerda não conseguiu estabelecer uma aliança e, em 1933, o presidente alemão – o marechal Paul von Hindenburg – convidou Hitler para ocupar o cargo de chanceler (primeiro-ministro) de seu governo.

O ano de 1933, portanto, marcou a chegada dos nazistas ao poder na Alemanha, o que deu início ao Terceiro Reich alemão (o Primeiro foi o Sacro Império Romano-Germânico e o Segundo foi o da unificação alemã, conquistada por Bismarck em 1870). O palácio do Reichstag foi incendiado em 1933 e Hitler culpou os comunistas, o que lhe deu o respaldo para perseguir os partidos de esquerda. No ano seguinte, o presidente Hindenburg morreu, e Hitler acabou unificando os cargos de chanceler e de presidente, adotando o título de führer (chefe). No controle absoluto do poder, Hitler anulou a Constituição de 1919, instituiu a censura e suspendeu os direitos e garantias civis. Membros da Gestapo – a polícia secreta – e das SS (“Tropas de Proteção”, inicialmente funcionavam como a guarda pessoal de Hitler) perseguiam, prendiam e torturavam padres, ciganos, homossexuais, judeus, líderes sindicais, comunistas e opositores do regime. Alcoólatras, doentes mentais e deficientes físicos eram internados à força e submetidos a cirurgias de esterilização. Houve durante o nazismo na Alemanha a tentativa de se “purificar a raça ariana” por meio do controle genético. A reprodução deveria ocorrer apenas entre pessoas da raça ariana e a miscigenação com pessoas de “raças inferiores” estava proibida. Foi nesse sentido que se deu a “política de eliminação de incapazes”.

A repressão era uma marca do regime nazista e era baseada na SA, na Gestapo e na SS. A SA, que havia sido útil na época em que os nazistas lutavam para desestabilizar o governo, acabou se tornando algo inconveniente quando Hitler assumiu o governo. O Exército alemão, que temia que a SA passasse a ser a força armada oficial do Estado nazista, começou a pressionar Hitler pela extinção da milícia. Em 1934, Hitler ordenou a prisão e o assassinato dos principais líderes da SA e, foi a partir disso, que criou-se a SS, o braço armado do Partido Nazista que estava sob o comando de Heinrich Himmler e que agia sem a intervenção do Exército alemão. Era a SS que controlava a Gestapo, a polícia secreta do Estado nazista que investigava e identificava os opositores do regime por meio de torturas em seus interrogatórios. Quem fosse considerado perigoso à dominação nazista era executado sem julgamento.

Em meio a este clima extremamente tenso, intelectuais, cientistas e artistas contrários ao nazismo acabaram exilando-se no exterior, entre os quais o físico Albert Einstein (1879-1955), o dramaturgo Bertolt Brecht (1898-1956) e o escritor Thomas Mann (1875-1955). Aqueles que insistiam em permanecer no país corriam o risco de ser enviados a campos de concentração. Em 1933, havia cerca de 40 mil presos políticos nesses locais. O ideal artístico nazista procurava resgatar a arte clássica e se opunha às produções modernas – vistas como “degeneradas”. Houve a proibição de obras ligadas ao Cubismo, Impressionismo e Expressionismo. O discurso oficial insistia na ideia de que todas as grandes realizações humanas tinham sido obra dos arianos. No que concerne à filosofia, à literatura e à ciência, diversos autores foram descartados. Obras de judeus como Einstein e Freud, por exemplo, foram proibidas, sendo comum a queima de livros de autores judeus.

A partir de 1934, o antissemitismo se tornou uma política oficial do Estado: os judeus ficaram impedidos de trabalhar em órgãos públicos, os seus bens foram confiscados e eles foram proibidos por meio das Leis de Nuremberg (1935) de se casar com pessoas consideradas arianas e de ter empregados alemães em suas casas. A propaganda nazista divulgava os judeus como cruéis e gananciosos. Houve campanhas nas ruas contra empresas pertencentes a judeus e ocorreram agressões a judeus sem que a polícia reprimisse. Um exemplo disso foi a Noite dos Cristais, ocorrida em 9 de novembro de 1938, quando em várias cidades alemãs e austríacas a SS comandou a destruição de residências e lojas pertencentes a judeus, a depredação de sinagogas e a prisão de muitos judeus. Houve muitos mortos. Os vidros despedaçados das janelas deram o nome a esse triste episódio de intolerância. Os judeus foram responsabilizados pela arruaça e acabaram sendo expropriados de seus negócios e obrigados a viver em áreas confinadas – os guetos –, usando em suas roupas uma estrela amarela. Essa política de segregação ficaria ainda mais forte quando os judeus foram proibidos de frequentar certos lugares (universidades, restaurantes, hospitais, teatros e campos de atletismo, por exemplo) e, depois, quando eles começaram a ser enviados para os campos de concentração – locais de extermínio em massa.

Ao terror praticado pelo regime somou-se a propaganda política, que ficou a cargo do ministro Joseph Goebbels (1897-1945). O Ministério do Esclarecimento Popular controlava a imprensa, a publicação de livros, o rádio, o teatro e o cinema. Goebbels revelou-se um mestre da propaganda e mantinha as emoções em permanente mobilização. A propaganda foi crucial na consolidação do nazismo, pois ela possibilitava a transmissão da ideologia nazista por meio de documentários cinematográficos, programas de rádio, pôsteres e cartazes. Em comícios, Hitler reunia milhares de pessoas ao seu redor. Nestes verdadeiros espetáculos, tudo era minuciosamente preparado para demonstrar a grandeza do führer e do povo alemão.

A doutrinação envolvia também as crianças na sala de aula. Os mais jovens aprendiam desde cedo a ter orgulho de pertencer à raça ariana e a venerar e prestar obediência ao führer. Os professores eram instruídos a respeito de como ensinar certas matérias e, para garantir a obediência às determinações nazistas, os alunos tinham que denunciar os mestres que lhes parecessem suspeitos. As salas de aula eram decoradas com retratos de Hitler e bandeiras nazistas. Os currículos escolares privilegiavam o treinamento físico, os esportes e a “ciência racial”. Aos dez anos de idade, os meninos eram alistados e, depois de passarem por provas esportivas, ingressavam no Deutsch Jungvolk (Jovem Povo Alemão), onde permaneciam por quatro anos e tinham todos os seus progressos físicos e ideológicos registrados em cadernetas. Por sua vez, quando chegavam aos dez anos de idade, as meninas entravam nas Jungmädel (Jovens Virgens). Meninos e meninas tinham que aprender quais eram os “deuses e heróis germanos” e os “grandes alemães” (como Frederico, o Grande, e Bismarck), bem como a história dos “vinte anos de combate pela Alemanha” (os “anos de luta” do nazismo) e tudo a respeito de “Adolf Hitler e seus companheiros de luta”. Quando completavam 14 anos de idade, eles entravam nas Juventudes Hitleristas. Aos dezoito, estavam aptos a entrar em outras estruturas do partido, como a Frente de Trabalho, as SA e as SS. Cursos sobre “o combate pelo Reich” e a “obra de Hitler” eram oferecidos aos jovens entre 14 e 18 anos. Temas como esses também faziam parte de transmissões de rádio voltadas aos jovens. Aqueles que se recusassem a entrar nas Juventudes Hitleristas não podiam se matricular em escolas e nem conseguir empregos.

O Partido Nazista abriu agências em 83 países, incluindo o Brasil, onde uma delas foi criada em 1928 e era sediada na cidade de São Paulo. A estrutura era similar à do Partido Nazista na Alemanha, ou seja, havia chefes nacionais, regionais e locais, além de organizações paralelas como a Juventude Hitlerista, a Associação Nazista das Mulheres e a Frente Alemã. No Brasil, o Partido Nazista não ficou apenas em São Paulo, mas abriu sedes em 17 estados brasileiros, muitas delas nas regiões sul e sudeste. Em 1937, os nazistas chegaram a contar com 2,9 mil filiados brasileiros, muitos dos quais eram imigrantes alemães, simplesmente o maior número em um partido nazista fora da Alemanha. Já no Estado Novo, em 1938, Getúlio Vargas extinguiu o partido do país, que continuaria, todavia, funcionando clandestinamente por mais alguns anos. Os nazistas brasileiros também usavam a imprensa para divulgar suas ideias. Em 1932, por exemplo, começou a circular o jornal Deutscher Morgen (Aurora Alemã), que encerraria suas atividades apenas em 1941. O periódico divulgava as ideias nazistas, informava a respeito dos fatos ocorridos no III Reich e divulgava os pronunciamentos de Hitler e de outras autoridades nazistas.

Na Alemanha, a popularidade do regime nazista cresceu graças à recuperação econômica do país. Tal recuperação veio com a intervenção do Estado na economia, que realizou obras públicas, incentivou a indústria de armamentos e estabeleceu formas de planejamento econômico. O governo nazista contou com a ajuda de grandes capitalistas nacionais e internacionais. Hitler entusiasmou-se com o crescimento econômico alemão e passou a violar as determinações do Tratado de Versalhes, que havia dado um fim à Primeira Guerra Mundial. A Alemanha foi remilitarizada e deu início a uma política expansionista, o que abriria caminho para a Segunda Guerra Mundial.


O stalinismo soviético

Após a morte de Lênin, o comando da União Soviética foi assumido oficialmente por Josef Stalin, em dezembro de 1925. Stalin centralizou o poder, esmagou a democracia no interior dos sovietes, suprimiu os direitos dos cidadãos, prendeu e matou seus opositores, criando assim um Estado totalitário de partido único, o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), bastante rígido e burocrático.

Do ponto de vista da organização da economia, Stalin colocou em prática, a partir de 1928, os planos quinquenais, constituídos por planos de desenvolvimento baseados na planificação econômica. A economia soviética foi toda estatizada, o que deixou a Nova Política Econômica (NEP) de Lênin para trás. Houve muitos investimentos do governo na indústria pesada de máquinas e equipamentos, em detrimento da indústria de bens de consumo. Foram construídas diversas siderurgias, indústrias químicas e petrolíferas, fábricas de tratores e de equipamentos agrícolas. A produção de aço aumentou de 1,4 milhão de toneladas em 1922 para 38,1 milhões em 1953. O governo adotou a política de coletivização forçada no campo, estatizando propriedades rurais que eram agora transformadas em grandes fazendas coletivas (sovkhoses) e grandes cooperativas (kolkhoses). Foi promovida também uma reforma educacional que praticamente acabou com o analfabetismo no país. Os sistemas de transporte, habitação e saúde tornaram-se acessíveis à população.

Por outro lado, os direitos individuais e coletivos foram suprimidos. As greves foram proibidas e o terror de Estado tornou-se um dos componentes da vida soviética. Opositores do regime e até antigos aliados eram agora perseguidos pela polícia secreta. Mais de 5 milhões de soviéticos foram detidos entre 1936 e 1938, muitos deles acabaram executados. Em um único dia, cerca de mil pessoas podiam ser torturadas e mortas. No campo, aqueles camponeses que se manifestaram contra a coletivização forçada foram presos e assassinados. 11 milhões de camponeses foram deportados. Era comum que muitas dessas pessoas fossem mandadas para os Gulags, campos de trabalhos forçados que foram criados para abrigar os opositores do stalinismo. O regime soviético silenciou uma geração criativa de intelectuais e artistas, tais como o cineasta Sergei Eisenstein (1898-1948) e a poeta Anna Akhmatova (1889-1966). A desilusão com o stalinismo e o temor em relação à polícia secreta levaram algumas pessoas ao suicídio, como no caso do poeta Vladimir Maiakovski (1893-1930). A imprensa era controlada pelo governo e foi usada para a propaganda do regime. O ditador era cultuado em paradas militares e em imensos retratos em todas as partes do país. O sonho de uma sociedade mais justa e igualitária que os primeiros socialistas tinham foi transformado em um terrível pesadelo por um Estado policial controlado pela liderança do Partido Comunista.


A Guerra Civil Espanhola

Uma ditadura militar de inspiração fascista dominou a Espanha entre 1923 e 1930, sob o comando de Primo de Rivera, que assumiu o poder com o aval do rei Alfonso XIII. Após uma grave crise social e econômica, Rivera renunciou ao poder. Eleições para uma assembleia constituinte foram realizadas em 1931 e, nelas, a união de anarquistas, comunistas e socialistas conquistou cerca de 70% dos votos. O rei renunciou ao trono e, em abril de 1931, a República foi proclamada pela Assembleia. Segundo o historiador Josep Buades, era o surgimento de uma Espanha democrática, modernizadora e igualitária. Houve a separação entre Igreja e Estado – o que desagradou a muitos cristãos –, além da implantação de reformas educacional, trabalhista e agrária – medidas vistas com desconfiança pelas elites espanholas, que temiam uma revolução de esquerda em seu país.

O ambiente político espanhol ficou dividido entre dois grupos bastante antagônicos. A Frente Popular (esquerda) era composta por setores democráticos republicanos e grupos de esquerda que contavam com o apoio dos trabalhadores e de uma parcela da classe média. Já a Falange Tradicionalista Espanhola (direita) tinha uma tendência fascista e era composta por militares, grandes proprietários de terras e representantes da Igreja e da burguesia urbana. Nas eleições de 1933 houve uma vitória da direita, que procurou anular as leis que haviam sido aprovadas em 1931. Nas eleições de 1936 foi a vez de a esquerda conquistar a maioria dos votos e voltar ao poder. O novo governo aumentou o salário dos trabalhadores, retomou a reforma agrária e concedeu anistia aos presos políticos. Todavia, a polarização política na Espanha só fez aumentar e ocorriam conflitos nas ruas entre grupos de esquerda e de direita. Grupos que desejavam a volta da monarquia incentivavam os militares a se rebelar contra os republicanos.

Quando atiradores de esquerda assassinaram um líder monarquista iniciou-se um levante armado contra o governo. No mês de julho de 1936, tropas espanholas que estavam no Marrocos – uma colônia espanhola à época – se rebelaram sob o comando do general Francisco Franco (1892-1975), ligado à Falange. Começava a Guerra Civil Espanhola, conflito armado que dividiu a Espanha. A população resistiu aos militares por meio de armas e de barricadas nas ruas das cidades. Em Madri, a capital do país, a resistência era grande e tinha como um dos seus símbolos a deputada comunista Dolores Ibárruri, uma mulher que ficou conhecida como La Pasionaria e que instigava a luta dos republicanos com o grito de “Não passarão!”.

Tendo em vista a forte resistência republicana, os militares recorreram à ajuda externa. Itália e Alemanha enviaram à Espanha soldados, armas, munições, tanques e veículos blindados, em apoio às tropas franquistas. O governo português do ditador António Salazar enviou 13 mil soldados para enfrentar os republicanos. Também empresas dos EUA forneceram armas, caminhões e petróleo às forças do general Francisco Franco. Por outro lado, a União Soviética apoiou os republicanos enviando-lhes armas, munições, aviões, veículos de guerra e especialistas em armamentos e combates. Também em apoio aos republicanos, chegaram à Espanha cerca de 50 mil voluntários oriundos de diversos países, combatentes que formaram as Brigadas Internacionais e enfrentaram os falangistas.

Vários artistas e intelectuais de todo o mundo manifestaram o seu apoio à causa republicana, entre os quais podemos citar os atores Charlie Chaplin (1889-1977) e Clark Gable (1901-1960). Outros chegaram a pegar em armas contra os nacionalistas, tais como os escritores George Orwell (1903-1950), Ernest Hemingway (1899-1961), Saint-Exupéry (1900-1944) e André Malraux (1901-1976). Enquanto isso, pintores como Juan Miró (1893-1983) e Pablo Picasso (1881-1973) usaram a sua arte para manifestar-se a favor da Frente Popular. Em 1937, Picasso pintou o famoso quadro Guernica, onde expressava toda a sua indignação em relação ao bombardeio da cidade de Guernica por aviões da divisão Condor, da Alemanha, a serviço de Franco.

Todavia, apesar do apoio de todos esses intelectuais, o governo republicano espanhol não conseguiu o apoio nem das democracias europeias nem do governo dos EUA, que preferiram não intervir na Espanha. A partir de 1938, o governo soviético reduziu a sua presença no conflito, o que piorou a situação para os republicanos. A Guerra terminou em 1939, deixando um triste saldo de 1 milhão de mortos. Com a vitória dos falangistas, Francisco Franco assumiu o poder como ditador, e ali ficaria até 1975, ano de sua morte. A sua ditadura ficou conhecida como franquismo.


O salazarismo em Portugal

Em Portugal, a República foi implantada em 1910, mas o país vivia sob a luta entre a burguesia conservadora e os operários socialistas. Os governos eram instáveis e havia no país muitos simpatizantes do fascismo. Em meio a um clima político bastante tumultuado, houve um golpe de Estado em 1926, do qual participou o general Óscar Carmona, personagem que acabou eleito presidente de Portugal em 1928. Carmona convidou o professor António de Oliveira Salazar para o Ministério da Economia. Carmona defendia um Estado autoritário que reprimisse os movimentos de esquerda, principalmente os comunistas, e impusesse a paz social com a manutenção da religião católica e da propriedade privada. O general Carmona acabou com a oposição, censurou a imprensa e centralizou o poder, ampliando assim a ditadura.

O ministro Salazar, por sua vez, conduziu uma política econômica rígida que possibilitou a volta do crescimento econômico, tornando-se uma figura tão importante dentro do governo que acabou sendo indicado para o cargo de primeiro-ministro, em 1932. No ano seguinte, Salazar instituiu o Estado Novo, transformando-se no líder supremo de um Estado autoritário, inspirado no fascismo. O poder ficou concentrado nas mãos do primeiro-ministro, enquanto o cargo de presidente da República passava a ser apenas honorífico. Salazar governou Portugal até 1968, quando afastou-se do poder por problemas de saúde. Ele morreu apenas em 1970 e o regime que criou em Portugal recebeu o nome de salazarismo.