Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Há Controvérsias*

* Texto originalmente escrito por Adriana Romeiro [1] e publicado na Revista de História da Biblioteca Nacional.


O episódio é famoso. Bandeirantes paulistas descobrem enormes jazidas de ouro na região de Minas Gerais e reclamam exclusividade em sua exploração. Os achados atraem muitos portugueses e pessoas de todas as partes do Brasil. Esses forasteiros são pejorativamente chamados de “emboabas” – para alguns, a palavra designava o indivíduo que cobria as pernas para protegê-las dos perigos dos sertões. As tensões entre os dois grupos culminam em um conflito armado que ficou conhecido como Guerra dos Emboabas. Há exatos 300 anos.

O confronto entre paulistas e emboabas já foi tema de um sem-número de livros e estudos. No entanto, pouco se avançou no conhecimento do episódio. Ao longo dos anos, houve um debate acalorado e polarizado que nada mais fez do que mascarar as reais motivações da guerra. Ao contrário do que se defendeu por muito tempo, o fato é que nem os bandeirantes nem os emboabas eram movidos pelo amor à terra.

O levante emboaba entraria para os anais da história mineira e para a memória local como o evento mais formidável das origens da capitania. Prova disso é o poema épico “Vila Rica”, no qual Manuel da Costa narra o nascimento da vila mineira partindo do conflito entre paulistas e emboabas:

“Levados de fervor, que o peito encerra
Vê os Paulistas, animosa gente,
Que ao Rei procuram o metal luzente
Co’as próprias mãos enriquecer o erário.”

Mas ainda no século XIX deixa de ser um conflito local em torno da posse das minas de ouro para se tornar um capítulo memorável na biografia da jovem nação. Na pena de historiadores como Affonso de E. Taunay, J. Soares de Mello, Capistrano de Abreu e Isaías Golgher, a Guerra dos Emboabas ganha grandes proporções e se transforma em uma luta sangrenta e implacável do povo brasileiro em nome da liberdade contra o domínio tirânico da metrópole.

Esse tipo de interpretação floresceu em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), preocupado em estudar e valorizar os processos que levaram à independência do país. Ao cunhar a expressão “revoltas nativistas”, aqueles historiadores pretendiam designar os conflitos coloniais marcados por um incipiente sentimento nacionalista. Mas, ao contrário de outros episódios do gênero – como a Revolta de Beckman, a Guerra dos Mascates, o Motim do Maneta e a Revolta de Vila Rica –, a Guerra dos Emboabas apresentava uma dificuldade: qual era, afinal, o grupo social imbuído desse caráter autonomista ou nacionalista? Quem seriam os verdadeiros defensores da causa nacional? A questão ainda dividia a historiografia no século XX: de um lado ficaram os partidários dos paulistas; de outro, os dos emboabas.

Os pró-paulistas, engajados na exaltação da figura do bandeirante, dominaram os estudos sobre a Guerra dos Emboabas entre os anos 1920 e 1940. Para autores como Alfredo Ellis Júnior, Teodoro Sampaio e Taunay, o episódio foi, antes de tudo, o “noviciado da liberdade para a terra de Santa Cruz”. Os homens do Planalto de Piratininga seriam os legítimos representantes da nação brasileira, os defensores da pátria contra a cobiça de Portugal.

Apesar de dominante, essa não foi a única interpretação a respeito do conflito. Em uma chave oposta, outra corrente historiográfica defendeu uma interpretação inteiramente oposta: identificavam na causa emboaba as sementes do sentimento nacional. Seus argumentos: os rebelados aclamaram Nunes Viana como governador local, em franca desobediência à Coroa portuguesa.

O ato seria uma afirmação de projeto autonomista, pondo em xeque o domínio metropolitano. O historiador Isaías Golgher, russo radicado em Belo Horizonte, é o grande defensor desta tese. Para ele, a Guerra dos Emboabas foi “a primeira guerra civil nas Américas”, um movimento de resistência que culminaria mais tarde com Tiradentes.

Mas, afinal, quem tem razão? Teriam sido os emboabas os precursores da liberdade contra o domínio metropolitano, como quis Golgher? Não exatamente. Desde o início do conflito, o partido emboaba se apresentou como representante legítimo dos interesses de Portugal contra a turba de paulistas insubmissos e rebeldes. Inspirados no exemplo de Portugal sob o domínio da Espanha entre os anos de 1580 e 1640, os emboabas comparavam a libertação das Minas Gerais com a Restauração lusitana. Segundo eles, em ambos os casos era o povo português que se insurgia contra a opressão em nome da liberdade.

É revelador, por exemplo, o fato de o Conselho Ultramarino, órgão responsável pela administração colonial, ter simpatizado com a luta dos emboabas. O governador Antônio de Albuquerque, enviado para promover a pacificação dos sertões, chegou a ser orientado para que fosse em tudo favorável aos emboabas. E assim, apesar de Nunes Viana ter deixado seu cargo, a grande maioria dos emboabas foi mantida em seus postos. Em 1709, a geração heroica dos descobridores paulistas abandonaria a cena mineira para buscar ouro nos sertões de Goiás e Mato Grosso.

Seriam então os paulistas os precursores da Independência brasileira? Também não é bem isso. Apesar da força avassaladora das interpretações tradicionais, os paulistas não nutriam um ódio especial pelos portugueses. Para eles, emboaba era, sobretudo, o forasteiro, fosse ele carioca, pernambucano, baiano ou português. Tampouco se bateram por um ideal de libertação nacional ou pela contestação da opressão metropolitana. O que estava realmente em jogo era a convicção de que, como responsáveis pela descoberta e pelo povoamento dos sertões, eles mereciam privilégios e prerrogativas especiais na administração da região.

Para se ter uma ideia, em 1705, quando a supremacia política dos paulistas começava a se enfraquecer ante o avanço dos forasteiros, o prestigiado sertanista Garcia Rodrigues Pais chegou a escrever ao rei implorando, em tom ressentido, que os cargos ficassem nas mãos de seus patrícios. Pouco antes, a Câmara da Vila de São Paulo também se dirigira ao rei para pedir o monopólio das terras a serem repartidas na região mineradora.

Os paulistas reivindicavam mesmo era o controle político. Não porque fossem vassalos rebeldes em luta contra o poder metropolitano, mas pelo chamado “direito de conquista”, uma noção jurídica tradicional do Antigo Regime português, que assegurava aos descobridores um tratamento privilegiado por parte da Coroa.

Entre uma e outra versão, o que se percebe é que muito do que se escreveu até recentemente sobre a guerra deriva quase exclusivamente das interpretações divulgadas por paulistas e emboabas ainda no século XVIII. Assim foram se perpetuando as acusações de lusofobia da parte dos paulistas e as alegações de que os emboabas seriam movidos pela cobiça desenfreada. Ambas as visões são pra lá de parciais e tendenciosas, o que acabou polarizando o conflito.

O que se pode concluir de tanta discórdia é que, na verdade, a Guerra dos Emboabas não foi, de modo algum, uma revolta nativista. Ponto final. Mesmo se restringirmos o conceito de nativismo à acepção corrente no século XVIII, isto é, de sentimento de amor à pátria, ainda assim a palavra não se aplica ao conflito. Nem paulistas nem emboabas pareciam movidos pela afeição à terra. O aprisionamento do conflito nesse rótulo nativista impediu gerações de historiadores de perceberem que, por trás das divergências entre os dois grupos, o que existia na época era uma cultura política peculiar. Uma política herdeira tanto das doutrinas que no século anterior tinham legitimado a insurreição de Portugal contra o domínio espanhol quanto do conturbado processo de negociação entre os descobridores e a Coroa em torno da exploração das riquezas minerais.

Paulistas e emboabas eram todos igualmente forasteiros numa terra recém-descoberta. Juntos formavam uma multidão de 50 mil pessoas que fervilhavam à beira dos rios e caminhos, nos sertões distantes e inóspitos, e disputavam lado a lado as lavras e datas minerais. E ali, em meio a essa “multidão vaga e tumultuária”, no dizer dos contemporâneos, confluíam valores e concepções políticas forjados em experiências históricas muito diferentes.

Como bem sabiam os observadores, a guerra era tão-somente uma questão de tempo...

“Os que não aprendem com a História, vão cometer sempre os mesmos erros”.

[1] ADRIANA ROMEIRO É PROFESSORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS E AUTORA DO LIVRO PAULISTAS E EMBOABAS NO CORAÇÃO DAS MINAS: IDÉIAS, PRÁTICAS E IMAGINÁRIO POLÍTICO NO SÉCULO XVIII (UFMG, 2008).


Em busca do ouro

A Guerra dos Emboabas foi um confronto travado entre 1708 e 1709 pelo direito de exploração das recém-descobertas jazidas de ouro no sertão das Minas Gerais. Responsáveis pelos achados, os paulistas se instalaram na incipiente estrutura administrativa ali montada e reivindicaram o direito exclusivo de exploração. No entanto, logo que a notícia da descoberta se espalhou, milhares de pessoas migraram para a região, ficando pejorativamente conhecidas como emboabas, em referência às aves de mesmo nome. O aumento considerável do contingente de forasteiros desequilibrou a frágil balança dos poderes locais, ameaçando o domínio dos paulistas.

O conflito armado constitui o ápice de uma longa série de pequenos incidentes. Em outubro de 1708, os emboabas iniciam o levante com um ataque de surpresa ao arraial do Sabará sob o comando de Manuel Nunes Viana. Português de origem humilde, Nunes Viana seria logo aclamado governador. Uma afronta direta à Coroa, já que a região estava sob a jurisdição do governador do Rio de Janeiro, D. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre. Ademais, a escolha dos governantes era prerrogativa do rei. Em agosto de 1709, menos de um ano depois do início do conflito, D. Antônio de Albuquerque, recém-nomeado governador do Rio de Janeiro, pisa em solo mineiro determinado a pôr fim à guerra. Ao contrário do seu antecessor, que havia tentado apaziguar os ânimos mas acabou sendo expulso e ameaçado de morte, Albuquerque alcança um êxito surpreendente. Ele destitui Nunes Viana, mas conserva a composição da estrutura administrativa emboaba. No fim, a guerra se encarregou de afastar os paulistas da região, abrindo caminho para a adoção de um novo projeto político.


Saiba Mais - Bibliografia:

GOLGHER, Isaías. Guerra dos Emboabas: a primeira guerra civil nas Américas. 2a. edição. Belo Horizonte: Conselho Estadual de Cultura de Minas Gerais, 1982.

MELLO, J. Soares de. Emboabas: crônica de uma revolução nativista – documentos inéditos. São Paulo: São Paulo Editora, 1929.

SUANNES, S. Os emboabas. São Paulo: Brasiliense, 1959.



domingo, 7 de maio de 2017

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita? (*)

(*) Texto escrito por Camilla Costa e originalmente publicado no site da BBC Brasil, no dia 07 de maio de 2017. Para ter acesso à publicação original, clique aqui.


"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que, na verdade, o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam um terceiro caminho", afirma.


Nacionalismo

A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".


'Marxistas e capitalistas'

Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução que garantiria justiça social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.

"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida o ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturais de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."


'Precisão científica'

A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, nos dias de hoje, associa o movimento a partidos de extrema-direita que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco a comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como "direita".

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.


'Crise de referências'

Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."

Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo mais à direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."



sexta-feira, 5 de maio de 2017

[Seção dos Alunos]: Uma Fábrica de "Memes" sobre o Iluminismo

O Trabalho de História do 1° Bimestre/2017 consistiu na elaboração de "Memes" sobre o Iluminismo. Após a avaliação do professor, os melhores "Memes" foram selecionados - seja pelo modo como abordaram o conteúdo, seja pelo humor presente neles - e podem ser vistos abaixo

ATENÇÃO: Em alguns "Memes", os alunos fizeram questão de enfatizar o fato de que, para muitos iluministas, a mulher era inferior ao homem. E foi interessante perceber o olhar crítico dos jovens em relação a este fato. No início do primeiro bimestre, os alunos haviam lido o artigo A Mulher e a Revolução Francesa: participação e frustração, de autoria de Itamar de Souza e publicado na Revista da FARN em 2003. Este texto acadêmico discute, entre outras coisas, justamente o modo como os iluministas pensavam as diferenças entre mulheres e homens. A leitura de tal texto parece ter sido bem aproveitada pelos jovens.

Confira agora os melhores "Memes" sobre o Iluminismo que foram produzidos pelos alunos:



Meme produzido pelas alunas Allana, Anna Isa, Gabriela Pereira e Letícia, do 2°A.



Meme produzido pelos alunos Anna Júlia, Maria Eduarda Carvalho,
Jerônimo, Pedro Augusto, Solange e Thamyê, do 2°A.



 Meme produzido pelos alunos Ana Luiza, Bruno, Diego, Larissa,
Luciana e Maria Eduarda Afonso, do 2°A.



Meme produzido pelos alunos Ana Luiza, Bruno, Diego, Larissa,
Luciana e Maria Eduarda Afonso, do 2°A.



Meme produzido pelas alunas Ana Luiza, Bianca, Iasmin, Ingrid, Júlia Damasceno
e Samantha, do 2°B.



Meme produzido pelas alunas Ana Luiza, Bianca, Iasmin, Ingrid, Júlia Damasceno
e Samantha, do 2°B.



Meme produzido pelos alunos Caetano, Erick Fernandes, Isabela, Jéssica, 
Mariana Almeida e Mariana Souto, do 2°C.



Meme produzido pelos alunos Eric Freitas, Fernanda Leme, Gabriel Felipe
e Maria Eduarda Silva, do 2°C.



 Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.



Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.




Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.



Meme produzido pleos alunos Adriel, Anaíza, Danyane, Gustavo Gonçalves,
João Guilherme e Vitor Henrique, do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Erika, Jéssica, Mariana Laura, Paola,
Vitor Araújo e Yago, do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Gabriela do Carmo, Gustavo Lemos,
Thiago Cardoso e Maria Vitoria, do 2°E.



Meme produzido pelas alunas Adrielly, Ana Clara, Bianca, Luciana e Micaella,
do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Enzo, Gusthavo Santos, Luana 
e Thiago de Oliveira, do 2°E.



Meme produzido pelas alunas Ana Vitória, Eduarda, Julia de Freitas Silva,
Laine, Leandra e Rafaela Lobato, do 2°F.



Meme produzido pelos alunos Ana Lara, Anderson, Giovanna Fernandes,
Julia Mota, Marcus Vinícius e Pedro Souto, do 2°F.



Meme produzido pelos alunos Marcela, Lara Fabyan, Marina, Théo, Bruno Henrique
e Estevão Garcez, do 2°G.



Meme produzido pelos alunos Bruna, Júlia Martins, Monithelley,
Rayanne, Sérgio e Vitória de Castro, do 2°H.




segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma imagem e uma velha polêmica sobre Hitler e o nazismo...

Uma imagem tem circulado nas redes sociais e reacendeu um velho debate em torno da visão de mundo de Adolf Hitler e do nazismo. A imagem é esta:


Algumas páginas e alguns perfis no Facebook estão compartilhando a imagem acima e a usando como "argumento" para defender a ideia de que Adolf Hitler e o nazismo seriam "de esquerda", já que o próprio nome completo do Partido do führer alemão era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Pelo menos é o que muitos usuários do Facebook estão dizendo por aí... Mas o que podemos pensar a respeito disso?

Em primeiro lugar, o nazismo foi um fenômeno bastante complexo, e reduzir os debates a respeito dele apenas em termos de "direita" e "esquerda" é um tanto quanto empobrecedor. Ademais, é sempre útil lembrar que as expressões "direita" e "esquerda" foram introduzidas no vocabulário político ocidental a partir de um contexto bastante específico, a saber, a Revolução Francesa do final do século XVIII. Desde os acontecimentos que se desenrolaram na França revolucionária até hoje, as expressões "direita" e "esquerda" têm sido usadas nos mais variados contextos e com significados por vezes muito diversos. Assim, antes de classificar alguém ou um partido como de "direita" ou de "esquerda", é preciso antes deixar muito claro sobre o que se entende de fato por cada uma dessas expressões. E estabelecer definições, é preciso que se diga, não é uma tarefa tão simples como muitos pensam...

De qualquer forma, o que chama a atenção em certas postagens segundo as quais Hitler e o nazismo eram "de esquerda" é a tentativa de aproximar Hitler e o nazismo do socialismo - mas "socialismo" entendido como uma visão de mundo próxima das ideias Karl Marx. Há em certas postagens no Facebook até uma tentativa de colocar o nazismo alemão e o stalinismo soviético no mesmo saco: "os dois eram socialistas, os dois eram, portanto, 'de esquerda'". Afinal, não se lê "socialista" no nome completo do Partido Nazista? Pelo menos, este é o modo como muitos enxergam a questão... Todavia, muitas dessas pessoas que dizem isso não param para pensar em algo importante: afinal, qual (ou quais) o(s) possível (ou possíveis) significado(s) da palavra "socialismo"?

Vamos esclarecer alguns pontos. Primeiro, as ideias de Karl Marx foram a base para o chamado "marxismo", que nada mais é do que uma teoria que critica o Capitalismo por meio de categorias de explicação como "materialismo histórico", "luta de classes", "mais valia", "consciência de classe" e "revolução". É importante lembrar que dentro do "marxismo" existem diversas correntes e linhas de pensamento, que não são totalmente iguais entre si. Ou seja, existem muitas divergências dentro do marxismo. Por sua vez, o "socialismo" é uma ideologia política que surgiu antes mesmo do próprio "marxismo" e, embora tenha sido influenciada por ele a partir de meados do século XIX, é um equívoco reduzir o "socialismo" apenas às ideias de Marx, como muitas pessoas parecem fazer no Facebook. Como ideologia, o "socialismo" propõe uma sociedade livre da "exploração capitalista", na qual os trabalhadores possam se apropriar dos meios de produção. "Socialismo" e "marxismo" podem ter alguns pontos de contato, é verdade, mas não são totalmente a mesma coisa. O que o "marxismo" almeja é o "comunismo", que seria uma etapa posterior ao "socialismo", quando finalmente não existiriam mais os conflitos de classe. [1]

Mas qual seria o significado da expressão "socialista" presente no nome do Partido Nazista? Vamos deixar o próprio Adolf Hitler responder a esta pergunta. Em entrevista realizada em 1923, e republicada em 1932, o führer disse:

"O socialismo [...] é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só." [2]

Como se vê, Hitler tinha uma definição muito específica para o termo "socialismo". Este, segundo ele, não seria totalmente igual às ideias de Karl Marx (como muitas pessoas parecem pensar nos dias de hoje). O "socialismo" de  Hitler sequer criticava a propriedade privada. Pelo trecho citado acima, podemos perceber que uma mesma palavra - "socialismo" - pode ter vários significados dependendo do contexto e de quem fala. Por isso, antes de classificar alguém como "socialista", é preciso que se pergunte antes: de qual "socialismo" se está falando?

Voltemos agora, finalmente, para a imagem reproduzida no início deste texto. Nela, podemos ver claramente a suástica nazista acompanhada da foice e do martelo. O que podemos dizer a respeito disso? Trata-se na verdade de um broche produzido na Alemanha nazista (no ano de 1934, como pode ser visto na imagem) em razão do Dia do Trabalhador (tradução do "Tag der Arbeit" escrito na parte superior do broche). A foice e o martelo de fato são símbolos que historicamente foram usados por grupos socialistas sim, mas há uma diferença importante aqui. Nas bandeiras de partidos e países socialistas, a foice o martelo geralmente aparecem cruzados, como pode ser visto na imagem reproduzida abaixo:

 Bandeira da URSS.

A foice e o martelo cruzados representam a união de trabalhadores urbanos (das indústrias) e rurais (os camponeses) dentro da perspectiva da chamada "luta de classes". Já no broche nazista de 1934, a foice e o martelo estão separados, ou seja, eles não aparecem ali com o mesmo significado do que nas bandeiras de partidos e países socialistas! Os objetos são os mesmos, mas a diferença na forma de representá-los remete a um outro significado! Dentro do visão de mundo nazista, a "luta de classes" não era um aspecto central como é para o "marxismo" ou o "socialismo" influenciado pelo marxismo. Hitler valorizava muito mais a união de todos os membros da sociedade alemã do que a "luta" entre as diferentes "classes" daquele país. Hitler valorizava na verdade a "raça" do povo alemão (a "raça ariana"). Sendo da mesma "raça", os alemães deveriam estar todos unidos dentro de um sentimento nacionalista, e não em "luta" uns com os outros, afinal, o que deveria existir era uma "solidariedade racial". Em geral, partidos socialistas focam muito mais na questão da "classe" e não na questão da "raça", o que nos ajuda a entender o porquê de Hitler dizer que o seu partido não era "internacionalista", mas sim "nacional". Mais uma vez, Hitler tinha uma definição muito específica para a palavra "socialismo". Ademais, segundo ele, o nome em si do seu partido nem seria tão importante assim, pois como Hitler disse no trecho anteriormente citado, o seu partido até poderia se chamar "Partido Liberal". O nome em si não é, portanto, prova de nada, pois é preciso sempre estar atento para o significado que se atribui a certo nome ou a certa expressão. Os significados das palavras dependem do contexto histórico em que as mesmas são ditas e/ou escritas.

Apenas para reforçar o que estamos demonstrando aqui, é preciso dizer que, no broche nazista de 1934, nós podemos ver também a famosa suástica nazista. Ora, assim como a foice e o martelo, a suástica como símbolo não foi uma invenção de Hitler, pois o que o nazismo fez foi se apropriar de um símbolo muito mais antigo e que já havia sido usado antes nas mais variadas culturas. [3] Para os povos hindus, a suástica certamente tinha outro significado, diferente daquele dado pelos nazistas ao símbolo. O símbolo (o desenho, a imagem) por si só não significa nada, pois tudo dependerá do contexto em que o mesmo aparece e é usado. Símbolos podem ser ressignificados ao longo do tempo. Pois se o mesmo símbolo tivesse sempre o mesmo significado, então a águia que também aparece no broche nazista poderia ser associada, por exemplo,  aos Estados Unidos da América (já que a águia é um símbolo muito usado para representar os EUA)... Como se vê, simplificar o uso de um determinado símbolo pode dar origem a afirmações absurdas...

Símbolos e palavras possuem significados que vão mudando ao longo do tempo. E por isso, antes de compartilhar certas imagens no Facebook, é sempre útil buscar mais informações a respeito de determinado assunto, para não se cometer certos equívocos. Limitar a discussão sobre o nazismo ao binômio "direta"/"esquerda" é simplificar demais o assunto. Apenas afirmar que Hitler era "socialista" também não diz muita coisa em si, é preciso antes definir claramente tal termo. É muito mais produtivo buscar entender detalhadamente as ideias que faziam parte da visão de mundo nazista, dentro das suas particularidades. Só assim compreenderemos um pouco melhor o que foi o nazismo. Se alguma aproximação pode ser feita entre o nazismo alemão e o stalinismo soviético, é o fato de esses dois regimes terem sido "totalitários", e não a questão em torno do "socialismo".


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[1] Resta ainda recordar um outro significado para a expressão "socialismo". No século XX, a União Soviética e outros países alinhados a ela no contexto da Guerra Fria formaram um bloco que ficou conhecido como o "bloco socialista". Mas o "socialismo" aqui não era o mesmo daquela ideologia política surgida na passagem do século XVIII para o XIX. O "socialismo" da URSS e dos países que se alinharam a ela depois da Segunda Guerra Mundial tem um outro significado, que remete a um regime político onde o Estado controla a economia, centraliza o poder, institui uma partido único e restringe fortemente as liberdades individuais. A palavra - "socialismo" - é a mesma, mas o significado dela não.

[2] Trecho de entrevista concedida por Hitler a George Sylvester Viereck, publicada no jornal Liberty, de 9 de julho de 1932. A entrevista está disponível em português em: ALTMAN, Fábio (Org.) A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias. São Paulo: Scritta, 1995, p. 114-115.