Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***

sábado, 8 de agosto de 2015

O primeiro governo de Getúlio Vargas no Brasil (1930-1945)

Getúlio Vargas assumiu o poder no Brasil em 1930. O período entre 1930 e 1934 ficou conhecido como o do Governo Provisório de Vargas e foi marcado por medidas centralizadoras. A Constituição de 1891 foi abolida e Getúlio procurou se aproximar da Igreja Católica e dos militares que o ajudaram a derrubar a República oligárquica. Vargas dissolveu o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas estaduais e as Câmaras municipais, sendo instituído em seguida um regime de emergência. Vargas assumiu o comando do Legislativo, e suas medidas e decretos não podiam mais ser contestados pela Justiça. Os governadores estaduais (que eram chamados de presidentes) foram depostos e interventores escolhidos por Vargas assumiram o comando do poder executivo nos estados. O único governador que permaneceu em seu cargo foi Olegário Maciel, que governava Minas Gerais. O presidente buscou manter a supremacia do Exército sobre as polícias estaduais, impondo um limite de investimentos dos estados na área militar. Os estados não podiam ter contingentes mais bem armados e preparados do que o Exército. Muitos dos novos interventores tinham feito parte do movimento tenentista.

Vargas subiu ao poder apoiado pelas elites dirigentes de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e da Paraíba, contando ainda com o apoio dos militares e do Partido Democrático de São Paulo. As primeiras medidas adotadas por Vargas beneficiavam claramente os militares. A centralização do poder era uma das aspirações dos tenentes e foi atendida. Porém, ao longo do tempo o tenentismo foi pouco a pouco perdendo a sua força. O movimento, que propunha derrubar as oligarquias e promover algumas reformas, revelou-se limitado ideologicamente e, em meados dos anos 1930, acabou se esgotando. Alguns de seus representantes voltaram aos quartéis, enquanto outros aderiram ao comunismo ou ingressaram em grupos simpatizantes do fascismo. Os tenentistas que permaneceram no governo estavam subordinados a Vargas.

O caráter autoritário e centralizador de Vargas desagradou os civis, ocorrendo até uma indisposição entre o governo federal e o Partido Democrático de São Paulo. A nomeação do interventor pernambucano João Alberto Lins de Barros – um tenentista – para interventor do estado de São Paulo não agradou às elites locais, que exigiam um interventor civil e paulista. Vargas indicou o paulista Pedro de Toledo para interventor do estado de São Paulo, criou um Código Eleitoral e convocou uma Assembleia Constituinte, mas isso não acalmou os ânimos da população paulista. Em maio de 1932, quando quatro estudantes foram mortos em um enfrentamento com a polícia getulista, as tensões políticas aumentaram ainda mais em São Paulo. O Movimento MMDC – sigla que fazia referência aos nomes dos estudantes mortos, Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo – tornou-se símbolo da luta contra Getúlio. Em julho de 1932, iniciou-se a chamada Revolução Constitucionalista em São Paulo. A revolta contestava o autoritarismo de Getúlio, defendia a autonomia dos estados e exigia a elaboração de uma nova Constituição para o país. Os confrontos duraram até outubro, e as tropas federais venceram os rebelados paulistas, que não tiveram o apoio de outros estados.

O café continuava sendo o principal produto de exportação do Brasil e, por causa disso, Vargas julgou ser importante conseguir o apoio político dos cafeicultores, que ainda eram um grupo importante dentro do país. O governo deu continuidade à tradicional política de valorização do café, por meio da compra e da queima dos excedentes do produto. Entre 1931 e 1944, cerca de 78,2 milhões de sacas de café foram destruídos. A medida tentava ajudar os cafeicultores, prejudicados com a crise mundial iniciada em 1929. Todavia, os preços do café continuaram baixos, o que deu origem a uma falta de recursos para importar produtos industrializados. Para substituir as importações e criar um parque industrial nacional foram feitos investimentos na industrialização do país ao longo da década de 1930. O Estado brasileiro tornou-se o agente da industrialização, restringindo a importação de bens de consumo não duráveis (alimentos, bebidas) e estimulando a importação de bens de produção (máquinas, equipamentos) e bens de consumo duráveis (automóveis, caminhões).

Houve reformas na área educacional por meio da criação do Ministério da Educação e Saúde, em novembro de 1930. O objetivo era formar uma elite mais bem preparada do ponto de vista intelectual. Ficou definido que o ensino secundário duraria sete anos, divididos em dois ciclos. O ciclo ginasial, com duração de quatro anos, daria uma formação humanística ao estudante. Já o segundo ciclo objetivava preparar o aluno para o ensino superior, e duraria três anos. As bases do sistema universitário, fundado na pesquisa e no ensino, foram lançadas. Em 1934 foram criadas a Universidade de São Paulo – USP – e a Universidade de Porto Alegre – atual UFRGS. No ano seguinte foi criada a Universidade do Distrito Federal – UDF – no Rio de Janeiro, organizada pelo educador Anísio Teixeira.

Com a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, em 1930, surgiu também a legislação trabalhista. Leis regularam o trabalho de mulheres e crianças, estabeleceu-se uma jornada diária máxima de trabalho de oito horas, criou-se o descanso semanal remunerado, garantiu-se o direito a férias e à aposentadoria, além de outras novidades. Essas leis foram sistematizadas em 1943, com a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Paralelamente, o governo procurou controlar o movimento sindical, tentando afastar os trabalhadores da influência comunista e anarquista. A Lei de Sindicalização, aprovada em 1931, definiu os sindicatos como órgãos consultivos e de colaboração com o poder público. Uma autorização ministerial era necessária ao funcionamento dos sindicatos. Representantes do governo tinham que acompanhar as assembleias sindicais. Além disso, o Ministério do Trabalho poderia intervir nos sindicatos, inclusive afastando diretores que o governo considerava “indesejáveis”. Alguns grupos anarquistas e comunistas consideravam tais decisões autoritárias e as criticaram, organizando greves e manifestações. Porém, as medidas acabaram sendo acatadas por diversos setores sindicais.

A legislação trabalhista e a aproximação entre governo e sindicatos fariam parte daquilo que ficaria conhecido como política populista nos anos em que o Brasil foi governado por Vargas. Chamado de pai dos pobres, Getúlio era representado como um protetor dos trabalhadores. Nesse discurso, as leis trabalhistas apareciam como fruto da bondade do presidente, e não dos anos de lutas dos trabalhadores.

Os negros fundaram na cidade de São Paulo a Frente Negra Brasileira, em 1931, que seria a mais importante entidade de afrodescendentes no Brasil durante a primeira metade do século XX. Eles procuravam combater as desigualdades entre brancos e negros, bem como lutar contra o preconceito e a discriminação racial no país. Uma escola era mantida pelo grupo e ali era oferecido o curso primário, além do ensino de música, inglês, educação física, teatro, corte e costura, etc. As mulheres tinham participação ativa e estavam divididas em dois grupos internos: as Rosas Negras organizavam bailes e festivais, enquanto a Cruzada Feminina praticava o assistencialismo. Havia no movimento uma espécie de “milícia”, composta por capoeiristas. O jornal A voz da raça, com tiragem de até 5 mil exemplares, divulgava as ações da FNB. Dentro do movimento existiam socialistas, integralistas e até mesmo monarquistas, mas é preciso dizer que muitos dos representantes da Frente simpatizavam-se com Vargas, sobretudo em decorrência das Leis Trabalhistas. A partir do estado de São Paulo, a FNB chegou a estados como Bahia, Rio Grande do Sul e Pernambuco, somando 60 representações e 200 mil filiados em todo o Brasil. Em 1936, a FNB se tornou um partido político, mas no ano seguinte o mesmo foi extinto com o advento do Estado Novo.

Um novo Código Eleitoral foi aprovado pelo governo de Vargas em 1932. Criou-se a Justiça Eleitoral, que tinha como função coibir as fraudes eleitorais, estabeleceu-se o voto obrigatório e secreto para minar a influência dos coronéis sobre os eleitores, a idade mínima do eleitor passou de 21 para 18 anos e o direito de voto foi garantido às mulheres, desde que elas fossem casadas (com autorização do marido) ou viúvas e solteiras com renda própria.[1] Foi criada também a figura dos deputados classistas, que deveriam ser eleitos pelos sindicatos de empregados e de patrões. Após a divulgação do novo Código Eleitoral e tendo em vista a pressão exercida por diversos setores da sociedade brasileira, o governo convocou eleições para maio de 1933, no intuito de formar uma Assembleia Constituinte. A decisão governamental contrariava os tenentes, que desejavam manter o regime de exceção.

A nova Constituição foi promulgada em julho de 1934 e ela incorporou a legislação trabalhista em vigor, instituindo o salário mínimo (que só seria efetivamente criado em 1940), garantindo as férias anuais e o descanso semanal remunerados e criando o Tribunal do Trabalho. Também foi garantida a autonomia e a pluralidade dos sindicatos. Desta maneira, podiam existir dois ou mais sindicatos para uma mesma categoria profissional, o que diminuía, pelo menos em tese, as chances de manipulação ou controle por parte do Ministério do Trabalho. A autonomia dos estados foi preservada e houve a nacionalização de minas, jazidas e quedas-d’água. A nova Carta mantinha os analfabetos e os soldados sem o direito de votar. Também ficou estabelecido que a primeira eleição para a presidência após a aprovação da Constituição seria indireta. No mesmo mês de julho de 1934, os constituintes elegeram Vargas para a Presidência da República. A Constituição definia que o mandato do presidente iria até 1938, quando um novo presidente deveria ser eleito pelo voto livre e direto.

O Governo Constitucional de Vargas (1934-1937)

Apesar da aparência de democracia e da estabilidade política gerada pela nova Constituição e pela eleição de Vargas, o que houve no Brasil durante os anos que se seguiram foi uma forte polarização política. Surgiram dois movimentos bastante antagônicos: a Ação Integralista Brasileira – AIB –, de direita, e a Aliança Nacional Libertadora – ANL –, de esquerda.

Assim, como ocorria na Europa, onde a democracia liberal dava lugar a governos totalitários em diversos países, pessoas passaram a defender a instauração de uma ditadura de direita no Brasil, semelhante ao governo de Mussolini, na Itália. Foi em defesa dessa ideia que foi fundada a Ação Integralista Brasileira, em 1932, sob a liderança de Plínio Salgado. Inspirados pelo fascismo, alguns intelectuais, religiosos, ex-tenentistas e membros da classe média e da burguesia aderiram ao integralismo. Sob o lema “Deus, Pátria e Família”, a AIB tinha um caráter nacionalista, antiliberal, anticomunista e contrário ao capitalismo financeiro internacional. Valores cristãos e tradicionais foram adotados pelos integralistas para atrair novos militantes. O controle do Estado sobre a economia e o fim da pluralidade partidária e da democracia representativa eram desejados pelos integralistas. Em 1936, a AIB contava com cerca de 200 mil militantes. Os integralistas desfilavam com seus uniformes verdes e ostentavam uma braçadeira na qual se via a letra grega sigma, o símbolo do movimento. Essa letra tem o significado de somatória em Matemática e, para os integralistas, ela remetia à ideia de totalidade, integração e unidade nacional. A palavra de origem indígena Anauê (“você é meu parente”) era a sua saudação, e deveria ser proferida com o braço direito levantado. Quando ocorreram as eleições municipais em 1936, os integralistas elegeram vereadores e prefeitos em vários municípios brasileiros.

A Aliança Nacional Libertadora surgiu em 1935 e seu presidente de honra era o líder comunista Luís Carlos Prestes. A ANL reunia grupos de variadas tendências: militantes do Partido Comunista do Brasil (PCB), socialistas, liberais, anti-integralistas, intelectuais independentes, estudantes e ex-tenentistas descontentes com o autoritarismo de Vargas. De caráter nacionalista e anti-imperialista, a ANL propunha a suspensão do pagamento da dívida externa, a nacionalização de empresas estrangeiras e a reforma agrária, chegando a reunir de 70 mil a 100 mil filiados. Mesmo antes da fundação da ANL já ocorriam conflitos entre integralistas e comunistas. Quando vários desses embates foram registrados em 1935, Vargas conseguiu a aprovação de uma Lei de Segurança Nacional, que classificou como “crimes contra a ordem” as greves e as manifestações. Quatro meses após a fundação da ANL, Vargas a declarou ilegal, o que obrigou os seus militantes a agirem na clandestinidade.

Em 1935, seguindo orientações da Internacional Comunista, membros do PCB ligados à ANL lideraram insurreições militares em Natal, Recife e no Rio de Janeiro, no intuito de tomar o poder e implantar o comunismo no Brasil. Todavia, devido à má articulação e à falta de apoio do Exército e de outros estados, a Intentona Comunista fracassou e o governo deu início a uma forte repressão anticomunista. Vargas decretou o estado de sítio e determinou que mais de 6 mil pessoas fossem presas, incluindo jornalistas, intelectuais, um senador e quatro deputados. Luís Carlos Prestes e sua esposa Olga Benário, uma judia alemã, estavam entre os detidos. Prestes seria condenado a 16 anos de reclusão e Olga, mesmo grávida de sete meses, foi deportada em 1936 para a Alemanha nazista, onde morreria em 1942, em um campo de concentração. As liberdades constitucionais estavam suspensas no país e qualquer oposição ao governo Vargas era considerada “crime contra a nação”. Como soldados e oficiais do Exército morreram no combate ao levante comunista, a Intentona Comunista seria usada por décadas para alimentar o anticomunismo entre os militares.

A campanha eleitoral para a escolha do sucessor de Vargas iniciou-se em 1937, em um clima de tensão e repressão à esquerda. Vargas não poderia participar da disputa eleitoral, mas já articulava a sua permanência no poder junto com as Forças Armadas e os governadores. Armando de Salles Oliveira era o candidato do Partido Constitucionalista, ligado ao Partido Democrático de São Paulo. José Américo de Almeida era o candidato do governo. Por sua vez, Plínio Salgado era o candidato da Ação Integralista Brasileira. Paralelamente à disputa, Vargas discursava insinuando que a situação política do país não era favorável à realização de eleições, denunciando o “perigo comunista” que, segundo ele, poderia se aproveitar das eleições para dar um golpe.

No final de 1937, foi divulgada a existência de um plano comunista para tomar o poder, assassinar centenas de personalidades públicas e realizar atentados a igrejas e prédios públicos. O Plano Cohen (referência ao nome do judeu que seria o seu autor), como ficou conhecido, era totalmente falso e havia sido elaborado na verdade por um oficial integralista, o capitão Olímpio Mourão Filho. Contudo, Vargas usou o plano como um pretexto para fechar o Congresso em 10 de novembro de 1937. Por meio do rádio, Vargas cancelou as eleições presidenciais e instaurou o “Estado Novo”, que ele definiu como “um regime forte, de paz, justiça e trabalho”. Uma nova Constituição, que ficaria conhecida como Polaca, em alusão a suas semelhanças com a Constituição polonesa, de inspiração fascista, foi outorgada. Houve suspensão das garantias individuais e abolição do direito de reunião. A população foi proibida de se organizar, reivindicar seus direitos e de manifestar suas opiniões. O golpe de Estado realizado por Vargas marcou o início de uma ditadura centralizada na figura de Getúlio.

O Estado Novo (1937-1945)

A nova Constituição colocava o Executivo acima do Legislativo e, neste “Estado Novo”, Getúlio Vargas passou a governar por meio de decretos-lei e com apoio dos militares e de industriais. Partidos políticos foram extintos, incluindo a AIB que havia apoiado o golpe de Estado. Os integralistas tentaram tomar o poder em 1938, mas fracassaram e seus líderes foram presos ou exilados. A AIB se extinguiu.

Os governadores eleitos só seriam empossados nos cargos se Getúlio autorizasse. Do contrário, Vargas nomeava alguém para governar determinado estado. Era o fim da autonomia dos estados. Um efeito dessa medida foi a perda de força política por parte das oligarquias regionais, que nem sempre conseguiam eleger seus candidatos. Apesar de existir oposição às suas ações, Vargas anulava os espaços legais de contestação ao seu governo, reprimindo principalmente os movimentos de esquerda. O governo retomou o princípio de um sindicato único para cada categoria profissional. Associações sindicais diferentes para uma mesma categoria até podiam existir, mas apenas aquela reconhecida pelo governo era considerada legal. As greves foram proibidas e ganhou destaque a figura do “pelego”, ou seja, o sindicalista que era favorável aos interesses do Estado e do patrão.

Na ideologia do Estado Novo havia uma ênfase na ideia da construção de uma nação pautada na ordem, na obediência à autoridade e na aceitação das desigualdades sociais. O Estado deveria exercer, assim, uma tutela sobre a nacionalidade brasileira. No intuito de controlar os meios de comunicação e moldar a opinião pública, criou-se o Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP – em 1939. Sob a inspiração do serviço de comunicação nazista, o DIP se encarregou não apenas de elaborar a propaganda oficial do Estado Novo, mas também de censurar jornais, revistas, livros, rádio e cinema. As peças publicitárias produzidas pelo DIP mostravam Vargas como uma figura paternal, bondosa, severa (mas também justa) e exigente. O Cinejornal Brasileiro era um dos cinedocumentários que deveriam ser obrigatoriamente exibidos em todos os cinemas antes do início dos filmes. Os filmes educativos tinham a função de divulgar a história e os valores nacionais, exaltando o Brasil e o governo Vargas. Livros e cartilhas escolares enalteciam a figura de Getúlio e transmitiam noções de patriotismo e civismo. Nas escolas, a disciplina de Educação Moral e Cívica procurava formar o cidadão de acordo com os critérios de boa conduta moral e amor à pátria. O ministro da educação, Gustavo Capanema (que ficou no cargo entre 1934 e 1945), também investiu no ensino profissionalizante para qualificar a mão de obra comercial e industrial.

Gustavo Capanema também apoiou artistas modernistas que queriam compreender a identidade nacional. Mário de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Manuel Bandeira, entre outros, prestaram serviços na área da cultura. Outros intelectuais se dedicaram a realizar estudos acerca da história e da identidade brasileira. Alguns estudos que hoje são considerados clássicos foram publicados naquela época: Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (1933), Evolução política do Brasil, de Caio Prado Jr. (1933), e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1936). Em 1937, foi criado o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), órgão que se propunha a preservar bens móveis e imóveis relacionados à história e à cultura do Brasil.

Mensagens de Vargas eram transmitidas pelo programa radiofônico Hora do Brasil (programa que hoje é chamado de Voz do Brasil), criado em 1934. A Rádio Nacional foi encampada pelo governo no ano de 1940 e se transformou em um instrumento de apoio ao Estado Novo e de divulgação dos valores nacionais. Agentes do DIP produziam mais da metade das notícias que eram divulgadas pela imprensa. No campo da música, canções que exaltavam a malandragem tiveram as suas letras alteradas para que passassem a valorizar o trabalho, visto como um valor social a ser buscado. A partir de 1937, as escolas de samba do Rio de Janeiro foram obrigadas a apresentar sambas-enredos com temáticas históricas e patrióticas. Festividades oficiais eram organizadas pelo DIP e levavam uma grande quantidade de pessoas às ruas. Essas festividades ocorriam, por exemplo, no 1° de Maio, durante a Semana da Raça e da Pátria, em setembro, e no aniversário de Vargas, em abril. Foi nesse ambiente de controle e repressão que foi criada a Polícia Especial, comandada por Filinto Müller, que prendia arbitrariamente e praticava a tortura contra os presos.

Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas se viu em uma complexa situação. Por um lado, como o Estado Novo era um regime autoritário, havia uma aproximação ideológica entre o governo de Vargas e as forças do Eixo. Vargas até assinou acordos com os alemães, para os quais o Brasil vendia produtos como algodão e café, e dos quais comprava produtos industrializados. Por outro lado, a proximidade geográfica dos Estados Unidos da América também era um fator a ser levado em conta, pois, mesmo antes da entrada dos EUA no conflito o governo norte-americano já se mostrava simpático aos Aliados. Vargas preferiu em um primeiro momento adotar uma postura ambígua, ora favorável ao Eixo, ora favorável aos Aliados. O presidente brasileiro chegou a elogiar o sucesso das tropas nazistas na Europa em 1940. Grupos políticos ligados aos militares pressionavam Vargas para que o presidente se aproximasse mais da Alemanha, enquanto outros setores da sociedade brasileira defendiam a manutenção das relações comerciais e políticas com os EUA.

O governo norte-americano adotou a política de boa vizinhança para atrair o apoio de Vargas e, assim, ter acesso às bases militares brasileiras no Nordeste e às matérias-primas produzidas pelo Brasil. Os EUA forneceram empréstimos, vantagens comerciais e técnicos ao Brasil. O desenhista e produtor cinematográfico Walt Disney escolheu a música “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso, para musicar o desenho animado Alô, amigos. Um empréstimo fornecido pelos EUA possibilitou a construção da Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda, que forneceria aço aos Aliados durante a Segunda Guerra e, assim que terminasse o conflito, seria a base da produção de maquinário e armamentos para o Brasil. A Companhia Vale do Rio Doce, voltada para a extração de minério de ferro, também foi criada com o auxílio do capital norte-americano e deveria abastecer os Aliados durante a guerra. Assim, o governo brasileiro se afastava cada vez mais do Eixo e se aproximava dos Aliados. Em resposta à postura assumida por Vargas, submarinos alemães afundaram navios mercantes brasileiros em 1942. Após manifestações populares e estudantis, Getúlio Vargas declarou guerra aos países do Eixo.

Com a entrada do Brasil na guerra, as famílias italianas, alemãs e japonesas que viviam no nosso país passaram a enfrentar muitas dificuldades. Os “súditos do Eixo”, como eram chamados, eram vistos como uma ameaça à segurança nacional. O governo brasileiro começou a perseguir os italianos, alemães e japoneses que aqui viviam. Muitos daqueles que moravam em regiões consideradas estratégicas tiveram que abandonar suas casas, empregos e negócios para ir viver no interior. Os “súditos do Eixo” não podiam portar rádios e máquinas fotográficas e eram proibidos de falar a sua língua natal em ambientes públicos, sendo obrigados a se comunicar por meio da língua portuguesa. Os desobedientes eram presos. Escolas foram fechadas. Quando italianos, alemães e japoneses precisavam fazer alguma transação financeira, a mesma deveria ser autorizada pelo Banco do Brasil. Houve o congelamento dos bens desses estrangeiros, sob o pretexto de que, se o Brasil fosse prejudicado por ataques do Eixo, os bens congelados seriam usados para o pagamento de indenizações. O governo brasileiro confinou os “súditos do Eixo” em verdadeiros campos de concentração, locais onde o alojamento e a alimentação eram precários e onde os prisioneiros eram obrigados a realizar trabalhos agropecuários. Cerca de 3 mil italianos, alemães e japoneses foram confinados nestes campos em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Minas Gerais, Pará, Bahia, Pernambuco, Amazonas, Espírito Santo, Paraíba, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul, entre 1942 e 1945. Tais espaços foram extintos com o término da Segunda Guerra.

Cerca de 25 mil soldados brasileiros foram enviados à Itália, em 1944, compondo a Força Expedicionária Brasileira. Temendo um ataque inimigo à capital brasileira, que estava situada no litoral, Getúlio Vargas iniciou, em 1943, um projeto de povoamento da região central do Brasil. Era a Marcha para o Oeste brasileira e, graças a ela, muitos municípios surgiram no interior do país, em especial no estado de Mato Grosso. A participação das Forças Armadas brasileiras na guerra contra o nazifascismo recebeu o apoio de parcela da população brasileira, como se viu em manifestações estudantis e populares lideradas pela União Nacional dos Estudantes – UNE – em 1942. Todavia, essas mesmas manifestações também dariam início a um processo de distensão no clima sufocante do Estado Novo. Durante a guerra uma contradição era evidente: o Brasil vivia sob um regime autoritário e fechado, mas lutava ao lado das forças democráticas.

Quando houve um congresso da Ordem dos Advogados do Brasil – OAB – em 1943, um grupo de políticos e intelectuais de Minas Gerais lançou o Manifesto dos Mineiros, pedindo o fim do Estado Novo e o retorno da democracia. Os participantes do Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, ocorrido no início de 1945, também pediram o fim do governo autoritário de Vargas. Pressionado, Getúlio pôs fim à censura da imprensa, anistiou presos políticos – incluindo Luís Carlos Prestes – e convocou eleições para uma Assembleia Constituinte.

Definiu-se que seriam realizadas eleições para o cargo de Presidente da República. Autorizou-se a existência de partidos políticos, o que levou ao surgimento de vários deles. Entre os novos partidos estavam a União Democrática Nacional – UDN –, formada por membros das classes médias e altas, opositores oligárquicos, liberais, intelectuais e dissidentes do Estado Novo, que se aglutinaram em torno da candidatura de Eduardo Gomes; o Partido Social Democrático – PSD –, que representava os interesses de antigos coronéis e interventores nos estados; e o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB –, formado por líderes sindicais ligados ao Ministério do Trabalho. O PSD e o PTB surgiram do interior do governo Vargas, e Getúlio era o presidente dos dois partidos, que lançaram oficialmente como o seu candidato às eleições o general Dutra. Por sua vez, o Partido Comunista do Brasil foi legalizado. Enquanto a campanha política já estava nas ruas, líderes do PTB e de alguns sindicatos, apoiados pelo Partido Comunista,[2] começaram a defender a permanência de Getúlio Vargas no poder. O coro “Queremos Getúlio!” era gritado nas ruas. Esse movimento contava com o aval do presidente, que no fundo queria continuar na presidência da República.

Todavia, o queremismo não garantiu a permanência de Vargas no cargo de presidente. Os generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra exigiram a sua renúncia. Vargas afastou-se do poder em outubro de 1945, fato que marcou o fim do Estado Novo. José Linhares, presidente do Supremo Tribunal à época, assumiu a Presidência em caráter provisório. O calendário eleitoral foi mantido e, no dia 2 de dezembro de 1945 mais de seis milhões de brasileiros foram às urnas. O vencedor das eleições foi Eurico Gaspar Dutra.



[1] As restrições ao voto feminino só foram suprimidas com o Código Eleitoral de 1934. Até 1946, o voto feminino no Brasil não era obrigatório, o que ocorreu apenas com a Constituição de 1946, que tornou obrigatório o voto feminino para as mulheres que exercessem profissões remuneradas. A universalização da obrigatoriedade do voto feminino no Brasil só ocorreu em 1965.
[2] O próprio Luís Carlos Prestes defendeu a ideia de que Vargas deveria ser mantido na presidência até a elaboração de uma nova Constituição para o país. No fundo, havia um certo receio de que o afastamento de Vargas do poder significasse o controle do país por grupos mais conservadores da sociedade, sob influência das oligarquias e sob as pressões dos EUA. Apesar de ter sofrido com as perseguições impostas pelo governo Vargas, o PCB seguiu as orientações vindas de Moscou, que diziam que os partidos comunistas deviam apoiar os governos que lutaram contra o nazifascismo na Segunda Guerra.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Sugestão de leitura: os "Autos da Devassa" da Inconfidência Mineira

Os interessados em aprofundar um pouco mais os seus conhecimentos sobre a Inconfidência Mineira podem buscar mais informações em uma vasta documentação histórica que está disponível na internet, no Portal da Inconfidência. Neste site, é possível ler online os 11 volumes que constituem os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira. O mesmo site disponibiliza ainda outros materiais e referências bibliográficas sobre o assunto. Vale a pena conferir!

CLIQUE AQUI para acessar o Portal da Inconfidência.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

[Seção dos Alunos]: Paródias Históricas

No 2°Bimestre de 2015 foi pedido aos alunos que eles produzissem paródias musicais sobre os temas estudados. Mas não bastava elaborar a paródia, era preciso também produzir um vídeo onde os estudantes estivessem cantando a canção. Alguns desses vídeos ficaram muito legais e vieram parar aqui na nossa Seção dos Alunos. Confira abaixo:

Paródia produzida por alunas do 2°A.


Paródia produzida por alunos do 2°B.


Paródia produzida por alunos do 2°B.


Paródia produzida por alunos do 2°B.


Paródia produzida por alunos do 2°B.


Paródia produzida por alunos do 2°C.


Paródia produzida por alunos do 2°D.


Paródia produzida por alunas do 2°D.


Paródia produzida por alunos do 2°F.


Paródia produzida por alunos do 2°F.


Paródia produzida por alunos do 2°G.


Paródia produzida por alunos do 2°H.


Paródia produzida por alunos do 2°H.


Paródia produzida por alunos do 2°H.


Paródia produzida por alunos do 2°H.


sábado, 4 de julho de 2015

A Segunda Guerra Mundial

Ao término da Primeira Guerra Mundial houve quem pensasse que um conflito como aquele não ocorreria novamente. Todavia, os tratados que puseram fim à guerra geraram insatisfação em diversos países europeus. Antigas potências foram fragmentadas e houve a separação arbitrária de grupos e etnias que até então viviam unidos. Outro gerador de discórdia foi a crise econômica que atingiu vários países do mundo na década de 1930, crise essa gerada pela queda da Bolsa de Nova York em 1929. Muitas pessoas perderam a confiança na democracia liberal e movimentos totalitários e ultranacionalistas surgiram em alguns países, como na Alemanha e na Itália. Enquanto isso, outras nações também viam o surgimento de verdadeiras ditaduras, tais como Polônia, Grécia, Espanha e Portugal.

Nesta perspectiva, o equilíbrio de forças entre as grandes potências mundiais no período posterior à Primeira Guerra Mundial dependia de três grupos de países. O primeiro grupo era formado pelos países capitalistas de regimes totalitários ou autoritários, como Itália, Alemanha, Polônia, Áustria, Espanha, Grécia e Turquia. O segundo grupo era formado pelas democracias liberais, sob a liderança de Inglaterra, França e Estados Unidos. O terceiro grupo era composto pela União Soviética, que também tinha um governo totalitário e que estava, naquele momento, isolado do restante do continente europeu. Pensando em interesses próprios mais imediatos, muitas vezes esses países deixavam de lado algumas divergências político-ideológicas e estabeleciam entre si certos acordos econômicos e políticos, bem como pactos de não agressão. Exemplos disso foi o tratado assinado entre a Inglaterra e a Alemanha nazista, bem como o tratado assinado entre a França e a União Soviética. Em 1936, os alemães firmaram o tratado chamado Eixo Roma-Berlim, com os italianos, e o Pacto Anti-Komintern com os japoneses. Este último pacto visava combater o comunismo, em especial a Internacional Comunista (Komintern), organização sediada em Moscou. A articulação entre Alemanha, Itália e Japão significava o surgimento do Eixo Berlim-Roma-Tóquio.

Expansionismo

O precário equilíbrio entre as nações foi abalado pelas políticas expansionistas de alguns países a partir dos anos 1930. No ano de 1931, o Japão invadiu a Manchúria (que pertencia à China), o que gerou protestos na Liga das Nações. Os japoneses decidiram-se por sair da organização, fato que enfraqueceu ainda mais a Liga, uma vez que ela não contava com a participação dos EUA e nem da União Soviética. Em 1937, os japoneses lançaram uma grande ofensiva militar contra a China.

O expansionismo também foi praticado por países europeus. A Itália ocupou a Etiópia, em 1936, e invadiu a Albânia, em 1939. A Alemanha, sob o comando de Adolf Hitler, violou o Tratado de Versalhes ao instituir o serviço militar obrigatório, reorganizar seu Exército, construir uma Força Aérea, fortalecer a Marinha e desenvolver a indústria bélica. Os alemães ocuparam o Sarre – região rica em jazidas de carvão e que era explorada pelos franceses como indenização de guerra desde 1919 –, a Renânia – região entre Alemanha e França – em 1936 e anexaram a Áustria em 1938, o que contrariava o Tratado de Versalhes. Os austríacos não resistiram à anexação, que ficou conhecida como Anschluss (união, anexação). Os nazistas justificavam o seu expansionismo afirmando que estavam em busca do “espaço vital”, ou seja, o conjunto de territórios necessários à produção de matérias-primas e alimentos para o novo “império germânico” em formação.

Os governos da França, da Inglaterra e dos Estados Unidos não procuraram impedir o avanço alemão, argumentando que estavam preocupados em evitar o advento de uma outra guerra de grandes proporções. Quando os alemães ocuparam os Sudetos – região da Tchecoslováquia – em 1938, a Inglaterra e a França obrigaram Hitler a entrar em negociações. Isso foi feito ainda em 1938, na Conferência de Munique, mas o führer dominou a reunião e impôs a ocupação dos Sudetos como um fato consumado. No ano seguinte, os alemães ocuparam a Boêmia e a Morávia, duas outras regiões da Tchecoslováquia. Houve uma espécie de “política de apaziguamento” por parte dos países europeus, como no caso da Inglaterra (sob o governo do primeiro-ministro Neville Chamberlain). Assim, os países faziam concessões aos interesses hitleristas ao mesmo tempo em que se armavam para um provável conflito.

Em Moscou, o governo de Stalin julgava que tais concessões visavam a colocar os alemães contra os soviéticos, uma vez que os interesses nazistas situavam-se na Europa Oriental. O governo da URSS tentou aproximar-se da França e da Inglaterra, mas não obteve êxito. Surpreendendo a muita gente, Alemanha e União Soviética acabaram assinando um acordo de não agressão, o Pacto Ribentropp-Molotov, ainda em 1939. Stalin pretendia ganhar tempo para se preparar militarmente para uma eventual guerra contra a Alemanha. Por sua vez, Hitler queria evitar o erro alemão cometido durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha teve que combater em duas frentes. Como o acordo previa a divisão do território polonês entre a Alemanha e a União Soviética, além do controle soviético da Letônia e da Estônia, dias depois de sua assinatura os alemães invadiram a Polônia. A Alemanha tinha muito interesse na cidade de Dantzig. A atitude da Alemanha fez com que a Inglaterra e a França declarassem guerra aos alemães. Era o início da Segunda Guerra Mundial.

O conflito

Inicialmente, o poderio bélico alemão parecia não encontrar adversários à altura. A Alemanha contava com uma grande força aérea – a Luftwaffe – e empregava a estratégia de ataques-surpresa – blitzkrieg (guerra-relâmpago). Intensos bombardeios eram seguidos da invasão realizada por blindados e pela infantaria. Os poloneses renderam-se rapidamente e, em poucos meses, os alemães conquistaram a Noruega, a Dinamarca, Luxemburgo, a Bélgica e a Holanda. As vitórias alemãs sobre as forças inglesas levaram à queda de Chamberlain e à ascensão de Winston Churchill ao cargo de primeiro-ministro da Inglaterra. Churchill se opunha ao apaziguamento. Por sua vez, a França foi ocupada pelos alemães em 1940, após o cerco alemão aos exércitos franceses e ingleses em Dunquerque, região próxima ao Canal da Mancha. O território francês foi dividido em duas partes: a região norte, incluindo a cidade de Paris, ficou sob controle alemão, enquanto a região sul – com capital na cidade de Vichy – passou a ser governada por franceses pró-nazistas que, liderados pelo marechal francês simpatizante do fascismo, Pétain, ficariam conhecidos como colaboracionistas.

Nos territórios ocupados pela Alemanha sempre havia quem apoiasse as forças de Hitler, pois muitos consideravam que o líder nazista estava lutando contra o comunismo. Contudo, o avanço nazista sobre diversas áreas do continente europeu também enfrentou a resistência de grupos civis. Oriundos de várias partes da Europa e formados por pessoas de diferentes camadas sociais e ambos os sexos – operários, trabalhadores em geral, membros da aristocracia, integrantes do exército, funcionários da administração, eclesiásticos, intelectuais, etc. –, esses grupos lutaram contra os nazifascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Os resistentes noruegueses explodiram o estoque alemão de água pesada, que os nazistas usariam em pesquisas atômicas. Os resistentes poloneses sabotaram o abastecimento para os tropas alemãs na frente oriental. Os resistentes iugoslavos organizaram uma guerra de guerrilhas em seu território cheio de montanhas e florestas. Comandados por Josip Broz (1892-1980) – o Tito –, os resistentes iugoslavos libertaram seu país do domínio nazista.

O líder da Resistência francesa era o general Charles de Gaulle, que não aceitou a rendição aos nazistas e exilou-se na Inglaterra. Da Inglaterra, de Gaulle enviava instruções aos seus compatriotas por meio da rádio BBC de Londres. A Resistência francesa contou ainda com a ajuda de comunistas brasileiros, como Apolônio de Carvalho, que também lutou nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola.

No território alemão também houve resistência ao nazismo. A desobediência civil era praticada por muitas pessoas, que participavam de missas e procissões proibidas pelo regime de Hitler. Alguns alemães esconderam judeus perseguidos em suas próprias casas, ou ajudavam esses judeus a fugir do país. Houve ainda atentados contra a vida de Hitler. Os alemães que se opunham ao nazismo boicotaram o recrutamento militar e organizaram grupos de resistência, como o Weisse Rose (Rosa Branca), muito atuante nas cidades de Munique e Hamburgo. Os integrantes desse movimento denunciavam os horrores da guerra – como o extermínio dos judeus, por exemplo – e as arbitrariedades do regime por meio de panfletos. Na embaixada brasileira em Hamburgo, na Alemanha, a paranaense Aracy Moebius de Carvalho (que mais tarde se casaria com o escritor João Guimarães Rosa) usou de diversos artifícios para conseguir vistos de entrada no Brasil para judeus que fugiam do nazismo, em uma atitude que contrariava a medida do governo de Getúlio Vargas que restringia a entrada de judeus no território brasileiro. Aracy chegou a transportar muitos judeus no carro da embaixada brasileira para permitir que eles saíssem da Alemanha.

Após a ocupação da França pelos alemães, a Inglaterra ficou isolada. Naquele momento, o primeiro-ministro inglês era Winston Churchill, do Partido Conservador, que havia acabado de assumir o poder. Empolgado com o sucesso nazista, Mussolini abandonou a neutralidade e, em junho de 1940, fez a Itália entrar na guerra ao lado da Alemanha. Hitler decidiu pelo ataque à Inglaterra. Os alemães bombardearam o território britânico de forma sistemática a partir de agosto de 1940. Toneladas de bombas foram lançadas pelas aeronaves da Luftwaffe sobre portos e cidades inglesas, principalmente sobre a capital do país, a cidade de Londres. Mas os ingleses não se renderam. Usando o radar – um instrumento de localização que os alemães desconheciam – e a Real Força Aérea Britânica (RAF), os ingleses barraram a ofensiva nazista. Hitler acabou voltando-se para regiões como o Mediterrâneo, os Bálcãs e o norte da África. Em 1941, os nazistas já haviam conquistado a Grécia, a Iugoslávia e a Albânia, enquanto governos-satélites já haviam sido estabelecidos por Hitler na Romênia, na Bulgária e na Hungria. Naquele momento da guerra, Hitler já ameaçava o domínio britânico na região do canal de Suez, no Egito.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as indústrias dos países em guerra voltaram-se principalmente para a produção de armas e materiais bélicos. As empresas que atuavam em outras áreas acabaram desaparecendo ou mudaram de atividade. Diversos produtos deixaram de ser fabricados – os brinquedos infantis sumiram das lojas, por exemplo. Alguns produtos só eram encontrados no mercado paralelo, onde eram vendidos a altos preços. Carnes e ovos se tornaram artigos de luxo. Houve racionamento de comida em vários países. Na Inglaterra, o limite máximo de quantidade de manteiga que podia ser comprada por uma pessoa era de 60 gramas. Na Alemanha, o acesso a carne e a alimentos frescos era um privilégio exclusivo dos membros das Forças Armadas. Famílias passaram a criar galinhas e coelhos para garantir o consumo de ovos e carne. Pequenas hortas eram plantadas nos quintais. O reaproveitamento de alimentos tornou-se uma regra na hora de cozinhar. Trapos velhos e o algodão dos colchões eram usados na confecção de casacos. Quando as crianças cresciam, as mães usavam retalhos para alargar as roupas dos meninos e das meninas. A improvisação e a criatividade foram as marcas dos hábitos e dos costumes da população durante a guerra. Aquilo que inicialmente não tinha utilidade para alguém, poderia revelar-se muito útil em outro momento. Objetos usados eram vendidos ou reaproveitados: artigos de metal, por exemplo, transformavam-se em armas e em outros produtos para as forças armadas.

Após conquistar boa parte da Europa, Hitler rompeu o pacto de não agressão firmado com Stalin e colocou em prática a operação Barbarossa, em junho de 1941. Mais de 1 milhão de soldados alemães invadiram a União Soviética. Os exércitos alemães concentraram seus ataques em Leningrado (antiga São Petersburgo, ao norte), Moscou (ao centro) e em regiões agrícolas da Ucrânia (ao sul). O Exército Vermelho não conseguiu impedir o avanço da Wehrmacht (Forças Armadas da Alemanha) e os alemães tomaram áreas em que havia importante produção industrial, riquezas minerais e agrícolas. As tropas de Hitler chegaram às portas de Moscou ainda em 1941. As tropas nazistas não poupavam os civis e, em algumas cidades, toda a população local era dizimada. Os alemães impuseram um verdadeiro clima de terror nos territórios ocupados, transformando populações inteiras em trabalhadores compulsórios, saqueando recursos industriais, agrícolas e obras de arte. É preciso dizer que Hitler invadiu a URSS não apenas para combater o comunismo, mas também por causa do interesse nos recursos minerais e agrícolas soviéticos. Segundo o historiador John Keegan, os nazistas queriam fazer da União Soviética uma colônia fornecedora de recursos – trigo, petróleo e manganês, por exemplo – que sustentariam a “Grande Alemanha”.

Stalin havia ordenado, pouco antes, a execução de alguns dos melhores generais do Exército Vermelho, acusados de traição ao regime soviético, e agora o líder da União Soviética se via diante de uma iminente catástrofe. Stalin decidiu então mobilizar a população contra os invasores e, em pouco tempo, milhares de civis passaram a lutar ao lado das tropas regulares. Indústrias soviéticas inteiras foram desmontadas e instaladas a leste dos Montes Urais, para que não caíssem em mãos nazistas. Além da população soviética, os soldados alemães tiveram que enfrentar o clima do país. As tropas do Eixo tiveram que enfrentar um frio de até 21 graus negativos durante o inverno, para o qual não estavam preparadas. O frio e a resistência do povo soviético fustigaram os alemães, que começaram a se afastar de Moscou no final de 1941. Era o sinal de que os nazistas podiam ser derrotados.

Até aquele momento, tanto os Estados Unidos da América quanto o Japão ficaram à margem do conflito. Todavia, o governo norte-americano do presidente Roosevelt não escondia a sua simpatia pelos Aliados – termo que designava o bloco de países que lutavam contra o nazifascismo. Por outro lado, após a ocupação da França pelos nazistas, em 1940, os japoneses estavam ainda mais próximos dos alemães, especialmente depois de receberem de Hitler a Indochina, que era uma colônia francesa no Extremo Oriente. O governo norte-americano temia a expansão japonesa, que colocava em risco a segurança da costa oeste dos EUA, e acabou impondo sanções comerciais ao Japão. Os EUA exigiam que as tropas japonesas saíssem da China, que fora invadida pelo Japão em 1937. No dia 7 de dezembro de 1941, os japoneses reagiram e realizaram um ataque aéreo contra Pearl Harbor, base militar norte-americana no Oceano Pacífico. O governo dos EUA declarou guerra ao Japão e aos demais países do Eixo, passando a pressionar outros países – inclusive o Brasil – a fazerem o mesmo. A guerra ganhou proporções mundiais e os cenários das batalhas se estenderam pela Europa, África e Ásia.

A ação das tropas soviéticas e norte-americanas desestabilizaram as forças do Eixo. Sob o comando do general Eisenhower, forças anglo-americanas derrotaram tropas alemãs no norte da África, em 1942. No ano seguinte, os soviéticos expulsaram os alemães de Stalingrado e iniciaram o avanço em direção a Berlim. A retomada de Stalingrado pelos soviéticos foi importante porque, se os nazistas conquistassem essa cidade, as forças de Hitler teriam o controle do rio Volga e dominariam os campos petrolíferos do Cáucaso. Hitler havia ordenado que seus homens lutassem até a morte pelo controle da cidade, mas, quando o exército soviético cercou o exército alemão em Stalingrado, o marechal alemão Friedrich von Paulus acabou se rendendo, uma vez que não tinha nem como alimentar os seus homens.

Após a retomada de Stalingrado, os soviéticos passaram a marchar em direção à Alemanha, libertando vários territórios que estavam sob o poder dos nazistas ao longo do caminho: Polônia, Romênia, Bulgária, Noruega, Hungria e parte da Tchecoslováquia. Após a insistência de Stalin, os governos da Inglaterra, da França e dos EUA decidiram organizar uma segunda frente de combate ao Eixo, na região ocidental da Europa (principalmente na França). No norte da África, o general britânico Bernard Montgomery liderou uma vitória dos Aliados sobre a Afrika Korps – um exército alemão liderado pelo general Erwin Rommel, conhecido como “a raposa do deserto” – na Batalha de Al-Alamein. Em junho de 1943, os norte-americanos ocuparam a Sicília e outras partes da Itália. Benito Mussolini foi deposto pelo Conselho Fascista e refugiou-se no norte do país, onde fundou a República Social Italiana (ou República de Salò). Após a saída de Mussolini, o novo governo da Itália declarou guerra à Alemanha.

No dia 6 de junho de 1944 – o Dia D –, 3 milhões de soldados britânicos, estadunidenses, canadenses e franceses, apoiados por 5 mil aviões e 6.400 navios, desembarcaram na Normandia – litoral norte da França. As tropas aliadas entraram em Paris no dia 26 de agosto. Em seguida, a Bélgica e a Holanda foram libertadas. Bastaria apenas mais um tempo para que os nazistas fossem derrotados. Não aceitando a derrota iminente, Hitler ordenou que os alemães lutassem até o último homem, o que fez com que alguns oficiais do Exército alemão planejassem atentados para matar o líder nazista. Todavia, tais planos fracassaram. Em abril de 1945, os soviéticos chegaram a Berlim. Hitler, sua esposa e diversos generais nazistas cometeram o suicídio. Mussolini tentou fugir para a Suíça, mas foi preso e fuzilado por combatentes da Resistência italiana. A rendição alemã se deu no dia 7 de maio de 1945, por decisão do alto comando nazista. Milhões de alemães fugiram ou foram expulsos da Prússia, de regiões da Tchecoslováquia, da Romênia, da Iugoslávia e da Hungria.

Após a rendição dos alemães, os líderes dos EUA, da União Soviética e da Inglaterra reuniram-se entre julho e agosto de 1945 em Potsdam, nos arredores de Berlim, para discutir os termos da paz. Muitas das decisões ali tomadas apenas confirmaram o que já havia sido definido em uma reunião realizada em Ialta, na Crimeia, às margens do Mar Negro, durante o mês de fevereiro de 1945. Por meio da Conferência de Potsdam, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência, controladas pelos EUA, pela França, pela Inglaterra e pela União Soviética. A cidade de Berlim, que ficava totalmente dentro da zona soviética, também foi dividida em quatro áreas. Foi estabelecido que a Alemanha deveria pagar uma indenização de 20 bilhões de dólares aos vencedores e que os líderes nazistas deveriam ser julgados pelo Tribunal de Nuremberg – uma corte internacional. Uma nova entidade internacional destinada a preservar a paz e a garantir o entendimento entre os povos foi criada: a Organização das Nações Unidas. Fundada em 26 de junho de 1945 e com sede em Nova York, a ONU substituiu a Liga das Nações.

Todavia, a Segunda Guerra Mundial ainda não estava terminada. Norte-americanos e japoneses continuavam lutando na Frente do Pacífico. O Japão tinha conquistado as Filipinas, Cingapura, Hong Kong, as Índias Orientais Holandesas (atual Indonésia) e outras regiões. Porém, após todos esses avanços, a frota japonesa foi derrotada pela esquadra norte-americana na batalha de Midway, em junho de 1942. Era o início da ofensiva norte-americana na Guerra do Pacífico. Nos dias 6 e 8 de agosto de 1945, aviões norte-americanos lançaram bombas atômicas sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. A bomba atômica era a maior e mais letal arma desenvolvida pelo homem até então. As explosões, que de acordo com alguns analistas tinham como função intimidar a União Soviética, no intuito de convencê-la a não fomentar revoluções em países do Ocidente, mataram instantaneamente mais de 200 mil pessoas e arrasaram as duas cidades. O Japão assinou a sua rendição incondicional no dia 2 de setembro de 1945.

A Segunda Guerra Mundial deixou 50 milhões de mortos (15 milhões de militares e 35 milhões de civis), dos quais mais de 20 milhões eram habitantes da União Soviética. Com o término do conflito, França, Inglaterra, Alemanha, União Soviética e Japão estavam todos arrasados, com cidades destruídas, campos devastados e ferrovias inutilizadas. A fome e diversas doenças dizimavam a população em vários lugares. A exceção foram os EUA, que mantiveram intacta a sua capacidade industrial e financeira. Vários povos africanos e asiáticos começaram a lutar por sua independência. Em 1948, os países-membros da ONU assinaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento que estabeleceu o direito à vida, à liberdade e à igualdade entre os seres humanos. A ONU estabeleceu ainda o Tratado Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Tratado Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.

No pós-guerra, EUA e União Soviética consolidaram-se como as duas maiores potências do planeta. Os soviéticos anexaram as terras bálticas da Letônia, Lituânia e Estônia e a parte leste da Prússia oriental. A União Soviética tinha o maior exército do mundo e seus domínios se estendiam à Europa Oriental. Os EUA tinham a bomba atômica e um imenso poderio industrial. Em torno desses dois centros de poder, formaram-se o bloco capitalista, sob liderança dos norte-americanos, e o bloco socialista, liderado pelos soviéticos. Este antagonismo entre as duas superpotências originaria a Guerra Fria, que se estenderia até 1991, ano da dissolução da União Soviética.

APÊNDICE: O Holocausto

Cinquenta milhões de pessoas morreram durante a Segunda Guerra Mundial. Desse total, cerca de 6 milhões eram judeus, que foram mortos nos campos de concentração nazistas. O extermínio em massa de judeus recebeu o nome de Holocausto e este triste episódio da história da humanidade está relacionado à invasão da Polônia pelas tropas de Hitler, em 1939. Cerca de 3,3 milhões de judeus viviam em solo polonês e, após a invasão, os nazistas confinaram essas pessoas em guetos – bairros de grandes cidades, policiados e cerceados. Entre 1939 e 1941, treze guetos e 42 áreas de confinamento foram criados na Polônia. Em Varsóvia, capital polonesa, localizava-se o maior desses guetos, com quase meio milhão de pessoas. Em tais lugares, os judeus eram obrigados a usar um distintivo de identificação, eram submetidos a trabalhos forçados, recebiam alimentação insuficiente e não tinham condições de manter padrões mínimos de higiene e saúde. Os judeus sofriam ainda com a violência dos soldados nazistas. Assassinatos começaram a ocorrer e, com o tempo, os nazistas passaram a usar caminhões com câmaras de gás móveis.

O extermínio em massa dos judeus foi decidido pelo Departamento de Segurança Alemão em 20 de janeiro de 1942. Os judeus começaram a ser transferidos para campos de concentração, onde seriam executados principalmente em câmaras de gás. Tal política genocida seria chamada de solução final. Inicialmente, os campos abrigavam todos aqueles que eram considerados inimigos dos nazistas, como comunistas, ciganos, homossexuais e até testemunhas de Jeová. Porém, as principais vítimas eram mesmo os judeus. As vítimas eram enviadas aos campos em vagões de gado – 80 ou 90 pessoas em cada vagão – em viagens que poderiam durar dias, sem alimentos ou água, sufocados com o cheiro de vômito e de excrementos e deprimidas pelos gritos das crianças. Na Polônia, campos de extermínio foram construídos em Auschwitz, Chelmno, Treblinka, Majdanek, Sobibor e Belzec. Nos campos de Auschwitz e de Majdanek, indústrias químicas, eletrônicas e de armamentos empregavam os presos como mão de obra escrava. Pão e sopa eram a base da alimentação dos judeus naqueles locais. A fome, as doenças e a exaustão matavam muitos prisioneiros. Houve judeus que optaram pelo suicídio, lançando-se contra as cercas elétricas dos campos. Médicos nazistas realizavam experiências científicas, usando os judeus como cobaias. Em algumas dessas experiências, médicos injetavam líquidos em adultos e crianças no intuito de mudar-lhes a cor dos olhos. Tais experimentos provocaram uma série de efeitos colaterais: paralisia, epilepsia, perda da voz, chagas pelo corpo, cegueira e convulsão. Muitos acabaram morrendo. O local onde ocorria a maioria das mortes era a câmara de gás. Corpos eram queimados, as chaminés exalavam uma fumaça negra e o cheiro de carne queimada era sentido no ar.

Quando o exército soviético libertou os campos de concentração poloneses, entre 1944 e 1945, milhões de cadáveres foram encontrados. Houve cerca de 500 mil sobreviventes.

SUGESTÃO DE LEITURA:

No mês de maio de 2015, a Revista de História da Biblioteca Nacional publicou um dossiê sobre o fim da Segunda Guerra Mundial.Os textos são instigantes e vale a pena conferir! Clique aqui para ler os textos da referida edição da RHBN.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

A Revolta de Vila Rica em versos de Cecília Meireles

Cecília Meireles (1901-1964) foi uma importante poetisa brasileira. Em 1953, ela lançou a obra Romanceiro da Inconfidência, uma coletânea de poemas que aborda a história de Minas Gerais do início do século XVII ao final do século XVIII. Entre os vários episódios narrados pela autora por meio de versos está a Revolta de Vila Rica, também conhecida como Revolta de Filipe dos Santos. 

Vale a pena conferir o modo como Cecília Meireles trata desta revolta ocorrida em 1720:

ROMANCE V OU DA DESTRUIÇÃO DE OURO PODRE

Dorme, meu menino, dorme,
que o mundo vai se acabar.
Vieram cavalos de fogo:
são do Conde de Assumar.
Pelo Arraial e Ouro Podre,
começa o incêndio a lavrar.

O Conde jurou no Carmo
não fazer mal a ninguém.
(Vede agora pelo morro
que palavra o Conde tem!
Casas, muros, gente aflita
no fogo ralando vêm!)

D. Pedro, de uma varanda,
viu desfazer-se o arraial.
Grande vilania, Conde,
comestes para teu mal.
Mas o que aguenta as coroas
é sempre a espada brutal.

Riqueza grande da terra,
quantos por ti morrerão!
(Vede as sombras dos soldados
entre pólvora e alcatrão!
Valha-nos Santa Ifigênia!
- E isto é ser povo cristão!)

Dorme, meu menino, dorme...
Dorme e não queiras sonhar.
Morreu Felipe dos Santos
e, por castigo exemplar,
Depois de morto na forca,
Mandaram-no esquartejar!

Cavalos a que o prenderam,
estremeciam de dó,
Por arrastarem seu corpo
Ensanguentado, no pó.
Há multidões para os vivos:
porém quem morre vai só.

Dentro do tempo há mais tempo,
e, na roca da ambição,
Vais-se preparando a teia
dos castigos que virão:
Há mais forcas, mais suplícios
para os netos da tradição.

Embaixo e em cima da terra,
o ouro um dia vai secar.
Toda vez que um justo grita,
um carrasco o vem calar.
Quem não presta fica vivo;
quem é bom, mandam matar.

Dorme, meu menino, dorme...
Fogo vai, fumaça vem...
Um vento de cinzas negras
levou tudo para além...
Dizem que o Conde se ria!
Mas, quem ri, chora também.

Quando um dia fores grande,
e passares por ali,
Dirás: “Morro da Queimada,
como foste, nunca vi;
Mas, só de te ver agora,
ponho-me a chorar por ti:

Por tuas casas caídas,
pelos teus negros quintais,
Pelos corações queimados
em labaredas fatais,
- Por essa cobiça de ouro
que ardeu nas minas gerais.”

Foi numa noite medonha,
numa noite sem perdão.
Dissera o Conde: “Estais livres.”
E deu ordem de prisão.
Isso, Dom Pedro de Almeida,
é o que faz qualquer vilão.

Dorme, meu menino, dorme...
Que fumo subiu pelo ar!
As ruas se misturaram,
tudo perdeu lugar.
Quem vos deu poder tamanho,
Senhor Conde de Assumar?

Jurisdição para tanto 
não tinha, Senhor, bem sei...
(Vede os pequenos tiranos
que mandam mais do que o Rei!
Onde a fonte do ouro corre,
apodrece a flor da Lei!)

Dorme, meu menino, dorme,
- que Deus te ensine a lição
dos que sofrem neste mundo
violência e perseguição.
Morreu Felipe dos Santos:
Outros, porém, nascerão.

Não há Conde, não há forca,
não há coroa real
Mais seguros que estas casas,
que estas pedras do arraial,
deste Arraial do Ouro Podre
que foi de Mestre Pascoal.