Sobre o "Blog do Super Rodrigão"

*** O "Blog do Super Rodrigão" foi criado e editado por Rodrigo Francisco Dias quando de sua passagem como professor de História da Escola Estadual Messias Pedreiro (Uberlândia-MG). O Blog esteve ativo entre os anos de 2013 e 2018, mas as suas atividades foram encerradas no dia 27/08/2018, após o professor Rodrigo deixar a E. E. Messias Pedreiro. ***

sexta-feira, 5 de maio de 2017

[Seção dos Alunos]: Uma Fábrica de "Memes" sobre o Iluminismo

O Trabalho de História do 1° Bimestre/2017 consistiu na elaboração de "Memes" sobre o Iluminismo. Após a avaliação do professor, os melhores "Memes" foram selecionados - seja pelo modo como abordaram o conteúdo, seja pelo humor presente neles - e podem ser vistos abaixo

ATENÇÃO: Em alguns "Memes", os alunos fizeram questão de enfatizar o fato de que, para muitos iluministas, a mulher era inferior ao homem. E foi interessante perceber o olhar crítico dos jovens em relação a este fato. No início do primeiro bimestre, os alunos haviam lido o artigo A Mulher e a Revolução Francesa: participação e frustração, de autoria de Itamar de Souza e publicado na Revista da FARN em 2003. Este texto acadêmico discute, entre outras coisas, justamente o modo como os iluministas pensavam as diferenças entre mulheres e homens. A leitura de tal texto parece ter sido bem aproveitada pelos jovens.

Confira agora os melhores "Memes" sobre o Iluminismo que foram produzidos pelos alunos:



Meme produzido pelas alunas Allana, Anna Isa, Gabriela Pereira e Letícia, do 2°A.



Meme produzido pelos alunos Anna Júlia, Maria Eduarda Carvalho,
Jerônimo, Pedro Augusto, Solange e Thamyê, do 2°A.



 Meme produzido pelos alunos Ana Luiza, Bruno, Diego, Larissa,
Luciana e Maria Eduarda Afonso, do 2°A.



Meme produzido pelos alunos Ana Luiza, Bruno, Diego, Larissa,
Luciana e Maria Eduarda Afonso, do 2°A.



Meme produzido pelas alunas Ana Luiza, Bianca, Iasmin, Ingrid, Júlia Damasceno
e Samantha, do 2°B.



Meme produzido pelas alunas Ana Luiza, Bianca, Iasmin, Ingrid, Júlia Damasceno
e Samantha, do 2°B.



Meme produzido pelos alunos Caetano, Erick Fernandes, Isabela, Jéssica, 
Mariana Almeida e Mariana Souto, do 2°C.



Meme produzido pelos alunos Eric Freitas, Fernanda Leme, Gabriel Felipe
e Maria Eduarda Silva, do 2°C.



 Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.



Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.




Meme produzido pelos alunos Ana Gabriela, Isabela Dolinski, Lara Amaral,
Maria Eduarda Sabino, Matheus e Milena, do 2°D.



Meme produzido pleos alunos Adriel, Anaíza, Danyane, Gustavo Gonçalves,
João Guilherme e Vitor Henrique, do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Erika, Jéssica, Mariana Laura, Paola,
Vitor Araújo e Yago, do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Gabriela do Carmo, Gustavo Lemos,
Thiago Cardoso e Maria Vitoria, do 2°E.



Meme produzido pelas alunas Adrielly, Ana Clara, Bianca, Luciana e Micaella,
do 2°E.



Meme produzido pelos alunos Enzo, Gusthavo Santos, Luana 
e Thiago de Oliveira, do 2°E.



Meme produzido pelas alunas Ana Vitória, Eduarda, Julia de Freitas Silva,
Laine, Leandra e Rafaela Lobato, do 2°F.



Meme produzido pelos alunos Ana Lara, Anderson, Giovanna Fernandes,
Julia Mota, Marcus Vinícius e Pedro Souto, do 2°F.



Meme produzido pelos alunos Marcela, Lara Fabyan, Marina, Théo, Bruno Henrique
e Estevão Garcez, do 2°G.



Meme produzido pelos alunos Bruna, Júlia Martins, Monithelley,
Rayanne, Sérgio e Vitória de Castro, do 2°H.




segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma imagem e uma velha polêmica sobre Hitler e o nazismo...

Uma imagem tem circulado nas redes sociais e reacendeu um velho debate em torno da visão de mundo de Adolf Hitler e do nazismo. A imagem é esta:


Algumas páginas e alguns perfis no Facebook estão compartilhando a imagem acima e a usando como "argumento" para defender a ideia de que Adolf Hitler e o nazismo seriam "de esquerda", já que o próprio nome completo do Partido do führer alemão era Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Pelo menos é o que muitos usuários do Facebook estão dizendo por aí... Mas o que podemos pensar a respeito disso?

Em primeiro lugar, o nazismo foi um fenômeno bastante complexo, e reduzir os debates a respeito dele apenas em termos de "direita" e "esquerda" é um tanto quanto empobrecedor. Ademais, é sempre útil lembrar que as expressões "direita" e "esquerda" foram introduzidas no vocabulário político ocidental a partir de um contexto bastante específico, a saber, a Revolução Francesa do final do século XVIII. Desde os acontecimentos que se desenrolaram na França revolucionária até hoje, as expressões "direita" e "esquerda" têm sido usadas nos mais variados contextos e com significados por vezes muito diversos. Assim, antes de classificar alguém ou um partido como de "direita" ou de "esquerda", é preciso antes deixar muito claro sobre o que se entende de fato por cada uma dessas expressões. E estabelecer definições, é preciso que se diga, não é uma tarefa tão simples como muitos pensam...

De qualquer forma, o que chama a atenção em certas postagens segundo as quais Hitler e o nazismo eram "de esquerda" é a tentativa de aproximar Hitler e o nazismo do socialismo - mas "socialismo" entendido como uma visão de mundo próxima das ideias Karl Marx. Há em certas postagens no Facebook até uma tentativa de colocar o nazismo alemão e o stalinismo soviético no mesmo saco: "os dois eram socialistas, os dois eram, portanto, 'de esquerda'". Afinal, não se lê "socialista" no nome completo do Partido Nazista? Pelo menos, este é o modo como muitos enxergam a questão... Todavia, muitas dessas pessoas que dizem isso não param para pensar em algo importante: afinal, qual (ou quais) o(s) possível (ou possíveis) significado(s) da palavra "socialismo"?

Vamos esclarecer alguns pontos. Primeiro, as ideias de Karl Marx foram a base para o chamado "marxismo", que nada mais é do que uma teoria que critica o Capitalismo por meio de categorias de explicação como "materialismo histórico", "luta de classes", "mais valia", "consciência de classe" e "revolução". É importante lembrar que dentro do "marxismo" existem diversas correntes e linhas de pensamento, que não são totalmente iguais entre si. Ou seja, existem muitas divergências dentro do marxismo. Por sua vez, o "socialismo" é uma ideologia política que surgiu antes mesmo do próprio "marxismo" e, embora tenha sido influenciada por ele a partir de meados do século XIX, é um equívoco reduzir o "socialismo" apenas às ideias de Marx, como muitas pessoas parecem fazer no Facebook. Como ideologia, o "socialismo" propõe uma sociedade livre da "exploração capitalista", na qual os trabalhadores possam se apropriar dos meios de produção. "Socialismo" e "marxismo" podem ter alguns pontos de contato, é verdade, mas não são totalmente a mesma coisa. O que o "marxismo" almeja é o "comunismo", que seria uma etapa posterior ao "socialismo", quando finalmente não existiriam mais os conflitos de classe. [1]

Mas qual seria o significado da expressão "socialista" presente no nome do Partido Nazista? Vamos deixar o próprio Adolf Hitler responder a esta pergunta. Em entrevista realizada em 1923, e republicada em 1932, o führer disse:

"O socialismo [...] é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só." [2]

Como se vê, Hitler tinha uma definição muito específica para o termo "socialismo". Este, segundo ele, não seria totalmente igual às ideias de Karl Marx (como muitas pessoas parecem pensar nos dias de hoje). O "socialismo" de  Hitler sequer criticava a propriedade privada. Pelo trecho citado acima, podemos perceber que uma mesma palavra - "socialismo" - pode ter vários significados dependendo do contexto e de quem fala. Por isso, antes de classificar alguém como "socialista", é preciso que se pergunte antes: de qual "socialismo" se está falando?

Voltemos agora, finalmente, para a imagem reproduzida no início deste texto. Nela, podemos ver claramente a suástica nazista acompanhada da foice e do martelo. O que podemos dizer a respeito disso? Trata-se na verdade de um broche produzido na Alemanha nazista (no ano de 1934, como pode ser visto na imagem) em razão do Dia do Trabalhador (tradução do "Tag der Arbeit" escrito na parte superior do broche). A foice e o martelo de fato são símbolos que historicamente foram usados por grupos socialistas sim, mas há uma diferença importante aqui. Nas bandeiras de partidos e países socialistas, a foice o martelo geralmente aparecem cruzados, como pode ser visto na imagem reproduzida abaixo:

 Bandeira da URSS.

A foice e o martelo cruzados representam a união de trabalhadores urbanos (das indústrias) e rurais (os camponeses) dentro da perspectiva da chamada "luta de classes". Já no broche nazista de 1934, a foice e o martelo estão separados, ou seja, eles não aparecem ali com o mesmo significado do que nas bandeiras de partidos e países socialistas! Os objetos são os mesmos, mas a diferença na forma de representá-los remete a um outro significado! Dentro do visão de mundo nazista, a "luta de classes" não era um aspecto central como é para o "marxismo" ou o "socialismo" influenciado pelo marxismo. Hitler valorizava muito mais a união de todos os membros da sociedade alemã do que a "luta" entre as diferentes "classes" daquele país. Hitler valorizava na verdade a "raça" do povo alemão (a "raça ariana"). Sendo da mesma "raça", os alemães deveriam estar todos unidos dentro de um sentimento nacionalista, e não em "luta" uns com os outros, afinal, o que deveria existir era uma "solidariedade racial". Em geral, partidos socialistas focam muito mais na questão da "classe" e não na questão da "raça", o que nos ajuda a entender o porquê de Hitler dizer que o seu partido não era "internacionalista", mas sim "nacional". Mais uma vez, Hitler tinha uma definição muito específica para a palavra "socialismo". Ademais, segundo ele, o nome em si do seu partido nem seria tão importante assim, pois como Hitler disse no trecho anteriormente citado, o seu partido até poderia se chamar "Partido Liberal". O nome em si não é, portanto, prova de nada, pois é preciso sempre estar atento para o significado que se atribui a certo nome ou a certa expressão. Os significados das palavras dependem do contexto histórico em que as mesmas são ditas e/ou escritas.

Apenas para reforçar o que estamos demonstrando aqui, é preciso dizer que, no broche nazista de 1934, nós podemos ver também a famosa suástica nazista. Ora, assim como a foice e o martelo, a suástica como símbolo não foi uma invenção de Hitler, pois o que o nazismo fez foi se apropriar de um símbolo muito mais antigo e que já havia sido usado antes nas mais variadas culturas. [3] Para os povos hindus, a suástica certamente tinha outro significado, diferente daquele dado pelos nazistas ao símbolo. O símbolo (o desenho, a imagem) por si só não significa nada, pois tudo dependerá do contexto em que o mesmo aparece e é usado. Símbolos podem ser ressignificados ao longo do tempo. Pois se o mesmo símbolo tivesse sempre o mesmo significado, então a águia que também aparece no broche nazista poderia ser associada, por exemplo,  aos Estados Unidos da América (já que a águia é um símbolo muito usado para representar os EUA)... Como se vê, simplificar o uso de um determinado símbolo pode dar origem a afirmações absurdas...

Símbolos e palavras possuem significados que vão mudando ao longo do tempo. E por isso, antes de compartilhar certas imagens no Facebook, é sempre útil buscar mais informações a respeito de determinado assunto, para não se cometer certos equívocos. Limitar a discussão sobre o nazismo ao binômio "direta"/"esquerda" é simplificar demais o assunto. Apenas afirmar que Hitler era "socialista" também não diz muita coisa em si, é preciso antes definir claramente tal termo. É muito mais produtivo buscar entender detalhadamente as ideias que faziam parte da visão de mundo nazista, dentro das suas particularidades. Só assim compreenderemos um pouco melhor o que foi o nazismo. Se alguma aproximação pode ser feita entre o nazismo alemão e o stalinismo soviético, é o fato de esses dois regimes terem sido "totalitários", e não a questão em torno do "socialismo".


___________________________
[1] Resta ainda recordar um outro significado para a expressão "socialismo". No século XX, a União Soviética e outros países alinhados a ela no contexto da Guerra Fria formaram um bloco que ficou conhecido como o "bloco socialista". Mas o "socialismo" aqui não era o mesmo daquela ideologia política surgida na passagem do século XVIII para o XIX. O "socialismo" da URSS e dos países que se alinharam a ela depois da Segunda Guerra Mundial tem um outro significado, que remete a um regime político onde o Estado controla a economia, centraliza o poder, institui uma partido único e restringe fortemente as liberdades individuais. A palavra - "socialismo" - é a mesma, mas o significado dela não.

[2] Trecho de entrevista concedida por Hitler a George Sylvester Viereck, publicada no jornal Liberty, de 9 de julho de 1932. A entrevista está disponível em português em: ALTMAN, Fábio (Org.) A arte da entrevista: uma antologia de 1823 aos nossos dias. São Paulo: Scritta, 1995, p. 114-115.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Rebelião das Massas: a origem dos movimentos sociais*

*ATENÇÃO: Este texto foi escrito por Voltaire Schilling, tendo sido originalmente publicado no portal Terra, no dia 11 de julho de 2013. Para ler a publicação original, clique aqui.


As massas e a história 

Descontando-se os inúmeros e praticamente incontáveis levantes de massas que ocorreram na história da humanidade, sob o ponto de vista da época contemporânea, pode-se fixar sua erupção na política a partir de dois eventos muito próximos. Um deles, a Boston Tea Party (A Festa do Chá em Boston, que ocorreu em 1773), um tanto antes da eclosão da Revolução Americana (1776-1783); o outro, a Queda da Bastilha, de 14 de julho de 1789, foi responsável pelo desabamento de uma monarquia que já existia há mais de 13 séculos na França.

Ambos os acontecimentos são marcos da espetacular ação das massas revolucionárias e da entrada delas definitivamente no universo da política, do qual por séculos estiveram ausentes. Esta, ao longo dos tempos, tinha sido monopolizada por aristocratas, fidalgos e plutocratas em geral, personagens das elites do seu tempo que definiam os destinos dos povos sem fazer-lhes consulta sequer.

Desta feita, era o homem comum, uma multidão de anônimos, quem arrombava as portas daquele Olimpo, obrigando-o a ouvir e a atender suas demandas. O filósofo Hegel, em carta a um amigo, registrou esta nova força que punha o mundo em andamento, afirmando:

Esta erupção das massas generalizou-se ainda mais por ocasião da Revolução de 1848 - a "Primavera dos povos" -, movimento extraordinário que fez tremer quase que todas as capitais e cidades mais importantes da Europa, com reflexos inclusive na América Latina.

Para Elias Canetti, autor de um livro clássico sobre o assunto, Masse und Macht (Massa e Poder, 1960), esta excitação e presença das multidões nas ruas protestando ou insurgindo-se resultou da libertação do controle que a religião exercia sobre elas até a eclosão da Revolução Francesa de 1789. Desde então foram incontáveis os "estouros" que ocorreram em várias partes do mundo e que, tudo indica, não mais cessarão.


Marx exalta as massas 

Karl Marx foi o primeiro filósofo moderno a captar as potencialidades transformadoras da multidão em marcha. Percebeu que a elas, e somente a elas, e não aos heróis das classes tradicionais, cabia "mudar o mundo", conduzindo-o para uma etapa superior da história da humanidade. Propôs, então, uma aliança entre os pensantes, os filósofos, os intelectuais, com a maioria sofredora, o proletariado moderno. Afinal, eram "as massas quem fazem a história", assegurou.

Este entusiasmo arrefeceu um tanto, não do lado de Marx e de seu companheiro Engels, mas de larga parte da opinião pública em geral quando dos dramáticos episódios provocados pela Comuna de Paris, ocorridos em março de 1871. Naquela oportunidade, milhares de trabalhadores da capital da França, homens, mulheres e crianças, levantaram-se em armas contra o governo de Versalhes que fizera concessões humilhantes aos alemães vitoriosos na Guerra Franco-Prussiana (1870).

A capital francesa ficou parcialmente destruída, com os prédios e monumentos incendiados ou postos abaixo. Para Marx, a Comuna, ainda que vencida e esmagada, representou, pela primeira vez na história, ainda que em esboço, o que certamente viria a ser um governo do proletariado.

Em Paris, a Massa tornara-se Poder mesmo que fora por apenas 72 dias. Ela "tomara o céu de assalto", segundo ele.

O sonho, ainda que inesperado para a maioria dos seguidores de Marx, paradoxalmente se fez realizado não na desenvolvida e civilizada Europa Ocidental, como ele previra, mas na bárbara Rússia dos czares autocratas e dos mujiques miseráveis. Lenin, líder bolchevique, assegurou que, a partir de 25 de outubro de 1917, as massas conduzidas por seu partido estavam definitivamente no poder.

São Petersburgo e Moscou transformaram-se em palcos de enormes manifestações, marchas se sucediam, turbilhões humanos varriam os veneráveis logradouros tanto da capital da Rússia asiática como da bela cidade de Pedro. Vendo aquele espetáculo, com milhares de pessoas gritando slogans ou simplesmente andando, o linguista Mikhail Bakhtin desenvolveu na década de 1920 o conceito de carnavalização e polifonia da obra literária. Diversas vozes nela se fazem presentes como se fora nos ruidosos tempos das feiras medievais.


A origem socioeconômica das massas 

A presença das massas, das extraordinárias multidões humanas, é um fenômeno mais ou menos recente na história. Anteriormente à Revolução Industrial, a população era majoritariamente rural. Encontrava-se espalhada pelo campo, vivendo em pequenas aldeias ou vilarejos isolados, com escasso número de habitantes. Não tinha como haver significativas concentrações como as que começaram a emergir nos conglomerados urbanos da Europa Ocidental entre 1750 e 1850. A chave para se entender a impactante presença delas, das multidões, tem como origem tecnológica a máquina a vapor, surgida em 1765.

O invento de James Watt teve como efeito direto a possibilidade de se instalar fábricas nos cinturões das cidades, liberando-as da necessidade de serem montadas à beira de rios ou riachos, muitos deles distantes do mercado consumidor. Com os engenhos veio a mão-de-obra. Milhares de operários começaram a se concentrar ao redor delas, tornando as fábricas o centro da sua vida econômica e social.

Na esteira delas, ampliou-se o setor de prestação de serviços, o comércio com suas lojas, os armazéns, as galerias, o setor financeiro com sua rede de bancos, o lazer com seus cafés, restaurantes, teatros etc.

Londres, por exemplo, capital do Reino Unido, quase duplicou a população em apenas um século: eram 527 mil habitantes que saltaram para 1.096.784 quando do primeiro censo oficial em 1801. Não sendo muito diferente, ainda em tempo diverso, do que ocorreu em Nova York, Paris, Berlim, Milão...

Agigantaram-se os centros industrializados no Ocidente igualmente pelo efeito da imigração interna. Milhares de camponeses, de lavradores e de gente do campo em geral, aproveitando-se da dissolução da Ordem Feudal, abandonaram seus sítios natais para tentar a vida nas metrópoles. A soma do crescimento natural com a chegada das levas de mão-de-obra do interior é que possibilitou a proliferação das megaconcentrações urbanas poucas vezes vistas anteriormente na história.


O desconforto com as massas 

Para os antigos citadinos causava estranheza e repulsa a repentina mudança que o crescimento econômico e populacional trouxe. Do dia para noite, em Londres, Paris, Berlim, Bruxelas, Milão, Manchester ou Liverpool, os cidadãos tiveram que passar a conviver com estranhos que ninguém sabia de onde vieram. Desconheciam modos urbanos, em geral eram rudes e incivilizados, agrupavam-se nos arrabaldes em meio à sujeira e à doença em casebres medonhos e fétidos, sem higiene alguma, e pareciam não se incomodar em conviver com esgotos ao ar livre. Manifestavam dificuldades de adaptação a uma cidade erguida com pedras e não com troncos e palha como o local de onde vieram.

Quem por primeiro usou o termo "classes perigosas" foi H. A. Frégier, chefe de polícia francês no livro Des classes dangereuses de la population dans les grandes villes et des moyens de lês rendre meilleures (1840), para definir setores sociais propensos à criminalidade. O medo passou a ser constante para os habitantes das classes média e alta da cidade. Assaltos e roubos tornaram-se habituais. O crime vicejou como se fora um envenenamento da civilidade. A superpopulação em determinados bairros da periferia acoitava e irradiava ondas pestíferas que enchiam os demais de pavor. Surgiam as classes perigosas (ver Louis Chevalier: Les classes labouriesues et les classes dangereuxes ).


O gênio contra a massa 

Coube ao escritor e ensaísta escocês Thomas Carlyle, fortemente influenciado pelo romantismo alemão, com sua Teoria do Grande Homem exposta no livro Heroes, Hero-worship, and the Heroic in History (Sobre Heróis: O heroísmo e a veneração do herói na História, 1841), tratar de contrapor a figura do herói à presença ascendente das massas.

Para ele, o homem comum, a célula da massa, de nada valia a não ser como peão ou degrau para assegurar a projeção do herói e respaldar sua realização. Este é quem fazia a História. A consequência política disto foi sua condenação à democracia, "império do vulgar" na terra, e a consequente apologia da elite.

Vários outros escritores alemães que o antecederam já haviam manifestado sua ojeriza à presença da massa e do ser anônimo que proliferava naquela época, enaltecendo ao revés o Ser Excepcional. Nietzsche, após ter ficado profundamente chocado com os eventos trágicos da Comuna de Paris, foi quem melhor revelou este pavor à multidão, apostando no surgimento futuro de um übermensch, o Super-Homem (Assim falou Zaratustra, 1888). O fenômeno extraordinário que, desprezando as normas de conduta que regiam a maioria, conduziria o destino da humanidade no futuro (Além do Bem e do Mal). O pensamento contra-revolucionário e elitista dele forneceu os argumentos para uma formidável literatura anti-massa que surgiu na transição do século 19 para o 20.


O irracionalismo da massa

Coube ao sociólogo e psicólogo francês Gustave Le Bon, por meio do seu famoso ensaio La psychologie des foules (Psicologia das Multidões, de 1895), demonizar as massas. Para ele, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, os imensos ajuntamentos humanos que se decidiam a marchar e a protestar nada mais eram senão que o irracionalismo posto em ação. Mesmo quando se mobilizavam por uma causa patriótica ou altruísta nada traziam de bom, a não ser a depredação e a desordem. Quando não a subversão social.

E isto, entre outras causas, se devia a metamorfose que ocorre com o indivíduo que adere à multidão contestadora. De alguém tímido, acanhado, normalmente respeitador das regras, ele, imerso em meio aquele mar humano que seguia pela avenida a fora que o tornava um anônimo, libertava-se facilmente das convenções e das noções de civilidade que recebera. Simplesmente sucumbe ao número, à "alma da multidão".

O criminalista e penalista italiano Scipio Sighele, discípulo de Cesare Lombroso, retomou o tema e o ampliou no seu ensaio La folla delinquente (As classes criminosas, 1891). Não tinha contemplação para com as multidões, qualquer ajuntamento além do razoável tendia inevitavelmente ao comportamento criminoso. Logo nos deparamos com sua vociferação, destravado, a fúria vai tomando conta dele e não tarda para que junte pedras pelo chão para lançá-las contra as vitrines ou contra as forças policiais. O manso vira fera. A massa, aceleradamente excitada, facilmente regride ao comportamento de uma manada, todos agindo do mesmo modo instintivo sem o amparo de qualquer raciocínio, e o indivíduo, como que um possesso, retorna ao estado da natureza hobbesiana ("o lobo do homem é o outro homem").


Massa e Revolução 

A surpreendente Revolução Russa de janeiro de 1905 abriu intenso debate em meio ao movimento socialista europeu, particularmente entre os teóricos social-democratas alemães (reformistas ou revolucionários) e os socialistas russos que participaram ativamente dos eventos que varreram o Império do Czar durante aquele ano. Perdida a Guerra russo-japonesa (1904), o governo de Nicolau II, logo em seguida ao massacre do Domingo Sangrento do dia 9 de janeiro (centenas de manifestantes foram fuzilados pela Guarda Cossaca em frente ao palácio de Inverno do Czar, em São Petersburgo), se viu frente a uma violenta contestação.

Não houve bairro proletário da Rússia, pelo menos nos grandes centros urbanos, que não tenha saído em peso às ruas para demonstrar sua raiva. Greves espontâneas eclodiram por todos os lados. As queixas pela inépcia militar logo se transferiram para uma generalizada confrontação contra o regime czarista como um todo. Tornou-se o maior levante de massas da Europa de então, muitas vezes superior à Comuna de Paris de 1871.

Rosa Luxemburgo, a famosa social-democrata de esquerda, judia polonesa que militava na Alemanha, exultou com o "espontaneismo" das classes trabalhadoras russas. Vislumbrou naquelas ações o futuro da Revolução Socialista. Concluiu que era delas de onde partiria a iniciativa da derrubada da ordem aristocrática/burguesa e não das direções acomodadas dos partidos socialistas europeus, um tanto paralisados pelos cuidados burocráticos e pela vida rotineira.

Vladmir Lenin chegou a outra conclusão. De nada serviam aquelas explosões espontâneas se não houvesse uma organização disciplinada e hierarquizada que desse um sentido àquilo, que conduzisse aquela enorme energia despertada pela multidão em fúria e disposta a tudo para tomar o poder pela força.

Anos mais tarde, Trotsky, que aderira a Lenin, explicou no seu livro História da Revolução Russa – vol. I, detalhadamente a concepção leninista por meio da metáfora "do vapor e do êmulo". A massa em ebulição gerava uma enorme energia, mas que se não houvesse um êmulo para dirigi-la, toda a pressão gerada em pouco tempo se esvaía. O espontaneismo é fantástico, mas em nada redunda de positivo se não for orientado para um determinado fim (no caso, tomar de assalto o poder). Como os bolcheviques terminaram fazendo em outubro de 1917, na Segunda Revolução.


A massa contra-revolucionária 

Certamente que um dos mais desconcertantes fenômenos políticos contemporâneos foi a plena adesão das massas aos movimentos nazi-fascistas que surgiram a partir do final da Primeira Guerra Mundial. Até então as aparições das multidões nas ruas em protesto sempre eram tidas como uma ameaça vinda da esquerda, dos que empunhavam as bandeiras vermelhas ou negras da revolução comunista ou anarquista. Eis que, acaudilhadas por Mussolini na Itália e por Hitler na Alemanha e por epígonos deles em outras partes do mundo, as massas postaram-se em marcha a serviço da contra-revolução. Abrigaram-se sob as bandeiras da antidemocracia e do anticomunismo para a mais total perplexidade dos teóricos da esquerda que até hoje jamais conseguiram elucidar esse mistério.


BIBLIOGRAFIA:

Canetti, Elias. Massa e Poder. Brasília: Editora da Universidade de Brasília/Melhoramentos, 1981.

Chevalier, Louis. Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris pendant la première moitié du XIXe siècle. Paris. Edition Perrin, 2002.

Engels, Friedrich. A situação da classe operária na Inglaterra. Rio de Janeiro: Boitempo, 2007.

Gasset, José Ortega y. A rebelião das massas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Hook, Sidney. O herói na História. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1962.

Hugo, Victor. Os miseráveis. São Paulo: Hemus, 1979.

Le Bon, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

Marx, Karl. A Guerra civil na França, in Obras Completas. Lisboa: Edições Avante; Moscou: Editorial Progresso, vol II, 1983.

Negri, Antonio; Hardt, Michael. Multidão - Guerra e democracia na era do império. São Paulo: Editora Record, 2005.

Reich, Wilhelm. Psicologia das massas do fascismo. São Paulo: Martins Fontes, 1972.

Sighele, Scipio. A multidão criminosa. Ensaio de Psicologia Coletiva. Imprenta: Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954.

Sue, Eugene. Les Mystères de Paris. Paris: Editions Gallimard, 2009.

Tchakhotine, Sergei. A mistificação das massas pela propaganda política. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1967.

Trotski, Léon. Histoire de la Révolution Russe. Paris: Éditions du Seuil, 1950.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Materiais da Olimpíada Nacional em História do Brasil

Olá alunos,

Olimpíada Nacional em História do Brasil é uma interessante competição que auxilia os estudantes no aprendizado de vários temas ligados à História do nosso país. As questões de múltipla escolha e as tarefas da ONHB estimulam não apenas o pensamento crítico dos alunos, mas também a pesquisa e o debate, funcionando assim como uma excelente maneira de se preparar para os vestibulares e o Enem! 

Por meio do link abaixo, é possível ter acesso às provas (com as questões objetivas e as tarefas) e aos gabaritos das Olimpíadas de 2014, 2015, 2016 e 2017. Leiam com atenção todos estes materiais e observem como são as questões e tarefas propostas pela ONHB.

Para ter acesso às provas e aos gabaritos das últimas ONHBs, CLIQUE AQUI.

Abraços.

Prof. Ms. Rodrigo F. Dias







segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A última pena de morte no Brasil (*)

(*) Texto escrito por Ricardo Westin e publicado no site da Agência Senado, no dia 04 de abril de 2016. Para ver a publicação original, clique aqui.


A pacata cidade de Pilar, na província de Alagoas, amanheceu tumultuada em 28 de abril de 1876. Calcula-se em 2 mil o público de curiosos, inclusive vindos das vilas vizinhas, que se aglomerou para assistir à execução do negro Francisco.

O escravo fora condenado à forca por matar a pauladas e punhaladas um dos homens mais respeitados de Pilar e sua mulher. O assassino recorreu ao imperador dom Pedro II, rogando que a pena capital fosse comutada por uma punição mais branda, como a prisão perpétua. O monarca, poucos dias antes de partir para uma temporada fora do Brasil, assinou o despacho: não haveria clemência imperial.

Acorrentado ao carrasco e com a corda já no pescoço, Francisco percorreu as ruelas da cidade num cortejo funesto até o ponto em que a forca estava armada. Na plateia havia escravos, levados por seus senhores para que o caso lhes servisse de exemplo.

— Peço perdão a todos, e a todos perdoo — disse ele, antes de morrer, à multidão atônita.

Durante a execução, o algoz subia nos ombros do
condenado para acelerar a morte.

Há exatos 140 anos, essa foi a última pena capital executada no Brasil. Depois de Francisco, nenhum criminoso perdeu a vida por ordem judicial. Encerrava uma prática que vinha desde o Descobrimento — basta pensar no índio que o governador-geral Tomé de Souza mandou explodir à boca de um canhão em 1549 ou em Tiradentes, enforcado e esquartejado em 1792, ou ainda no frei Caneca, fuzilado em 1825.


Galés perpétuas

Francisco, porém, foi condenado com base numa lei de 1835 que mirava exclusivamente os negros cativos. Ela dizia que seria condenado à morte o escravo que matasse ou ferisse gravemente seu senhor ou qualquer membro da família dele.

Talvez essa tenha sido a lei mais violenta e implacável de toda a história brasileira. A norma não admitia a hipótese de o criminoso continuar vivo — pelas leis anteriores, havendo atenuantes, ele poderia ser condenado à prisão ou a galés perpétuas (trabalhos forçados para o governo), no lugar do enforcamento.

Além disso, a lei de 1835 exigia o voto de apenas dois terços dos jurados do tribunal para a condenação à forca — até então, a pena capital requeria a unanimidade do júri. E, por fim, ela não permitia apelações pela mudança da pena — antes, o condenado podia interpor inúmeros recursos judiciais às instâncias superiores.

O historiador Ricardo Figueiredo Pirola, autor de Senzala insurgente (Editora Unicamp), diz:

— Havia pena de morte para os livres que cometiam homicídio, mas para eles a legislação continuou como antes, com alternativas à forca. O endurecimento afetou só os cativos. De 1835 em diante, escravo condenado era escravo enforcado: “lance-se logo a corda e pendure-se o réu”.

Documentos históricos mantidos sob a guarda do Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que o projeto da lei de 1835 foi proposto pela Regência como forma de conter as crescentes rebeliões escravas. A Regência foi o governo-tampão da conturbada década de 1830, entre a abdicação de Pedro I e a maioridade de Pedro II.

“As circunstâncias do Império em relação aos escravos africanos merecem do corpo legislativo a mais séria atenção. Alguns atentados recentemente cometidos contra fazendeiros convencem dessa verdade”, escreveu o ministro da Justiça no preâmbulo do projeto, remetido à Câmara e ao Senado em 1833. “A punição de tais atentados precisa ser rápida e exemplar.”

Os “atentados recentemente cometidos” a que o ministro se refere ocorreram nas províncias da Bahia, de São Paulo e de Minas Gerais, onde escravos atacaram seus senhores por não mais aceitarem castigos violentos e trabalhos extenuantes ou por serem vendidos para outros pontos do país, sendo separados da família, por exemplo.

Uma das punições que as leis do Império previam
para o escravos era a de açoites.

O caso mais rumoroso ocorreu em São Tomé das Letras, no sul de Minas Gerais, em 1833, e ficou conhecido como Revolta de Carrancas. Escravos fizeram uma espécie de arrastão pelas fazendas da região, matando famílias inteiras de latifundiários.


Terror

Episódios desse tipo deixavam a elite rural aterrorizada. Havia o temor de que se produzisse algo semelhante à Revolução Haitiana, onde os negros haviam se revoltado, assumido o poder e abolido a escravidão.

A elite não teve dificuldades para ver o projeto contra os negros prosperar. Primeiro, porque a lavoura era o grande motor da economia, e o Império tinha total interesse em protegê-la. Depois, porque os próprios políticos, na maioria, eram escravocratas.

Entre as vítimas de Carrancas, estavam parentes do deputado Gabriel Francisco Junqueira (MG), que só escapou da matança porque se encontrava na Câmara, no Rio, não em sua fazenda. Um dos regentes da Regência Trina Permanente (1831- 1834) foi José da Costa Carvalho, dono de vastas terras e dezenas de escravos em São Paulo.

Também os senadores tinham escravos. Da tribuna do Palácio Conde dos Arcos, a sede do Senado, o senador Silveira da Mota (GO) defendeu a lei de 1835 narrando um incidente familiar:

— Chegando ontem a minha casa, minha família recorreu a mim, assustada por um fato que tinha se dado no meu lar doméstico. Um escravo meu, apenas mui brandamente advertido, insubordinou-se a ponto de, armado, ameaçar minha mulher. Felizmente, minha filha mais velha teve o bom senso de conter a indignação que o fato tinha excitado e de apelar somente para minha chegada. É um crioulo de casa, que é muito bem tratado e há poucos dias tinha recebido dinheiro de minhas mãos.

Foi a trágica Revolta de Carrancas que apressou a elaboração do projeto da severa lei de 1835. A insurreição se deu em maio de 1833 e logo no mês seguinte a Regência apresentou a proposta. A aprovação ocorreu sem sobressaltos. O texto passou duas vezes pela Câmara e uma pelo Senado, sofrendo alterações mínimas.

Entretanto, muito pouco se sabe sobre o teor das discussões no Senado. Em 1834, o senador Marquês de Caravelas (BA) apresentou um requerimento para que o debate fosse secreto, por ser “pouco político” tratar em público de um tema tão delicado. Um dos documentos da época guardados no Arquivo do Senado explica que, “apesar da oposição de alguns ilustres senadores”, o pedido foi aceito.

Um grande levante negro na Bahia acelerou a aprovação definitiva do projeto. Foi a Revolta dos Malês, em Salvador. O saldo dos embates entre cativos e soldados foi de dezenas de mortes. A revolta explodiu em janeiro de 1835, a segunda aprovação da proposta na Câmara veio em maio e a sanção da Regência ocorreu em junho.


Manobra imperial

Nas duas primeiras décadas, a lei de 1835 levou centenas de escravos rebeldes à forca. Aos poucos, porém, dom Pedro II foi afrouxando as condenações. Em 1854, ele decidiu que todo escravo condenado à punição capital ganharia o direito de apelar à clemência imperial, pedindo o perdão ou pelo menos a comutação da pena, assim como já ocorria com os brancos.

O monarca cada vez mais cedia às súplicas. A última execução de um homem livre ocorreu em 1861. Os escravos precisariam de mais tempo para se livrarem da pena capital. Francisco, o negro de Pilar, foi enforcado em 1876.

Imagem do século XIX mostra um negro na 
forca: escravos tinham de assistir às execuções.

Apesar de os tribunais continuarem sentenciando a pena de morte até o fim do Império, em 1889, as forcas foram definitivamente aposentadas uma década antes. E isso aconteceu sem que se revogasse a lei de 1835, apenas com as repetidas clemências imperiais.

De acordo com o historiador Ricardo Alexandre Ferreira, autor do livro Senhores de poucos escravos (Editora Unesp), a manutenção da lei, mas sem sua execução, foi uma decisão calculada de dom Pedro II:

— O imperador era contrário à pena de morte, mas sabia que despertaria a ira das elites agrárias que lhe davam sustentação se abolisse oficialmente a lei que as protegia. Preferiu agir com cautela e manter a lei.

Há várias hipóteses para a aversão do imperador às execuções. Uma das mais plausíveis é que ele foi influenciado pelas ideias do escritor francês Victor Hugo, crítico ferrenho da escravidão e da pena de morte. Dom Pedro II foi recebido duas vezes em Paris pelo autor de O Corcunda de Notre-Dame naquela longa temporada no exterior iniciada logo após negar clemência ao escravo Francisco. De fato, depois dessa viagem, ninguém mais no Brasil foi para a forca.

Os escravocratas, cientes da manobra, passaram a reclamar publicamente, exigindo o cumprimento da lei. Os senadores diziam em tom de ironia que dom Pedro II estava sendo “filantrópico”.

— Quem poupa a vida de um grande malfeitor compromete a vida de muitos inocentes — afirmou o senador Ribeiro da Luz (MG) numa sessão plenária em 1879. — Não é possível que, por causa da filantropia, homens vivam inquietos pelos perigos que os cercam, sobressaltados de que a foice ou a enxada do escravo venha tirar-lhes a vida.


Linchamentos

Na mesma sessão, os senadores lembraram um crime coletivo ocorrido em Itu, em São Paulo, no começo do ano. Um escravo havia assassinado seu senhor, um dos poucos médicos da cidade. Enfurecidas, centenas de pessoas tentaram invadir a delegacia para linchar o criminoso, mas foram contidas pela polícia. No dia seguinte, voltaram e conseguiram arrancar o escravo da cela. O negro foi morto a pauladas pela população aos gritos de “viva a justiça do povo!”

Para os senadores, linchamentos como aquele, que se repetiam em outras cidades, eram um claro sinal de que a sociedade — vendo que os cativos, livres da pena de morte, se sentiam encorajados a assassinar — não tinha escolha senão fazer justiça com as próprias mãos.

O senador Silveira da Mota foi ainda mais longe e disse que, já que a lei de 1835 havia sido esquecida, o melhor seria acabar de vez com a escravidão:

— Nós sabemos que a escravidão é uma violência e uma injustiça, mas as violências se mantêm senão com outras violências. Se quereis fazer filantropia à custa da honra das famílias dos proprietários, então tomai a responsabilidade da emancipação [dos escravos]. Não o queirais fazer tortuosamente, com prejuízo de tantas vidas. Num país de escravidão, se o governo quer harmonizar a lei criminal com os princípios filosóficos, então o meio é outro, é acabar com a escravidão. Enquanto não acabar com ela, o meio é a lei de 1835.

Ainda em 1879, o presidente do Conselho de Ministros (cargo equivalente ao de primeiro-ministro), Cansanção de Sinimbu, compareceu ao Senado para defender o imperador. Ele argumentou que dom Pedro II concedia a clemência não por bondade, mas por identificar falhas nos processos judiciais:

— Todos nós sabemos como têm lugar esses assassinatos. Acontecem em lugares solitários, na ausência de pessoas que possam testemunhar e, por conseguinte, na dificuldade de se constituírem provas positivas para se fazer um juízo sobre a criminalidade do réu.

O primeiro-ministro não contou toda a história. Quando o processo era perfeito, sem deixar dúvida de que o escravo matou seu senhor, o imperador simplesmente engavetava o pedido de clemência. Assim, em vez de ir para a forca, o negro continuava na prisão indefinidamente, à espera de uma palavra final do monarca que jamais viria.

A lei da pena de morte dos escravos deixou de fazer sentido em 1888, com a abolição da escravidão. Ela só foi oficialmente revogada em 1890, logo depois da Proclamação da República.